segunda-feira, 25 de abril de 2016

O vestido






Alguém pode dizer que é apenas um vestido. Mas ela defenderá dizendo que é mais que isso. É um vestido que foi além do seu propósito de vestir. Um vestido que trouxe história e fez história. Algo para se contar.
Ela andava cansada, muito cansada. Da luta, dos dias, do peso da responsabilidade. No meio da correria, um vestido se fez necessário para uma ocasião especial. Não pensou duas vezes, escolheu aquele que tinha confiança e encomendou o vestido. Confiava nele, no seu gosto apurado, na sua competência e na qualidade do seu trabalho. Entregou a tarefa nas mãos dele e seguiu em frente com sua vida atribulada. Não tinha tempo para “viajar" neste tipo de coisa. Até que gostava de moda, mas na fila de prioridades, muitas outras coisas tomavam a dianteira.
Até que chegou o dia de conhecer  a “encomenda”. Talvez tenha o sido o tom do azul vivo que coloriu a sua alma cinza. Ou talvez as rosas delicadamente bordadas em pedraria contornadas com um matiz impecável que a tenha feito se sentir no meio de um jardim. As nesgas do godê bem cortado, a cintura, o decote na medida certa ou seria a textura da seda? Ah deve ter sido tudo isso junto! O fato é que, quando ela subiu no tablado, amparada pelas costureiras, ela que nesta vida sempre amparou e cuidou dos outros, se olhou no espelho e chorou. Não eram simples lágrimas. Não era dor nem mágoa. Seu tempo de princesa havia se passado na névoa dos dias de luta. Não debutou,  não fez parte daquela roda de moças da sociedade que desfilaram no clube. Também não  casou na igreja e não usou coroa e véu. Ainda assim quis o destino que um dia ela caísse nas mãos de alguém que a vestiu de princesa. Sim, de princesa, como aquelas que um dia povoaram os seus sonhos de menina. 
E então ela vestiu! E com seu vestido azul bordado, ela se fez princesa por um dia. Sorriu deliberadamente enquanto rodopiou com seu vestido azul sobre a brisa leve de um entardecer tranquilo. Exatamente como uma princesa deve ser. 

Leila Rodrigues

Publicado na Revista Xeque Mate - Edição de fevereiro 2016


Olá pessoal,

Este texto é uma pequena homenagem ao meu grande amigo Pierre Vasconcelos. Um amigo de muitos anos que um dia resolveu fazer dos seus sonhos a sua profissão e se tornou este profissional apaixonado pelo que faz!
Pierre e sua equipe me deram a honra de ser sua cliente. E de viver todas as emoções que mencionei no texto. Em um tempo de correria, onde tudo é apressado e preciso, uma pausa e um vestido bordado a mão. Ah meu Deus, eu não mereço tanto!!!! Obrigada Pierre pela generosidade, pela amizade e por entender e interpretar tão bem meus desejos. Obrigada também à Jeniffer e Fernando por me permitirem fazer parte deste momento mágico da vida de vocês. Foi tudo lindo!

Grande abraço

Leila Rodrigues


Pierre Vasconcelos fazendo o que ele mais gosta... realizando sonhos.




Os noivos, Jeniffer e Fernando. Lindos!

domingo, 10 de abril de 2016

Por Luiza


Era para ser um domingo como outro qualquer, mas um convite inusitado me fez mudar a minha rotina e atravessar o centro da cidade às 06:30 da manhã daquele domingo. Luiza nasceria bem cedinho e eu fui convidada a assistir o parto. Eu já havia assistido outros partos, mas este é um convite que nunca recuso. É um privilégio participar desse momento mágico que é a chegada de um novo ser neste nosso mundo.
Família reunida, mamãe e papai aflitos e ao mesmo tempo felizes, despedidas  e selfies antes dos pais atravessarem para o lado proibido, a sala de cirurgia. Era o quarto bebê da família. Um ato de coragem e amor dos pais para os padrões do nosso país que não quer saber de família "grande". E pensar que antes as famílias tinham oito, dez filhos!
Ela chegou como chegam os bebês, chorando. E nós que disputávamos o espaço da minúscula salinha de "assistir parto" choramos de emoção com sua chegada. Mas eu, surpreendendo a mim mesma, chorei mais que o costumado choro de emoção.
Chorei de alegria por ter participado de um momento mágico como esse. Chorei quando vi naquele pequenino ser um livro em branco que começava a ser escrito. Enquanto eu observava Luiza ter seus primeiros contatos com este nosso mundo, recostei no sofá e deixei as minhas lágrimas rolarem soltas pelo meu rosto. Todos estavam ocupados demais com a pequena Luiza e eu podia curtir todos os sentimentos daquele momento do meu jeito. Era um choro bom! Um choro pela vida.
Chorei os filhos que não tive coragem de ter porque o trabalho e o resultado foram mais importantes naquele determinado momento da minha história. Chorei a saudade dos meus filhos pequenos necessitando dos meus cuidados. Chorei a fragilidade e a grandeza daquele bebê ainda tão recente e capaz de despertar em mim sentimentos guardados por tantos anos.
O pai de Luiza a trouxe para bem perto de nós e pude observar seu rostinho delicado pronto para viver mais uma história de amor.
Voltei para casa pensando e desejando as melhores e mais puras energias para aquela pequena. Inspirada em Luiza cheguei à conclusão de que eu não posso começar um livro novo, mas posso virar a página e escrever um novo capítulo. Sempre haverá algo a renascer dentro de nós!

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem gentilmente cedida pela mãe de Luiza - Rita Viana

Olá pessoal,

essa doçura de bebê da foto é Luiza. A razão desta crônica. Não há nada mais apaziguador para os nossos corações apressados que ver um bebê dormir. É tão profundo e ao mesmo tempo tão leve que nos remete automaticamente à paz.   Que possamos sempre enxergar nos bebês a esperança de uma geração melhor que consequentemente construirá um mundo melhor.

Grande abraço, obrigada pela visita


Leila Rodrigues

sábado, 2 de abril de 2016

Lá vem ela


Lá vem ela descendo o morro, em cima do salto, começar tudo de novo. Lá vem ela causando discussões e interrogações por onde passa. Ela já chorou, já se descabelou e já armou o maior barraco. Depois dormiu e acordou pronta para começar tudo de novo. É! Ela vai começar do zero novamente. E ai de quem atravessar o seu caminho! Sim ela vai amar de novo, vai querer jogar tudo para o alto e vai chorar depois. Ninguém muda a natureza dos felinos, e ela é um deles. 
Lá vem ela com seus cabelos um dia curtos, no outro louros e no dia seguinte lisos como uma índia Guarani. É assim que ela aguenta as lutas. Ela se desfaz, se refaz e se satisfaz. As vezes acho que medo não existe no seu dicionário, depois descubro que ela vai com medo mesmo. Apenas enrola o medo no lenço colorido que envolve o seu pescoço e segue em frente.  Lá vem ela toda estilizada, com a bolsa que pegou da tia e transformou em nova. Ela tem esse poder. Transforma qualquer sapato em um numero que lhe sirva, transforma qualquer roupa em look e qualquer acessório em atração fatal. Ela é assim! Imprevisível. Única. 
Um dia um novo amor, no outro um novo emprego, uma nova casa, um novo amigo e o velho olhar esperto para tudo que a rodeia. Não pense que você a tem! Ela não é de ninguém! Ela não segue regras, nem as que ela mesma tenta impor. Ela não tem paradeiro nem destino certo. Ela é do mundo e eu sou alguém que vai passar a vida vendo-a perambular por aí.
Atrás da louca existe uma mulher séria e meiga. Alguém que a vida não poupou e que pagou caro pelas escolhas que fez. Alguém que escolheu viver sozinha, que escolheu seguir a sua própria cartilha com as referências que melhor lhe convieram.Se toda história tem o enredo certo, a dela certamente seria uma grande novela. Tudo seu é mais intenso, é mais bravo, mais forte, capaz de superar toda e qualquer expectativa. 
Ela tem pressa de ser feliz e escolheu tentar. Aquele coração cigano não vai se conformar tão cedo com uma vida comum. Ela vai sair por aí procurando a felicidade em algum canto de uma “have" lotada de gente. Um dia ela vai enxergar que a felicidade, esta que ela tanto bate a cabeça procurando, mora bem dentro do seu coração rebelde.
E eu continuarei aqui, na expectativa dos acontecimentos, amando-a e aprendendo com ela alguma coisa que nem ela sabe que me ensina. A vida é assim, um grande aprendizado!


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos.
Imagem da internet - Juliette Binoche vive Rebecca no filme Mil vezes boa noite (2013)

Olá pessoal,

depois de alguns dias fora aqui estou de volta com meus textos. Temos tido dias tensos e intensos ultimamente. E nesses dias tensos e intensos tenho visto muitas pessoas começando de novo. Muitos deles não por opção, mas porque a situação lhes impõe que recomecem. É preciso ir, ainda que nem se saiba para onde! E foi pensando nisso que escrevi o texto acima. A todos os que estão recomeçando alguma coisa que consigam renovar suas energias e descobrir em cada canto um novo encanto.

Grande abraço


Leila Rodrigues

sábado, 12 de março de 2016

Pátria amada



Pergunto onde estão seus pais? Aqueles que te encontraram um dia, virgem como a Donzela de Cervantes, envolto de matas, índios e bichos? Pergunto quem foi que te educou ó criança grande? E volto a perguntar com o coração doído, onde estão seus pais? 
Um país órfão é o que somos! Órfãos de pais que nos eduquem de verdade, que parem com essa parafernália desenfreada onde tudo é permitido e ao mesmo tempo escuso e despercebido. Um pai que mande calar os discursos inflamados de falsidade, que ponha de castigo quem prometeu e não cumpriu, que mande embora quem não é digno de ser chamado de filho, que mande prender quem roubou e que sobretudo o faça por amor aos seus filhos. 
Onde estão os nossos pais? O meu anda cansado da luta, da vida, das tentativas e das despedidas. E o seu Brasil? Eu sei que neste momento você chora a falta de um pai. Um pai que assuma o seu amor antes dos seus interesses. 
E por não ouvir nenhuma resposta pergunto então onde estão os seus filhos ó mãe gentil? Aqueles que seguindo a lei natural deveriam cuidar de seus pais no momento de necessidade, de enfermidade ou quiçá do avanço da idade. Ainda és tão jovem pátria querida, mas sinto que precisas urgentemente de cuidado e atenção.
Em teu seio tantas filhos e tão poucos com capacidade para cuidar de ti! Um país carente de pais e carente de filhos! Carente de líderes! Instituições à deriva por falta de líderes, outras falindo em função de lideranças sem escrúpulo e cidadãos comuns  perdidos à escolha do menos pior. Não sabemos mais em quem confiar, não sabemos por onde começar. E assistimos calados o resto do mundo nos reconhecer como um país podre. 
Pátria amada e idolatrada, há que surgir em algum lugar de teus verdes campos, filhos dispostos a cuidar de ti. Filhos que queiram representar os demais com ética, dignidade e respeito. Filhos que queiram exercer uma liderança digna e competente. Eu sei que o temos. Só não sei precisar onde estão. Acordem irmãos meus que nós, os que prezam pela justiça, pelo trabalho digno e pelo crescimento do país estamos aqui, ávidos para te dar a mão e juntos fazermos um Brasil melhor.  
Você não está só! 

Leila Rodrigues

Imagem da Internet

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

Olá pessoal,

Não vim aqui falar deste ou daquele partido, nem tampouco deste ou daquele fulano. Vim falar da vergonha que se instaurou no nosso país como um todo no que tange à política e lideranças. Nas cidades, nas instituições, nos estados e no país é vergonhoso e sem escrúpulo o que estamos assistindo calados. Verbas que nunca chegam ao seu destino, compromissos que nunca são cumpridos e o Brasileiro, esse sujeito boa fé, acoado e calado aceitando tudo. É preciso mudar! É preciso reagirmos para mudar alguma coisa. Se para você está tudo bem, para mim não. É a primeira vez que coloco uma posição particular no blog. Não tenho a intenção de evangelizar ninguém, estou apenas exercendo o meu direito de cidadã de expressar a minha indignação.
E que nada disso destrua o que construímos sem a interferência de nenhuma posição política, a nossa amizade.

Grande abraço


 Leila Rodrigues


domingo, 6 de março de 2016

A estratégia da mala


Quer fazer uma boa aula de estratégia? Observe a mala de uma mulher. Se toda mulher cuidasse das suas finanças com o mesmo critério que arruma uma mala, estariam todas ricas! 
A vaidade é uma fase. Toda mulher tem ou teve a sua. Algumas exageram, outras nem com o tempo se desapegam da necessidade de se apresentarem em “perfeito estado”. Mas o melhor é poder olhar para tudo isso e se divertir. Vamos à mala!
Se é verão, ela leva um casaco porque pode ser que o tempo mude de repente. Se é inverno ela leva uma camisetinha básica porque pode acontecer do sol esquentar muito. É roupa para todos os climas e todas as ocasiões. Fala para mim, isso é ou não é um exemplo de estratégia? E ainda nem chegamos nos acessórios. Sim, porque é aí, nos acessórios que se encontra o grande segredo feminino. Acessório é estratégia de guerra! Nos acessórios estão escondidos planos A, B, C, D e E. Secador, chapinha e ativador de cachos. Tudo para o mesmo cabelo! Creme para o rosto, creme para o corpo, sabonetes diferentes para cada parte do corpo e  maquiagem. Ah a maquiagem! Maquiagem hoje é um negócio meio mágico. Capaz de esconder manchas, espinhas, olheiras, ressacas e tristezas.  A maquiagem é um  “kit camuflagem” perfeito. Através dela a mulher pode entrar uma no banheiro e sair de lá outra completamente diferente. E se ela for das espertas em poucos minutos! Olha a estratégia aí de novo!
Mala na vida de mulher é algo tão importante que hoje antes de fazer a mala ela checa a previsão do tempo. E quanto mais instável tiver o tempo, mais feliz ela fica. É licença para levar tudo! Bota, rasteira, salto, chinelo, chapéu e lenço. E ela ainda compartilha a informação com as amigas.
Eu já tive a minha fase camuflagem e hoje confesso que ainda tenho meta para alcançar no quesito “reduzir bagagens”. Mas como viajo muito, a prática tem me ensinado que para dois dias fora de casa eu não preciso levar o meu guarda-roupa inteiro. Mas eu confesso que no início eu não pensava assim. 
Mas o grande segredo vem agora. Quer saber se aquela viagem que você fez com sua parceira foi boa? Se valeu a pena o investimento e se ela se divertiu de verdade? Verifique a mala na volta. Se ela não usou quase nada do que levou, se a chapinha sequer saiu do saquinho rosa e se o “Kit camuflagem” foi pouco usado… Parabéns! É sinal que ela  conseguiu praticar o desapego e caiu na farra! Diversão garantida ou sua mala de volta!

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Sobre velhos e novos




Quando eu tinha 17 anos eu achava qualquer pessoa com mais de 30 anos velha. Os 30 chegaram e eu percebi que ainda tinha tantos ou mais projetos que quando eu tinha 17. E então eu entendi que o número de anos vividos não tinha uma ligação tão direta assim com a velhice. Isso é algo que só aprendemos com a prática, ou melhor, com o tempo. E comigo não foi diferente. Aos 30 eu realmente fui movida por uma disposição incrível. Filhos, família, trabalho, estudo, tudo junto e misturado para se chegar a algum lugar. 
Os 40 chegaram e foi como começar tudo de novo. Se a vida começa aos quarenta então eu estava praticamente nascendo. Bem, na prática a teoria é outra, o ditado exagera um pouco mas não deixa de ser um incentivo a mais. O ciclo de amigos pode ficar menor, mas as amizades são mais intensas e verdadeiras, porque aos 40 a quantidade importa pouco.
Aos 40 você quer fazer coisas que nunca fez porque estava ocupado demais com o seu futuro lá atrás. Aos 40 você quer cantar as suas músicas favoritas e que se dane as novas. Aos 40 as pessoas contam mais que as contas e não se deixa para amanhã o que não pode ser feito ontem. 
À medida que os 40 avançam você percebe nitidamente a conta da farmácia crescendo e a do biquini diminuindo. Naturalmente você se vê introduzindo um remedinho para a pressão, depois outro para a hipotireóide, depois um omega3 e a cada ano você repete o mesmo biquini porque já não o usa tanta assim. 
Mas isso não significa necessariamente que você esteja velho. Digamos que a máquina agora precisa de uma manutenção mais frequente, mas continua funcionando bem obrigada. Muito provavelmente para um rapaz de 17 eu seja praticamente idosa. Mas isso não me afeta, afinal, ele só tem 17 anos e talvez ainda não consiga enxergar um horizonte tão longínquo. Porém para mim, que estou aqui escrevendo, vivendo, trabalhando, de malas prontas para o Show do Rollling Stones e cheia de projetos, velhice tem um conceito diferente. 
Não vou negar que na minha mala hoje tem hipertensivo, sapato da linha conforto e meias que eu uso para dormir. Mas tem também uma roda de amigos dispostos a se divertirem que me acompanham e fazem a minha viagem valer a pena. A minha maior bagagem agora é a história que eu carrego comigo. Se isso é velho ou novo, não faz a menor diferença! Envelhecer não é uma escolha, ser feliz sim!


Leila Rodrigues

Olá pessoal, 

Escrever para mim é algo que não consigo programar. Acontece. E quando alguém faz uma “encomenda” de um texto com um assunto específico, geralmente deixo a inspiração chegar no tempo dela e um dia a coisa acontece. Este texto é continuação de uma discussão entre amigos onde um  falou a frase fatídica: "É! Estamos ficando velhos!”… O assunto rendeu e terminamos com muita risada e descontração. Em resumo descobrimos que estamos ficando velhos e melhores. Melhores como pessoas, como amigos, como filhos, como pais, como esposa e marido, enfim, sem bater de frente com a lei da gravidade, estamos melhores como pessoas. 

Grande abraço e que o tempo nos faça pessoas melhores!

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis (23/02) e no JC Arcos (27/02)

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sábado, 13 de fevereiro de 2016

Trinta anos e uma história



Teve gente que como eu veio sozinho, veio para abraçar os amigos, dançar e cantar de novo junto com pessoas que foram importantes na sua juventude. Teve gente que veio com a família, trouxe os filhos para cantarem juntos e conhecerem os amigos daquela época. Teve gente que ficou quietinha, espiando e observando… certamente relembrando em silêncio. Tiveram outros que não pouparam abraços e risos dos encontros. Mas o fato é que tinha um tom diferente no ar. Seria um tom de nostalgia? Um tom de alegria? Ah! Era o Tom Bege de novo e a vontade de ser feliz mais uma vez!
Foi assim, com muita alegria e descontração que o então casal (Zezé e Samuel), que agora virou trio (Zezé, Samuel e Júlia) receberam os amigos para comemorarem os 30 anos do Tom Bege, o casarão antigo, bem no centro da cidade, decorado ao estilo “mineiro bom de noite” que abrigava a juventude arcoense nos anos oitenta e noventa. 
Era ali que tudo acontecia! Seja para "tomar uma” sozinho no balcão, encontrar os amigos, namorar tranquilo nas mesinhas do fundo, paquerar (Sim, naquela época nós paquerávamos!) ou simplesmente tomar um caldinho de feijão, Tom Bege era o nosso lugar. Quantos amores não começaram naquelas mesinhas? Quantos outros não acabaram ali também? Foi no Tom Bege que eu aprendi que “aquela angelical e fina flor do amor também pirou!”. Foi na varanda do Tom Bege que eu vi a noite acontecer e moçada dosarcos se divertir. Quantas histórias! Éramos felizes! E olha que nem existia celular e internet! 
Foi maravilhoso dançar de novo ao som de Andre Gouveia e cantar com ele a era de ouro da música brasileira; Kid Abelha, Paralamas, RPM  e todos os demais sucessos dourados da época. Foi delicioso tomar de novo o caldinho de feijão do Tom Bege, o precursor da iguaria. E foi emocionante ver Tia Carminha e Dona Zezé as matriarcas  da família Calácio e sempre presentes e atuantes no Tom Bege. 
Sim eu dancei de novo com Donizete Bernardes e posso dizer o quanto foi bom! Eu abracei e sorri de alegria ao rever pessoas queridas. Ainda que tenha sido tão breve, foi muito bom saber que você está bem! E foi muito bom também ver a nova geração cantando e dançando junto com a velha guarda.
É moçada o tempo passou para todos nós. Engordamos, perdemos os cabelos, mudamos com o tempo, fazer o quê? Acontece com todos! Mas em contrapartida está mais que provado que tivemos uma juventude tão gostosa e saudável que reviver é leve e prazeroso. Uma benção!
Parabéns e muito obrigada Zezé, Samuel e toda família Calácio por nos proporcionar um momento de tão grande alegria! Tenho certeza que lá da outra dimensão, o Sr. Zequinha aplaudiu de pé!


Leila Rodrigues

Publicado no JC Arcos em 13/02/2016
Foto oficial do Casarão onde funcionou o Tom Bege


Olá pessoal,

Escrever este texto foi uma alegria à parte. Uma viagem natural no tempo regada aos abraços dos amigos que revi. À família Calácio minha gratidão e carinho por participar deste momento. O Tom Bege é parte da nossa história!
Um dia todas as juventudes viram histórias para contar. Eu tenho a honra de contar a minha com um sorriso…


Grande abraço

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Simples assim


Sou fã da Cris Guerra. O que eu escrevi hoje é uma reflexão do que Cris apresentou no seu programa na Internet http://youtu.be/74sTsLhnk1k .  O tema foi  "As coisas me desorganizam", mas o que me chamou a atenção foi o que Cris disse sobre acúmulo e leveza. Aqui vai um comentário de uma fã.
Dizemos em alto e bom tom que queremos ser simples, que queremos ser leves e que queremos viver com menos. Queremos ser ecologicamente corretos, básicos e "naturais". Uma releitura do natureba de décadas passadas. Mas na prática, sítio sem Internet, namorado sem carro e quarto de hotel sem ar condicionado nem pensar! Então que simples é este que defendemos? Até onde suportamos o "natural" que pregamos?
Alguém fala que quer viajar comigo pra fazer um "mochilão" por aí, mas tem que levar a chapinha na mochila e também o óleo especial que ela passa no cabelo para tirar o frizz! Tudo na mochila de grife, claro!
Nosso mais novo feito é que conseguimos falsificar a leveza! Só não sei a quem estamos iludindo!  Enquanto 120 pares de sapato descansam no closet ou 78 garrafas de vinho dormem horizontalmente na adega, insistimos em dizer que somos simples e leves!
Acumulamos nossas gavetas de coisas e mais coisas, nossas vidas de pessoas e mais pessoas e consequentemente nossa mente de pensamentos para administrar tudo isso. E o que mais assusta é que este acúmulo não é resultado de uma paixão por determinado objeto. Acumulamos porque queremos ter mais, independente da necessidade ou do uso. A impressão que tenho é que acumulamos de medo de um dia perder. Só pode ser! E quando chega o Natal saímos por aí doando nossos pertences para diminuir nossas culpas! Nem sequer percebemos que para administrar este acúmulo gastamos tempo, energia e muito mais dinheiro.
É como um círculo vicioso. Compramos para satisfazer nossos desejos. Uma vez satisfeitos, nossos "brinquedos" não nos servem mais, então precisamos de outros brinquedos. Chega um momento em que o armário não cabe mais de tanto brinquedo e você não sabe mais como brincar.
Um pouco que não é pouco, um simples que não é simples e um natural completamente sofisticado. Assim estamos nós, equivocados e confusos. E Cris conseguiu resumir perfeitamente isso em uma frase: Queremos um hippie com Wi-Fi. Simples assim!

Leila Rodrigues


Cris Guerra é publicitária e escritora www.crisguerra.com.br
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 26/01/2016 e no JC Arcos em 30/01/2016
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Com o tempo


Pela janela eu vejo a água descendo rio abaixo. Ainda chove. E a força da correnteza é como uma avalanche líquida que segue desembestada ocupando todos os espaços que encontra pela frente. Penso nas minhas plantas. Penso nas pessoas que moram à beira deste mesmo rio, alguns aqui bem perto e outros que eu nem sei precisar. Minha mulher já reclamou que as roupas não secam. Meus filhos me dizem que não tem o que fazer nas férias e percebi que até o meu cachorro anda ressabiado.
Há dois anos atrás, eu, este mesmo cidadão que voz fala, vi desta mesma janela este rio secar a cada dia. Chorei sua seca e a morte anunciada de tudo que vivia e dependia do rio. Sequei-me de tristeza junto com o rio naquela ocasião. E agora cá estou eu, preocupado com o estrago das águas ao redor de mim. É da natureza humana querer tudo certo, tudo bonito, tudo no seu devido lugar! Queremos filhos lindos e perfeitos. Queremos parceiros compreensivos e amáveis. Queremos um jardim sempre verde, tardes sempre tranquilas e por-do-sol de fotografia de segunda a segunda.
Perdoa-me Deus. Perdoa-me pelo meu despreparo para as adversidades. Queria eu que a água caísse mansinha, na quantidade certa para encher os rios, encher os potes e as minhas necessidades mundanas. Queria eu que o sol nascesse a cada manhã para secar as roupas no varal, fortalecer a plantação e nos aquecer na medida certa para trabalhar. Oh pobre mortal e ignorante que sou. Eu que a cada dia acordo com um humor diferente. Eu, que nunca me dei conta do uso indevido que fiz da água durante praticamente toda minha vida! Eu que nunca pensei antes de cortar mais uma árvore do caminho. Eu que usei sem medidas a terra que me deste estou aqui pedindo consenso à mãe natureza. Eu deveria aprender que a normalidade dos dias só serve para acariciar a minha mesmice e me manter fincado no mesmo lugar. Aprender que as adversidades me ensinam novas possibilidades. Aprender que as vezes é preciso secar a minha pretensão junto com a seca ou deixar que o meu orgulho escorra na correnteza do rio.
Que seja feito o que tem que ser feito, que tudo chegue no seu tempo e que eu consiga enxergar o tempo bom na chuva que cai. Foi preciso uma seca para eu entender como deveria usar a água, foi preciso uma enchente para eu doar coisas que não me serviam mais. O que será mais que eu preciso para aprender a ser uma pessoa melhor?

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 19/01/2016 e no JC Arcos em 23/01/2016

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Amores distantes


Demorei tanto para chegar e agora, que aqui estou, a impressão que tenho, é que sempre estive aqui. Você me é tão familiar que fica difícil explicar. Parece que eu já ouvi seus hiatos, já sei o tempo das suas falas, o tom da sua voz.
Fiquei à vontade antes mesmo de você puxar a cadeira.
E olha que eu ainda não sei quase nada de você e nem você de mim. Mal sei seu sobrenome e você nem sabe onde eu nasci. Ainda nem te contei como foi o parto do meu filho, nem você me disse onde passou suas últimas férias. Mas você sabe me fazer sorrir e eu sei te contar casos que nem para mim mesma eu contei um dia.
Não precisa me levar a lugar nenhum, eu já me sinto, aqui, no melhor lugar. Não se apresse em misturar nossos mundos porque eles já são próximos por natureza. Gostamos das mesmas cores, respiramos os mesmos ares ainda que estejamos a milhares de distância. A força infinita da natureza nos aproximou e ela mesma vai tratar de entrelaçar nossas mãos.
Em meio a milhões de cliques, num deles estava você. Nesse mundo novo, onde tudo é tão instantâneo, tão efêmero, tão moderno, eu não esperava que o sentimento, esse velho avassalador, vencesse. Mas ele venceu. Venceu as barreiras do teclado, venceu as fronteiras do monitor. Venceu o frio da distância e juntou pessoas, uniu casais, formou famílias...
Sim o amor é mesmo inexplicável! Pode surgir de onde menos se espera, de onde nada se espera. De onde não se procura, em momentos que nem sequer imaginamos, lá vem ele tomando conta de nossos espaços. Fazendo amigos, formando parceiros, tribos, grupos, casais... amores.
Mesmo com tantas “porcarias” no mundo virtual, devagarinho fui encontrando as minhas rosas. Pessoas que como eu, tinham propósitos melhores e mais dignos. Pessoas capazes de respeitar o outro e principalmente  a privacidade do outro sem perder o calor de uma grande amizade. 
Ombros que eu nunca vi, colos que eu jamais dormi, choram comigo minhas dores e vibram comigo as minhas alegrias, a milhas de distância. Alguém poderá dizer que este sentimento é menos nobre que qualquer outro ?
Vindos de todos os lugares, de todas as tribos, as pessoas se descobrem próximas, parecidas, unidas, pares. E como um toque de magia, uma cumplicidade inexplicável toma conta de nós. Neste campo imenso de girassol, vivemos a mais pura magia do encontro. Simples como um clique.


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 11/01/2016 e no JC Arcos em 16/01/2016
Imagens da Internet




Nunca vivi um caso de amor virtual, mas conheço muitas pessoas que sim. Alguns se deram muito mal e outros se deram muito bem. Não sou eu que vou julgar a escolha de cada um. Mas tenho grandes amizades construídas virtualmente. Alguns eu já conheci pessoalmente, outros ainda pretendo conhecer um dia. Não falarei nomes de todos para não correr o risco de deixar alguém de fora, mas foram muitos amigos que fiz no blog e nas redes sociais. Amigos de verdade, que passam para deixar um abraço, que perguntam quando dou uma sumida ou quando posto alguma notícia não muito boa. Não classifico essas pessoas como amigos virtuais, para mim são todos amigos reais, pessoas que eu admiro, respeito e quero muito bem!
No mês passado tive o prazer de conhecer pessoalmente a amiga Ana Cecilia Romeu. Ana Cecília Romeu é publicitária e escritora. Ela acaba de lançar o seu segundo livro, um trabalho infantil belíssimo que vale a pena conhecer que é "Janela da Poesia". 
Aqui uma amostra do seu belíssimo trabalho, em uma crônica encantadora: http://www.grupogaz.com.br/gazetadosul/noticia/463536-da_calmaria_a_tempestade.html
Eu e Cissa nos conhecemos através de outra amiga querida que eu também tive o prazer de conhecer pessoalmente que é a Ma Ferreira, ceramista de SP e uma pessoa muito querida. 
Cissa é tudo aquilo que eu imaginava e muito mais. Inteligente, simpática e divertida, tem um sorriso lindo e uma prosa boa que só. A viagem foi curta e em cima da hora, não deu para conhecer outros amigos que eu gostaria e que também moram em POA. Prometi voltar para demorar um pouco mais e aí sim, abraçar todos os amigos do Sul.

Grande abraço

Leila Rodrigues


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Cápsula





Olá pessoal,

Sempre que vou à Tiradentes, volto em paz. Não sei explicar a razão disso. Talvez seja a tranquilidade do lugar, ou também as raízes mineiras muito presentes ou será o cenário bucólico e nostálgico que me liberta do cansaço e das preocupações. Enfim, o causador pouco importa.

Este fim de semana estive lá para o casamento de dois amigos. Tudo lindo, a noiva, o noivo, os convidados, a igreja, uma energia boa e um pano de fundo naturalmente perfeito que é a Serra de São José. Na volta, quando tentei escrever alguma coisa a minha leveza era tamanha que a única coisa que consegui escrever foi esta frase.

Às vezes tudo que precisamos é nos libertarmos do cansaço do dia-a-dia, das preocupações mudanas, dos afazeres… e nos deixarmos ser parte da paisagem. Só isso.

Para quem não conhece Tiradentes, fica aqui o convite para conhecer o nosso verdadeiro ouro de Minas. 

Grande abraço


Leila Rodrigues



quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Cápsula




Olá pessoal,

Para ler a crônica na íntegra acesse:



Muito obrigada pela visita e boa leitura!

Abraços


Leila Rodrigues


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Cápsula



Olá pessoal,

Cápsulas geralmente são usadas para curar nossas dores ou enfermidades. Vivemos no mundo das cápsulas. Hoje existem cápsulas para tudo. Na contramão do mundo dos medicamentos apresento meu projeto Cápsulas. O objetivo é apresentar todo dia uma frase para os leitores do Palavras. 
São frases extraídas de textos ou poemas meus. 
Esta Cápsula é sua! Use-a sem moderação. Pode haver efeitos colaterais, mas eu garanto que serão efeitos positivos. Leia, compartilhe, encaminhe para um amigo, guarde para uma ocasião, enfim… Use-as como for melhor para você! Apenas peço a gentileza de preservar o nome do autor. Um respeito que nós autores lutamos para preservar.
Eu desejo que você não tenha enfermidade alguma, e que estas Cápsulas sejam uma vitamina a mais nos seus dias! Sem bula, sem contra-indicações e sem moderação.

Grande abraço



Leila Rodrigues

domingo, 3 de janeiro de 2016

Para começar vazio



Depois de alguns comendo e bebendo as festas do final de ano, o cansaço era visível. Um dia na casa da mãe, o outro na casa da sogra, depois na casa de amigos e adjacências. Abraços, comemorações, confraternizações. Momentos especiais e importantes na vida de todos nós. Acho que são tão bons por que são raros, rápidos e intensos.
Mas a manhã seguinte é cruel. O dia comum nos espera como um general a postos na porta do quarto. Tudo tem que continuar. Hora de voltar para casa. Hora de fazer acontecer.  E como a maioria, eu tinha que voltar para casa.
Abri a porta e tudo estava lá. No seu devido lugar. Apenas a luz estava um pouco melhor. Talvez pela posição do sol. O dia mal começara e, para alegria de todos, tinha sol. Andei pela casa reconhecendo cada canto. Sim, este sempre fora o meu lugar.
Sinais de mim se apresentavam humilde e silenciosamente. Meus chinelos, meu sofá verde perto da janela, meus livros, meu computador, meu fone de ouvido companheiro de caminhada, minha xícara de café. Do lado de fora minha hortênsia azul pedia água, enquanto a azálea exibia seu esplendor. Todos eles pareciam rir para mim.
Toquei lentamente cada um deles. Minha forma de saudá-los. Abri uma a uma as janelas e portas. Deixei o sol entrar.  Abri as cortinas, liguei o som, trouxe de volta o movimento.
Bem baixinho cantarolei todas as músicas do meu vasto repertório enquanto varria cada canto da casa. Limpei, tirei e joguei fora tudo que não tinha mais valor para mim ou não prestava mais. Vasos quebrados, vidros vazios, perfumes velhos, roupas; pertences que já não pertenciam a ninguém. Certamente servirão para outros. Era preciso esvaziar. A sala, o quarto e o meu coração.
Papéis, muitos papéis desnecessários. Contas que já não contavam mais nada. Restos de histórias, pedaços de situações inacabadas, bancos quebrados, roupas que não serviam mais. Para quê manter tudo isso ao meu redor se já não fazem parte de mim?
Cansada, me recostei no sofá e adormeci. Não sei precisar quanto tempo fiquei ali, dormindo o sono dos vazios. Quem dorme vazio, dorme muito mais. E naquela tarde eu tinha me esvaziado por completo.
Uma boa xícara de café, alguns minutos de silêncio e agora sim, eu estou pronta para começar tudo outra vez. Que venha mais um ano, que venha mais um ciclo e que dentro de nós haja espaço para alguma coisa realmente nova acontecer.


Leila Rodrigues

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Encontro marcado



Ele bate à porta. E eu receosa não sei ao certo se devo abrir. Ele cumpriu o combinado e chegou com a precisão de um Lord. Eu, embora soubesse que ele chegaria, me perdi na confusão dos últimos dias e agora não sei o que dizer a ele. Arrumei o cabelo para esperá-lo, comprei vinho, fiz as unhas mas esqueci de preparar o meu coração para esta hora. Sei que ele não vai embora. Vou ter que abrir a porta. A ansiedade começa a me consumir.
Ele esperou muito e eu também. Agora não tem como fugirmos. Seremos nós dois de qualquer jeito. O problema é que ele quer que eu o receba com um sorriso, mas antes eu preciso enxugar as minhas lágrimas. Ele quer que eu o abrace, mas o peso das minhas bagagens não me permite. Ele me quer leve para viver com ele uma grande história. E eu me pergunto até agora como ficar leve diante de tudo que vivi nos últimos tempos. 
Às vezes queremos tanto alguma coisa e quando ela chega não sabemos direito o que fazer. Estou assim agora. É que realmente não está sendo fácil. Eu tenho lutado uma luta insana para dar conta de mim! E em alguns momentos eu desejei que ele chegasse. Eu tinha esperança de que, com a sua chegada algo em mim mudaria e num passe de mágica eu seria uma pessoa melhor, mais equilibrada, mais tranquila, menos apressada, mais persistente, mais cuidadosa, enfim… eu fiz tantas promessas em seu nome que agora que eu sei que ele está do lado de lá desta porta me dei conta da responsabilidade que coloquei em suas mãos.
Sabe de uma coisa? Abri a porta. E vou te dizer logo de uma vez que você não deve confiar muito em mim. Tudo que eu te disser será fruto da emoção do nosso primeiro encontro e que com três meses de convivência você vai descobrir quem eu sou de verdade. Eu faço terapia, tenho medo de barata, sou chocólatra, canto as músicas do Elvis no banheiro e não sei cozinhar. Em contrapartida eu não fumo, gosto de bichos e um dia ainda aprendo a meditar. Não tem como eu apagar a minha história até aqui e começar do zero, eu sou tudo isso que vivi! Mas saiba que você é muito bem-vindo em minha vida e que eu te quero muito bem. Sem promessas e sem clichês eu espero que passemos juntos uma ótima temporada. Que seja verdadeira a nossa convivência e que a gente consiga explorar o melhor um do outro. Seja bem-vindo 2016! Eu estou pronta para vivermos mais uma história de amor! 



Leila Rodrigues

Caros leitores,

chegamos ao final de mais um calendário. Amanhã… tudo continua! Cada um de nós com nossos projetos, nossas expectativas, nossos problemas e nossa difícil e deliciosa tarefa de nos equilibrarmos entre nossas escolhas e suas respectivas consequências.
Um 2016 repleto de boas energias, disposição e muita luz!!!

Grande abraço

Leila Rodrigues


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Ressaca do bem



Perdeu a hora, mas nem se importou. Esse é o único dia em que ela se permite acordar mais tarde. Um café forte vai ajudar. Saiu do quarto e observou à sua volta:
Destroços de papéis de presente espalhados pela casa mostravam que por ali houve algazarra. E alegria! No silêncio da casa, agora vazia, ela ainda conseguia ouvir os ecos das falas de cada um, falando tudo de uma vez. Era sempre assim! Primeiro uma oração para agradecer o ano e lembrar dos que se estão longe. Ela sempre chora, mas tem sempre um que faz uma piada e quebra o gelo daquela hora. Todos falavam ao mesmo tempo. Falam dos filhos, dos netos, dos que não vieram, das conquistas. Mães competem umas com as outras elogiando suas proles. Homens falam dos seus times e contam do carro novo, da crise e da reforma da casa. Os mais jovens fazem selfie e os mais velhos reclamam da tecnologia. Pequenos correm e gritam ao mesmo tempo. É muita fala para uma noite só! E cabe tudo na ceia.
Crianças avançam afoitas em seus presentes. A alegria está nos olhos de cada uma delas. Alguns se emocionam, choram, coraçãozinho dispara. Pena que, em 10 minutos, já abriram, já testaram, já estragaram e já desmontaram os presentes. E ainda tem aqueles que mal ganharam o presente e já começam a pedir outro.
Na mesa, comida para 8 dias e o dobro de convidados. Com medo de faltar, faz-se, além da leitoa, do peru, do arroz com castanhas, das frutas e dos panetones; um feijão tropeiro, uma tábua de frios, uma carne de boi ao molho madeira... Enfim, é comida que não acaba mais! Tudo permitido! Mesmo porquê, não comer o que uma fulana trouxe é desfeita.
As tias, que só tomam leite de soja, entram no  espumante. Docinho, refrescante e ainda na taça com aquelas bolhinhas sensuais. Ah! Vira água! Dá para imaginar o resultado! Dançam, cantam, choram, riem, gargalham, choram de rir, choram de chorar, se abraçam, se desentendem e se entendem novamente. Tudo em uma única noite! Isso é mágico!
Agora ela anda pela casa vazia. Enquanto junta os papéis, refaz o filme da noite anterior. Seus filhos lindos, quanto mais velhos mas lindos. Seus netos, seus parentes todos. Como é bom juntar a família, e poder celebrar a alegria de pertencer ao grupo. Voltar ao ninho e celebrar o nascimento do Pai.  Esta é a forma que encontramos de renovar nossos laços com aqueles que já nascemos entrelaçados.  Se é certo ou não, se o espírito natalino se perdeu, se o consumismo tomou conta, ela prefere não julgar. Para ela, fica a certeza de ter renovado seu profundo amor para com todos que estiveram ali.

Leila Rodrigues


Olá pessoal,

“Ressaca do bem” é uma das minhas crônicas favoritas. Retrata a realidade de nossas casas, de nossos Natais tão nossos e principalmente daquelas que, sem sequer saber o poder que tem, reinam absolutas em nossas casas, nossas mães. Essas guerreiras que a primeira vista parecem tão frágeis e que com estratégia e maestria nos criam e nos transformam em pessoas de bem.
Desejo um feliz Natal a todos os leitores do Palavras e que consigamos enxergar e aprender com nossas mestras o verdadeiro espírito natalino. Feliz Natal!
Grande abraço



quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Tempo bom



É preciso mais que disposição para enfrentar o dezembro. Meta para bater, prazos para cumprir, provas, TCCs, planejamento do ano seguinte, apresentações, fechamento de ciclo. A sensação que temos é que não vamos resistir. E ainda tem os presentes, os preparativos das festas natalinas, o encerramento do exercício, do ano letivo, do calendário. Naturalmente corremos para encerrar este ciclo que nada mais que é que um dia depois do outro, mas que pelo simples fato de alterar um número no calendário, modifica nossas vidas. Uma verdadeira loucura! E como não poderia ser diferente, no meio desta loucura, encaixamos como podemos as confraternizações. Já é parte da nossa cultura confraternizar.
Formatura, turma do trabalho, do inglês, da gastronomia, do futebol, dos amigos, dos vizinhos, da família dele, da família dela, ufa!!! São muitos encontros para um mês só. É hora de juntar as pessoas que, de alguma forma nos ajudaram a carregar o ano. 
Confraternizar não precisa ter necessariamente comida, bebida ou presente. Confraternizar pode ser um grande evento ou pode ser ali na padaria, no buteco da esquina, na casa de um ou  no quintal do outro. Confraternizar não tem regra. Pode ser a dois, a quatro ou a duzentos e cinquenta pessoas.  Só tem uma coisa que é comum em qualquer confraternização, o abraço. Abraço é universal. Abraço não precisa de embrulho. Abraço cabe em qualquer lugar. E é indispensável em qualquer confraternização. 
Dezembro deveria se chamar “deabraço". É o mês do abraço. É o tempo de abraçar. O mês é pequeno para tantos compromissos, mas não para os abraços. E é no abraço que damos o recado que não foi possível dar enquanto estávamos ocupados demais com nossas tarefas, com nosso dia-a-dia. É na força do abraço que dizemos ao outro o quanto ele é importante para nós. É no abraço que matamos a saudade. É no abraço que fortalecemos nossos laços. Um abraço sincero recupera nossas energias, quebra nossas resistências e alimenta nossos corações famintos. Abraçar é envolver o outro em nós! 
Então abrace. É dezembro! Encerre seu ano com um grande abraço! Abra seus braços e se prepare para dar e receber os abraços que estão por vir. Abrace uma causa, abrace um propósito. Abrace seu filho, abrace seus pais, abrace com carinho, abrace devagarinho, abrace sem dizer, abrace pra valer e deixe assim seus braços falarem por você! 

Leila Rodrigues

Imagem da internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos


Olá pessoal,

e estamos nos despedindo e 2015. Hora de abraçar e agradecer a cada um de vocês pelo carinho aqui no Palavras. Este ano o blog ficou inativo por um tempo e depois, com o incentivo de vocês, decidi retomá-lo e ainda mais, repaginá-lo. Agradeço de coração a cada visita que fizeram ao Palavras, a cada palavra de incentivo, seja aqui no blog ou por email e principalmente agradeço pelo seu tempo ao ler as crônicas. Valeu pessoal!! Deixo aqui um abraço a todos, minha gratidão e meu carinho!
Que todos vocês tenham um Natal de laços e presenças verdadeiras!
Grande abraço


Leila Rodrigues

domingo, 13 de dezembro de 2015

Alice



Lembro das minhas botas gastas de tanto andar. O caminho de casa até o colégio era longo, mas não era mais longo do que as tardes sem você. Fazia frio, a neblina cobria a cidade e você me esperava na esquina para irmos juntos toda manhã. Você tocava meu gorro rosa com as duas mãos e eu me sentia inteiramente aquecida. Eram nossas manhãs ingênuas. Um coração desenhado no caderno. Aquela música tocando em algum lugar e todos os meus livros espalhados na cama. Eu era apenas Alice e o universo me esperava para descobrir todas as estrelas do infinito.
Entre provas, canetas coloridas e livros eu escondia a nossa história. Brincávamos de ser e éramos sem saber. Éramos um do outro. Éramos de cada um. E os sonhos que sonhamos juntos não couberam em lugar nenhum sozinhos.
No fundo eu sabia que outros encantos te encantariam e que a minha grande viagem ainda estaria por vir. Mas você fechava os meus olhos com um beijo e eu fingia que acreditava que seria sempre assim. E abraçados cantávamos juntos que "o caminho é um só”, mesmo sabendo que na manhã seguinte cada um tomaria um rumo diferente. 
Foram-se os bilhetes, o meu caderno eu não tenho mais. E você meu cavaleiro de todos os sonhos, foi-se na névoa daquele inverno e nunca mais voltou. Às vezes tenho saudade de mim e outras vezes de você. Mas o tempo não me permite parar para lembrar. A vida hoje acorda cedo e quando chega a hora de sonhar eu já estou de pé. Demorei muitos anos para entender que o amor não vem em um cavalo alado descido dos céus e que príncipes e princesas hoje deixaram seus castelos e caminham juntos no asfalto lotado de gente. 
Foi-se a realeza e que seja muito bem-vinda a realidade! Ainda insisto em ter os cabelos longos, atendendo ao seu pedido de nunca cortá-los. Nunca mais fiz provas de física e o meu gorro rosa virou caridade. 
Ah que falta me faz minha avó e o café quentinho que ela sempre tinha para mim. Foi com ela que chorei a falta de você. E foi ela, a minha avó, quem me ensinou que a temporada dos príncipes dura menos que um conto de fadas, mas permanece eternamente em nossos corações, como serena lembrança de um tempo mágico que não volta nunca mais.

Leila Rodrigues







Olá pessoal,

Depois de três anos falando sobre tecnologia, Alice é a primeira crônica que escrevo para a Revista Xeque Mate. Uma deliciosa viagem no tempo. Neste tempo mágico de nossas vidas que acaba escondido na névoa dos dias comuns abarrotados de compromissos. Lembrar nossos amores é viajar em nossa própria história. O título uma homenagem à Alice, esta menina linda da foto, que eu tenho a honra de ser tia. Alice é inteligente, é moderna, é ela! Capaz de conversar muito bem sobre qualquer assunto, gosta de ler, de estudar e não vê limites no seu céu. Alice, te ver crescer assim tão linda, me fez lembrar da minha história, me fez voltar ao eu tempo de Alice. 
Muito obrigada Giovanni Lima, um grande amigo e incentivador das minhas crônicas pela oportunidade de fazer mais uma vez o que eu gosto de verdade, escrever. Aqui falaremos de amor, das histórias escondidas atrás dos nomes, de homens e mulheres comuns, como eu você, mas que carregam em si, os verdadeiros contos de fadas!

Grande abraço

Fotos de Vinícius Costa