quinta-feira, 26 de maio de 2011

De volta para mim

Comecei a ler um livro do Dalai Lama. A serenidade budista sempre me interessou muito. Para minha grande surpresa, o que me chamou mais atenção foi uma frase dele que dizia que, feliz é aquela pessoa que consegue rir de si mesma. Esta frase ficou na minha cabeça.
Comecei então a me observar mais. Queria saber se eu me encaixava nesta pessoa que conseguia rir de si mesma. Sempre fui uma pessoa palhaça. Fazer o outro rir, para mim não é difícil. Mas daí a rir de mim mesma é muito diferente.
A dúvida era descobrir se eu estava mais pra Hitler do que pra Charles Chaplin de mim. Não que eu seja uma pessoa cruel comigo, mas o fato é que a responsabilidade ocupa um espaço grande demais em mim.
A luta por sermos bons profissionais, bons maridos, boas esposas, bons filhos, bons pais, preparar o futuro, garantir o conforto da família, bater as metas, manter a forma, a libido e o sorriso é insana. Vencemos a luta e perdemos a essência.
Ingenuidade, brilho nos olhos, encantamento e atenção se perdem no meio da quantidade de compromissos que firmamos conosco. Com o objetivo de chegar neste lugar imaginário de realização, vamos nos deixando um pouco a cada dia pelo caminho. Quando se percebe, o eu ficou para trás. Quando se chega a este lugar tão sonhado, quem chega já não somos nós, mas um ser transformado pelas exigências do caminho.
Fui me achar lá num cantinho de mim. Tão pequena, tão sorriso, tão verdade. Capaz de achar a vida boa e linda sem nenhum motivo aparente, simplesmente porque eu fazia parte do todo. Capaz de rir do meu desconhecimento, de achar graça dos meus erros e me encantar com meus acertos.
Sem o compromisso de ser boa em tudo e sem meta pra bater eu sai por aí. Cabelo molhado, pé no chão. Laranja no pé, horta, café com queijo são fragmentos de mim. São prazeres tão simples e tão meus que já fazem parte de mim. Ainda que eu os faça só de vez em quando, eles me trazem de volta a mim mesma.
No tempo da chapa, admitir os meus cachos e achá-los lindos. Na era do peitão, comprar feliz um sutiã quarenta e dois. Rir da minha falta de jeito para bordar, para pintar, para fazer doces. Saborear o prazer de ter o samba no pé. Assobiar sem preconceito. Voar de asa delta. Chorar no cinema. Esta sou eu e é desta que eu gosto. Me alimento disso pra sobreviver.
Talvez eu ainda não consiga rir de mim. Dalai Lama, eu ainda tenho muito que aprender. Mas já consigo sorrir pra mim, consigo achar que é muito bom ser esta pessoa que sou. Um bom começo. 

Leila Rodrigues

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