sábado, 12 de abril de 2014

Climatério




Meus caros,

Não resisti à vontade de falar com vocês. Primeiramente para agradecer a todos pelas visitas e pelos comentários, sempre carinhosos. 
Muito obrigada! É para vocês que escrevo.
O post de hoje é uma façanha! Verdade! Eu raramente escrevo poemas. Não só pela minha dificuldade de rimar, mas também pela dificuldade de, com tão poucas palavras, descrever um pensamento. Sou muito apegada aos artigos, aos pontos e vírgulas e talvez por isso não tenha tanta intimidade com a poesia. Embora me encante tanto quanto a crônica, a prosa ou um parágrafo recheado de verdades.
Mas fui desafiada por um amigo e resolvi aceitar. Então compartilho com vocês meu poema, inspirado neste momento enlouquecedor que é o climatério. Dedicado a todos as minhas amigas que juram de pé junto que este dia ainda não chegou e silenciosamente tentam acalmar o fogo que surge inesperadamente sem qualquer explicação.
Existe sobrevida após esta tempestade! Eu não vejo a hora de chegar do lado de lá!

Grande abraço a todos

Leila Rodrigues


Climatério

Desconfio de mim
Da autoridade que revelo e não possuo
Da criança que alimento e não faço ver
Qual de mim será aquela que valha a pena ser?

Desconfio dela
Dessa identidade desbotada que carrego
Carimbada em cima de muitos anos atrás
Como se o tempo não soubesse desbotar as almas

Não me reconheço ali
Nem tampouco espero me reconhecer acolá

Desconfio dele
Desconfio que meu coração me engana
Ele já não se encanta tanto pelos homens
Como se encanta com os pardais na cerca pela manhã

Mas ainda resta um pouco de lucidez
Aquela que não me deixa sair por aí
A girar de alegria quando meu manacá floresce


Leila Rodrigues


Imagem da internet

sábado, 5 de abril de 2014

Idas e vindas





Eu tinha 13 anos quando me apaixonei pela primeira vez. E foi quando eu entendi que precisava dormir, acordar, estudar, tomar banho enfim, fazer tudo com o coração completamente inundado de alguém. Foi muito difícil! Difícil organizar as ideias, difícil concentrar, difícil não pensar, difícil me desvencilhar daquele ser que tomava conta de mim. Tomava conta de mim, do meu pensamento, do ar que eu respirava. Quase desisti de amar, mas não foi desta vez.

Eu tinha 16 anos quando perdi a minha avó que era uma pessoa muito importante para mim. E eu tive de novo de fazer tudo com o coração inundado da falta de alguém. Os dias eram intermináveis, a saudade parecia um furacão a me corroer por dentro. E viver foi novamente muito complicado. 

Eu tinha 21 anos quando fui pela primeira vez deixada por alguém. Eu estava em pleno sonho, em pleno encantamento quando tudo acabou. Foi um susto. Um baque! É como um pique de energia no meio de uma festa e quando a luz volta não tem mais ninguém. Faltou chão, faltou ar e novamente o meu coração ficou inundado da falta de alguém. E foi pesado carregá-lo assim tão cheio de mágoas. E mais uma vez, durante um bom tempo realizei todas aquelas tarefas que a vida nos impõe com o coração carregado de dor.

E assim, durante muitos anos eu andei carregando um peso maior que o meu. O do meu coração. Hora cheio de alguém, hora cheio da falta de alguém.
Muitos anos se passaram, muitas pessoas entraram no meu coração. Algumas estão até hoje, outros se foram sem deixar nenhum sinal. E ainda tem aquelas pessoas que foram breves mas deixaram rastros eternos. Idas e vindas de minha vida. Coração movimentado esse meu! 

Mas ainda que o preço de amar seja esse, eu prefiro assim. Talvez eu tenha, em algum momento, carregado peso demais. Talvez eu tenha carregado pessoas que já se haviam ido. E muito provavelmente, em algum momento eu carreguei mais do que eu poderia suportar. Mas vivi a alegria de ter um coração ativo. E sei que valeu a pena!

Hoje não conto mais quem entra ou quem sai. Isso deixou de ser importante. Muito menos quanto tempo ficou ou vai ficar. Abri as minhas portas e joguei as chaves fora. Afinal, se são pássaros aqueles que às vezes dentro de nós se aportam que seja pelas suas asas a decisão de ir ou ficar. Se ficarem, que eu não os feche em minha gaiola. E quando se forem que eu não alimente as suas sombras.

Leila Rodrigues
Imagem da Internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 25/03/2014

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

De volta para o passado





A vida seguia normalmente. Trabalho, casa, filhos, marido... Pais com a saúde debilitada precisando de cuidado e atenção, filhos alçando voos, marido caminhando para a aposentadoria. Tudo muito comum para quem faz parte do pacote “aproximadamente 20 anos de casado”. Mas eis que o inusitado começou a bater devagarinho em sua porta, ou melhor, em sua cabeça. Ela se viu com vontade de fazer tatuagem, de cortar o cabelo bem curto, de comprar um jipe, de escalar montanhas, de voar de asa delta e de conhecer Machu Picchu. 

Confusa com tudo isso, pensou que estava enlouquecendo. Depois questionou se isso só acontecia com ela. E ainda se perguntou se não seria a sua adolescência que, depois de anos adormecida, resolvera voltar. 

E eu, como uma das seis melhores amigas que ela tem, resolvi colaborar. 

Quando somos adolescentes, todos os sonhos são poucos para nossas mentes fervilhantes. Experimentamos querer ser tudo e nada ao mesmo tempo. Qual menina nunca sonhou ser aeromoça, bailarina e professora? Praticamente todas nós sonhamos. Os meninos, a maioria deles, em algum momento de suas vidas sonham ser engenheiros, pilotos ou ter uma banda. Faz parte do fervilhar de ideias. 

Só que aí vem a realidade como um furacão e arremessa todos os nossos sonhos ao chão cruel e duro de nossas estradas. Realidade, necessidade e contingências passam por nós como um rolo compressor. É preciso trabalhar, é preciso crescer, é preciso criar os filhos e é preciso nos recriar a cada tombo. De sustentados nos tornamos sustento. E para que esse sustento sobreviva melhor engavetar os sonhos. 

E assim passamos boa parte de nossas vidas ocupados com essa “pseudo-evolução” enquanto a gaveta dos sonhos descansa em paz como um criado mudo, que de tão mudo, ninguém percebe mais.  

Ate que chega o dia em que percebemos que tudo que tão solidamente construímos não consegue nos trazer felicidade. É quando sentimos saudade de nós mesmos. Saudade do tempo em que a felicidade era mais simples e infinitamente mais intensa. Hora de abrir a gaveta dos sonhos. Eles estão todos lá, inertes à nossa espera. Sorrindo como uma criança e prontos para nos fazer felizes de novo.

Não amiga, não é a sua adolescência que voltou é você que quer de volta a felicidade que é só sua e que só você pode se dar. Permita-se ser e viver tudo isso, afinal, daqui só se leva a alma, E deve ser bem melhor que ela vá feliz!


Leila Rodrigues


Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 11/02/2014.
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Até quando?




Viajar é, sem dúvida, expandir a alma. Conhecer novas culturas, novos ambientes, novos comportamentos e formas de viver faz com que saiamos do nosso "mundinho particular" e assim consigamos compreender um pouco mais adversidades. O diferente não é um inimigo à espreita, é apenas o diferente e nada mais. Outras formas de viver também são formas e também trazem felicidade.

O difícil é quando conhecemos uma cultura mais "civilizada" que a nossa. Sim, a palavra que eu quis dizer foi essa mesma, CIVILIZADA. Um lugar onde a fila funciona, onde o trânsito funciona, onde o respeito pelo próximo funciona é, com certeza, um lugar mais civilizado que este nosso amado e idolatrado país.
Amo o meu país e não pretendo deixá-lo. Já entendi também que não se pode comparar o primeiro mundo com o nosso. Mas é difícil ter que aceitar que o nosso DNA é esse. Dá vontade de mudar tudo! De começar um movimento, de sair limpando as ruas, acordando as pessoas para o respeito para com o próximo e para com o ambiente.

Sabemos que o problema tem origens muito profundas. A começar pela nossa colonização. Mas até quando vamos continuar usando essa desculpa para a nossa "não evolução"?

Fiquei alguns dias me questionando de onde vem essa rebeldia do brasileiro que em tudo tem que burlar a regra? Por que a ordem nos incomoda tanto? Por que tanto desrespeito para com o ambiente? Que tamanha falta de amor às nossas cidades, ao nosso país? Será que algum dia seremos mais educados?

Sofremos com a falta de infraestrutura básica e em contra partida respondemos com o descaso pelo ambiente, pelo próximo e pela vida. Escolhemos nossos representantes pelo que ele vai nos favorecer ou pelo menos pior. Repreendemos o "jeitinho" que o outro deu, mas usamos o "jeitinho" a nosso favor.

Será que o nosso país ainda tem jeito?  Até quando vamos nos envergonhar de nós mesmos? Será que podemos começar por algum lugar? Resolvi começar dentro da minha casa, com os meus filhos, que é onde eu realmente posso fazer alguma coisa. Ainda acredito que se em cada família, crescer uma criança civilizada, teremos grandes chances de, daqui a alguns anos termos algum progresso. Se vamos conseguir ou não? Melhor fazer do que questionar. Pois só agindo podemos sonhar com um Brasil melhor.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 04/02/2014
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