quinta-feira, 28 de julho de 2011

O aprendiz

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo, jamais perder o olhar curioso, a criação ingênua e o encanto das descobertas.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo, jamais adquirir a arrogância da certeza, a frieza dos troféus e a solidão dos deuses.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo,  jamais deixar a incerteza do sucesso, o arritmia da dúvida e a lágrima das conquistas.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo, jamais contrair o vírus da fama, a doença do sucesso e a ilusão do estrelato.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo,  jamais sucumbir aos efeitos do aplauso, ao brilho dos palcos e ao poder do meu ego.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo,  jamais querer saber quem chegou primeiro, quem chegou por último ou a que lugar cheguei.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo,  jamais ser pronto, completo, finito.

Quero ser um aprendiz e seguir como criança, aprendendo por aí...

Leila Rodrigues

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Cinco minutos

Seis e meia da manhã. Abro os olhos. Meu corpo condicionado aguarda o despertador, como que querendo competir com ele. " Eu sou mais preciso que você. Acordei primeiro!"
Ouço os barulhos lá fora. Alguém começou antes de mim. Carros passam apressados, sirenes anunciam a hora de começar.
Onde foram parar os pássaros? Os galos, os bem-te-vis e pardais, onde estão? O cheiro de café coado? Biscoito frito recendendo pela casa? Plantas molhadas de orvalho, friozinho da manhã? Cadê tudo isso?
O sol continua demorando o mesmo tempo para surgir todas as manhãs; mas eu não consegui dar à minha manhã o seu devido tempo. Passo batom no elevador, vejo as notícias no iPad, listo e repasso as tarefas do dia enquanto caminho na esteira.
Orgulhosamente chamei tudo isso de otimização do tempo. Será mesmo? Fazer duas, três ou mais coisas ao mesmo tempo. Até que ponto isto é otimizar o tempo? Otimiza-se o tempo e "pessimisa-se" a mente. Será vantagem, otimizar o tempo hoje para gastar amanhã na cama de um hospital?
Como um buraco sem fundo vamos nos enchendo sem limites. De informação, de comida, de compromissos, de responsabilidade. E consequentemente de medo, de angústia, de dores, de stress, de remédios.
Como a mente não ocupa espaço, perdemos a noção de ocupação desse pseudo-local. Quando percebemos, esvaziar-nos vira uma tarefa dificílima e dolorida. Nos acostumamos de tal forma a mantermos a mente ocupada com alguma coisa que não suportamos o vazio. E assim, fujo do encontro comigo mesma como o diabo foge da cruz!
Pode alguém não suportar a sua própria companhia? Assim estamos nós, sempre acrescentando um afazer na lista, porque parar virou vergonha nacional. Quando acaba tudo, fácil, fácil coloca-se na fila um filme, a internet, o jogo, que é pra não dar chance para encontrar consigo mesmo. Como é que eu posso ser companhia de alguém se eu ainda não suporto a minha companhia?
Será que o vácuo de nós mesmos é tão insuportável assim? Há quanto tempo não falo comigo mesmo? Sou capaz de perguntar para todo mundo, "como vai? Tudo bem com você?" E para mim mesma nem um oi ando dizendo.
Falta-me cinco minutos. Cinco minutos para mim. Cinco minutos para eu encontrar comigo e me dizer bom dia. Cinco minutos para eu ouvir de mim como eu estou realmente. Cinco minutos para eu chorar ou sorrir. Cinco minutos para eu abrir a janela, respirar fundo, ver o dia amanhecer. Cinco minutos de mim para mim... E o resto do meu dia ficará muito maior e melhor.

Leila Rodrigues

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Raízes

Entre uma serra e outra, um amontoado de casas. Certamente uma igrejinha, construída bem no alto. Uma ilha de casas, cercada de verde por todos os lados. Um lugar bucólico, um lugar tranquilo onde parece que ninguém tem pressa. Um lugar onde pouca gente chega e muitos de lá se vão.
A rodovia passa no trevo e ninguém tem coragem de entrar a não ser quando tem festa dos santos. Não importa o nome do santo, quem foi ele, nem qual protetor ele seja. Neste dia todos vêm, de algum lugar vêm.
É aqui, em uma dessas cidades que eu nasci, que eu cresci; que eu tive a mais rica infância que alguém pôde ter. Pelos quintais da vizinhança, conheci e comi as mais diversas frutas que uma criança pôde experimentar. Voei com as pipas coloridas dos meus irmãos, feitas de papel e sonhos. Experimentei a mais intensa felicidade que uma criança pôde viver. E assim como eu, todos nós que aqui nascemos, que por aqui crescemos, certamente todos, tiveram uma infância parecida com a minha.
Dali, quase todos nós saímos um dia. Quem tem asas não se prende atrás da serra. Na mala, a colcha que a mãe fez, a rapadura para adoçar a vida, um queijo para os primeiros dias. Um frio gigantesco na barriga e os olhos arregalados de medo. Medo do novo, medo daquele povo diferente, apressado. Medo da velocidade do tempo, dos carros e das pessoas. Medo do despreparo. Pena não saber, naquele momento, o quanto aquela infância havia nos preparado para a vida.
Numa dessas cidades, pequena como a minha, nasceram Juscelino's, Adélia's, Drumond's e tantos outros que se espalharam por aí. Criados com queijo e sabedoria, tias e ave-marias, se tornaram grandes homens, grandes mulheres. Tão simples e ao mesmo tempo tão ricos de sabedoria, como o lugar que cresceram.
Hoje tudo tão mudado, asfalto para todo lado, empresas chegando, pessoas também. Até poluição já chegou por lá. Dizem que isso se chama progresso, faz parte do pacote “evolução”. Eu daqui, fico orgulhosa de ver que hoje, muitos já não precisam fazer como eu fiz. Por lá mesmo foram reconhecidos e encontraram seu lugar.
Torço para que aquelas casas nunca desapareçam de lá e que as minhas asas nunca esqueçam o caminho do ninho.

Leila Rodrigues

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Amor na versão 4

Para começar nossa conversa, venha disposto a conversar. Aceite meu sorriso tímido, de quem não fez um check list antes de sair, de quem não está 100% à vontade, mas está 200% com vontade.
Perdoe-me se o frescor da juventude não estampa mais a minha pele. Aceite o calor que ainda me queima por dentro, hoje muito mais quente do que quando existia frescor.
Eu não terei tempo de reparar seu relógio, nem seu carro, nem o couro da sua carteira. Não é isto que me encanta em você. Mas ouvirei atentamente cada palavra dita, cada sorriso, cada gesto.
Você não precisa pagar a minha parte da conta; a esta altura, contas já não contam tanto assim.
Fique a vontade! Aqui não é mico gostar de Bob Dilan, usar mocassim, jaqueta de couro. Eu também ainda insisto no blazer vermelho. E vez por outra vou cantarolar um Belchior.
Me ofereça algo mais do que frases prontas, copiadas-coladas de um email qualquer. Me ofereça o que for seu de verdade, eu aceitarei de bom grado e farei disso o meu melhor jantar.
Traga somente você no nosso encontro. Deixe lá fora seus méritos, suas medalhas, seus títulos, sua beca. Venha sem armas, sem truques, sem compromisso. Traga apenas a sua história,  sua trajetória. E isso será o bastante para nos darmos muito bem. Venha você, porque quem te espera aqui sou só eu.
Eu prometo não comparar você comigo, nem com mais ninguém. Prometo ser eu mesma durante todo o tempo em que estivermos juntos.
Sinais do tempo estampam nosso rosto e revelam nossas lutas, mas nossos olhos, turvos pelo tempo e brilhantes de esperança, redescobrem a disponibilidade de começar tudo outra vez. Uma página em branco de um caderno usado, capaz de receber uma nova história. E nela escreveremos nossos feitos, nossos jeitos e conceitos sem nenhum preconceito. Sorrisos que revelarão nossos mais íntimos segredos e a cumplicidade que será a chave única de nós dois.
Não foi voce nem eu que chegou tarde, foi a vida que tardou para nos unir, porque esse era o tempo certo dessa história. O amor não é propriedade exclusiva dos jovens, é propriedade de quem o vive, enquanto o vive.


Leila Rodrigues

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A Jade

Desesperada com o excesso de mulheres que invadiam a vida do casal, através de revistas, internet, tv e demais meios que a mulherada arruma para ter cinco minutos da atenção masculina, ela resolveu dar um "up" na relação.
Primeiro procurou uma sex shop, queria uma roupa bem extravagante, coisa moderna mesmo, já que o objetivo era impressionar. Ela, que sempre vestiu manequim quarenta e dois, saiu da loja com um minúsculo conjunto que não chegava nem perto do trinta e seis e ainda com sete véus coloridos. Olha a intenção!!!
Mas antes precisava se preparar, baixou uma trilha sonora de dança do ventre na internet, se fechou no quarto e foi ensaiar. Ninguém da casa entendeu nada, ela trancada no quarto por mais de uma hora, mas tudo bem, ela estava andando meio estranha mesmo.
Foi ao salão e pediu uma reforma geral, queria sair de lá uma outra mulher. Sabe aqueles programas de tv de transformação? Pois bem, era aquilo mesmo que ela pretendia. Pintou, cortou e chapou o cabelo. Pintou as unhas de rosa chiclete. A manicure avisara que era a cor do momento. Retirou todos os pelos indesejados e ainda mais alguns que nem imaginava, tudo em nome da modernidade.
Comprou sais de banho, óleo de massagem, velas, champagne, morangos, bombons e uma lasanha de caixinha que seria o mais rápido e garantido para ser servido no jantar. Caprichou na maquiagem, muito lápis preto nos olhos, dentro, fora, em volta. Precisava parecer uma Jade.
Mandou as crianças para a casa da mãe, encheu a sala de pétalas de rosas e velas, desligou o celular e ficou a espera do marido. Assim que ele abrisse a porta, a surpresa começaria. O objetivo era nem chegar no quarto, a sala já estava devidamente equipada para que tudo acontecesse por alí mesmo.
Chega o bonitão. No primeiro rodopio que ela deu, o véu se enroscou na vela. Sintético puro, o fogo se alastrou. Desesperada ela saiu pulando feito uma cabrita tirando os outros seis véus em dois segundos. O marido, para ajudar, jogou o champagne no fogo que alastrou ainda mais. Com medo do marido se queimar, ela joga um balde d'água naquilo tudo...
Para quem queria uma noite diferente, pode-se dizer que conseguiu.
Muitas gargalhadas depois, os dois de pijama, comem os bombons e chegam juntos a uma mesma conclusão: Quem não nasceu para Jade, melhor manter o lenço quieto no pescoço!

Leila Rodrigues

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Enquanto todos dormem

Madrugada, terreno fértil dos pretendentes poetas. Destino certo dos transeuntes solitários. É aqui que os desejos afloram, deliberadamente! Na calada da noite, no escuro, na solidão dos acordados, desejos escusos se tornam realidade.
Ladrões invadem casas, enquanto cidadãos comuns e politicamente corretos invadem páginas. Todos à procura de algo que lhes falta: Sexo, eletrodomésticos ou companhia.
Poetas se fazem na madrugada, amores explodem em profusão. Vidas se refazem, listas infindas são feitas, refeitas ou desfeitas na madrugada. Aquela música que ninguém mais gosta, ouve-se solitariamente na madrugada. O programa medíocre da TV, aquele filme que ninguém viu, viram gratos companheiros nesta hora escura. Livros viram parte do corpo, um álibi perfeito para os que matam seu próprio sono.
Enquanto todos dormem e o silencio se faz, eu posso ser tudo aquilo que não suportei ser no clarão do dia. Há quem ataque geladeiras, quem ataque o próximo, quem ataque as letras. Artistas criam, idéias surgem, amores silenciosos se beijam no teclado. Roubam-se jóias, obras de arte, pessoas e idéias num simples copiar colar. Casais clandestinos lêem seus recados. Pesquisas secretas engarrafam o trânsito da rede. Doenças, viagens, hotéis, pessoas, histórias e companhias para as mais diversas aflições são pesquisadas na noite. Saudades são remoídas, perdas são choradas no silêncio.
Acordados por algo que não conseguimos identificar ou que, muitas vezes não queremos identificar, os "dessonados" procuram, desesperadamente, um sol na noite que justifique seus olhos abertos e sua mente em produção. Só quem vive este descompasso sabe mensurar sua dimensão.
Enquanto todos dormem, eu penso em todos, em tudo. Planejo, faço conta, remanejo e decido. Como que, desesperadamente,  necessitasse ocupar cada milésimo desse tempo.
E quando a noite acaba,  junto com ela acabam as minhas forças, as minhas tormentas, os meus devaneios. Sobramos eu e aquele cansaço enorme de quem acabou de viver intensamente algumas horas e precisa de um merecido descanso. Tarde demais! Alguém acendeu a grande luz do dia e isto significa que é hora de viver... Que pena! Justo agora que bateu um sono....

Leila Rodrigues

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Eu não sei deixar de ser assim

Nunca tinha imaginado a dificuldade de se deixar um vício. Até o dia em que eu precisei fazer isso. E olha que eu não sou um recuperando de drogas, eu não fumo, nem jogo, que são considerados o vícios mais difíceis de se  libertar. Eu sou um cidadão comum, como você e como qualquer outro. Eu trabalho, eu pago minhas contas, eu sou pai de família, tenho mulher e filhos, alguns amigos e no mais, tudo muito normal. Não estou me referindo àquelas vergonhas escancaradas que muitos têm de suportar em função de suas escolhas. Não, eu estou falando das nossas pequenas mediocridades, dos nossos atos escusos, aqueles que ninguém sabe e que o sujeito tem vergonha de contar até para si mesmo.

Escolhemos ser  e agir da maneira que queremos. Esta escolha pode ser por puro gosto, por conveniência ou por teimosia mesmo. Muito comum.  Até aí tudo bem, todo mundo, no fundo, faz o que quer. E eu não sou diferente.

Pois é, foi um ato desses que eu me dei conta que estava me fazendo muito mal; diminuto. E o pior, já fazia parte da minha rotina.  Simplesmente precisei tirá-lo da minha vida, para meu desencargo de consciência e porque “ele” me deixava envergonhado de mim. Então precisei parar e rever meus conceitos.

Foi aí que a coisa piorou. Como é difícil mudar! Descobri que eu não sabia fazer diferente. Descobri que mudar, (aquilo que falamos para o outro fazer com a maior facilidade), é dificílimo. Estou falando mudar de verdade! Não tirar férias! É porque a maioria tira umas feriazinhas de um mês e acha que mudou. De repente, quase sem perceber, você está lá de novo, no mesmo buraco. Falando as mesmas mentiras, comendo as mesmas porcarias, comprando mais do que pode, bebendo, jogando, dormindo, traindo, enfim, seja qual for o seu vício, o seu segredo, sei que você me entende. Como é difícil abandoná-los!

Somos cúmplices e amantes das nossas manias e comportamentos. Principalmente das manias erradas, incorretas. Odiamos e somos completamente dependentes delas. E isso só é percebido quando precisamos deixá-las por algum motivo. Não me interessa o seu vício ou o seu erro, como queira chamar e muito menos o motivo que esteja te levando a querer sair dele. O que eu quero te dizer, é que compartilho com você desta dificuldade.

Pensei em procurar uma psicóloga, mas o meu desconforto não me permitiu; então  me armei de coragem e me propus a não praticar mais o meu “ato”. Na primeira semana, tudo tranquilo, me parabenizei. Na segunda semana, me segurei para não recair. Na terceira me odiei e o mal humor tomou conta de mim. Na quarta semana, a um fio de recair,  me perguntei  se valeria a pena voltar atrás. E foi assim, entre idas e vindas, recaídas e levantadas que  resolvi continuar. Procurei me ocupar com coisas mais nobres e mais importantes toda vez que a vontade me assombrava. E assim os dias se passaram e hoje estou aqui, comemorando com você uma coisa tão simples para a humanidade e tão difícil para mim.

Ainda não posso dizer que estou curado. Pode ser que amanhã ou depois eu faça tudo de novo. Mas posso dizer que estou bastante satisfeito de ter conseguido. Acho que estou retomando as rédeas de mim mesmo. Me sinto bem  melhor... silenciosamente melhor.

Sou capaz de apostar que você ficou curioso! Um dia eu te conto.


Leila Rodrigues

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A soma do tempo

E eis que eles decidiram ficar juntos. E assim estavam até então. Quanto tempo se passou? Não importa. Quanto tempo se passou entre duas pessoas?  Quanto tempo os uniu e quanto os distanciou? 
Não se conta em dias o tempo de uma união. Conta-se o quanto cada um usufruiu do outro para ser feliz; o quanto, juntos, fizeram, viveram e cresceram. O número de filhos, as noites de paixão, os colos divididos, os choros de emoção. Soma-se o tempo em que as alegrias e tristezas foram partilhadas, sentidas, conquistadas. Soma-se o tempo em que os olhares falavam mais que as palavras e o riso explicava os sentidos.
Diminui-se o tempo que cada um caminhou em direção oposta. O tempo que usufruíram sozinhos suas vidas. Lutando para manterem suas identidades, acabaram se identificando de novo, com outras pessoas, outras paisagens, outros encantos. 
No medo da entrega se entregaram ao mundo e perderam o caminho de volta.
Contas que não se somam mais, listas separadas de interesses e sonhos isolados vão criando forças opostas. O ninho deixa de existir.
A casa ficou pequena. O espaço de um começou invadir o espaço do outro apenas por existir. O caminho mais curto é o  silêncio. O mais prático é a distância. E todo esse tempo entra na conta diminuindo. O que se sobra desse saldo? Um resto de amizade, um fundo de respeito, algum carinho talvez, quase fraternal. Um abismo de distância, olhares que não se cruzam, falas que não se encaixam num diálogo. 
Por que ficar se já não estão? Já estão "idos"  há tanto tempo que levar a mala será apenas protocolo. Um até logo e tudo bem. Sem brigas, sem cenário, sem clichês.
Um fim ético, silencioso e contido. Não menos doloroso que qualquer outro. O fim de duas pessoas que caminhavam juntas mas que, em algum momento de suas vidas descobriram caminhos diferentes... E a velha estrada se tornou impossível! Não ficou tempo nenhum pra sobreviverem. O saldo deu negativo. O estoque da paixão acabou. A adrenalina do desejo deu lugar  a letargia da comodidade. A soma do junto perdeu para o sozinho.
 O pacto acaba aqui? Depende. Nem sempre há forças para retomar o fio dessa meada...
Histórias assim nos pegam completamente de surpresa e nos fazem refletir. Assustam-nos pelo inesperado, pelo sofrimento que não conseguimos perceber com a convivência e que agora se fez atitude. No rosto de quem decidiu pelo fim, um misto de cansaço e alívio. Um sorriso que se traduz em liberdade. Cansadas, por enquanto, essas pessoas não querem nada além de um bom pijama, uma boa noite de sono e seus dias normais. É preciso reaprender o caminho de casa, o lugar sozinho na cama, o espaço novo para as coisas no armário e no coração...
Volto para mim e me pergunto quanto tempo tem que estamos juntos? Tenho vontade de correr até você. Neste momento a quantidade de tempo ficou irrelevante. Nos resta alguma coisa? Voce ainda está aí? Eu continuo aqui. Ainda há algo que possamos querer juntos? Posso esquentar as suas mãos... Vamos tomar um café?... Põe aquela música que era a nossa, lembra?... Se veste de nada, minha roupa favorita!... Olha que eu ainda posso ser difícil! ... O vizinho de baixo vai ouvir!... Nós ainda podemos...

Leila Rodrigues

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Giliard

Todos os dias ele escova seu maravilhoso cabelo comprido, fio reto, quase nos ombros. Escolhe,  entre todas as camisetas pretas do gaveta, a preta do dia; calça aquele bat-but comprado clandestinamente do rapaz da PM e vai para o trabalho.
Graças ao seu Deus Ozzy Osbourne, ele tinha conseguido o emprego na loja de discos. Sim, na galeria do Ouvidor, aquela última loja de discos de vinil.
Ele tem certeza absoluta que só conseguiu o emprego lá, devido ao seu biotipo, recém saído de uma revista de rock dos anos oitenta e ao seu apuradíssimo conhecimento do assunto Rock'n roll. Aliás, ele e o Erasmo (um ídolo), são as únicas pessoas que ainda falam rock'n roll até hoje.
Conheci Gil quando perambulava atras de um vinil do Rod Stuart para o meu irmão. Gil, prontamente me mostrou tudo que tinha, falou da trajetória do Rod, dos momentos memoráveis da carreira do cantor, enfim, me deu uma aula.
Saí da loja saciada. Certamente eu nunca mais voltaria alí, porque procurar vinil não era uma atividade corriqueira para mim. Mas Gil, que até então eu só conhecia o codinome, me inspirou a voltar.
Voltei, e quando estava na loja, ouço alguém chamá-lo de Giliard. Nao consegui conter e dei uma gargalhada. Você consegue imaginar alguém que é fã do AC/DC, com o nome de Giliard? Nem eu. Mas ele estava ali, na minha frente e eu tinha acabado de cometer essa gafe enorme ao rir do nome do rapaz. Me desculpei de imediato. E ganhei de presente o trocadilho bem humorado do Gil:
 - Minha mãe me deu este nome por amor a um ídolo dela, que não necessariamente tinha que ser o meu. Durante muitos anos carreguei-o comigo como se fosse um peso. Mas nome não faz destino. Nem toda Rosicleide é doméstica, nem todo Roberto é cantor, nem todo Sílvio é Santos. João pode ser  deputado, pagodeiro ou João ninguém. Eu sou Giliard de certidão, Gil pra evitar discussão e roqueiro de coração. Sacô?!

Leila Rodrigues

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Procura-se

Procura-se alguém. Não sei ao certo quem. Procura-se alguém, que cubra esse vazio que me preenche. Alguém que responda a essas perguntas que me faço quando o vazio se faz. Alguém que ocupe esse lugar que não cabe ninguém.  Alguém que esvazie esse espaço lotado de ninguém.
 Procura-se alguém para quebrar esse silêncio, para dividir um momento, para passar o tempo junto e fazer o tempo melhor. Procura-se alguém que queira querer-me, alguém que queira ser querido.
 Alguém que além de falar, tenha voz; que além de ver, enxergue; que além de ouvir, escute. Alguém que me tome horas, minutos ou segundos, não importa; mas que me tome, me ocupe, me usufrua. 
Procura-se alguém, para deixar de ser só um e nos tornarmos um só. 


Leila Rodrigues 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

De volta para mim

Comecei a ler um livro do Dalai Lama. A serenidade budista sempre me interessou muito. Para minha grande surpresa, o que me chamou mais atenção foi uma frase dele que dizia que, feliz é aquela pessoa que consegue rir de si mesma. Esta frase ficou na minha cabeça.
Comecei então a me observar mais. Queria saber se eu me encaixava nesta pessoa que conseguia rir de si mesma. Sempre fui uma pessoa palhaça. Fazer o outro rir, para mim não é difícil. Mas daí a rir de mim mesma é muito diferente.
A dúvida era descobrir se eu estava mais pra Hitler do que pra Charles Chaplin de mim. Não que eu seja uma pessoa cruel comigo, mas o fato é que a responsabilidade ocupa um espaço grande demais em mim.
A luta por sermos bons profissionais, bons maridos, boas esposas, bons filhos, bons pais, preparar o futuro, garantir o conforto da família, bater as metas, manter a forma, a libido e o sorriso é insana. Vencemos a luta e perdemos a essência.
Ingenuidade, brilho nos olhos, encantamento e atenção se perdem no meio da quantidade de compromissos que firmamos conosco. Com o objetivo de chegar neste lugar imaginário de realização, vamos nos deixando um pouco a cada dia pelo caminho. Quando se percebe, o eu ficou para trás. Quando se chega a este lugar tão sonhado, quem chega já não somos nós, mas um ser transformado pelas exigências do caminho.
Fui me achar lá num cantinho de mim. Tão pequena, tão sorriso, tão verdade. Capaz de achar a vida boa e linda sem nenhum motivo aparente, simplesmente porque eu fazia parte do todo. Capaz de rir do meu desconhecimento, de achar graça dos meus erros e me encantar com meus acertos.
Sem o compromisso de ser boa em tudo e sem meta pra bater eu sai por aí. Cabelo molhado, pé no chão. Laranja no pé, horta, café com queijo são fragmentos de mim. São prazeres tão simples e tão meus que já fazem parte de mim. Ainda que eu os faça só de vez em quando, eles me trazem de volta a mim mesma.
No tempo da chapa, admitir os meus cachos e achá-los lindos. Na era do peitão, comprar feliz um sutiã quarenta e dois. Rir da minha falta de jeito para bordar, para pintar, para fazer doces. Saborear o prazer de ter o samba no pé. Assobiar sem preconceito. Voar de asa delta. Chorar no cinema. Esta sou eu e é desta que eu gosto. Me alimento disso pra sobreviver.
Talvez eu ainda não consiga rir de mim. Dalai Lama, eu ainda tenho muito que aprender. Mas já consigo sorrir pra mim, consigo achar que é muito bom ser esta pessoa que sou. Um bom começo. 

Leila Rodrigues

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Ele pede a palavra

As vezes me pego fazendo de novo esta mesma pergunta: O que é que você quer de mim? E logo em seguida, assim em seguida mesmo, eu me faço a segunda pergunta: Por quê você tem sempre que querer algo por mim ou para mim?

Não basta querer para você como eu sei que você já quer? Tem que querer para mim também?

Não consigo entender isso. Você já foi tão longe, as vezes acho que você está anos luz à minha frente. Você sonha, você realiza, você faz, você acontece. Parece que a palavra movimento mora em você.

Você ouve, lê, traduz e distribui tão rapidamente que eu tenho dificuldade de acompanhar o seu ritmo. Às vezes, tenho vergonha de te dizer que estou querendo fazer algo, porque você está sempre querendo fazer milhares de algos.

Faço tudo para que você não perceba este meu descompasso, mas você insiste comigo para que eu tenha o seu ritmo.

Me deixe aqui, no meu caminhar tranquilo, no meu ritmo bossa nova. Eu adoro ver você à mil. Te juro, acho isso o máximo. Eu também vou chegar lá, do meu jeito.

No começo, eu confesso,  tentei podar as suas asas pra você não voar mais. Mas você sempre dava um jeito de voar de novo. Hoje não faço mais isso, estou aprendendo a apreciar o seu voo. Quanta elegância, quanta destreza. Você consegue escolher o melhor vento, atingir a melhor velocidade, descansar nas melhores copas e ainda dar um rasante vez por outra. Isso me deixa orgulhoso.

Não é fácil pra mim compreender,  em tão pouco tempo, que você não é nada daquilo que me ensinaram a vida toda;  daquilo que eu sempre achei que a minha vó, a minha mãe e as minhas tias eram. Ninguém me avisou que os modelos dos manuais, só existiam nos manuais.

Você não ultrapassou só os seus limites. Você ultrapassou os meus, os de uma sociedade inteira, os de uma nação. E como eu te admiro por isso.

Mas não posso continuar essa briga insana que travo comigo na tentativa de te acompanhar. Eu precisei parar agora,  para te dizer que é muito bom construir o ninho com você voarmos juntos de vez em quando, sonharmos juntos e construir nossos sonhos.

Você conseguiu se transformar em gaivota, que ótimo, vá em frente; mas permita e respeite o fato de eu ser apenas um bem-te-vi. Um feliz bem-te-vi.

Leila Rodrigues

domingo, 15 de maio de 2011

De fato

Pra sobreviver, a minha fala não condiz com o que eu penso 
Pra compreender, o que eu ouço soa mais que a minha voz
Pra progredir, o que eu busquei transcendeu minhas paredes.
Pra revelar, o que eu digo não acoberta o que eu faço.

Pra perceber, a minha alma vê melhor que os meus olhos
Pra contestar, minhas desculpas se curvam aos fundamentos.
Pra decidir, meu coração falou mais alto que a razão
Pra denegrir, a indiferença doeu mais que a rebeldia.

Pra combater, o meu sorriso disfarçou a minha dor.
Pra resistir, a minha revolta se vestiu de fantasia
Pra proteger, o meu silêncio disse mais que os atos meus
Pra debater, a minha coragem ecoou dentro de mim.

E eu que vivo cada impulso desses atos 
De contraponto e paradoxos vitais
Meus verbos vivos que vivendo me retratam
Fatos que, de fato, são atos, são parte de mim.

Leila Rodrigues

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A peça que nos une

Não é um sutiã, muito menos uma calcinha rendada. A peça que nos une, em tempos de tecnologia, cabe na palma da mão, custa caro e atende a todos os requisitos da atualidade: o celular.

Esta minúscula peça, aliás, cada vez mais minúscula, substituiu o despertador, o mp3, a agenda, o detetive e em muitos casos o computador e a tv. Mas é fato que ela nos une. Une quem está longe, desmarca compromissos que é uma beleza, dá parabéns aos esquecidos, registra situações inusitadas e mantém completamente unidos os casais. Já reparou? Casais se falam o dia inteiro!!!

Oi amor, estou entrando na consulta! Amor, saí da consulta, tudo certo. Amor, estou em reunião ainda! Amor, trazer o pão!... E por aí vai.

Já está provado o quanto casais são compreensivos no celular. É amor pra lá, amor pra cá, amor pra todo lado; só muda quando um não atende a ligação.

Ele: A anta não atendeu, não conseguiu encontrar o celular dentro dos vinte e cinco compartimentos da bolsa.

Ela: O burro não atendeu, o que será que ele está fazendo? Ai meu Deus, com quem será que ele está? Será que é mulher?

Há de se convir que esta peça que nos une, facilita e muito a nossa vida. Mas, convenhamos, tá na hora de colocarmos algumas regras de uso desta peça para uma convivência mais amigável.

1 - Que fique registrado, para as duas partes, que algumas atividades nos impossibilitam de atender o seu chamado ou o de qualquer outra pessoa, por razões óbvias. Fazendo as unhas, tomando banho e escovando os dentes são alguns exemplos. Não se irrite se o momento escolhido para tais atividades tenha sido o mesmo da sua ligação.

2 - Bolsas, podem ser instrumentos complicadíssimos de se manusear. Encontrar alguma coisa dentro delas então, muito mais complexos. Alguns casos são passíveis de um manual ou treinamento.

3 - O simples fato de estarem num buteco, não lhes confere a honra de não atender a ligação, seja você o macho ou a fêmea da relação.

4 - Enquanto um estiver falando, desista de lhe passar qualquer informação. Mesmo com dois ouvidos, é impossível para os seres humanos, ouvir duas fontes de informação simultaneamente.

5 - Embora os machos humanos sejam monossilábicos, têm momentos em que é necessário uma frase completa.  Principalmente porque, à distância, não temos como perceber suas expressões faciais e corporais, que ditam  40% de suas falas.

6 - Muito boa parte da população não trabalha com o celular na mão o tempo todo. Portanto, no horário de trabalho, não atendeu, contenha-se, a pessoa está trabalhando, o que significa ocupada.

7 - Ainda não vi ninguém atendendo o celular com o pé, portanto com as mãos ocupadas é impossível atender o celular. Fui clara? Ou faltou informação para a sua vã compreensão?

8 - Na hora das atividades imprescindíveis para a continuidade da espécie humana, desligue o celular. Não há nada mais desagradável do que ser interrompido pela mãe, pela sogra, pelo amigo, pelo cunhado ou por qualquer outra pessoa neste momento.

9 - Se você precisa vasculhar o celular do seu (ou sua) parceira para saber se existe algum resquício de uma terceira pessoa, aqui vai uma dica: trocar o celular não resolve. Troque o analista, troque de parceiro ou troque-se porque isso aí é fim de carreira!

Leila Rodrigues

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O prêmio

Oi Dr. Moacir,

Bom dia para o Senhor. Primeiramente, obrigado por essa oportunidade! Achei muito bacana essa sua idéia de pedir pra gente te escrever, faz muito tempo que eu não escrevo assim, de próprio punho e com caneta. Eu anoto tudo que me passam, anoto as reuniões, mas isso é diferente. Me lembrou quando eu escrevia carta pra Rosilda, minha esposa.
Dr. Moacir, em princípio eu achei muito estranha essa sua idéia de perguntar pra todos qual seria o prêmio ideal que cada um gostaria de ganhar ao cumprir suas metas. O Senhor endoidou, foi?! Mas tudo bem, é um direito seu querer ouvir a turma. Fico aqui é pensando que o Senhor vai ouvir cada coisa... Ai meu Deus, tenho até dó dos seus ouvidos.
Dr. Moacir, eu pensei tanto nessa sua pergunta que quase fundi meus miolos. Assim que o Senhor fez a pergunta, a primeira resposta que me veio na cabeça foi um carro zero, assim igualzinho ao do Senhor. Não xinga não! Só tô sendo sincero, afinal de contas não foi isso que o senhor pediu? Eu mesmo dei risada da minha pretensão, mas que eu pensei, pensei! Também podia ser uma casa lá naquele condomínio chique que o Senhor mora, mas aí eu pensei na quantidade de gente que tem nesta empresa e tratei logo de dispensar meus pensamentos.
Dr. Moacir, o Senhor me colocou numa sinuca de bico. Qual o prêmio ideal pra mim? Ah! Dr. Moacir, o Senhor não podia ter pedido isso pra mim não! Tem vinte anos que eu to aqui, o Senhor vai receber carta de todos aqui da empresa, cada uma mais bacana que a outra. O que será que essas minhas "palavrinha" aqui vão fazer no meio desse monte de carta?
Eu pensei, pensei, juro pro Senhor que pensei, mas não sei te falar.
Eu até pesquisei no dicionário a palavra prêmio pra entender melhor, prêmio é algo concedido à alguém como reconhecimento da excelência em determinado campo. Tirei o excelência porque fiquei constrangido com a força da palavra e deixei só o reconhecimento. Tá bom pra mim!
Se prêmio é reconhecimento, eu tava pensando aqui, o quê que o Senhor acha de começar pedindo para as pessoas reconhecerem umas às outras? Penso que seria muito bom! Já imaginou a turma dos engenheiros reconhecendo o trabalho dos porteiros, das copeiras, da turma da limpeza? Já imaginou Dr. Moacir, a equipe de vendedores reconhecendo a importância da turma que monta as cargas aqui de madrugada, enquanto eles estão dormindo? E a turma da produção reconhecendo a importância do DP que faz a nossa folha todo mês? Reconhecer pra mim, Dr. Moacir, é enxergar o outro como pessoa, como cidadão, como profissional. É respeitar independente do modelo da cadeira que se assenta. É entender que o meu uniforme de porteiro é meu orgulho e que passou esta porta pra dentro, ele vale tanto quanto os ternos da equipe de vendas. Bom dia, parabéns, obrigado são pequenos reconhecimentos que nos motivam a fazer grandes mudanças.
Um minuto de reconhecimento de cada um por dia, no fim do ano juntaria um reconhecimento enorme, não acha? Aí sim, o prêmio seria dado pra quem mais soube reconhecer os outros.
Sobre qual seria o prêmio, embora muito agradecido com a oportunidade, eu vou encerrar esta sem te falar assim, concretamente o prêmio ideal. Isso aí o Senhor é que decide. Agora, se o Senhor não achar muito louca a minha idéia do carro, estamos aí né!

Leila Rodrigues

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A poção mágica

Vende-se felicidade. Sim, está nas lojas por aí. Estampada nas portas em grandes cartazes. Travestida de carro zero, de jóia rara, de vestido Armani, do último ultra, mega celular. Facilmente encontra-se toda essa felicidade ao seu dispor. Por uns bons trocados o mercado garante que você será, momentaneamente, feliz com todos esses ítens, ainda que não sejam de verdade. Afinal de contas, verdade agora é relativa. Passou a depender do ponto de vista. O tempo é o novo aliado da alegria. Quanto mais rápido eu te fizer feliz é o que importa. Cremes garantem uma pele nova em vinte dias, shampoos restabelecem os cabelos em segundos (esses bateram o record do tempo), e até a cor da pele muda-se em poucas horas.
Spas garantem que em quinze dias você será uma nova pessoa; completamente diferente daquela que você gastou quarenta anos pra se tornar. Remédios milagrosos devolvem todos os perdidos: o sono, o cansaço, a saúde, a libido.
Fidelidade virou palavrão. Foi abolida do dicionário. Deu lugar à troca imediata. Deu defeito? Troque. Vale para celulares, computadores e pessoas.
Não perca tempo, as vantagens são tentadoras, troque logo de operadora, de provedor, de banco. Aproveite e troque a secretária, troque o marido, terceirize os filhos, terceirize os pais. Tudo dividido em n vezes e a perder de vista.
Abraços e beijos são cada dia mais virtuais. Promessas e enganos cada dia mais reais. Tão fácil e convidativo ser medíocre e fútil. Novos comportamentos disfarçam velhos tormentos.
Vende-se felicidade. Sim, vende-se por toda parte. E eu também entrei na fila. Olhei, provei, necessitei instantaneamente e comprei. Preço bom, condições ótimas. Sai da loja feliz e saltitante com as mãos cheias de sacolas quase vazias.
Foi como ter tomado um jarro de uma poção mágica. Nem pensei em posologia, passei batido na bula. Me esbaldei. Bebi o suficiente para um bom tempo de satisfação, não fossem os efeitos colaterais.
Doeu tudo. A falta de juízo me causou uma enorme dor de barriga, a culpa me trouxe uma enxaqueca do cão e a conta, essa tá doendo até hoje.

Leila Rodrigues

domingo, 24 de abril de 2011

Promessas

Promessas...

Quem nunca fez uma, que atire a primeira pedra
Quem nunca acreditou numa, que se atire
Quem nunca esperou por uma, que tire a pedra
Quem nunca deveu uma, que atire na pedra
Quem nunca cumpriu uma, que se retire
Quem nunca recebeu uma, que recolha a pedra

Promessas...

Que salvam
Que condenam
Que amarram
Que comprometem

Promessas...

Que um dia eu quis
Que um dia eu fiz
Num outro acreditei
Cansei

Leila Rodrigues

domingo, 17 de abril de 2011

Continuidade

Parou na janela e olhou lá fora. Em segundos, um filme passou-lhe na cabeça. Lembrou-se dos dois escolhendo a casa, da mudança, das eternas reformas que fizeram. Sempre rodeadas de sorriso e amparadas em muito esforço. Pegou seus discos de vinil já separados na estante e saiu.
Buscou uma resposta para a sua mais recente dúvida, por que será que todo fim é ruim? Constatou que fim bonito só em filme.
Chegou na casa da mãe, naquele mesmo quarto onde cresceu, onde viu escondidas as primeiras fotos de mulher nua, onde levou a Sueli para o primeiro "amasso". A mesma mesinha, o mesmo Santo desbotado na parede. O tempo passa, tudo passa; menos casa de mãe. Parecem prontas para o retorno de quem não deu certo. Plano B de todos nós? Ou seria prevenção maternal pra qualquer anormalidade? Bom, fosse o que fosse o quarto estava ali, a sua espera e ele teria que passar uns dias nele até decidir pra onde iria.
Abriu seus e-mails e tinha um monte de mensagens. Todos dando uma força para o recomeço, a nova jornada. Isso mais incomodou do que confortou. Não gostava dessa fragilidade que a separação impunha. Começar de novo, começar o quê? Para quê? Na cabeça dele não havia nada a ser começado, muito pelo contrário, havia muito ainda a ser terminado, encerrado de vez.
Hora de terminar com aquela briga inútil que todos os separados travam consigo mesmo, tentando achar o culpado pelo fim de uma coisa que nem devia ter começado.
Hora de parar de achar que o separado é um doente, um fracassado ou um incompetente que precisa desesperadamente da ajuda de todos.
Hora de parar de querer substituir uma pessoa por outra pra ver se fica tudo resolvido, como se pessoas fossem panelas de pressão, trocáveis, substituíveis.
Hora de viver com as sobras e fazer delas um bom jantar. A sobra dos discos, dos livros, dos móveis, das taças, dos amigos, do ativo imobilizado pelo fim.
Hora de usufruir o tempo que sobrou daquilo que se faziam juntos e que agora sozinho, ficou tempo demais.
Hora de ser mais filho, mais pai, mais irmão, mais amigo. Hora de ser mais de mim do que de quem eu tentei ser e nunca consegui.
Cada um vai seguir seu rumo. E esses rumos por si, vão cuidar pra não se cruzarem mais. Naturalmente buscarão direções opostas que os permitam sobreviver, provar pra si mesmos que existe vida após um relacionamento. E na paralela disso tudo, simplesmente dar continuidade em suas vidas.

Leila Rodrigues

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sereno

“Sereno” é aquela pessoa que nos lembra às seis da tarde. Não importa o quão ardente foi o dia, nem quão gelada será à noite. O entardecer continua ali, sereno, devagar.
Nunca vi ninguém dizer que o entardecer passou voando. A pessoa serena também não. Parece que já nasceram Phd em administração do tempo. E quando estão atrasados, te contam com tamanha tranquilidade que chegamos a achar que é mentira. Dizem por aí que  "Sereno", pra morrer de repente, vai gastar cinco dias.
“Sereno” é aquela pessoa que não te interrompe pra falar que ele também dormiu mal. Alias, ele nunca nos interrompe. Essa é a grande diferença! O “Sereno” faz com que nos sintamos importantes. Ele pára de ouvir o barulho dos carros, o celular tocando, a ambulância apitando, para nos dar atenção. Quem mais faz isso por nós?
O único problema é que amamos e odiamos o “Sereno” simultaneamente.
Amamos quando ele é um amigo, odiamos quando ele é o motorista da frente. Amamos quando nos dá atenção, mas somos impacientes quando ele quer a nossa atenção. Que paradoxo! É que tendemos a ter raiva de quem não tem o nosso ritmo. Como se todos neste mundo tivessem um ritmo só?!
Sempre zen, marcha lenta, mosca morta, manivela; ainda que, de péssimo gosto, esses nomes não os ofende. Essas pessoas escolheram ser assim e não têm vergonha de si mesmos. Demoram pra entender a piada, mas sabem pelo olhar quando não estamos bem. São extremamente esquecidos do que se passou ontem, mas completamente atentos ao que acontece agora. Vivem e absorvem cada segundo, convictos de que tudo que precisamos para viver é o agora e nada mais.
 

A todas aquelas pessoas que tem o dom de nos tranqüilizar, pela sua simples presença.

Leila Rodrigues

sábado, 9 de abril de 2011

A luta

Porquê dentro de mim reside esta luta insana? Porque entre eu e eu travamos este eterno confronto?
De um lado meu corpo cansado pede socorro, de outro, minha mente atordoada insiste em continuar. Planeja, calcula, relembra, refaz, manipula, simula e insiste em não parar.
Como um filme em alta rotação, me passa na mente todos os filmes que vivi,  alguns que nunca vivi e os que eu penso que ainda viverei. Tudo num só instante. Tudo num só segundo. 
O confronto entre eu, eu mesmo e as Irenes que vivem em mim, me desintegra por completo.
Meu lado insano vem trazendo o riso, meu lado exato quer protocolar.
Parte de mim é fogão de lenha, estrada de chão, som de cigarra.
Outra parte é sinal de trânsito, engarrafamento de compromisso.
Parte de mim tem hora marcada, fila de espera, senha de acesso. 
Outra parte perdeu o lenço, o documento; caiu na estrada.
Parte de mim é equação, outra parte refrão. 
Parte de mim é personagem, outra parte confissão. 
Parte de mim é cimento, outra parte pensamento.
Desintegrado de minhas partes não sou parte de nada. 
Sou um monte de pedaços, um aglomerado de intenções que atua isoladamente em pontuadas situações. 
Minhas raízes se enterram em busca de um chão, minhas folhas seguem o vento a procura de emoção. 
E eu, pobre tronco, resido na esquina eqüidistante desses dois extremos. 
Alguém pára esse trem que eu preciso descer. 
Descer e caminhar meu caminho, ouvir o som da minha fala, entender o ritmo dos meus passos. 
Tomar de volta a propriedade de mim mesmo. 
Sou tantos, sou nenhum. 
Sou dúvida, sou resposta. 
Sou mentor, sou aprendiz.


Dedicado às Dudas, Júlias e Marcelas. Meninas de verdade, que têm a coragem e a sensatez de se mostrarem "não inteiras", sem medo do que vem depois.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O terceiro elemento

Havia seis meses que eles moravam juntos. Passados os problemas de logística comuns, tudo estava entrando nos eixos.
Ela dentista, rata de cidade, mais urbana impossível, nascida, crescida e adestrada em apartamento. Adorava viver na vertical, ver a cidade de cima. Flores, só de plástico; animal, só na tela do computador, nem de bicho de pelúcia gostava. Cresceu certa de que, do mosquito ao elefante, todo bicho é um inimigo em potencial. Tinha alergia até de quem gostasse de bicho, tamanha a sua dificuldade com os serezinhos.
Ele professor, nascido, criado e crescido com boa parte da fauna brasileira, cá no interior de Minas, naquela casa onde tinha quase tudo. Porco, pato, galinha, bode, papagaio, muitos cachorros e dois gatos. Sem falar a roça do avô que tinha tudo isso mais cavalo, vaca, sapos e muitos passarinhos.
Entra na casa um terceiro elemento, uma cachorra. Não! Isso que você pensou é outro bicho, estou falando de cachorra mesmo, fêmea do cachorro, bichinho, quatro patas... Uma fêmea Golden Retriever, investimento altíssimo para os bolsos do jovem casal.
Pra ele, a rotina acabara. Bastava mexer na fechadura da porta, pra cadelinha vir correndo pular nos braços dele e lambe-lo todo. Trazia o chinelo, fazia festa e depois ainda o acompanhava tranquila e silenciosamente durante o jornal e o futebol. Sabia que ela nunca pediu o controle remoto? Ela não perguntava como foi o dia dele e jamais queria discutir a relação. Ele chegava a achar que aquela cachorra era uma quase gente!!!
Para ela, a tortura só estava começando.  A casa impregnada de um cheiro muito estranho, que lhe causava espirros contínuos. Chinelo, meia, guarda-chuva e demais itens que tocasse o chão, não saia ileso, ela comia tudo que via pela frente. Além daquele rabo imenso que indecorosamente roçava-lhe as pernas de vez em quando. O bicho é sem noção gente! Deita no sofá, sobe na cama, rola no tapete e ainda é tratada como uma rainha. Tira todas as roupas do varal, mama as caixinhas de creme de leite, come as revistas e jornais que vê pela frente. ! Sem falar das necessidades fisiológicas, que é melhor não mencionar. Aquilo era o capeta disfarçado de animal.
Foram seis meses de rusga entre as duas. Até que, uma noite, sozinhas em casa, se acomodaram no mesmo sofá. Cada uma numa ponta, que é pra não ter problema.
Uma rosnou, a outra tossiu; a uma tornou a rosnar, a outra mandou calar. A uma achou que era um convite, chegou e lambeu; a outra arrepiou de medo e gritou. A uma continuou achando que era festa e se aconchegou, a outra para evitar um infarto, se aquietou.
E assim passaram sua primeira noite, juntinhas no sofá, até o dia amanhecer.
Hoje elas são amigas; confidentes. Vão juntas pra todo lugar; unha e carne, como se diz por aqui. Compras, shopping, viagens, fazem tudo juntas... E ainda dividem o único macho da casa numa boa, sem ciúmes, sem inveja.

Leila Rodrigues

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ela, por ela mesma

Folheou a revista. Saltavam-lhe peitos, bundas e sorrisos por toda parte. Odiou todas elas. Sempre perfeitas,  sorridentes, disponíveis e prontas para o abate. Se antes, era vale-quanto-pesa, hoje é vale-quanto-mostra. No meio de melancias, pêras e melões faltava-lhe frutas.
Ate que ponto as pessoas saem de si para dar vida a um fotoshop de si mesmas? Caricaturas do bem com divulgação autorizada. Diante de tudo isso ela se perguntava se ainda haveria espaço na cabeça das pessoas, mais precisamente na cabeça das próprias mulheres, para as mulheres reais. Preferia o seu presente imperfeito ao pretérito perfeito das sujeitas indeterminadas de hoje em dia.
Olhou para os lados e por um instante se sentiu fora de foco. Se olhou no espelho e riu daquilo  tudo. Gostou mais de si do que de todas aquelas. Não tinha tempo para tantos detalhes, nunca se sentiu confortável embrulhada pra presente. Estava claro que gostava de si mesma. Gostava do corpo que tinha, das suas proporções, das suas polegadas. Sabia que o corpo era apenas parte da brincadeira. O resto ela guardava consigo, esse sim era o grande segredo, o melhor da brincadeira.
 Naquela altura da sua vida não pensava em diversidade, estava feliz com aquele homem que ela tão bem conhecia o cheiro, o jeito, o gesto. Gostava de ser dele e gostava de sentir a falta dele. Gostava do tempo e do espaço dos dois juntos. Estava feliz com a sua escolha de tantos anos atrás. Lembrou das mãos quentes, do abraço grande, da intenção de menino quando quer fazer arte.
Soltou os cabelos, sorriu para o espelho. Tomou um banho de rainha; demorado, acariciado e sentido. Vestiu-se de bem pouco, era só o que precisava. Deixou pra trás as medidas, as feridas e tudo mais que a receita pedia. 
Caminhou sozinha em direção a ele. Seu olhar tinha riso, seu riso tinha desejo. 
Sabia que aquele era o seu momento e levava consigo a essência de suas vontades para usufruirem juntos.
Naquela noite ela sorveu, soltou, viveu e se deu. Deu para si o presente de se gostar, de se entregar. Não lhe interessou as notas, as faltas, as pautas. Sorriu, gritou, gargalhou, se fartou e se deixou aproveitar cada minuto, cada detalhe.
Chegou no fim do fim e se jogou por lá. Virou pro canto e dormiu. Exausta de feliz, exausta de verdades.

Existirá algo mais encantador que o desejo puro e simples de uma mulher?

Leila Rodrigues

sexta-feira, 18 de março de 2011

A dieta

Bastou um olhar diferente dele, para uma parte malquista que ela tem no corpo, localizada entre os peitos e o ventre, para, no dia seguinte a sua vida mudar completamente.
A primeira tarefa seria terminar de vez o relacionamento que mantinha há anos, com o pão de queijo e o café com leite. Dificílimo, mas ambos tinham que entender que aquele triângulo amoroso um dia não ia acabar bem. 
O segundo passo era suprir a dispensa de munição suficiente e adequada para a guerra. Voou para o supermercado e se esbaldou. Linhaça dourada, leite de soja, pó de feijão branco, lactobacilos vivos, mortos, ou agonizantes e ainda 25 tipos de sopas instantâneas e maravilhosas ligth, diet, e todas o ight que ela viu pela frente. A cada item que pegava, imaginava um número a menos no manequim. Quando viu a conta, teve aquela secreta vontade de trocar tudo por batatas chips, biscoitos recheados e refrigerantes. É certo que ficaria muito mais em conta; sorriu amareladamente para a moça do caixa e pagou. Precisava transparecer que já estava acostumadíssima  com aquela cesta básica, nada básica.
Hora do almoço. Encheu o prato de alface e foi caminhando por aquele corredor infinito de possibilidades pecaminosas fingindo-se de cega, surda, muda e saciada. Chegou na carne, sua grande perdição. Serviu-se de um frango grelhado desbotado. Olhou para "aquilo" como se o coitado estivesse muito doente. Novamente aquele risinho, agora deliberadamente amarelo brotou-lhe dos lábios.
E assim passou o seu primeiro dia, contando cada ml de água pra chegar nos dois litros recomendados; não apareceu no cafezinho e ainda passou no mercadinho pra pegar umas frutas fresquinhas como acompanhantes noturnas.
Quando entrou em casa, experimentou o ápice de sua saga. A geladeira, aquele aparelho até então companheiro de suas ansiedades,  aflições, alegrias e demais devaneios, havia se transformado num monstro de sedução. Cantava, assobiava, e não é que a danada parecia até dar uma reboladinha convidando-a para abrir as portas da esperança. Aquilo sim era uma tortura russa. Resistir a abrir aquela porta. Imaginava o presunto dormindo geladinho lá dentro, o queijo canastra, a mousse de chocolate... Isso sem falar nos líquidos. 
Não suportou tamanha pressão e resolveu fazer uma caminhada. Suar, movimentar, seria o melhor remédio. E lá foi ela!
Na volta, depois de ter suado suas culpas e bufado seus remorsos, ela ouve um "gostosa" de um transeunte qualquer. Aquele sim, era um sujeito inteligente. Deve ser um executivo. Não, um empresário bem sucedido! Enfim, não interessa. Ficou tão feliz que resolveu comemorar. Pediu um chope e bolinhos. Começava assim outro triângulo amoroso...

Leila Rodrigues

quarta-feira, 16 de março de 2011

O quadrado

Todos os dias ele gostava de ficar naquela varanda. Quem passasse pela rua naquele costumeiro horário, já vinha sabendo que ele estaria ali, sentado, observando o movimento. No segundo andar daquela casa simples, perdida no meio de um monte de prédios, ele se ajeita toda tarde naquele quadrado de um metro e meio para ver a vida passar. E eu senti uma curiosidade gigante em conhecer aquele senhor, em saber que graça teria ficar todo dia ali naquela varanda. Eu quis saber um pouco mais sobre... E foi aí que ele me falou:
- Ah! Meu pequeno mundo! Daqui eu vejo tudo, eu sei de tudo. Eu me encanto e desencanto. Esse quadrado é a melhor parte do meu dia.
Daqui, desse meu quadrado lúdico, eu vejo a vida acontecendo no vai e vem das pessoas. Pelos seus passos, pelas suas horas e pelos seus olhares eu enxergo o que nem eles mesmos vêem, porque a pressa não lhes permite.
Posso ver os decotes das moças e seus peitos ávidos pra pular fora das roupas. Quer satisfação maior que essa? Aqueles peitos sorriem para mim todos os dias. Eu sinto daqui a tristeza deles quando não podem me ver. Peitos femininos amam o olhar de um homem e isso eu ainda posso oferecer.
Vejo as mulheres carregando seus filhos, algumas orgulhosas e carinhosamente; outras tristonhas e desesperadamente. Daqui da minha janela, eu sei que o grande peso não vem dos filhos, mas das escolhas erradas de outrora.
Eu vejo os cansaços do dia de trabalho, o ombro curvado do peso da responsabilidade que as pessoas carregam. Tem ainda aqueles que pisam firmes, geralmente sisudos, desconfiados e sempre apressados. É! Conseguir o quadrado maior e mais bem posicionado dá muito trabalho. Pena que a felicidade nem sempre segue esta mesma proporção.
Sabe filha, eu agradeço todos os dias por essa varanda. Eu troquei um quadrado que tem lá na sala por este aqui. Emoções pagas pela audiência. Falso demais. Aqui, tudo é de verdade, é real. Posso sentir que o amor ainda existe ao ver um casal unido ou me emocionar com as pessoas superando seus limites. Posso comprovar como o tempo passa para todos, posso me divertir com o riso fresco dos jovens e ainda sorrir com as travessuras dos meninos.
Se eu acho que isso é falta de vida? Claro que não! Isso aqui é uma grande escola. Eu já vivi em quadrados melhores e muito maiores, gastei e me desgastei muito para consegui-los. Grande ilusão! Quanto mais o tempo avança, mais nossos quadrados reduzem. E se o final de todos nós será num quadrado mínimo, isso não me incomoda mais. Eu resolvi fazer desses meus momentos de quadrado, os melhores!

Leila Rodrigues

sábado, 12 de março de 2011

Quando você se foi

O que é a dor da perda? 
Um buraco no peito, um vazio na sala
O cheiro sem corpo no ar
Um filho, um pai, um amor
Um cão, um amigo, um irmão
A dor independe do laço
O desejo do abraço 
Se perde no espaço...

Quando você se foi..

Que vazio é este que se fez em mim?
Desde que você cruzou aquela porta afora, 
parece que a minha vida se foi com você.
Cade aquele tanto de vida que eu tinha pra viver?
Cade a minha correria?
Cade o meu dia-a-dia?

Não sei onde estão meus atos, 
meus fatos,
meus pertences de fato.

Que poder é esse o seu
que levou consigo a minha fome, 
o meu sono,
a minha sede? 

E agora eu fico aqui, 
achando os dias imensos,
os frios intensos,
as noites sem fim.

Insisto em te buscar
meu silêncio  te grita
Que graça tem voltar à vida
se você não está mais lá?

Que vazio é esse, que se fez aqui?
Estou mais em você
Do que em mim

Vamos mudar de rumo
Você segue, eu fico aqui 
Te liberto pro caminho
E volto de volta pra mim...

Leila Rodrigues

E por falar em loucos

A convivência com o outro (seja nas relações afetivas ou de trabalho) faz com que as pessoas conheçam o seu melhor e o seu pior, seus defeitos e suas qualidades. Isso acontece com as duas partes e provoca um pavor quando um dos lados percebe que foi descoberto. O ser humano, diante da proximidade do outro, tende a gastar muito tempo e energia procurando camuflar seus possíveis defeitos ou dificuldades. É como se tivéssemos uma grande necessidade da perfeição e em decorrência disso, o erro precisa ser escondido, precisa ser mascarado, camuflado ou desviado para alguém. Para atingir esse objetivo de esconder seus medos, suas neuras e dificuldades, cada um usa de uma forma, é um vale tudo! Seja  em pequenos problemas ou em dificuldades sérias; impasses, discussões, negociações ou em coisas mínimas do dia-a-dia, não importa o tamanho da batalha, o ser humano é o mestre do subterfúgio. 
Uns se fazem de vítima, choram, sofrem, se intimidam. São os coitados de plantão. Eternos doentes, sofridos e abandonados. Ate quando o cachorro dele foge, ele diz que foi abandonado. Se você ameaça contar que fez um exame, ele responde contando a cirurgia que fez há dez anos atras.
Outros são dramáticos, verdadeiros artistas. Fazem shows de alegria, de tristeza, de euforia ou de histeria mesmo, tudo isso para conseguirem seus objetivos. São geralmente falantes, tem grande dificuldade de ouvir o outro, mesmo porque, para esses, o outro pouco interessa. 
Há ainda os explosivos, aqueles que andam com uma bomba amarrada no corpo o tempo todo. Não podem nunca ser questionados, cutucados,  cobrados ou ameaçados. A resposta dele será acender o fósforo e queimar todo mundo a sua volta. Coitado! Adora ver o fogo bem alto e a reação de medo dos outros mediante a loucura dele. Geralmente gosta, sabe e usa gritar. Falam bem alto, que é pra todo mundo ouvir e já ficar apavorado de início. 
São as armas de cada um na batalha da vida. É preciso vencer simplesmente pelo prazer de vencer, mesmo quando não se tem razão. 
Mas o que nos salva, é que no meio desse tanto de loucos, ainda tem um outro, não menos louco, que se atreve a não ter vergonha de mostrar quem é. Ele sabe dos seus erros, das suas dificuldades, mas também conhece bem suas competências e qualidades. E mediante às pressões que a convivência nos impõe, ele se apresenta desarmado de modelos, mas munido de atitude. Chega disposto a ouvir, mas faz questão de também falar. Ele sabe bater, mas compreende a hora de apanhar. E embora ele também saiba chorar, representar ou gritar, ele prefere um caminho mais econômico, dialogar. Nem sempre ele vence, mas ele sempre conquista. 
Por quê chamei ele de louco? Ah! Porque só um louco se atreve a enfrentar um outro louco. Ou você acha que isso não é uma loucura?

Leila Rodrigues

quinta-feira, 3 de março de 2011

Para os meus loucos amigos

Abençoados são os loucos, de pedra, de barro, de louça. Porque podem se quebrar, e nos pedaços se descobrem de novo.
Abençoados são os loucos, porque permitem se jogar, e quando se jogam sacodem o mundo à sua volta. E nas sacudidas se desprendem. E desprendidos se juntam de novo, em combinações que nunca antes existiram.
Abençoados são os loucos que choram, que riem, que cantam, sem medo dos ecos, do volume ou do tom, sem medo das respostas que do mundo virão.
Abençoados são os loucos que vomitam seus incômodos, feito bêbados na rua; bebendo a dor da vergonha em prol do estomago limpo.
Abençoados são os loucos, que pensam o que ninguém pensou , que sonham o que ninguém sonhou, que fazem o que ninguém ousou fazer.
É por seus sonhos que o mundo cresce, é nos seus atos que o novo acontece e é no riso desprendido dos seus olhos que a criança que vive em mim se fortalece.

Leila Rodrigues

Enquanto

Ele busca o carro, ela paga as contas
Ele assiste filme, ela rega as plantas
Ela arruma os livros, ele lê jornal
Ele é bossa nova, ela é carnaval

Ele escolhe o vinho, ela faz a massa
Ele arruma a mesa, ela põe as taças
Ela pede colo, ele estende os braços
Ele é terra firme, ela céu e espaços

Ele conta um filme, ela finge entendê-lo
Ele encarna o macho, ela solta o cabelo
Ela beija sua boca, ele avança seu mar
Ele pensa em sexo, ela em dialogar

E o mundo segue igual, e os dois seguem juntos
Separados na praticidade do dia
Unidos no silêncio das almas
Não é o corpo que define a companhia
Não é o tempo que dita a intensidade
Quem pode dizer que isso não é amor?
Quem pode dizer o que isso não é?

Leila Rodrigues

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Dilema de hoje em dia

Todos os sábados elas se encontravam para um chá. Cada sábado era na casa de uma delas. Bom mesmo era o de erva-cidreira com maçã, fantástico, perfumava a casa toda, mas tinha café coado na hora e ainda chá de canela pra quem tivesse gripada. Ah e claro, comida, muita comida. Bolo de fubá, pão de queijo, queijo fresco que nunca falta nas mesas daqui... E aquele bando de mulheres conversando ao mesmo tempo. Mal sabiam elas que o prazer era a companhia, nem precisava da comida, talvez só o chá. E um queijinho que também não mata ninguém.
Mas o fato é que começaram a perceber que Celinha andava triste, falava cada vez menos, não tinha nada pra contar e ficava ouvindo as amigas só com os ouvidos, porque a cabeça estava longe.
- Ta deprimida, coitada! Dizia uma.
- Isso é hipotireoidismo! Tenho certeza! Olha o ganho de peso, eu não ia falar nada, mas ela está cada dia largueando mais, vocês não viram?
- Vocês estão todas enganadas, isso sempre tem o mesmo nome: Amante! Mulher não fica desse jeito se não for outra mulher na jogada!
E Celinha continuava lá, perdida em seus pensamentos.
Até que uma delas teve a brilhante idéia de colocar uma pergunta em discussão.
- Qual é o pesadelo de cada uma no momento?
E eis que começou o desfile de respostas:
- Dieta, tá me matando!
- Meu filho que foi pro Canadá, choro todo dia de saudade!
- Minha empregada, como sempre; ou eu mato a distinta, ou ela vai acabar comigo.
... E chega a vez da Celinha falar. Todas pararam de comer e falar ao mesmo tempo para prestar atenção.
- Meu pesadelo? Ah gente, não sei! Assim... deixa eu ver. Tem um sim, mas vocês prometem que não vão rir de mim?
- Falo logo Celinha, enquanto ele ficar guardado aí, nenhuma de nós pode te ajudar.
- Bom, meu atual pesadelo se chama Internet.
Kkkkkkkkkkk Não adiantou nada ter avisado, foi um riso geral...
- Eu sabia, vocês não me levariam a sério.
- Calma gente, deixa a coitada falar. Vamos Celinha, a palavra ainda é sua.
- Bom, todos sabem que meu marido é engenheiro de softwares e que eu vendo mudas e plantas. Lá em casa, mas parece um laboratório do que uma casa comum. Ele passa noites e noites ali, estudando, lendo, fuçando, buscando. Parece que quanto mais busca, mais precisa buscar. Fala um monte de nome estranho, que eu não sei o que é e nem para quê serve. Up grade, download, Bluetooth, wirelless... Isso está me enlouquecendo.
Tenho me sentido uma estranha no meio daquele universo. Um dia desses, me chamou correndo pra ver que ele tinha conseguido falar com um amigo dos tempos de faculdade que agora está morando no México. Depois, falou com não sei quem que não via a quinze anos. Puxa vida, tudo isso é lindo, entendo perfeitamente, mas aqui, no tímido banco da minha insignificância tecnológica eu percebo que assim como até as armas foram criadas para o bem e a coisa dispersou a tecnologia também está indo para o mesmo caminho. Se esta evolução tecnológica traz de volta quem está longe, ela afasta quem está perto. Vejo a minha filha no shopping com as amigas, cada uma falando no celular. Dispensa-se quem está aqui do lado, pra buscar quem está lá do outro lado. Pra quê dormir comigo, se ele pode dormir com qualquer outra companhia, à distância? É cada um conectado com uma pessoa distante e cada vez menos conectado com quem está no quarto ao lado, na sala ao lado debaixo do mesmo teto.
Silencio mortal. Todas elas se entreolharam, ninguém ousou dizer uma palavra.
- Já sei amiga! (Falou a mais corajosa delas.) Tudo que você disse é fato e em algum momento uma de nós aqui viveu um desses papéis. Mas, se você não pode com eles, junte-se a eles! Nós vamos te tirar desse lugar.
A partir daquele dia a vida de Celinha mudou completamente. Hoje ela tem seu próprio computador, email, facebook. Aprendeu a projetar jardins, criou uma página para os seus projetos, reencontrou suas amigas espalhadas pelo mundo e não tem tempo para mais nada.
Ah! O marido? Tá deitado esperando ela terminar esse texto!

Leila Rodrigues

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O herói do meu silencio

Gosto de São Paulo. Gosto de andar pelas ruas de São Paulo. Me sinto a pessoa mais comum do mundo, mas também me sinto parte dele, ainda que ínfima e isso é tudo de bom!
Ali, naquele diversidade louca, onde se tem pessoas de todos os tipos, de todos os jeitos, de todos os gostos, de todas as tribos, de todos os lugares; eu me perco e me encontro.
Me perco no meio de tanta gente, de tantas opções e me acho nas minhas escolhas, nas minhas atitudes e decisões.
Como seria um mundo sem diversidade? Já pensou, uma cidade só de adolescentes, outra só da terceira idade, um estado só de balzáquias, outro só de gays, que horror!
Cada um na sua, no seu... no seu telefone, no seu carro, nas suas máscaras, nos seus clubes, nas suas redes, nos seus grupos. Sim, nos seus grupos, nas suas comunidades.
Hoje existe comunidade para tudo, até para os sem interesse em se comunicar, pode? É comunidade das bordadeiras, dos abstênios, dos anônimos (de qualquer coisa), das mães das crianças portadoras de pancreatite, dos mecânicos, dos opaleiros... e por aí vai, sem falar nos tradicionais e conhecidíssimos grupos que já tomaram fama mundial.
Incrível como as pessoas vão se encontrando, vão se juntando, vão se formando. É como se buscassem os seus pares, os seus irmãos espalhados pelo mundo, qualquer um que tenha as mesmas opiniões, os mesmos interesses, para então curtirem juntos suas opções comuns.
Eles se acham, se entendem, se defendem, se formam. E uma vez formados eles nunca mais são um só. É como se juntos eles criassem uma força avassaladora, um poder que não se explica numa conta matemática onde um mais um são dois, porque um mais um, neste caso, são vinte e cinco.
Quantos pecados mortais antes guardados a sete chaves, hoje são discutidos, impressos, legalizados, defendidos! Quantas idéias e opiniões ocultas isoladas durante anos, hoje viraram leis, livros, cotidianos.
Herói do meu silêncio é você que puxou este cordão, que foi o primeiro da fila, que pagou o preço alto desta coragem. Você que mostrou sua cara, que escancarou seus valores, ou que, discretamente abriu sua boca e começou tudo.
Você é um herói. O herói do meu silêncio.

Leila Rodrigues

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A mesa

Todo dia aquela mesa estava ali, estática, paralisada, amortecida. Todos passavam para lá e para cá e a coitada continuava ali. De vez em quando alguém colocava um papel por alguns minutos enquanto tomava uma água ou falava com alguém, outros se encostavam nela enquanto esclareciam um problema qualquer com um dos colegas. Ninguém sabia nem a cor daquela mesa, também, com aquele forro pardo e um plástico por cima, a coitada não tinha identidade. Não havia bancos ao seu redor que era para não ter perigo de alguém sentar para tomar um cafezinho e demorar. Eu de vez em quando me questionara se aquela mesa não seria um patrimônio dos primeiros moradores da casa que foram embora e não tiveram coragem de levar a mesa, tal a sua falta de expressividade. Cheguei a imaginar, no auge dos meus devaneios, o quanto a pobrezinha deve ter sofrido. Ser abandonada pelos próprios donos, que triste fim, ou melhor, que triste continuidade, já que a coitada ainda estava ali e em boas condições de uso. Era uma mesa numa sala quase vazia. Ou seria uma mesa vazia numa quase sala? Não sei.
Naquela segunda eu cheguei ávida por um café e quando entrei na copa, levei um susto. O que foi que aconteceu com a mesa????
- Dorotéiaaaaa!!!!! (a nossa copeira), o que foi que fizeram com a mesa?
- Sei não senhora dona Luiza. Cheguei aqui hoje as 06:00 da manhã e ela já não estava mais aqui. Graças a Deus, menos uma coisa para limpar.
- Perguntei pro Julinho, pro Fernando (que são da administração e sempre sabem o fim de tudo), mas nada, ninguém sabia.
Bom, no primeiro dia todos comentaram da “coitada”. Até aqueles que nunca nem olharam pro lado da fadada, porque nunca entram na copa, foram até lá para saber como ficou a sala sem a “dita cuja”. Parecia morte de ex-celebridade, todo mundo tem um comentário a fazer do defunto. Não faltam elogios, nem difamações...
No segundo dia acho que só eu me lembrei da mesa. Tudo seguiu igual...
No terceiro dia chegaram três mesinhas novas, aquelas bem fraquinhas, feitas para uma pessoa só, que durariam coisa de dois anos, no máximo. O escritório estava crescendo, a copa viraria mais uma sala para a equipe de RH que não tinha lugar pra ir...
E os dias se passaram... E como qualquer outro escritório em qualquer lugar do mundo, fomos todos pra casa do Edgar tomar uma cervejinha depois do expediente. Edgar estava de casa nova, tinha acabado de assumir seu namoro com o Jonas e resolveu ter seu próprio canto. Edgar é daquelas pessoas que vê beleza em tudo, tem um olho clínico. Basta ele ajeitar a gola da minha camisa e eu tenho certeza que fiquei dez vezes melhor. Poucos homens nascem com este dom.
Então, eis que cheguei na casa do Edgar para a nossa cerveja e a minha primeira surpresa foi então: a mesa!
Me emocionei! Juro! Fiquei uns quinze minutos ali diante dela. Eu a reconheci pelos pés, aliás eu achava que eu era a única pessoa que conhecia aqueles pés. Me enganei, o Edgar também.
Pasmem! Ela estava lá, num canto, linda! Cheia de apetrechos, livros, flores, abajur, tudo de bacana. Debaixo dela, caixas, malas antigas e um vaso. Acima dela descia do teto uma luminária que deixava tudo dourado... um luxo.
Vou confessar, quis ser aquela mesa. Fiquei um tempo ali, contemplando aquele canto lindo e conversando com a mesa.
- Que bom te ver aqui e te ver assim tão bela, tão cult, tão imponente. Para você que soube, calma e tranquilamente, esperar o seu dia de brilhar eu ofereço o meu sorriso e a minha admiração. E espero, sinceramente, que eu consiga dar na minha vida a mesma guinada que o Edgar deu na sua.

Leila Rodrigues

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Primeira Palavra

Sempre gostei de escrever. Quando estava feliz, escrevia meu sorriso; quando triste, chorava no papel. Mas, principalmente quando não conseguia dizer o que me cabia na alma, usei das letras para me expressar.
Pelas palavras pude entender o quanto a felicidade é simples e é exatamente isto que eu procuro dizer em tudo que escrevo.
Geralmente quem gosta de escrever, gosta de ler. E não poderia deixar de lembrar aqui das minhas duas grandes inspirações: Adélia Prado e Rubem Alves. São eles que, nos momentos de desânimo, me devolvem a vontade de escrever.
Adélia me lembra minha mãe, pessoas que traduzem por si, sabedoria e grandeza no jeito tão simples de ser. Limpas e descomplicadas, gigantes e incansáveis.
Rubem Alves é como um mentor, é quem me ensinou que amadurecer, ou envelhecer, como queiram chamar, é fascinante. Gosto mais de mim depois que li vocês dois. E um dia, ainda hei de encontra-los, para reverenciá-los como bem merecem.
Em comum, somos mineiros. Conhecemos e vivemos a simplicidade de ser feliz!

Palavras por quê?

Palavras porque revelam,
palavras porque retratam,
palavras porque dividem,
palavras porque se fundem...