terça-feira, 26 de julho de 2016

Ressaca Moral


A cabeça doía. O estômago queimava e o fígado dava seus sinais de que não estava bem. Mas tudo isso passaria com um chá de boldo, gelatina e limonada. O pior estaria por vir. A ressaca física castiga nossos órgãos mas a ressaca moral, essa não tem remédio! 
Eu tinha que me levantar, o sol já estava alto e a vontade de tomar um bom banho me impulsionou a agir. Agradeci por ser domingo. Já imaginou ter que trabalhar neste estado? 
De todas as lições que podemos tirar deste dia provavelmente a mais importante é a de que todos nós, em algum momento, seremos frágeis, fracos, vulneráveis. Todos nós, um dia, vamos precisar de alguém que cuide de nós. Até o mais poderoso dos mortais vai precisar ser cuidado. É aquele momento em que descemos da cadeira do poder e ocupamos a última cadeira da fila, a dos necessitados. 
O que doe é saber que não conseguimos ser forte o bastante. Doe saber que não conseguimos lucidez suficiente para dizer basta. Isso prova que eu também ainda tenho muito que aprender. Isso prova que eu sou uma cidadã comum e não alguém imaculado acima do bem e do mal. Eu de certa forma estou feliz, nada mais reconfortante que aceitar e reconhecer que não somos perfeitos. O peso da perfeição impede nossos passos e caminhar sem bagagens é bem mais prazeroso. 
Além do mais, a vida é um experimentar de papéis opostos. Um dia somos mocinhos, no outro bandidos. Um dia somos fortes, no outro fracos. Um dia ensinamos uma lição, no outro somos aprendizes delas. Um dia estamos com a razão, no outro dia a encontramos do lado de lá...
Resta-me aceitar que ontem foi um dia de fraqueza da minha parte e que amanhã eu terei outras oportunidades de mostrar a minha força. Não importa a origem da sua ressaca, pode ser que você tenha exagerado no álcool, na comida da festa, na língua afiada ou na maldade camuflada contra alguém. Tudo isso são falhas que geram em nós uma ressaca moral. A famosa vergonha do dia seguinte. Aquela que temos  dificuldade de contar até para nós mesmos.  A vergonha de ter feito, de ter dito, de ter desejado, de ter trazido à tona aquele lado escuso que até então ninguém conhecia. 
Para mim, resta agora  limpar tudo que eu sujei  e começar a minha semana. Eu, eu mesma e a juíza que vive em mim! Ela sim sabe puxar a minha orelha sempre que eu preciso e me fazer voltar para a linha quando eu saio dos trilhos.


Leila Rodrigues


Publicado no Jornal Agora Divinópolis
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Olá pessoal,

independente da escolha de ingerir álcool ou não, todos nós temos nosso dias de ressaca. É aquele dia que fizemos algo  que temos certeza de que não deveríamos ter feito. Todos nós já experimentamos essa “ressaca”. Eu, você e qualquer outro mortal.
Que esses dias nos sirvam para alguma coisa!
Nem que seja para fazer uma boa desintoxicação do fígado.

Grande abraço e mais uma vez muito obrigada pela visita aqui no Palavras.

Leila Rodrigues






sábado, 9 de julho de 2016

Com amigos


Há alguns dias fui a um restaurante com uma turma de amigos. Éramos 10 pessoas. No restaurante éramos a única mesa grande, as demais tinham, no máximo 4 pessoas e todos casais.
Fiquei sentada de frente para as outras mesas e pude ver o quanto a minha turma incomodou os demais. Tudo era motivo de riso, uma pessoa de uma ponta conversava com o outro da outra ponta, as piadas eram ouvidas pelo restaurante inteiro, enfim, nós avacalhamos a noite de alguns. Sinto muito. É que, com amigos a coisa muda de figura. 
Com amigos é fácil rir, é fácil falar alto, é fácil experimentar aquele prato esquisito e por que não provar aquela bebida que você jurou que nunca provaria? Risco compartilhado fica mais leve de se correr. Esse é o poder dos amigos!
E algumas coisas são realmente impossíveis de se fazer se não houver uma turma de amigos com você. Só com amigos você se dispõe a soltar o corpo e cair na dança. Só com amigos você põe aquele chapéu de mexicano na cabeça, só com amigos você se aventura no Karaokê. Já viu alguém chegar sozinho no Karaokê e cantar? Dificílimo!!! Mas os amigos existem para isso, para te dar a coragem que até então você não teve! 
Com amigos você não perde tempo, você usufrui do tempo. Com amigos você não gasta dinheiro, você investe em diversão. Com amigos você fica até o sol raiar, faça sol, faça chuva ou faça um frio de matar. São eles e por eles que nos aventuramos!
Com amigos você esquece que é velho ou que é novo e fica tudo bem. Com amigos a dieta vai embora, a dor nas costas vai embora e a pre-ocupação também. Sabe por que? Porque amigos ocupam nossos espaços temerosos. Amigos acalentam sem dizer, acalmam simplesmente pelo fato de nos fazerem companhia. Eles trazem de volta a infância perdida no meio de tantas responsabilidades. 
E a natureza das amizades é tão perfeita que em todo grupo de amigos tem sempre um que toma conta do resto, um que leva todos os remédios possíveis na bolsa, outro que é o motorista da rodada, outro que fica de olho na conta e faz a contabilidade do time e ainda aquele que é mais engraçado  que os outros e garante a diversão dos demais. Isso tudo naturalmente escolhido. 
Abençoados sejam eles, os amigos nossos de cada dia, que ninguém explica direito como se formaram e nem como se completam tanto, mas que todos nós sabemos que são o lado doce de nossas vidas salgadas.

Leila Rodrigues


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Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos


Olá pessoal, 

já estive do lado de lá da mesa. Já fui a lugares sozinha onde havia uma turma de amigos se divertindo. Não me lembro de ter ficado incomodada, mas sei que à vezes incomoda sim. E peço desculpas pelas vezes que incomodei. 
Hoje quis relatar a importância das amizades em nossas vidas. Eu que era uma workaholic de carteirinha posso dizer que os amigos mudaram a minha vida e me fizeram ser uma pessoa mais leve. Hoje dou sim importância para esses momentos mágicos em que estamos juntos.
Tenho a turma da gastronomia, a turma dos trairas, a turma do duvido, a turma do trabalho, a turma do rock e a turma das mães. Em cada uma delas um afinidade diferente. Mas em todas, o respeito, a admiração, o carinho uns pelos outros e a leveza de viver. Esta sim é a minha bandeira. 
Sejamos leves! Por que os fardos já são pesados por si.

Grande abraço 



Leila Rodrigues

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Troque o verbo


No princípio era o verbo, já dizia a Bíblia. E no meio também! No meio, no fim, antes, durante e depois. Viver é praticar verbos. Dormir, acordar, comer, trabalhar, andar, correr, cuidar, administrar, escolher, calcular, viajar, estudar.. ufa!!! Muitos verbos para um sujeito só. Daí a explicação para nossas doenças, nosso stress, nossa insanidade controlada. 
Estamos todos ocupados demais praticando nossos verbos. Será que o tempo é curto para tantos verbos? Ou quem sabe não estamos praticando o verbo errado? 
Há quem passe o tempo todo praticando o verbo curtir. Mas não tem curtido a própria vida. Há quem pratique exageradamente o verbo trabalhar e em contrapartida não pratica alguns outros verbos como divertir, passear. Geralmente a turma do verbo exercitar, pratica outros verbos congruentes como correr, nadar, pedalar, malhar e contar (neste caso calorias, kms e medidas). 
E existe a turma dos novos verbos, logar, dropar, bootar, debugar, que é quase um outro idioma. Tem nome que já virou verbo - Caetanear.
Tem gente que há anos pratica o mesmo verbo. Já virou gerúndio! Está sempre terminando, separando, esperando, confirmando, querendo, aguardando… mas fazendo mesmo que é bom, nada!
Eu pratico muito pouco o verbo esperar. Sou daquelas ansiosas que não aguentam. Então troquei os verbos esperar que sempre precede o verbo desesperar pelos verbos respirar, caminhar, tomar (um café), ocupar (me). Não é que deu certo?  Estou melhorando! 
Cada um sabe as trocas que tem de fazer para a vida fluir melhor. A receita não vem de mim, nem de um livro de auto ajuda qualquer. O importante é sair do lugar comum e se arriscar. Fazer o que nunca se fez. Se você religiosamente pratica o mesmo verbinho, experimente praticar um verbo diferente. Troque o verbo preocupar pelo verbo ocupar. Troque o verbo consumir pelo verbo usufruir. E nunca pratique o verbo arriscar sem antes praticar o verbo pensar.
Para os ciumentos, troque o verbo vigiar pelo verbo amar. É tão cansativo ter que vigiar o outro! E tão revigorante simplesmente amar.
Para os apressados, troque o verbo correr, pelo verbo espairecer. É um verbinho antigo, parece coisa de roceiro, mas que tem um significado restaurador.
Para os preguiçosos de plantão, troque o verbo assistir pelo verbo fazer. Faça alguma coisa meu filho! Sai dessa cadeira de expectador e vai viver!


Leila Rodrigues

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Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos


Olá pessoal,


Este texto foi inspirado em um anúncio antigo de um curso de português que dizia, "Pratique um verbo melhor”. O anúncio, claro, se tratava da gramática, da concordância que até hoje ainda precisa de muito trabalho. Gostei da frase. Gosto de imaginar que podemos sim escolher verbos melhores para praticar. Nesses tempos líquidos em que tudo é tão rápido e descartável, sinto falta de verbos mais sólidos, que façam valer a pena. 
No mais, gostaria de aproveitar a oportunidade e agradecer a você pela visita, por disponibilizar o seu tempo aqui no Palavras e principalmente por divulgar. O Palavras começou devagarinho, como bom Mineiro e está crescendo a cada novo texto, a cada leitura sua, a cada vez que você comenta com alguém. Muito obrigada! Isso me anima e me dá vontade de escrever cada vez mais…
É o verbo “fazer" (o que se gosta) mais o verbo “encontrar” (as pessoas certas do lado de lá da telinha). 

Mais uma vez obrigada. Grande abraço!

Leila Rodrigues







quarta-feira, 22 de junho de 2016

Tudo junto e misturado



Dizem que é rodeio, que é festa do peão, do agricultor e do produtor rural. Mas de rural mesmo tem pouco. Senti falta do gado, dos cavalos bem cuidados e dos concursos de animais. Soube que aconteceu porém eu não acompanhei. Vi lindos e variados chapéus que ornavam os rapazes de jeans super-justos e fivelas grandes. E também vi belas montarias. Um espetáculo à parte.
As mulheres esqueceram a roça e usaram de tudo. Plumas, peles e paetês; tudo no mesmo lugar. Justos, curtos, decotados e bordados que nada deixavam a desejar. Look verão, alto-verão, outono e inverno na mesma noite e no mesmo lugar. Tudo junto e misturado. O importante era festejar. 
Alguns foram para ver. Muitos foram para ser vistos e todos foram para se divertir. 
E como os gostos hoje são bem ecléticos era preciso agradar a todos. E agradaram! O trio-elétrico entreteve quem não gostasse do sertanejo. A boite tinha funk, pop e aquelas músicas de poucas palavras que a moçada gosta de dançar. Então, gregos e troianos acharam seu lugar e se divertiram. 
E se o assunto é música podemos dizer que tivemos grandes  produções. Para tristeza das mais velhas, as novinhas são sensacionais. Aquele 1%  é vagabundo e  os outros 99% estão loucos para chegarem lá. A vaca foi para o brejo mesmo! E para deixar todo mundo feliz "ainda ontem choramos de saudade" das antigas e boas canções sertanejas. 
O fato é que o tempo passa e um dia percebemos que "os donos do pedaço" já não somos nós. São eles, nossos filhos, sobrinhos e demais colegas  da mesma idade. As meninas de cabelos longos e os rapazes de barba cerrada. Não importa se nós achamos a música sem conteúdo ou a mania de selfie um disparate. Agora o tempo é deles e são eles que ditam as tendências e as verdades breves. Eles elegem o que é bom ou ruim  e os padrões que regem as escolhas de hoje muito provavelmente não tem nada dos padrões que escolhemos lá atrás. Para nós país, sempre fica a pergunta: “Será que já ensinamos tudo que precisava  ser ensinado?”  Provavelmente não. Mas chega um momento em que  a vida se encarrega de ensinar tudo aquilo que precisamos aprender. Foi assim conosco e será assim com eles. É preciso aceitar que, daqui para frente eles seguirão com suas próprias asas. Resta-nos assistir com a sabedoria de quem já passou por isso e sabe que logo ali na frente, os desafios serão bem maiores que o tamanho da fivela. 

Leila Rodrigues

Imagem da Internet: http://www.divinaexpo.com.br/#!fotos

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 21/07/2016








Olá pessoal,

Tem 20 anos que eu moro em Divinópolis e é a primeira vez que fui à Divina Expô. Obrigada aos amigos que me incentivaram a ir. Foi uma grande festa e eu me diverti de verdade. 
Ficam as lições… como em cada canto desta vida.

Grande abraço e que venha 2017

Leila Rodrigues


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Cabeça feminina




Procurou na bolsa, não estava lá. Apalpou os bolsos. Também não estava. Parou, olhou para um lado, para o outro, entrou na primeira loja. Não queria comprar nada, nem sequer prestou atenção no que vendia ali. Pediu licença e colocou a bolsa no balcão. Foi tirando coisa por coisa. Saiu celular, saiu um outro celular, carregador, capinha extra de celular, batom, óculos de sol, limpador de celular e carteira. Sim ela tinha uma carteira! Tirou outra bolsa (menor de carregar as aspirinas, mais um antialérgico (poderia precisar), colírio, remédio para prisão de ventre e um relaxante muscular). Nada de achar! Continuou tirando as coisas da bolsa. Saiu mais uma bolsinha, agora com caneta, lapiseira, borracha e um bloquinho de anotações que nunca foi usado. Detalhe, ela não estuda há anos! O balcão ficou pequeno, pediu uma sacola e colocou tudo que já havia tirado dentro da sacola.
Continuou a saga. As chaves, Chave de casa, chave do escritório, chave da casa da mãe (é que ela está velhinha, posso precisar entrar lá a qualquer momento), chave do carro e chave do cofre do patrão. A esta altura a balconista já estava entrando em pânico, tentando ajudar e ao mesmo tempo se livrar dela que havia tomado todo seu balcão. Quis ser educada, trouxe uma água, ofereceu cadeira. Nada de achar.
Ligou em casa. A empregada demorou 15 minutos para atender.  - Procura na gaveta do meu criado. Atrás do sofá. Entre a poltrona e a minha cama. Na geladeira. Na gaveta das calcinhas. Nada.
Desesperada começou a suar frio. A pressão ameaçou baixar. Aceitou um café. Rezou. Ligou para a melhor amiga. 
- Como é que pode? Um investimento tão alto. Ainda nem acabei de pagar as prestações e já perdi. Já imaginou quando meu marido souber? Vai me matar! Amiga, torce por mim que o meu dia acabou. Vou voltar para casa, tomar um calmante e dormir. Desisti da academia, do médico que eu tinha hoje, de visitar a tia Luzia no hospital... Hoje eu não quero mais nada!
Colocou de volta todos os pertences da bolsa, agradeceu a atendente. 
- Muito obrigada amiga! Você me acolheu em uma hora muito difícil da minha vida. Valeu a torcida.
Ajeitou a roupa no corpo, limpou as lágrimas para sair e levou a mão na cabeça para ajeitar os cabelos. 
- Oh! Achei! Meu “Raiban” amado! Seu safado, estava aqui na minha cabeça este tempo todo! Paguei caro para você vir dos "States" e você faz isso comigo?

Leila Rodrigues

Imagem da internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis


Olá pessoal,

não importa se você é o homem ou mulher. Não importa a idade que você tenha, um dia a sua memória vai te trair. É fato! É parte do processo hormonal. E aí é ferro que fica ligado, luz acessa, porta sem trancar… enfim. Sãos os sinais do tempo. Os letais. Percebo que nós mulheres conseguimos confundir ainda mais as coisas, principalmente por essa nossa mania de querer fazer várias coisas ao mesmo tempo. Um dia embola tudo e não sai nada direito. É o preço que pagamos pelas nossas urgências.
Este texto é para todos nós, homens e mulheres que já experimentamos este momento cruel com nossas memórias. Que a gente consiga foco, que a gente consiga organizar as ideias, mas sobretudo, que consigamos achar graça em nós mesmos. Afinal, rir ainda é um bom remédio.

Grande abraço


Leila Rodrigues

domingo, 12 de junho de 2016

Sinopse



Se eu te contar que moro em Bangladesch talvez tudo acabe por aqui mesmo. Não é verdade, mas seria bem mais fácil. Pagaríamos a conta, ainda sorridentes e ao cruzar a esquina deixaríamos este momento para trás. Eu não teria que pensar se amanhã você iria me ligar ou não. Eu não teria que me preocupar em comprar um vestido preto para te impressionar, porque os homens adoram vestidos pretos e eu não tenho nenhum. Simplesmente ficaríamos aqui por mais algum tempo e sem a pretensão de te agradar, eu te contaria como foi a minha viagem a Cuba, mesmo sem saber se você tem algum interesse em Cuba.
Mas e se eu te contar que aliso os meus cabelos, que tenho mania de dormir com o dedo no ouvido e que gosto de acordar de madrugada para escrever, você vai sorrir e achar tudo isso uma graça, porque tudo no começo tem graça, até a coisa mais sem graça do mundo. 
Embora o seu sorriso me seja tão convidativo a continuar a conversa, ainda não decidi se te conto ou não. Não sei se mudo o rumo dessa história a partir da página um, ou se permito que ela se escreva do jeito que tem que ser. Talvez seja melhor contar de uma vez e assim não precisarei parar o meu tratamento noturno com creme de abacate no rosto. E nas férias, não vou precisar procurar lugares românticos com chalés e lareira. Menos trabalho.
Só vou te ouvir mais um pouco, por que gostei quando você falou que tem o CD novo do Caetano. Você nunca foi a Cuba, mas conhece a história melhor que eu que fiquei dois anos lá! Ai meu Deus! Por favor, pare logo de me dar atenção, senão eu não vou conseguir te contar os meus defeitos e amanhã toda vez que o telefone tocar eu vou querer que seja você! 
Aqui estou eu fazendo a sinopse de um livro antes mesmo dele ser escrito. Repara não, são os tombos da vida que fizeram isso comigo.
Será que vou ter que começar a chorar aqui agora no meio do bar e dizer que sou depressiva, desde os meus 13 anos, porque aí você para de ser lindo, para de ser educado e vai embora de uma vez?  
Pior de tudo é que mesmo que eu pense isso a minha boca está me traindo! Ela não consegue dizer quase nada a não ser sorrir. 
Você nem imagina, mas o meu cartão de crédito está estourado, preciso urgentemente trocar os dois pneus do meu carro e amanhã eu pego o plantão às 07:00 da manhã. Mas não sei por que fiquei feliz em saber que estivemos no mesmo show do Roger Waters, embora um nem soubesse da existência do outro. 
Que coisa mais louca isso! Se eu deveria sair correndo a vontade passou e o tempo também. Olha só, tem mais de três horas que estamos aqui conversando e eu nem vi o tempo passar. Nossa, o bar já está fechando! E eu estou indo embora com a sensação de que eu me esqueci de te contar alguma coisa! 

Leila Rodrigues


 Olá pessoal


Começar de novo não é tarefa fácil. Acompanho alguns amigos e sei o quanto isso exige coragem e um desprendimento gigantesco. É preciso colocar o passado em seu devido lugar e deixar o coração aberto para que o novo aconteça. Para voces, meus amigos guerreiros que eu tanto admiro, o meu carinho e o meu abraço. Vocês são a prova viva de que a felicidade é possível.

E que o amor “acometa" a cada um de vocês.

Grande abraço

Leila Rodrigues



terça-feira, 7 de junho de 2016

O amor nosso de cada dia



O amor nosso de cada dia

Promete que se eu falar de amor você não vai rir de mim? Não vai dizer que isso é coisa de adolescente? Nunca fui ligada a datas, mas hoje me deu vontade de falar de amor. Prometo não ser utópica, nem falar de eternidade. Não confundo amor com paixão. Hoje eu sei separá-los muito bem.  Eu já passei da fase de escrever frases no fim do caderno contornadas de coração. Hoje nem tenho mais caderno e meus desenhos de coração não seriam mais tão redondos quanto aqueles. 
É fato que não me sobra espaço na mente para lembrar de enfeitar a sua xícara no café da manhã com flores ou para simplesmente te dar um beijo demorado depois do almoço corrido de uma quarta-feira qualquer. Porém, decidi que não quero falar de amor depois que você se for. Não quero chorar pelos cantos declarando ao acaso os poemas que deixei de dizer para você. Não quero buscar você nas flores ou no canto dos pássaros sem antes buscar a sua carne e o seu osso nos dias comuns.  Não quero provar da saudade como prato principal, porque eu mesma não saboreei a ceia da tua presença.
Não que o romance tenha morrido, ele ainda vive, apenas intimidou-se. O romance mora no olhar que cruzamos e dispensa palavras, na mão que encontramos debaixo da mesa, no beijo no elevador, no momento em que você tenta, desajeitadamente, acalmar meus cabelos esvoaçantes. 
O amor que quero falar é este que faz com que eu queira que o tempo passe logo para te contar como foi interessante a aula de economia. É quando não consigo planejar uma viagem sem colocar você ou quando fico orgulhosa dos nossos filhos se parecerem tanto com você.
Dizem que o cotidiano é o devastador do amor. Que de tão comum, vamos decorando o outro e aí o romance se esvai. Eu acredito nisso, mas insisto em  fazer o jogo inverso. Quero que o cotidiano se alimente de nós dois, de tal forma que é ele quem vai ficar viciado em nós! 
Então falar de amor será falar a nossa língua, nosso código, nossas besteiras diárias. Apenas isso. 
Que a poesia de Fernando Pessoa se incorpore em nossas vidas e dizer seja desnecessário para nós dois.

Leila Rodrigues

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Olá pessoal,

Atendendo ao pedidos dos amigos, vou repostar alguns textos que selecionei.
Falar de amor é algo muito difícil. O amor é peculiar. O amor é de cada um. O amor no começo é um, no dia-a-dia é outro e no final é outro completamente diferente. Hoje estou falando do amor cotidiano, do amor que acorda cedo e não tem tempo para declarar-se. Do amor rodeado de filhos, livros e afazeres. Apesar das tantas ocupações ele existe e está presente em cada instante. E foi exatamente isso que eu quis dizer no texto acima.
Também não poderia deixar de agradecer a todos que estão compartilhando os textos nas suas redes sociais e multiplicando o número de leitores do palavras. Muito obrigada a cada um de vocês. É assim que o Palavras está crescendo. Naturalmente. Como deve ser.

Grande abraço 



Leila Rodrigues

domingo, 5 de junho de 2016

Culpa da modernidade




_ Morreu! 
_ Não. Mas ouvi dizer que está muito mal. Coitada! 
_ Será que é alguma doença grave ou velhice mesmo?
_ Como assim velhice? Se a mãe dela ainda é viva?
_ É mesmo! Não tinha me atentado para este detalhe. Certamente deve ter adoecido.
_ Pouco provável! Cheia de doutores na família. Se bem que a doença é inerente…
_ Dizem que é depressão.
_ Eu acredito.
_ Não suportou a evolução. 
_ Foi demais para seu coração enfraquecido.
_Tudo começou com o orkut. Depois vieram o facebook e por último o watsap. Ela não tinha como aguentar isso.
_ É muito vc, tb, tbm, cm, pq, s, n.
_ Sem contar os kkkkkkkk. Esse ai acabou com ela.
_ Eu soube mesmo que a pressão subiu e ela foi parar no hpt. Desculpe, no hospital.
_ Estes foram apenas alguns dos agravantes. Ela não se conformou mesmo foi com o estrangeirismo. Este sim lhe custou um câncer.
_ Me lembro. Mouse, sandwich, deletar, software, design, chech-in
_ E “for sale” em tudo que é loja. Coitada!
_ As vezes ela se queixava comigo que estava morrendo aos poucos.
_ Foram muitas teses e doutorados tentando recuperá-la, mas o movimento inverso foi mais forte.
_Todos nós sabíamos o quanto tudo isso a abalava mas ninguém interviu a seu favor.
_ Não é interviu sua imbecil! É interveio.
_ Lá vem você me corrigir! Está parecendo com ela!
_ Mas o verbo intervir deriva do verbo vir e não do verbo ver. E a conjugação de verbos compostos deve seguir a conjugação do verbo simples.
_ Agora você comeu a coitada!
_ Escuta aqui sua idiota, eu não precisei comer a Gramática para conhecer a língua portuguesa! _ _ Eu apenas não parei de aplicar o que eu aprendi.
_ Então vamos mudar de assunto senão vai virar briga. Vai visitar a pobrezinha?
_ Só se você for comigo.
_ E se eu falar errado? E se ela me corrigir?
_ Fica caladinho…
_ Mas Dona Gramática adora conversar.
_ Eu digo que você está com dor de dente. Tudo culpa da modernidade.



Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos
Imagem da Internet



Olá pessoal,

Tive alguns problemas com o blog, por isso não tivemos postagens nas três ultimas semanas. Agora já está tudo bem. Peço desculpas aos que já estão acostumados a visitar o palavras. Infelizmente ainda sofremos com invasão de nossos sites. 
Sobre o texto de hoje, imaginei nossos heróis batendo um papo. Cora Coralina, Cecilia Meireles, Drummond, Veríssimo e tantos outros defensores da nossa gramática. 
Obrigada pelo carinho de sempre.
Grande abraço

Leila Rodrigues




domingo, 22 de maio de 2016

Mãe de meninos



Sei que hoje existem mecanismos que permitem que o casal escolha o sexo do bebê. Eu sou das antigas, não escolhi. Meus meninos chegaram e pronto. Eu os recebi e os amei assim, meninos. E quem tem meninos vai entender bem a minha fala.
Ser mãe de meninos é algo inexplicavelmente bom. É conviver com um universo diferente, prático, rápido e sem muitas firulas. Quem tem a possibilidade de crescer com meninos, como eu, pode dizer que tem graduação em praticidade.
Eu fui criada no meio de meninos e hoje tenho a honra de viver com meus três meninos. Meu marido e meus filhos. Criar um menino é preparar um homem. E viver no meio deles é viver uma filmagem de Indiana Jones em tempo real. É almoçar de segunda a sexta assistindo a algum programa de esporte, ou a todos, ou àquele que estiver falando do time favorito deles. E aprender que quando o time perde, melhor não tocar no assunto, discutir neste momento é piorar a situação.
Ser mãe de meninos é entender que eles realmente nunca vão dobrar uma roupa com perfeição. A não ser que sejam profissionais da moda, isso é realmente irrelevante para eles. Aliás, para eles roupa deveria ser algo descartável. Ser mãe de menino é compreender que o silêncio quer dizer silêncio e não falta de colo ou de perguntas que nos levem a algum problema. Simples assim. Ser mãe de menino é entender que a tampa do vaso é um entrave e que condicionador de cabelos para eles é tudo igual. Como são iguais todos os tons de rosa, de azul ou de cinza.
Ser mãe de menino é morrer de ciúmes de cada mulher que se aproxime deles e que tenha alguma, a mínima que seja chance de ser a mulher da vida deles. É achar todas as meninas espertas demais para os nossos “pequenos”, mesmo que de pequenos eles não tenham mais nada.
Ser mãe de menino é incorporar no vocabulário os nomes dos games, dos jogadores de futebol, da marca do boné ou do computador mais novo. E descobrir que tudo isso faz de mim uma pessoa mais prática, mais forte e indiscutivelmente mais mulher.
Ser mãe de menino é entender que saltar, pular e lutar fazem parte do cotidiano deles. E que mesmo que eles rolem no chão, eles não vão se matar. É entrar na brincadeira, ser a prisioneira e deixar o mocinho te salvar. E quando bater aquela falta de um colo, sentir a mão quentinha deles no nosso ombro e ouvi-los dizer timidamente que tudo vai ficar bem.

Leila Rodrigues
                             
Olá pessoal,

Sou realmente uma pessoa rodeada de meninos. Nasci no meio deles, cresci com eles, me casei com um, tenho dois filhos e trabalho com um monte de rapazes. Incrível como isso muda a gente. A primeira vez que percebi foi em uma loja com duas amigas onde eu gastei 5 minutos para escolher uma roupa e elas me olharam espantadíssimas!!! Daí para frente eu comecei a observar e hoje convivo e aceito todo seu aprendizado de bom grado. Na foto eu e meus meninos, meus amores.

Grande abraço


Leila Rodrigues 

domingo, 8 de maio de 2016

Pequena Mulher



A casa dela é simples. Tem santos nas paredes e plantas em vasilhas de plástico coloridas que deixariam qualquer arquiteta incomodada, mas tudo combina. Combina com ela, combina com o seu jeito simples de ser. Ela varre a calçada toda manhã e enquanto isso conversa com todos que passam pela rua. Arruma emprego para um, serve um café para o outro e um par de sapato para o sujeito que passou de chinelo. É assim seu coração. Sem medidas e sem barreiras. É capaz de atravessar a cidade para pedir emprego para o vizinho e não está nem um pouco preocupada se a sua pele precisa de filtro solar. Tem outras preocupações mais nobres. Ela escreve bilhetinhos para os seus santos pedindo por cada um da família. Às vezes acho que ela vive mais perto de Deus do que nós.
Naquele dia ela me esperava no portão. Banho tomado, cheiro de sabonete e aquele vestido florido que eu dei no Natal de 2008 e que ficou ralinho de tanto lavar. Sorriu para mim e disse que o café estava me esperando. Tinha biscoito frito, café da hora e o cheiro inconfundível da cozinha dela no ar. 
Fiquei olhando para ela e observando os seus olhinhos brilharem enquanto falava comigo. De um jeito divertido ela contava as noticias da casa, do bairro e da cidade. O pé de graviola que está cheio de fruta, o bairro novo que abriu e o gengibre que agora está bom para apanhar. Coisas tão simples que vindo dela se tornam notícias de verdade. Impossível não se empolgar. Ela perguntava de tudo e de todos. Queria saber de mim, saber dos netos, saber de tudo. Entre uma pergunta e outra ainda dizia que eu estava bonita demais. Meu Deus, quem mais nesta vida me ama deste jeito? Onde eu vou encontrar alguém que fique tão feliz com a minha presença como esta pequena mulher? Ela não é meu cliente, não é meu fornecedor, nem está interessada em likes na rede social, ele quer a mim e isso basta. Em nenhum outro coração eu vou ocupar um lugar tão especial como este que ela me dá. 
Mãe, nada é mais mágico que o momento em que estamos juntas, usufruindo da presença uma da outra. O mundo é cheio de encantos, sem dúvida porém a sua companhia supera todas as outras opções. 
O nome dela é Dona Neusa e tudo que eu quero é um dia ter um coração parecido com o seu.

Leila Rodrigues

Publicado na Revista Xeque Mate - maio 2016 e no JC Arcos

Foto: Eu e ela - Dona Neusa - clicadas por Juliano Costa

Olá pessoal,

falar de mãe é algo tão difícil que por por mais que tentemos explicar o tamanho da sua grandeza, quando terminamos, sentimos que ainda faltam palavras. Hoje falei da minha mãezinha, Dona Neusa. Uma pessoa simples de verdade. Uma leoa quando o assunto é defender sua cria. Mas imagino  de que se eu trocasse o nome da Dona Neusa pelo de qualquer outra mãe os adjetivos continuariam tão adequados quanto. É a maternidade! É o coração desmedido de ser mãe. Hoje é o dia delas! Das nossas rainhas. E eu desejo que você, sendo filho ou sendo mãe, tenha um dia irradiado deste amor inexplicável e sem medidas.

Grande abraço

Leila Rodrigues






terça-feira, 3 de maio de 2016

Em quantos?



Enquanto um conta vantagens, a outra conta quantos faltam, o outro conta quantos vieram e aquele outro conta as moedas para comprar o pão. É conta que não acaba mais. E quem paga a conta é quem ficou para trás. Enquanto um fala a verdade o outro não fala nada e aquele outro fala dos outros. Que falazada!
Enquanto um dá um passo para frente, outros tantos dão dois passos para trás e assim ninguém chega a lugar nenhum. Enquanto um canta, o outro desencanta e nenhum dos dois entende de melodia. Há quem goste!
Enquanto uma faz qualquer loucura para emagrecer, a outra paga caro para engordar. E nenhuma das duas conhece ainda a beleza de ser. Ganhou quem inventou de modificar! Êta mercado danado que sempre arruma um jeito e um lugar para se ganhar!
Enquanto um trabalha, outros se abastecem daquilo que deu muito trabalho para executar.  Enquanto um constrói o outro desvia, enquanto um faz a ponte, outros fazem a cancela e continuamos todos desunidos, desconstruídos de nossas bases. Enquanto um ensina, o outro recrimina e um terceiro assassina. Aprender para quê se vai durar tão pouco? Já morreram a gramática e a inocência. Seria agora a vez da esperança? Eu espero que não!
Enquanto um espera, o outro se desespera e sai fazendo tudo errado. Eu tenho esperança de que um dia tudo se acerte. 
Enquanto um é mocinho, o outro é bandido e na manhã seguinte eles trocam de lugar. E agora? Quem poderá nos defender? 
Enquanto um chega o outro sai e a porta é sempre a mesma. Quem vai ou quem fica são apenas dois lados da mesma moeda. Hoje estou deste lado aqui, amanhã posso estar do lado de lá. Depende apenas do contexto, da necessidade ou de quem está contando a história. E cada um tem certeza de que está sempre do lado certo. Estas são as duas cegueiras do mundo. A certeza e o lado. 
Enquanto um tenta provar que sim, do outro lado alguém se defende, por quê não? Enquanto isso o tempo passa para todos e a vida enche de “poréns”. Desnecessários. 
Enquanto um executa, o outro planeja, o outro orienta e um outro lá de longe acredita e investe. É assim que deveria ser. É assim que deveríamos seguir. Mas para quem não sabe onde quer chegar qualquer lugar serve. Onde vamos parar?

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem: Game Age Off Empires - Série de jogos eletrônicos de estratégia para computador (retirada da internet)

Olá pessoal,

Tenho visto amizades de muitos anos sendo desfeitas devido à divergência de opiniões. Me pergunto até onde vai o direito de impor a escolha do outro e vice-versa. Cada um de nós carrega uma história, uma trajetória e um DNA. Não há como querer que o outro atenda às minhas expectativas!!
Ah se somássemos nossas competências e diminuíssemos nossos interesses singulares!!! O quão longe poderíamos ir???

Grande abraço

Leila Rodrigues