quarta-feira, 16 de março de 2011

O quadrado

Todos os dias ele gostava de ficar naquela varanda. Quem passasse pela rua naquele costumeiro horário, já vinha sabendo que ele estaria ali, sentado, observando o movimento. No segundo andar daquela casa simples, perdida no meio de um monte de prédios, ele se ajeita toda tarde naquele quadrado de um metro e meio para ver a vida passar. E eu senti uma curiosidade gigante em conhecer aquele senhor, em saber que graça teria ficar todo dia ali naquela varanda. Eu quis saber um pouco mais sobre... E foi aí que ele me falou:
- Ah! Meu pequeno mundo! Daqui eu vejo tudo, eu sei de tudo. Eu me encanto e desencanto. Esse quadrado é a melhor parte do meu dia.
Daqui, desse meu quadrado lúdico, eu vejo a vida acontecendo no vai e vem das pessoas. Pelos seus passos, pelas suas horas e pelos seus olhares eu enxergo o que nem eles mesmos vêem, porque a pressa não lhes permite.
Posso ver os decotes das moças e seus peitos ávidos pra pular fora das roupas. Quer satisfação maior que essa? Aqueles peitos sorriem para mim todos os dias. Eu sinto daqui a tristeza deles quando não podem me ver. Peitos femininos amam o olhar de um homem e isso eu ainda posso oferecer.
Vejo as mulheres carregando seus filhos, algumas orgulhosas e carinhosamente; outras tristonhas e desesperadamente. Daqui da minha janela, eu sei que o grande peso não vem dos filhos, mas das escolhas erradas de outrora.
Eu vejo os cansaços do dia de trabalho, o ombro curvado do peso da responsabilidade que as pessoas carregam. Tem ainda aqueles que pisam firmes, geralmente sisudos, desconfiados e sempre apressados. É! Conseguir o quadrado maior e mais bem posicionado dá muito trabalho. Pena que a felicidade nem sempre segue esta mesma proporção.
Sabe filha, eu agradeço todos os dias por essa varanda. Eu troquei um quadrado que tem lá na sala por este aqui. Emoções pagas pela audiência. Falso demais. Aqui, tudo é de verdade, é real. Posso sentir que o amor ainda existe ao ver um casal unido ou me emocionar com as pessoas superando seus limites. Posso comprovar como o tempo passa para todos, posso me divertir com o riso fresco dos jovens e ainda sorrir com as travessuras dos meninos.
Se eu acho que isso é falta de vida? Claro que não! Isso aqui é uma grande escola. Eu já vivi em quadrados melhores e muito maiores, gastei e me desgastei muito para consegui-los. Grande ilusão! Quanto mais o tempo avança, mais nossos quadrados reduzem. E se o final de todos nós será num quadrado mínimo, isso não me incomoda mais. Eu resolvi fazer desses meus momentos de quadrado, os melhores!

Leila Rodrigues

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obridada pela visita. É muito bom ter você por aqui!
Fique à vontade para deixar o seu recado.
Volte sempre que quizer.
Grande abraço