quinta-feira, 2 de abril de 2015

Maçã com canela




Tudo começou com uma pneumonia que ele teve ainda jovem. Eles mal tinham acabado de se casar. Ela assustada quis cuidar dele. Era a primeira vez que cuidava de alguém. Não poupou esforços. Por recomendação médica ela cozinhou as maçãs até ficarem bem macias e perfumou-as com uma generosa pitada de canela. Ele, acamado e sem fome se recusava a comer. E ela então se ofereceu para comerem a dois. Comeram vagarosamente enquanto conversavam. Conversavam, comiam e faziam os planos. Os filhos, uma casa, um emprego melhor. Sem se dar conta ele comeu a maçã prescrita pelo médico.
No dia seguinte ela veio de novo com a maçã, e no outro e no outro também. Até ele se curar por completo. A doença se foi e o ritual da maçã ficou. Toda noite ela servia duas porções de maçã com canela e eles comiam juntos. Enquanto comiam falavam do dia, falavam dos filhos, falavam de si. E dormiam como o cotidiano permitia. Houve tempos em que a maçã foi comida com um dos filhos no colo, ou senão com dois. Houve noites em que a maçã foi comida em absoluto silêncio e ainda houve outras noites em que cada mordida carregava um olhar e um sorriso perverso de quem queria mais que a maçã. Doces e quentes noites!
No inverno a maçã era comida quentinha. A fumaça perfumada recendia pela casa e esquentava o ambiente. No verão, a maçã era servida bem gelada,  na varanda para aproveitar a fresca da noite.
Os anos se passaram. Quando ele viajou para Recife a trabalho, ela sentava sozinha, na mesma hora de sempre e saboreava a maçã dos dois. Quando ela operou, ele preparava a maçã e a servia toda noite. Quando o dinheiro ficou pouco, ele descobriu no sacolão as sobras de maçãs mais baratas. Quando ele subiu de posto, encomendou maçãs argentinas. E quando ela resolveu estudar mais um pouco, ele a esperava com as maçãs antes de dormir.
Os filhos cresceram. Ele perdeu os cabelos, ela ganhou alguns quilos. Eles mudaram de casa, de carro, de cidade, de trabalho e de vasilhas de servir maçãs. Veio o microondas, facilitou o preparo. Vieram as doenças, dificultaram os momentos. Ela se foi. E ele foi morar com o filho mais velho. A memória pouco funciona. Ele toda noite descasca vagarosamente uma maçã, salpica canela, aperta aquela tecla do micro-ondas que ele mal enxerga, aguarda o apito, retira do forno e se senta em frente à janela para saborear sua maçã. Certo de que em algum lugar, sua amada está fazendo o mesmo.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 31/03/2015
Imagem do blog Panelinha (uma delícia de blog)

domingo, 29 de março de 2015

Para você




Da janela eu a vi sair do estacionamento apertado e pegar a avenida principal. Linda! Radiante! Resolvida na medida certa para fazer acontecer e sensível o bastante para não perder a meiguice. No seu coração, em doses proporcionais confiança e medo se equilibram. E eu engulo o choro e a saudade em uma dose única e volto ao trabalho.
O que te dizer no momento da despedida? Sempre soube que este dia chegaria, mas ainda assim, vê-la partir foi uma prova de fogo. Mas a vida não é assim? Os filhos são do mundo. Um dia crescem, no outro descobrem as asas e no outro percebem que o céu não tem fronteiras. Com você não poderia ser diferente. E eu bem sei que chegara seu tempo de voar com as próprias asas.
O que dizer de você minha doce menina? Era para sermos apenas colegas, mas esse seu coração de portas escancaradas nos fez amigas. Era para fazermos algumas coisas interessantes, mas nós fizemos todas as coisas interessantes que víamos pela frente. Era para termos medo, mas a nossa ingenuidade nos deu uma coragem tão grande que juntas enfrentamos mamutes, tigres e leões. Era para eu te ensinar, mas quem aprendeu fui eu. Com você aprendi abrir portas com um sorriso, aprendi não ter medo de cara feia e principalmente aprendi que podemos sair de qualquer lugar pela porta da frente.
O que te desejar neste momento? Eu desejo minha menina que virou mulher, que você alce seus voos sempre em direção à sua felicidade. E que a cada obstáculo que surgir, você se lembre de todas as vezes que o seu sorriso acalmou os leões e faça uso dele. Que você se recorde sempre que a sua competência é bem maior do que a sua modéstia te diz. E que você pode ir muito além do que acredita. Tome posse de suas competências e siga em frente. O mundo é carente de mulheres como você.
Daqui para frente você ocupará o lugar sagrado do meu coração onde ficam as poucas e verdadeiras amizades. Sigamos pois cada uma seu rumo, com a certeza de podermos tomar nosso café com queijo fresco toda vez que a saudade apertar.
Você ficará para sempre no DNA deste lugar. Nas meninas que querem ser como você, nas entrelinhas de tudo que você escreveu. Afinal, de tudo que vivemos o que fica mesmo é a história. Esse traço que marcamos no tempo com as nossas atitudes. Bordado por falas, gestos, lágrimas, sorrisos e olhares. Esse sim é capaz de atravessar até os corações mais duros e frios e lá permanecer para sempre!



Leila Rodrigues

Imagem da internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 24/03/2015

segunda-feira, 23 de março de 2015

Dia de nada




Acordei com eles. Os passarinhos. Animadíssimos! Parecia dia de festa entre eles. Imaginei que seria o primeiro voo de alguns e a parentada toda veio assistir. Uma verdadeira festa! O tempo nublado e o silêncio da manhã de domingo me convidavam a continuar na cama. Em contrapartida meu lado general acionava a sirene: "Hora de acordar pobre mortal! Ou você acha que só porque é domingo será um dia de moleza".
De fato meu lado general não estava errado, eu tinha mesmo muita coisa para fazer. Afinal, vida de quem trabalha, estuda e tem filhos não perdoa nem feriado, todo dia é dia de obrigações a cumprir. E eu como integrante ativa deste time tinha um dia cheio pela frente. Meu marido sempre diz que mulher quando não tem nada para fazer inventa logo alguma coisa. É verdade! Eu naquele domingo tinha algumas coisas imprescindíveis, outras nem tanto e algumas outras que inventei de fazer para completar a lista.
Contrariando o protocolo deixei a preguiça levantar comigo. Tomei café de pijama, joguei paciência e juntei os cabelos em um coque para não ter que penteá-los. E assim, nessa toada de baiano eu passei o meu domingo. Um dia de nada! Ou de um jeito mais categórico, um dia de ócio.
Confesso que me senti culpada. Também pudera, nos dias de hoje em que é moda ser uma pessoa ocupada, passar um dia de ócio é um sacrilégio. E se o fazemos, ao final nos sentimos culpados. 
Acontece que a sobrecarga de tarefas que o ser humano se propõe para atingir seus objetivos, além de ser gigantesca, se tornou comum. A ponto de errado ser não ter a agenda cheia de alguma coisa para fazer. 
A esta altura, o ócio criativo, que Domenico De Masi identificou como de grande importância para o desenvolvimento do nosso intelecto, se perdeu por completo em meio ao turbilhão. Será que alguém consegue parar tudo e divagar em pensamentos antes de criar um projeto, escrever um texto ou tomar uma decisão? Se consegue, ótimo! Você está na linha certa! Agora se você, como eu ainda tem dificuldade ou quando consegue se sente culpado, deixo aqui um trecho do livro "A essencial arte de parar" de David Kundtz:  O principal objetivo de Parar é fazer com que, quando avançamos, avancemos na direção que queremos e que, em vez de estarmos apenas sendo empurrados pelo ritmo das nossas vidas, estejamos escolhendo, a cada momento, o que é melhor para nós.”  
Empurrados ou escolhendo, nos vemos na próxima parada.

Leila Rodrigues

Imagem da internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 17/03/2015

sábado, 14 de março de 2015

Andarilho




E por falar em Vinicius de Morais, onde anda você? Prometo não falar de saudade, mas preciso saber onde anda você? Você anda sumido! Eu ando meio cansado. Andei pensando em você. Em te contar como andam as coisas por aqui. O mundo anda tão complicado.
Maria anda dizendo que vai embora. O país anda meio devagar. O futebol anda amarelado, parece que perdeu a ginga. A música anda se reinventando, novos ritmos poucas letras. O que sustenta é saber que os velhos baianos ainda andam por aqui. A água anda cada dia mais escassa e o consumo, este anda desenfreado. Tem gente que anda emperrado, anda, anda e não sai do lugar. Pergunto se faltou chão ou será que faltou lugar?
Alguém andou puxando nosso tapete. Andam dizendo que vão descobrir os culpados. Eles andam por aí como se nada tivesse acontecido. E os sujeitos andam cada vez mais indeterminados. Andaram bagunçando o coreto. E agora José? Andei com fé até hoje, amanhã será que conseguirei andar?
E até quem até ontem andava animado, de bem com a vida que tinha eu já vejo andar cabisbaixo, olhando para o chão que pisa. Talvez seja a pressa da vida. O tempo anda passando depressa demais. Não sei se mudaram os trilhos ou as direções? Ando sem entender as razões!
A saúde anda doente, salve-se quem puder! A educação anda tímida, perdeu para a internet e vai precisar se reinventar. A amizade anda esquisita, tudo na base do clique. Ninguém mais anda junto. Ninguém mais anda descalço. Agora andam depressa e junto com o celular. Andam guardando coisas nas nuvens. Nisso eu ainda ando devagar. Para mim quem anda nas nuvens não é de se confiar.
E o amor? Ah esse anda líquido como a água da torneira. Escorre entre os dedos, perde para as intenções. Andaram trocando as bolas. Amam coisas e trocam pessoas. A fila andou. Tudo muito confuso para mim. Ando duvidando dos homens. Ando falando com os passarinhos.
E o sujeito do discurso anda falando sem pensar. Falando sem se dar conta de que a plateia anda cansada de escutar. A quantas anda nosso destino?
A turma anda assistindo muita novela, mas em contrapartida tem muita gente andando. Andar é moda! Andam de manhã, andam nas praças, nos parques e na noite. Descobriram que andar faz bem! Ainda bem!
E eu ando pensando seriamente em me mudar. Se para o sul ou para o norte ainda não sei, por enquanto só pensei. Ando cansado de tantas andanças.


Leila Rodrigues
Imagem da Internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 10/02/2015

terça-feira, 10 de março de 2015

De ontem






 A madrugada sempre foi um convite à vida para mim. Acordar no meio do silêncio e ouvir apenas os primeiros passarinhos e o som dos meus pensamentos. Acostumei-me de tal forma com este momento só meu que hoje o recebo de braços e coração abertos. Se estiver triste, é na calada da noite que encontro sozinha a minha dor e dou a ela o colo que ela precisa. Se estiver feliz, é no silêncio da madrugada que me felicito e agradeço as dádivas recebidas. Sendo assim, madrugada é para mim um movimento. Movimento meu comigo e com o Criador.
Ainda ontem tinha motivos para não dormir. A dor e a solidão das minhas decisões me fizeram acordar. Triste momento que não podemos transferir para ninguém. Restava-me remoer sozinha. E lá estava eu assistindo a cortina escura da noite se desbotar aos poucos. Eu precisava encontrar em mim algo que me fortalecesse. A manhã seguinte me aguardava forte e firme.
Voltei a todas as decisões difíceis que tomei na vida, reconheci cada uma delas como minhas e tomei novamente posse das consequências que me trouxeram. Era como voltar a Santiago e percorrer de novo o árduo caminho de Compostela. Por que alguém pode querer rever os momentos difíceis que teve na vida por livre e espontânea vontade? Cheguei a duvidar dos meus propósitos. Mas segui em frente a minha trajetória. Às vezes é preciso voltar no tempo e reconhecer as forças que já não percebemos mais.
Encontrei a menina magricela que tinha medo da cidade. Encontrei também a adolescente de cara pintada que foi para a rua brigar pelo direito de votar. Confesso quase não me reconheci! Encontrei-me em São Paulo buscando um lugar ao sol, na cidade cinza. Que paradoxo! Encontrei-me chegando nesta cidade tentando achar algo que se identificasse comigo. Eu, eu mesma e a coragem que eu nem sabia que vivia em mim. Mal sabia que aqui eu criaria minhas raízes. O ser humano precisa de raízes, seja para enfrentar o vento, para receber os brotos ou para se replantar quando a vida vier com suas podas.
De posse das minhas forças olhei o tempo e vi que já era dia. Não havia mais tempo para continuar a minha viagem. Lá fora o mundo espera que eu seja apenas realidade. Sem sonho, sem choro nem vela.  Um banho e um café vão me trazer de novo para o chão.
Melhor me apressar que a vida não permite atrasos! O trem que passa hoje, não é o mesmo de amanhã.

Leila Rodrigues

Imagem da internet – Cidade de Divinópolis de madrugada
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 03/03/2015