sábado, 9 de abril de 2011

A luta

Porquê dentro de mim reside esta luta insana? Porque entre eu e eu travamos este eterno confronto?
De um lado meu corpo cansado pede socorro, de outro, minha mente atordoada insiste em continuar. Planeja, calcula, relembra, refaz, manipula, simula e insiste em não parar.
Como um filme em alta rotação, me passa na mente todos os filmes que vivi,  alguns que nunca vivi e os que eu penso que ainda viverei. Tudo num só instante. Tudo num só segundo. 
O confronto entre eu, eu mesmo e as Irenes que vivem em mim, me desintegra por completo.
Meu lado insano vem trazendo o riso, meu lado exato quer protocolar.
Parte de mim é fogão de lenha, estrada de chão, som de cigarra.
Outra parte é sinal de trânsito, engarrafamento de compromisso.
Parte de mim tem hora marcada, fila de espera, senha de acesso. 
Outra parte perdeu o lenço, o documento; caiu na estrada.
Parte de mim é equação, outra parte refrão. 
Parte de mim é personagem, outra parte confissão. 
Parte de mim é cimento, outra parte pensamento.
Desintegrado de minhas partes não sou parte de nada. 
Sou um monte de pedaços, um aglomerado de intenções que atua isoladamente em pontuadas situações. 
Minhas raízes se enterram em busca de um chão, minhas folhas seguem o vento a procura de emoção. 
E eu, pobre tronco, resido na esquina eqüidistante desses dois extremos. 
Alguém pára esse trem que eu preciso descer. 
Descer e caminhar meu caminho, ouvir o som da minha fala, entender o ritmo dos meus passos. 
Tomar de volta a propriedade de mim mesmo. 
Sou tantos, sou nenhum. 
Sou dúvida, sou resposta. 
Sou mentor, sou aprendiz.


Dedicado às Dudas, Júlias e Marcelas. Meninas de verdade, que têm a coragem e a sensatez de se mostrarem "não inteiras", sem medo do que vem depois.

4 comentários:

  1. Blog e textos muito bons, Leila. Em "A Luta!", coerências e incoerências de ser e do ser.
    Abraço.

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  2. Maravilhoso, sem palavras! Muito obrigada Leila!

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  3. Leila, adorei a paráfrase à Oswaldo Montenegro em sua música metade". Afinal, "metade de mim é amor, e a outra metade... também"

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  4. É incrivel como os questionamentos dos seus textos são parecidos com os meus...talvez porque todo mundo se questione de alguma forma...talvez porque sermos humanos seja isso mesmo, nos interrogar, nos questionar...
    Somos parte de um todo, inclusive partes de nos mesmos, partes essas que nos transformam no universo particular de Solange, de Leila, de Dudas enfim...partes que nos fazem ser quem somos e como somos.
    AMEI o texto!

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