segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A melhor festa


O que faz uma festa ser realmente boa? Um bom bufê com comidas nobres, entradinhas leves, taças de cristal, pratos bem pensados e preparados com precisão? Ou uma mesa impecavelmente arrumada, talheres  luxuosos, garçons bem vestidos e música clássica ao fundo? Pode até ser que com tudo isso a festa seja boa, mas o impecável não garante a satisfação dos convidados. Para uma boa festa, pode ter tudo isso ou nada disso! O que faz uma festa realmente boa é a energia que se cria. Já estive em festas extremamente bem preparadas, comidas fartas e saborosas porém sem emoção. Também já estive em festas em salões luxuosos convites disputadíssimos e que na hora H deixaram a desejar.
A boa festa é aquela que te deixa tão à vontade que você nem se lembra de reparar o vestido de onça da fulana ou o paetê da ciclana. Sabe por quê? Isso deixa de ser importante. Em festa boa de verdade você se sente ocupado com a festa. Isso é muito diferente de quando você é um mero expectador.  
O cantor pode até esquecer a letra da música que os convidados cantam por ele. Pode faltar copo, faltar cadeira ou faltar celebridade, o que não pode faltar em festa boa é alegria! Essa sim, tem que existir de sobra. No ambiente, no semblante dos anfitriões, nos convidados, no ato de festejar, tudo tem que estar permeado de boas energias, de alegria e da vontade de comemorar.
Decoração, luxo e perfeição é ótimo! Todos nós gostamos! Mas amigos de verdade quando se reúnem querem mesmo é se divertir. Os anfitriões são peça-chave pois o sucesso depende mais deles do que dos detalhes.
E se você puder juntar tudo isso a uma comida feita com amor e carinho, melhor ainda! Comida feita com cuidado e amor tem sabor diferente. Agrada de verdade! Comida que não só satisfaz a fome, mas desperta o interesse de quem come.
Em festa boa de verdade tudo é perfeito do seu jeito, no seu devido lugar sem que isto esteja em algum padrão. É perfeita porque fez todos felizes, gerou alegria, contentamento e satisfação.
É simples reconhecer a melhor festa. Ninguém quer ir embora! Para a música, param de servir e você continua lá saboreando a alegria do momento, torcendo para que ele não acabe jamais.

A melhor festa dispensa lembrancinhas pois fica naturalmente em nossa lembrança por um bom tempo. Este é o verdadeiro sabor de "quero mais”.


Leila Rodrigues

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Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

Se você tem um casal de amigos que se chamam Amnys e Cleide, ou se você já visitou a casa do Sr. Marcos Antônio e D.Irene vai entender o que eu estou dizendo. Trouxe comigo a vontade de voltar.


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A escolha



Levada pelo pensamento, como o vento leva a chuva, ela caminhava de volta para casa. Sempre a pressa, sempre o tempo. Contrariando o cotidiano, desta vez não era a janta que habitava seus pensamentos, nem o dever das crianças, nem o vazamento da pia. Quem a acompanhava pelo caminho era seu devaneio mais recente, uma nova oportunidade. Sim, uma oportunidade, essa dama encantada que habita nossos horizontes, havia beijado a sua face. Àquela altura de sua vida uma oportunidade de começar de novo, de um jeito novo em um novo lugar! Só de pensar nesta possibilidade, ela já se sentia embalada por este novo mundo. Riu de si mesma, conversou sozinha, não conseguiu parar de pensar. Fez e refez mil planos na cabeça, sentiu frio na barriga, tudo isso movida por esta janela que se abrira em sua vida.
A dúvida atormentava-lhe a mente. De um lado, a velha e costumeira vidinha de sempre, família, filhos, trabalho. Tudo tão encaixado para caber na agenda e na vida que até os problemas já lhe eram previsíveis. Não fosse a mesmice dos dias, não fosse a falta de emoção, diria que estava tudo perfeito em sua vida. Para quê mexer?
Do outro lado, feito criança na roda gigante, a oportunidade lhe convidava a largar a zona de conforto e experimentar começar tudo de novo. Quantas vezes ela não desejou, desesperadamente, uma oportunidade de recomeço? Quantas vezes, no auge da dificuldade e da dor, ela não quis uma chance desta? E agora que ela menos esperava, que ela já se havia acostumado com o que tinha, surge este pacote surpresa para dividir seu coração ao meio?!
Chegara a perder a fome, tamanha a dúvida. Silenciosamente cultivava aquela dor de quem precisa decidir um caminho a seguir. A dor não era escolher o caminho e sim, deixar um caminho. O que doía não era o caminho a ser escolhido, mas o que fosse deixado para trás, seja ele qual fosse. Descobriu que estava mais presa aos seus do que imaginava.
Resolveu colocar tudo na balança. E se surpreendeu! Descobriu uma equação que não se ensina nas escolas. Pessoas pesam mais que propostas, saudades medem mais que a distância, liberdade pesa mais que comodidade e felicidade nem sempre combina com facilidade. 
Diante de tamanha dúvida, ela rezou, pediu, pensou, calculou, chorou, sorriu e finalmente experimentou o momento mais solitário da vida. A hora de decidir. 
E assim decidiu! Optou por ser feliz. Achou este o caminho mais adequado.



Leila Rodrigues

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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Quem é ela?




O mercado é mestre em criar datas comemorativas. Há poucos dias tivemos o dia do amigo. Não me lembro desta data na minha infância. E olha que as amizades eram até mais intensas! Todos os dias deveriam ser de nossos amigos, mas com a correria do mundo moderno ter um dia para os amigos não foi uma má ideia. Afinal eles merecem no mínimo um dia do ano para que possamos agradecê-los pelo bem que nos fazem simplesmente por existirem.
Se vamos falar de amigos, então falemos dela. Quem é ela? Ela é aquela amiga que se não existisse, nós a teríamos inventado. É aquela pessoa necessária, imprescindível para a nossa evolução. Ela não precisa necessariamente ser a mais bela, nem a mais fina, nem tampouco a mais graduada, ela precisa apenas de algo que a faz única, é uma pessoa verdadeira. É aquela pessoa que não veio ao mundo para fazer nossas vontades, muito pelo contrário, ela é a única que tem coragem de nos dizer que estamos péssimas, que precisamos sacudir a poeira e dar a volta por cima, ou que precisamos passar um batom e seguir em frente. Quem não tem uma amiga dessa, perdeu metade do tempo se lamentando.
É com ela que queremos chorar nossas mágoas porque sabemos que ela vai tolerar por pouco tempo e logo logo vai dar um jeito de nos tirar do sofrimento. É ela que vai dizer que aquele sujeito não presta, que não precisamos comprar 5 camisas brancas, que o casamento é de dia portanto a roupa não precisa brilhar e ainda por cima vai dividir a conta em proporções mais exatas que qualquer calculadora faria. Só ela faz isso. Só ela é confiável a ponto de pagarmos calados as dívidas dos aniversários,  sem questionarmos uma vírgula.
Há quem diga que ela é mandona, eu prefiro dizer que ela é mãezona. Preocupa-se com todos e doa mais do que deveria para ver tudo em ordem. E ai se alguém mexe com um dos seus eleitos! Ela vira uma fera!
Ela organiza as festas com prazer, tomas as frentes mesmo quando chega atrasada e se não fizer parte da comissão de frente, pode esperar que vai fazer falta! Ah minha amiga o que seria de nós sem você? Sem a sua alegria, sem os seus valores intensos, sem a sua honestidade ímpar?
Como é bom ter você no nosso convívio! Como é bom te ver chegando trazendo barulho, alegria e de quebra uma cerveja Deus para descontrair. Romilda Maria Pinto Nogueira, minha leitora querida, esta pessoa é você! Uma amiga que faz por merecer este nome. A você o nosso carinho e a nossa eterna gratidão.
Leila Rodrigues

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Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 28/08/2015

sábado, 25 de julho de 2015

Permita-se



Passei a minha vida toda detestando iogurte. E não era uma intolerância, era não gostar mesmo!  Há poucos meses abri a geladeira, escolhi um iogurte e o devorei inteiro. Adorei! E de lá para cá iogurte é parte da minha dieta.
Como explicar que algo que eu passei a vida inteira resistindo agora faz parte da minha rotina? Nem eu sei dizer! Só sei que mudei! E que bom! Mudamos quando nos permitimos mudar. E mudar é a grande graça da vida! 
O problema é que mudar não é tão simples assim! Ninguém muda porque o outro mandou, mesmo porque isso não é mudar, é obedecer. Ninguém muda porque viu na TV, ou porque alguém falou que é bom. Isso pode ser experimentar. Desconsiderando as mudanças que a vida nos impõe sem pedir permissão como perder um emprego, uma pessoa querida, um acidente, mudar é um comando que cada um aciona sozinho. No dia em que bem entende. Minha mãe passou muitos anos tentando me provar que eu estava equivocada sobre o iogurte e eu resisti. Certamente muitas sugestões que recebemos de pessoas que nos cercam estejam corretas, mas a mudança só vai acontecer no dia que cada um decidir mudar. 
Que seja mudar o trajeto, mudar o cabelo, mudar de casa, mudar de cidade, mudar de emprego, mudar os móveis de lugar ou mudar a mobília da alma. Isso só vai fazer efeito se for uma decisão espontânea. 
Fernando Pessoa sabiamente nos diz "Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio. E lembra-te: Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão". 
Mudar é um exercício solitário. Às vezes fruto de longas e silenciosas observações, outras vezes resolvidas de supetão, mas sempre acordadas entre "eu e eu mesmo". Mudamos quando deixamos nossa teimosia de lado e nos permitimos enxergar as opções como verdadeiras possibilidades. Mudamos quando deixamos o outro sugerir sem nos aprisionarmos às sugestões. 
Não adianta marcar a data, escolher o local ou preparar um bota-fora para comemorar a mudança que vamos fazer amanhã em nossas vidas, nada disso vai funcionar! Mudar só será realmente possível quando aquele famoso “der na telha” acertar em cheio a tecla <enter> de nossas cabeças teimosas. É uma simples questão de permissão! Caso contrário, vamos morrer programando mudar sem nunca sair do nosso confortável lugar. 

Leila Rodrigues

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Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 21/07/2015

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Arcos, minha história com você!





Só quem se muda de uma cidade para outra em plena infância vai entender o que se carrega na mudança. Lágrimas, alguns brinquedos, saudade da avó e curiosidade. Foi assim que eu cheguei por aqui. Uma criança curiosa disposta a crescer junto com a cidade. Tudo era novo para mim. Para mim, para a minha família e para as 80 famílias que aqui chegaram na mesma época que nós. Éramos como imigrantes. "Um povo doido que chegou por aqui e sacudiu esta cidade para sempre!" Vindos de Campo Belo como eu, ou Lafaiete, São João Del Rey, Valença, Volta Redonda, enfim... Vindos de algum lugar. Sr. Paulo Marques tinha acabado de assumir a prefeitura e o sangue de crescer corria em suas veias. Sim, eu cresci junto com esta cidade!
Como não aprender com o primeiro amigo do meu pai Sr.Tuta, alguém que sem saber direito quem éramos nos recebeu em sua casa de portas abertas? Antonio Cardoso e Iva, verdadeiros irmãos que meus meus pais têm até hoje. Isso é aprendizado para a vida toda! 
Também cresci sobre as ordens do Sr. Trajano na Escola Berenice, cresci esperando a aula debaixo do Cristo, cresci no caramanchão da praça, nos jogos do poliesportivo ou em cada disputa acirrada do Ypiranga e Associação. Meu pai me ensinou a ser honesta, mas certamente alguns comerciantes como o Zeca, Sr. Lino, Sr. Edinho, Paulo Ribeiro e Chicão, sem perceber me ensinaram como tratar um cliente. Com o Waldo e o Dimas aprendi amar Matemática, com o professor Janer aprendi o segredo do sorriso; com D.Verinha e Dona Lázara descobri o amor pelas palavras e com a meiguice da professora Leninha descobri que ciências não era tão ruim assim.
Com a minha turma do curso de magistério aprendi a minha primeira grande lição de mercado, para quem tem um sonho e disposição nada é impossível! Conseguimos formar e fazer a nossa viagem dos sonhos, a primeira vez que eu vi o mar. Dona Sônia, sou grata por todas as aulas de didática e até hoje coloco em prática muito do que aprendi com você. Minhas queridas amigas do curso de magistério, eu carrego comigo saudade e gratidão pelas lições que passamos juntas.
Se era para dançar, lá estava o Tio Patinhas! Ah como eu dancei naquele lugar! Eu e toda geração dos anos 80 que passou por Arcos. Tom Bege foi um capítulo da minha vida. Um lugar que tinha a nossa cara, o nosso jeito. Como eu ficava à vontade na janela ou na varanda do Tom Bege! Quantos amores não começaram naquela janela? Arcos tinha uma energia tão contagiante que era impossível não se apaixonar por este lugar. Tínhamos show no Poli, baile do Clube, rock na Praça e Donizete Bernardes pra deixar tudo ainda mais encantador. 
Tinha os garotos da Rua Paulo, o murinho do fórum, o cinema na segunda e o imperdível desfile do dia da cidade com a fanfarra do Estadual. Meus primeiros alunos da Escola da Vila, lições trocadas que enriqueceram a minha história. Meu primeiro emprego, Escritório Contábil Arcoense e a grande amiga que continua amiga até hoje. 
Não poderia deixar de falar do Niterói onde eu passei a maior parte da minha vida, onde o frio chega primeiro e a vizinhança era parte da família. Café da tarde no sábado na casa do Sr. Farnese. Tardes riquíssimas de grandes lições que ele nos dava com a sua simplicidade e atenção! Lições de vida, lições de viver!
Hoje quando ouço os Seresteiros de Arcos tocando me emociono. E penso que devo ao meu pai tudo isso. Foi ele que nos trouxe, foi ele quem amou esta cidade antes de nós e nos mostrou que aqui construiríamos nossas vidas. Eu era apenas a Leila do Deco ou a irmã do Dinho, a irmã do Godzilla, a irmã do Marcelo... Mas uma eterna apaixonada por este lugar!  Você pode até achar que a cidade não te influencia, mas eu posso te garantir que foi com esta cidade, que eu aprendi ser quem eu sou. E toda vez que eu cruzar o trevo de Pains e enxergar as primeiras luzes deste lugar, meu coração vai bater feliz por saber que  Arcos está logo ali!


Leila Rodrigues

Foto: Leôncio Alves - facebook.com/leoncio.junioalves
Publicado no Jornal JC - Arcos em 16/07/2015

Certamente muitos nomes importantes dessa história não foram mencionados. não por desmerecerem, mas por não caber em um espaço pequeno para tantos anos de convivência. A todos os meus amigos Arcoenses que participaram comigo desta trajetória, minha gratidão e meu carinho.

domingo, 12 de julho de 2015

Bem-aventurados




Não entenda como atrevimento de minha parte. Não tenho a pretensão de desprestigiar as intocáveis palavras da sagrada escritura. Vivemos um momento de valores distorcidos e esquecidos. O que é certo ou errado depende agora de ponto de vista. Carentes de referências, seguimos às cegas. Onde andam os mestres, os sábios, os que deveriam ser referência para todos nós? Quem são os bem-aventurados do século XXI?
Bem-aventurados os que se aventuram! Os que não suportam o miserável lugar de expectadores e correm o risco de viver. Eles herdam felizes a intensidade de viver e tornam o mundo mais saboroso. Não importa quanto tempo eles vivam, este tempo valerá por uma eternidade.
Bem-aventurados os que nada sabem, os ingênuos de verdade! Os puros e nada ignorantes. Eles são providos de asas e conseguem voar exatamente por acreditarem que voar é possível. Que ninguém lhes roube a alegria de crer no impossível. São eles, esses tolos de hoje, que herdarão todas as possibilidades. 
Bem-aventurados os dispostos. Os que levantam cedo, os disciplinados, os que fazem de verdade! Só por eles temos algum resultado. São eles que concretizam os sonhos e herdarão para sempre o direito de continuarem sonhando. 
Bem-aventurados os interessados. Aqueles que olham em nossos olhos e se dispõem a ouvir de verdade a nossa história. Ouvir e se interessar pelo próximo é hoje a maior virtude do ser humano. Eles herdarão a atenção dos deuses. 
Bem-aventurados os que deram o primeiro passo. Os que pularam no escuro, os que foram, ainda que sozinhos. Por eles nossas tímida intenções encontraram forças  para irmos também  e eles herdarão para sempre a luz que ilumina seus caminhos.
Bem-aventurados os que cantam. Os que cantam, dançam, saltam e se mexem. Por nos tirarem da irritante e confortável preguiça de viver e nos mostrarem o movimento do mundo dentro de nós. Eles herdarão os sons, o ar e as cachoeiras do universo.
Bem-aventurados os mestres. Aqueles que andam entre nós disfarçados de pessoas comuns , mas que carregam em si o grande segredo da vida, a simplicidade. Esses são os verdadeiros mestres e é com eles que aprendemos as maiores e mais importantes lições. Eles já herdaram a sabedoria e só estão entre nós para que possamos evoluir também! 
E por fim, bem-aventurados todos aqueles que sabem fazer silêncio e o fazem toda vez que o pensamento quiser ferir alguém. Esses também já herdaram a evolução humana. Quiçá um dia a gente chegue lá! 


Leila Rodrigues

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Divulgado no Jornal Agora Divinópolis em 07/07/2015


domingo, 5 de julho de 2015

Entre esquinas




Um dia turbulento é como um furacão invisível. Não há fumaça, não há fogo, mas há destroços. Naquele fim de tarde eu estava destroçado pelo meu dia cruel. Eu precisava de um colo ou de qualquer coisa que pudesse aquecer a frieza da minha alma. Àquela altura, um trago ou um gole de café bem quente era o que eu tinha, embora não resolvesse o meu problema. Sentia a minha nuca pressionar o meu cérebro e sabia exatamente que era a minha pressão subindo a cada minuto. Um homem na minha idade jamais vai assumir que tem medo, mas eu sabia nitidamente o peso das decisões que me aguardavam e os riscos que eu corria.
A rua vai me fazer bem, pensei. Liguei o som bem alto para não ouvir meus pensamentos e comecei a virar esquinas desordenadamente. Eu que sempre tive um destino certo para tudo e para todos, naquele momento não tinha destino algum. Só uma vontade de continuar andando. Esquinas sempre me intrigaram. E o que há depois de cada esquina depende de cada olhar.
Alguns bares começavam seus expedientes enquanto outras tantas pessoas se aglomeravam no ponto de ônibus a espera da “condução”. Eu procurava um rosto conhecido, uma porta aberta ou qualquer coisa que pudesse parar a minha cabeça a mil.
Parei no sinal e vi a moça fazendo malabarismo com alguns tacos. Depois ela cuspiu fogo e saiu correndo entre os carros tentando arrecadar algum dinheiro. No canto da esquina estavam seus pertences. Sua vida provavelmente. Lembrei-me da minha casa de quatro quartos, do apartamento na praia, dos meus dois carros na garagem, da quantidade de ternos no meu armário... Sorri para a moça e torci para que ela me sorrisse de volta. Queria muito conhecer o sorriso de alguém que vive com tão pouco. Não foi difícil. Ela sorriu e me pediu um cigarro. Respondi que não fumo e ela disse "também não, mas levo para o meu marido".
Acelerei o carro e continuei virando esquinas. Parei no primeiro bar e pedi algo líquido. Enquanto eu engolia o líquido âmbar que me queimava a garganta, a minha cabeça disparava um filme onde o protagonista era eu. Parado, imóvel esperando chegar a coragem para prosseguir eu lembrei-me de todas as mulheres que eu tive. Uma por uma. Todas lindas, impecáveis! E acredite, eu amei cada uma delas. Lembrei-me da moça cuspindo fogo e em seguida sorrindo para mim. E eu aqui com medo de correr riscos. Desejei não ter casa, desejei não ter nada. Desejei ter apenas as esquinas e alguém me esperando com alguns cigarros amassados na mão.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 30/06/2015
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sábado, 27 de junho de 2015

Virado à Paulista




O céu é cinza, o chão é cinza e os prédios são acinzentados. E eu acabo me misturando a esse jeito cinza de ser quando estou em São Paulo. Misturo-me e gosto. Curto o frio, a garoa e a pressa do Paulistano. Impossível não ter pressa em São Paulo. Aqui tudo é tão urgente, tão latente que me assusta. Às vezes tenho a impressão de que o Paulista vive em outra rotação.
Primeiro sinto medo. Um medo bobo, de quem está acostumado a ser reconhecido de longe e agora tem certeza absoluta de que não será reconhecido por ninguém. Anonimato absoluto. Depois o medo vai dando lugar a uma curiosidade enorme pela cidade e suas pessoas apressadas. Entrego-me fácil. Rapidamente descobrem que eu sou apenas um "passante" por aqui. Meu olhar curioso em 360º me condena e o meu desajeito ao atravessar as ruas também.
Relaxo. E deixo o improvável apoderar-se de mim. Aqui não sou nada mais que mais um. E como é leve ser apenas mais um! Ter a minha identidade misturada às demais e perder o peso de ser quem determinei que fosse.
De que vale meu sobrenome no meio de milhões de sobrenomes iguais ao meu? De que vale minha formação diante da multidão que se forma a cada dia? De que vale a minha educação se eu não posso dizer que sou a filha do Déco? Sinto-me nua, me sinto só. E terei de me garantir assim. Sem lenço e sem documento, provavelmente com o mesmo medo que Caetano sentiu quando chegou por aqui.
Aos poucos pego o jeito e acerto o passo. Já sei andar depressa. Já entendi a importância da bota, do casaco e do guarda-chuva. Aceito o pão com salame como tira-gosto e descubro que ninguém morre por ficar na fila duas ou três horas. Na fila sempre surge uma conversa aqui, outra ali. Descubro que o sujeito da frente é Cearense (óbvio) e o de trás é da Paraíba (óbvio de novo). Surge um assunto, conto que sou Mineira, o outro conta como chegou e ao longo da conversa fica claro para mim que o colorido desta cidade vem das pessoas e não se atém ao cinza de seus prédios. Cada Paulista tem a cor que deseja, que carrega em si. O Paulistano é apressado e workholic mas tem o coração abarrotado de história e de paixão pela cidade. Defende-a com unhas, dentes e coração. Ele é apenas mais um cidadão na selva de cimento a espera de alguém que ainda não tenha se acinzentado como a cidade chegar e deixá-lo entrar.
Quem sabe um dia ainda venho para ficar?

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 23/06/2015
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segunda-feira, 22 de junho de 2015

A Consulta





Doutor, eu já cortei o açúcar, o sal, a gordura, o álcool, a carne vermelha, o arroz, o glúten, a lactose e os amigos. O que mais eu vou ter que cortar? Sim, porque só me falta agora cortar os pulsos.

Ainda assim hei de vencer! Tomei algumas medidas que vão contribuir muito para esta etapa da minha vida. Já cortei a empregada (limpar a casa ajuda a fortalecer os músculos), cortei para sempre a padaria porque leite e pão hoje em dia são dois venenos, cortei o álcool até da limpeza para não ter perigo de recair e amanhã cedo vou cortar a TV porque esses programas culinários estão arruinando a minha meta! Doutor, por favor, me diz se em algum momento desse corte coletivo eu vou poder cortar o que realmente me interessa, a minha fome!

Eu preciso parar de ter fome Doutor! O problema é que a minha fome é diferente das demais. A minha fome é na cabeça! Eu penso em comida, eu medito com comida, eu tomo café da manhã pensando em qual será o cardápio do almoço. Fala para mim Doutor, é ou não é uma cabeça de gordo?

Doutor, da última vez que eu estive aqui, o Sr. Me pediu para cortar a farinha branca. Eu cortei a branca, a preta, a amarela, todas! Lá em casa farinha não entra mais. O problema é que eu continuo pesando aquele mesmo peso do mês passado, que eu não posso expor aqui, claro! Doutor eu sei que eu estou alterada. Meu marido já me disse isso, a minha mãe e as minhas amigas também! Mas eu tenho motivos. Uma pessoa que se alimenta de alface, clara de ovo, batata doce e água tem todos os precedentes para ficar alterada. Eu perdi o sabor!

Doutor eu sonho ser uma pessoa fit! Sabe aquelas que acordam cedo e malham pesado todos os dias? Pois bem, esse é meu sonho! Então eu acordo cedo todos os dias e coloco a minha roupa de academia, todo santo dia! Aí eu vou à padaria, ao supermercado, levar meu filho até a escola, enfim, eu passo o dia com o meu modelito fit que é para todo mundo pensar que eu sou realmente essa pessoa. Inclusive eu!

Eu sei que a minha gordura reside muito mais na minha cabeça que no meu abdômen. Afinal, pesar 70 Kg não deveria ser motivo para esse pânico todo. Em algum momento eu criei esta meta de emagrecer e agora não consigo sair dela. Por favor, Doutor, me receite algo para sair dessa onda maluca que eu entrei. Emagrecer não pode ser assim! Será que o Sr. não teria uma pílula? Isso! Um remedinho desses mágicos que devolva a minha magreza e consequentemente a minha felicidade?

O quê? Rivotril? Emagrece?

Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 16/06/2015
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