segunda-feira, 17 de abril de 2017

O que temos para hoje?



Cresci em uma casa com quintal bem grande. Cresci em uma casa com quintal bem grande e todo plantado. Resumindo, cresci me alimentando da horta lá de casa. Todo dia, íamos até a horta saber "o que tinha para comer”. Colhíamos e preparávamos nossa refeição com base nesta resposta. Tudo muito simples, muito prático e delicioso. Foi assim que eu aprendi a gostar de tudo e de ter prazer em cozinhar. Hoje, muito tempo depois, vim saber que este modelo simples de alimentar talvez seja o mais correto e o mais rico em nutrientes. Legumes, frutas e verduras da estação, plantadas e colhidas em casa. Um tesouro!
Indo direto da horta para o mundo corporativo, hoje percebo as pessoas muito preocupadas em atingir a alta performance e em alcançar altos cargos em suas vidas profissionais. Muitas dessas pessoas estão empregadas, mas almejando a felicidade em outro lugar, provavelmente em uma empresa maior ou de maior importância e muito pouco preocupadas com o que se tem para hoje. Sendo assim, a comida de hoje, o emprego que o sustenta neste exato momento, perde por completo a importância.
Chamo a atenção para dois pontos. O primeiro trata-se do fato de que, para eu fazer bem o papel principal, eu tenho que primeiro fazer muito bem o papel de figurante. Depois vem o papel de coadjuvante e se eu o fizer maravilhosamente bem, aí sim pode ser que eu ganhe o papel principal. Então, indiscutivelmente, para eu saborear a comida maravilhosa de amanhã, eu preciso me alimentar do que eu tenho para hoje. Preciso experimentar, comer, saborear e perceber o quanto esta me sustentou. 
O segundo ponto de atenção é a oportunidade. Onde estão as boas oportunidades? Lá longe? Lá naquele emprego dos sonhos onde todos parecem felizes? A oportunidade pode estar do seu lado, te observando como seu cliente ou admirando a sua forma de lidar com os seus colegas. Ah essa tal oportunidade pode estar entre as frestas da porta, entre um corredor e outro. E quando menos você imaginar, ela passou por você e você nem viu. 
Para fecharmos o raciocínio, eu convido você a olhar melhor para a sua horta hoje. Olhe para a sua horta de oportunidades. Perceba o que você tem, o que te espera, o que depende de você e faça disso o seu melhor jantar. Trabalhe saboreando com prazer o que a vida te oferece neste exato momento. Só assim você terá chances concretas de prover para si um futuro melhor.


Leila Rodrigues

Imagem da Internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

Olá pessoal,

Depois de uns dias de descanso, aqui estou eu de novo com o Palavras. 
Sempre que escrevo, tenho como pano de fundo o que vivencio ou vivenciei em algum momento da minha vida. É verdade que vivi nesta casa com horta. Casa que, inclusive, meus pais vivem até hoje. E a horta continua lá, alegrando e alimentando a todos nós. Vizinhos e amigos também compartilham dos frutos deste pedaço mágico de terra.
Quis trazer a horta à tona porque ela foi realmente muito importante na minha formação. 
Os assuntos “liderança”  e "alta performance” estão aí na mídia e nas redes sociais para quem quiser ouvir. Fala-se o tempo todo nisso. Parece tudo tão fácil e lindo que todos querem ser líderes e atingir a alta performance. Eu ainda acredito que a alta performance tem que começar em nossa própria vida, com as pessoas que a gente ama, dentro de casa. A partir daí quem sabe você não pode buscá-la nos seus projetos profissionais e por que não, onde você estiver? 
A felicidade só estará no topo da escada, se você se sentiu feliz enquanto subia os degraus. Caso contrário, será apenas uma compensação por um esforço infeliz.   

Grande abraço


Leila Rodrigues


sábado, 1 de abril de 2017

Cadê o trem?



O que acontece quando o trem não chega? A mala cheia do seu lado, alguém esperando do lado de lá, compromissos por cumprir e uma sensação estranha de impotência. É assim que nos sentimos quando o trem não passa. O trem, o carro, o ônibus, o avião. 
Naquele dia eu fui dormir com algumas certezas e novas dúvidas. A certeza de que, quando alguma coisa tem que dar certo, ela vai dar certo, independente das adversidades. Existe sim uma conspiração cósmica que torna alguns dos nossos dias mais emocionantes que outros. São dias de atropelo, de adrenalina, de frio na barriga e de alegria no final. São dias para ficar na nossa história. 
E foi assim aquele meu domingo. Tudo planejado e organizado para acontecer na hora certa e do jeito certo. Mas quis o destino ou o acaso, eu não pretendo discutir qual dos dois aqui, que tudo fosse diferente. 
E para que tudo ficasse ainda mais encantador, mais emocionante, eu conheci outras pessoas que, naquele momento estavam tão impotentes quanto eu. De um lado o tempo, o ócio, o nada. Do outro, cada um de nós e a mesma condição de impotência. Cada um poderia ter se isolado no seu celular e esperado o tempo passar. Porém, sem que ninguém dissesse nada, nos propusemos a fazer daquelas horas de impotência as melhores possíveis. Vivenciamos a melhor rede social não digital, a boa e velha conversa. Olho no olho, riso com riso, pele com pele. Afinidades, opiniões e a certeza de que o mundo é pequeno. Naquele dia eu fui dormir com muitas dúvidas sobre tecnologia e evolução da espécie humana. 
Mas para o meu dia, que a esta altura já era noite, fechar com chave de ouro, faltava eu abraçar aquela pessoa querida que me esperava do lado de lá. Faltava eu matar 40 anos de saudade. Faltava eu descobrir que o mesmo tempo que leva a nossa juventude é o que preserva o frescor dos sentimentos. E ela continua linda, continua maior que eu, continua parecida com a nossa avó. O tempo foi muito curto para tantos anos de distância. Volto com a certeza de que não nos perderemos mais e que estamos preservadas no coração uma da outra. 
Naquele dia eu voltei para casa com a sensação de dever cumprido. Naquele dia eu fiz novos velhos amigos. Naquele dia eu aprendi que eu não posso fazer nada para o trem chegar, mas eu decido o que fazer com o tempo da impotência que o trem me causar. 
Naquele dia eu dormi feito criança que foi ao parque. 

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem da Internet - Estaçãoo Ferroviária de Divinópolis


Olá pessoal,

Tem dias que o trem não passa. Tem dias que o príncipe não vem.Tem dias que sobramos  com poucas ou nenhumas opções.  Naquele dia eu tinha um encontro marcado com uma prima muito querida que eu não via há muitos anos. E justo naquele dia, o meu trem não passou. Aconteceu comigo e pode acontecer com qualquer um de nós. Mas nós podemos escolher o que fazer com os momentos de impotência. Escolha o melhor, escolha ser feliz. E se quiser contar aqui nos comentários as suas escolhas em algum dia que o trem não veio, será um prazer.

Grande abraço



Leila Rodrigues

domingo, 26 de março de 2017

A febre do líder



Dificilmente falo do mundo corporativo aqui neste espaço. Hoje vou abrir uma exceção. Todos os dias recebo currículos na minha empresa, todos os dias recebo currículos de pessoas que querem ser gerentes de alguma coisa. Alguns desses currículos são realmente de pessoas que têm experiência, formação  e pelo visto competência para assumir cargos de liderança. Mas a grande maioria são de pessoas que ainda estão chegando ao mercado de trabalho e já querem ser líderes de alguma coisa. Então denominei de “A febre do líder”.
E para essas pessoas, ansiosas por assumirem um cargo de liderança eu tenho um recado. Liderar é muito mais que receber uma mesa maior e uma cadeira confortável. Liderar é antes de tudo, inspirar pelo exemplo, pela garra, pelo empenho. Liderar é estar à frente e isto não significa apenas usar um uniforme mais bonito. É dar a sua cara para o cliente bater quando preciso for. É entrar antes dos outros na fogueira para se queimar antes deles. É ser o primeiro da fila, o porta bandeira, o comandante da ação.
Liderar é muito mais que não bater ponto e poder chegar mais tarde ao trabalho. Liderar requer estudo constante, disciplina, foco e sobretudo disponibilidade. Enquanto todos vão para casa descansar, o líder vai analisar resultado e repensar estratégias. Liderar é muito mais que dar ordens. É desenvolver no outro a vontade de trabalhar, de aprender e crescer, de fazer exatamente aquilo que precisa ser feito. É fazer com que cada pessoa, ao te procurar com uma dificuldade, um desânimo, saia da conversa com mais vontade de trabalhar.  É despertar no outro suas competências e habilidades.
Liderar está muito além daquele lugar mais alto no organograma da empresa. Está no dia-a-dia comum junto com sua equipe. Está na humildade de saber que uma boa ideia pode vir de qualquer pessoa, de qualquer lado. 
Liderar não é uma premiação pelos seus muitos anos de trabalho, liderar é uma competência, uma aptidão, um dom. Uma capacidade de atrair as pessoas e fazê-las te seguir naturalmente.
Se a febre do líder te pegar, observe primeiro a sua capacidade de liderar a sua própria vida, as suas finanças, os seus filhos, o seu departamento. Observe se você está disposto a cumprir os deveres do líder, a bater suas metas, a defender seu time. Pense bem, mais vale um excelente operador que um líder medíocre. 


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem da Internet


Olá pessoal,

Nunca se falou tanto em liderança como hoje em dia. Cursos, livros, vídeos e palestras sobre liderança saltam aos nossos olhos. Parece que ser líder é a tradução da felicidade. Os valores estão invertidos e a liderança tem sido confundida com glamour, palco ou como a única forma de ser feliz. Tudo errado! A liderança é uma função que tal como as outras requer responsabilidades e equilíbrio entre dores e delícias. Liderar pode ser muito bom realmente, mas não é o único caminho. Todos nós, em algum momento de nossas vidas enfrentamos a liderança. Seja na vida profissional, seja como pai ou mãe ou como cidadão comum que precisar liderar a própria vida. “Se queres liderar alguém, comece por liderar a si mesmo.”  
Só assim vamos descobrir a beleza de sermos cada um e escolhermos o que nos trouxer felicidade de fato.

Grande abraço


Leila Rodrigues




domingo, 12 de março de 2017

Incorretamente feliz?


Ontem eu estava feliz. Sabe aqueles dias em que estamos simplesmente felizes? Era eu. Meu marido me disse que eu estava radiante. E eu, diante da fala dele, me senti melhor ainda.
Mas ontem eu tinha frizz no cabelo, coisa inaceitável para os padrões atuais. Eu também havia me esquecido de colocar os brincos e a minha unha deixava claro que eu tinha ficado muito tempo na cozinha. Era verdade. Eu fiquei um bom tempo na minha cozinha. Minha mãe veio me visitar e juntas fizemos uma comida de verdade. E comemos juntos, o que foi maravilhoso.  Comemos sem pressa, saboreando a simplicidade e a grandeza daquela refeição. Família, mesa e comida, uma celebração natural e divina.
Ah mas naquele eu não fiz dieta! Aquela comida não fazia parte da minha lista de permissões. Verdade de novo!  Naquele dia, que foi ontem, eu não tomei o suco detox e também não tomei os dois litros de água prescritos pela nutricionista.  Nem comi batata doce. E eu estava feliz! Incorretamente feliz! 
Tem dias que a roupa não combina com o sapato, que o cabelo não nos obedece, que a sobrancelha cresce... e tudo é tão pequeno diante da alegria de viver. Nesses dias não conseguimos sentir culpa. Assim são os imperfeitos. Leves com o que tem que ser leve. Neste mesmo dia meu filho vestiu uma combinação estranha de blusa com outra blusa por cima. E o meu outro filho foi mal na prova de redação. E eu, na insustentável leveza dos imperfeitos, não xinguei, não esbravejei, não mandei estudar e nem mandei que trocasse aquela roupa esquisita. 
É que eu estava feliz! Incorretamente infeliz. 
Hoje fala-se tanto em foco, disciplina e alta performance que nos tornamos todos generais. Generais de nós mesmos e de nossos habitats. Estamos o tempo todo vigiando, cobrando e exigindo. Paramos de viver para fiscalizar nossas próprias vidas. Tudo tem que dar certo, tudo tem que cumprir os padrões. Estamos cada vez mais chatos. À caminho do insuportável. 
Hoje voltei à minha disciplina. Minha mãe voltou para a casa dela, meu marido não fez nenhum comentário sobre mim e meu filho não vestiu uma blusa por cima da outra.  Até meu cabelo que gosta de manter a rebeldia foi domado por algumas gotas de um óleo milagroso. Tudo voltou ao normal, menos a saudade de ontem que eu guardei silenciosamente comigo. Aceita um suco verde? 

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal JC Arcos
Imagem: Acervo pessoal


Olá pessoal,

As palavras “coach" e "alta performance” tem tomado conta das redes sociais e da vida  das pessoas. Busca-se a alta performance em tudo, na carreira, na vida pessoal, na cama… Eu compreendo que a boa performance faz a diferença em nossas vidas e pode nos levar a patamares melhores. Mas nenhum ser humano vai conseguir ser bom em tudo! É preciso leveza. Principalmente para dar conta que daquilo que nos propomos a fazer bem. Foco, disciplina e determinação são bons, mas o exagero nos transforma em pessoas insuportáveis. E a linha que separa o saudável do insuportável é muito tênue. Imperceptível aos olhos de quem o faz.
Reconheço que este é um tema polêmico. Todos nós precisamos de disciplina e foco; e eu continuo admirando e respeitando quem o faz. O que me incomoda são os extremos, os exageros que dificultam a convivência. Fique à vontade para colocar a sua opinião nos comentários. 
Na imagem, minha cachorra Amy. Uma cadela nada correta, teimosa que só e que me faz muito feliz.

Grande abraço

Leila Rodrigues


sexta-feira, 3 de março de 2017

Marlene


Oi amiga, hoje pensei em você. Para dizer a verdade hoje precisei de você. Precisei desesperadamente de você. Não, não aconteceu nenhuma tragédia na família, está tudo bem com meus filhos e o meu casamento continua de pé. Mas sabe aqueles dias em que nem as crônicas da Leila Ferreira poderiam nos salvar? Pois é! Aconteceu comigo hoje. É quando precisamos de alguém para contar que o corte de cabelo ficou péssimo, que a dieta não deu certo ou que aquele projeto dos sonhos foi por água abaixo. Nessas horas não serve marido, nem namorado, nem vizinha. Esse é o momento que os Deuses reservam para as amigas. E no meu caso, hoje eu queria você.
Quis ligar; mas esbarrei nas minhas convicções perversas: "Será que ela vai poder me ouvir? Será que ainda se interessa pelos meus assuntos?” Amiga, a vida nos levou por caminhos tão diferentes que eu me pego incompetente na hora de conversar com você. Eu não entendo mais de balada, não sei mais qual a sua música preferida nem quem são os homens que você namora hoje. Ops! Perdão. A palavra “namora” já mudou de sentido. Então como eu ia dizendo, não sei mais quem são os ficantes da sua vida. Em contrapartida, tenho certeza de que os temas, festa de criança, escola de futebol e fralda não te interessam nem um pouco. E aí, presa a essa minha crença estúpida, eu fico aqui com saudade dos tempos em que vestíamos as roupas uma da outra, que usávamos o mesmo baton ou que dividíamos aquele sanduíche medonho da faculdade. 
Ah amiga eu devo confessar que tenho inveja da sua liberdade de ir e vir quando e onde você quiser e te adianto que embora a foto pareça perfeita, a minha vida não é nenhum comercial de margarina. Fizemos escolhas diferentes, é fato. Mas não existe lado certo ou errado. Todas nós choramos sozinhas em algum momento e todas nós temos dias como este, em que só uma amiga resolveria o problema. Onde quer que você esteja agora, você sempre será a minha amiga Marlene, aquela que conheceu os meus segredos mais íntimos e as minhas verdades mais veladas. Vida que vivemos juntas, que sonhamos juntas. Que cantamos, choramos e rimos juntas. Vida que valeu a pena viver. Saudades de você!

Leila Rodrigues

Publicado na Edição 22 - Janeiro/Fevereiro 2017 da Revista Xeque Mate


Olá pessoal,

demorei para postar porque esperei Marlene receber a revista. 
Sim, respondendo à pergunta de muitos, Marlene existe. Marlene é daquelas pessoas que a gente guarda debaixo de sete chaves dentro do coração. 
Todos nós precisamos de uma Marlene na vida. Não importa o nome da sua Marlene, abrace-a e agradeça-a por existir.

Mais uma vez gostaria de agradecer ao Giovani Lima pela oportunidade de escrever na Revista Xeque Mate, principalmente porque falar de pessoas especiais é sempre uma alegria. E através da Revista as pessoas podem conhecer um pouco dessas mulheres maravilhosas.
Obrigada Giovani!

Grande abraço



Leila Rodrigues

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Muito além da paisagem



A viagem havia sido incrível. Um país organizado, com cidades limpas, bem traçadas e bem cuidadas. Um sonho para nós brasileiros. Turma boa, divertida e animada. E eu, como faço sempre, tentava achar uma foto que conseguisse representar esta minha última viagem. Tenho o costume de selecionar uma foto em cada viagem que faço. Esta foto eu imprimo e acrescento ao meu álbum. Pode rir, eu sou das antigas, ainda tenho um álbum de fotos!
Dentre as tantas fotos que a turma fez, todas impecáveis e muito bem tratadas, nenhuma conseguia expressar o que eu buscava. Até que uma, dentro do metrô, da turma inteira voltando de um dia exaustivo de passeio me chamou a atenção. Estávamos todos cansados e desarrumados. Nada bons para uma boa foto convencional.  Mas estávamos felizes, todos sorrindo. Provavelmente de alguma mancada que um deu ou alguma besteira que o outro falou. Esta sim, representou aqueles dias que passamos juntos. Esta foi a minha escolhida. 
O melhor da viagem não está na paisagem de cartão postal. O melhor da viagem é o que você vivência enquanto está lá. As descobertas, as trapalhadas, os sabores estranhos, os lugares inusitados e os apertos na hora da comunicação são os maiores motivos de riso e de altas gargalhadas. O melhor da viagem são os casos que ela produz.
A foto montada, perfeita, onde todos sorriem juntos e olham para o mesmo ângulo é linda, mas nem sempre é real. A realidade da viagem é outra! Queria ter registrado aquela hora em que eu e minha amiga, de pânico, descemos abraçadas e aos gritos a montanha russa. Queria ter registrado a minha amiga falando inglês com um chinês. Queria ter registrado o choro do meu filho quando encontrou o super-herói preferido dele e a minha emoção quando vi  neve caindo pela primeira vez. Infelizmente desses fatos eu não tenho fotos. Mas guardo-os todos comigo como histórias preciosas para contar para os meus netos ou para relembrar quando der saudade. 
A fotografia hoje ficou tão banal que não eterniza mais os momentos. De tudo se faz um filme, uma selfie, um vídeo. De tão fácil, ficou descartável. Hoje ela dura apenas até a próxima viagem, a próxima festa ou o próximo celular. Pena não pararem para observar a grandeza dos momentos que ficaram para trás, seja porque não estavam adequados para um post ou porque a paisagem não estava boa. Perderam o melhor da festa!


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos
Imagem da Internet

Olá pessoal,


Viajar expande nossos horizontes para muito além da paisagem que se descortina. Viajar nos mostra outras opções, outras opiniões e consequentemente nos proporciona reflexão. Faz bem! 
E para quem não pode viajar, seja por qual motivo for, vou trazer aqui uma fala sábia de minha avó, quando na minha infância eu não tinha condições de viajar: “Viaje nos livros, com eles você pode ir onde sua imaginação quiser.”  

Para quem mora em uma cidade que não tem carnaval, como eu moro (Divinópolis), esses dias são ideais para descansar, assistir um bom filme, meditar, caminhar ou quem sabe viajar nos livros… enfim, atividade não falta. 
Independente de como você pretende curtir a folia, eu te desejo que esses dias sejam de boas energias e alegria. 
Grande abraço

Leila Rodrigues




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O Baile


Segundo o dicionário, baile é uma reunião festiva cujo objetivo é a dança. Baile nos remete à glamour, à nobreza, à beleza e encantamento. Reza a lenda que os bravos guerreiros franceses do século XII, após vencerem suas batalhas, primeiro bailavam, com o objetivo de aquecer seus corações. E só após o baile, desprovidos literalmente de suas armas e armaduras  eles se juntavam às suas mulheres para proliferar suas gerações. Luiz XV convencia seus homens durante seus famosos bailes e foi durante um baile da Cruz Vermelha que Grace Kely livrou Mônaco de um ataque francês.
A geração Y desconhecia esta palavra, substituíram o baile por balada, dança, festa e outros nomes estranhos, embora os propósitos sejam os mesmos e a proliferação continue. Até que chegou a turma do funk e criou o baile funk, o baile de favela e seus derivados. Uma nova forma de bailar.
O baile tradicional não morreu. Ele existe e reina glamouroso nas noites minuciosamente preparadas para o seus. Zélia Brandão que o diga. A nossa rainha sabe fazer um baile e provou com toda competência como fazê-lo. 
Em cada detalhe, em cada canto do salão, na escolha do repertório e até no seu visual deslumbrante de anfitriã, Zélia mostra que entende do assunto. As bandas se completaram com total harmonia,  foi possível perceber a qualidade e o amor pelo trabalho na energia e  alegria das equipes.  A verdadeira essência do carnaval brasileiro sendo cultivada e preservada na prática. E bailamos embalados de boa música, amigos, abraços e sorrisos. 
Os bailarinos, bailantes ou não, dançaram, cantaram e se esbaldaram no salão. Bem vestidos e muito bem cuidados, cada um manifestou do seu jeito o glamour do carnaval de salão. Teve quem veio de lord, teve quem veio de rei. Teve coroa e súdito. Indianas, gregas, viúvas, princesas, sheiks, marinheiros e muita gente bonita e bem produzida para a festa. Vivenciamos juntos um carnaval de verdade. O carnaval genuíno dos salões. O carnaval que se canta e dança. O carnaval que se dança sozinho, dança de dois, dança de roda. 
Voltamos para casa desprovidos de qualquer arma, de qualquer rancor, qualquer mágoa. Prontos para proliferar nossas próprias espécies e ensinar a elas o valor da cultura de um povo e a importância de se preservar estes valores. E com o coração cheio de confete e serpentina, seguimos mais leves para enfrentar nossos dias de luta. 


Leila Rodrigues

Imagem da rede social de Zélia Brandão
Publicado no Jornal Agora em 14/02/2017


Olá pessoal,

O Baile da Zélia Brandão já se tornou uma tradição em Divinópolis. Um marco no nosso contido Carnaval Mineiro. Zélia realmente sabe fazer um bom baile e quem participa percebe a energia dela durante todo o baile. Não poderia deixar e falar de Cecília Brandão, que sempre ao lado de Zélia contribuiu para que tudo saia perfeito. Zélia e Cecília, admiro cada vez mais vocês pela competência, pela elegância e pela qualidade de tudo que fazem, mas principalmente por manterem vivo o Carnaval dos salões, uma tradição que se perdeu. 
Para quem não conhece, fica aqui o convite para uma noite de nostalgia, glamour e alegria.

Grande abraço



Leila Rodrigues

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Amor na versão 4


Para começar nossa conversa, venha disposto a conversar. Aceite meu sorriso tímido, de quem não fez um check list antes de sair, de quem não está 100% à vontade, mas está 200% com vontade.
Perdoe-me se o frescor da juventude não estampa mais a minha pele. Aceite o calor que ainda me queima por dentro, hoje muito mais quente do que quando existia frescor.
Eu não terei tempo de reparar seu relógio, nem seu carro, nem o couro da sua carteira. Não é isto que me encanta em você. Mas ouvirei atentamente cada palavra dita, cada sorriso, cada gesto.
Você não precisa pagar a minha parte da conta; a esta altura, contas já não contam tanto assim.
Fique a vontade! Aqui não é errado gostar de Bob Dilan, usar mocassim ou jaqueta de couro. Eu também ainda insisto no blazer vermelho e vez por outra vou cantarolar um Belchior.
Me ofereça algo mais do que frases prontas, copiadas-coladas de um email qualquer. Me ofereça o que for seu de verdade! Eu aceitarei de bom grado e farei disso o meu melhor jantar.
Traga somente você no nosso encontro. Deixe lá fora seus méritos, suas medalhas, seus títulos, sua beca. Venha sem armas, sem truques, sem compromisso. Traga apenas a sua história,  sua trajetória. E isso será o bastante para nos darmos muito bem. Venha você, porque quem te espera aqui sou só eu.
Eu prometo não comparar você comigo, nem com mais ninguém. Prometo ser eu mesma durante todo o tempo em que estivermos juntos.
Sinais do tempo estampam nosso rosto e revelam nossas lutas, mas nossos olhos, turvos pelo tempo e brilhantes de esperança, podem descobrir juntos a alegria a de começar tudo outra vez. Uma página em branco de um caderno usado, capaz de receber uma nova história. E nela escreveremos nossos feitos com um código só nosso e sem nenhum preconceito. Sorrisos que revelarão nossos mais íntimos segredos e a cumplicidade que será a chave única de nós dois. Não foi você nem eu que chegou tarde, foi a vida que tardou para nos unir, provavelmente porque esse era o tempo certo dessa história. O amor não é propriedade exclusiva dos jovens, é propriedade de quem o vive, enquanto o vive. E nós ainda temos muito para viver!

Leila Rodrigues

Imagem da Internet
Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos

Olá pessoal,

Este é um texto que muitos me pedem para repostar. Então, como, aqui no Palavras o leitor manda, eis o texto novamente.
Muito obrigada a todos que tem me mandado e-mails com as solicitações e sugestões de texto.  Nos últimos três meses, vocês triplicaram o número de visitas aqui no Palavras. A medida do possível vou repostar e atender a todos. 
Para quem quiser encaminhar alguma solicitação de reposte ou tema o email é leila.palavras@gmail.com

Amor na versão 4 é um texto que fiz para os meus amigos que já passaram dos 40 e buscam um parceiro ou parceira. Seja para começar ou para recomeçar a vida o que eu posso dizer é que tem muitas pessoas incríveis, dispostas, honestas, divertidas e alegres a procura de alguém. Se você é um deles, que você encontre este alguém e seja muito feliz. 

Grande abraço


Leila Rodrigues

sábado, 28 de janeiro de 2017

Depois de andar muito


Todos os dias você se levanta e vai seguir seu ritual. Você, eu, todos nós. Você se levanta e vai cumprir a missão que a vida te deu. Não importa se você escolheu ou não, se gosta ou não. Todos os dias temos o que fazer, nem que seja esperar os minutos passarem, que é uma das tarefas mais difíceis que o ser humano pode enfrentar. Pode ser que a sua tarefa seja cuidar da casa, alimentar seus filhos. Ou pode ser cuidar de outros, ensinar, empreender, compor, ser famoso, dirigir um caminhão gigante, dar aula de biologia para uma turma de adolescentes ou atender clientes. Alguns têm noção de que isso é missão, porém muitos cumprem sua missão acreditando que é castigo. Faça chuva ou faça sol, um dia animado outro pensativo; um dia acreditando ser missão, outro acreditando ser carma, todos os dias acordamos para fazer alguma coisa. A vida é isso, cumprir todos os dias uma missão que nem nós sabemos direito qual é. 
Um dia você olha para trás e percebe que já percorreu um longo caminho. É amigo, neste momento você percebe que finalmente atingiu aquele lugar sagrado chamado experiência. A rotina, a disciplina, os erros, os acertos e a insistência fizerem de você uma pessoa experiente. Não tem glamour nenhum nisso; tem vivência, história real para contar. 
É muito mais que uma foto, um post na rede social e alguns likes. É vida vivida! Agora você pode olhar para trás e apreciar seu percurso. Rir do seu começo, brincar com a sua história. Só a experiência permite isso. 
Depois de andar muito você agora pode se permitir respirar tranquilo, pode ouvir a si mesmo e, se quiser, também pode se juntar aos mestres e ajudar àqueles que sonham saber o que você sabe. Ainda que nem tudo possa ser aprendido, tudo pode ser ensinado. E você pode diminuir os espinhos dos que estão iniciando a jornada. 
É fato que sempre haverá algo a aprender mas é muito bom saber que tudo foi e será um grande aprendizado. Pode ser que ninguém tenha te aplaudido ou que muito poucos tenham te reconhecido.  Vivemos tantos anos sem que ninguém "curtisse" os nossos feitos que isso agora não é o mais importante. A esta altura aceitamos felizes o que for de verdade. Contudo, para a nossa serenidade e felicidade o melhor mesmo é reconhecermos nossos valores e seguirmos em frente. Não há nada mais libertador que um caminho percorrido.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem: Foto do fotógrafo Sebastião Salgado - internet



Olá pessoal,

Aprendi muito cedo a respeitar os mais velhos. Minhas avós, pessoas muito presentes e respeitadas em minha família, foram a minha maior escola. Portanto admiro e reverencio a experiência. 
Experiência não é fama. É vida! 
Tenho visto as pessoas confundindo as duas coisas… Que pena!

Grande abraço, sempre vivendo e aprendendo


Leila Rodrigues

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Para viajar na viagem






Pra viajar na viagem

Paga a conta da padaria. Avisa que não é para entregar o pão. Deixa a cachorra no hotelzinho. Não esquece de levar a ração! E as plantas? Quem vai cuidar? Lembrou de pegar os vouchers? E o chip do celular? Tem que deixar dois cheques assinados para pagar isso e aquilo. Mãe, minha mochila estragou. Dona Leila o quê a Sra vai querer almoçar quando voltar? 
Pára tudo que eu enlouqueci! Nem quero mais viajar! 
É assim a vida de quem não tem férias. É assim a vida de quem tira uns dias para  ir ali. Uma verdadeira loucura!  Até a entrada no avião eu sei que ainda estarei falando no celular. Se não for no trabalho será com a minha mãe, ou com quem for cuidar do meu cachorro. Tudo se junta nas vésperas da viagem! A mala, a imensidão de coisas que precisam caber na mala, uma lista de coisas para levar, outra lista de coisas para fazer antes de sair e ainda tem uma terceira lista de coisas para fazer lá. Isso sem contar as encomendas e as fotos de produtos "bacanas e com nomes estranhos" que estão no celular. Não precisa me dizer, eu sei; isso é coisa de quem viaja pouco! Não aprendeu a ser prática, não aprendeu carregar pouca bagagem. Fazer o quê? Essa sou eu, tenho que assinar onde? 
Não sou de invejar ninguém. Mas vou confessar, tenho inveja das mulheres que podem viajar nos preparativos da viajem. Aquelas que ficam dias fazendo as malas, que tem organizador para tudo, que têm aquelas necessaries gigantes que cabem frascos enormes. Elas sempre saem para viajar tranquilas, perfumadas, produzidas, com cara de Coco Chanel, prontas para o passeio dos sonhos. Parece coisa de filme, surreal! Lenços, chapéu ao vento, óculos combinando com a bolsa, com  a sola do sapato. Não são mulheres normais. Elas me parecem mais uma propaganda ambulante de Resort. Meu sonho é me esconder na mala delas só para saber se elas esqueceram alguma coisa. Seria a glória! Será que eu estou no planeta errado? Ou será que são elas? Fiquei em dúvida.
De uma coisa eu tenho certeza, depois que aquele avião tirar as rodas do chão, ninguém vai se divertir mais do que eu. Posso ter esquecido o creme do cabelo, posso ter que empurrar meu marido na cadeira de rodas (como já aconteceu), posso ficar sem dinheiro e comer pão com mortadela na padaria da esquina, mas euzinha aqui, viajando de férias com pessoas que eu amo, eu esbanjo disposição  e alegria. Posso não ser boa nos preparativos e nem chegar no embarque com cara de quem mora na França, mas como companheira de viagem, não tem produção que me vença. Eu sou ótima! Vamos? 


Leila Rodrigues

Imagem da internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

Olá pessoal,

quem me conhece sabe que esta sou eu mesma. Imagine um HD antigo com múltiplos processamentos? Sou eu na véspera da viagem. Às vezes consigo bem, outras nem tanto, mas geralmente me atrapalho. A minha única vantagem é que eu ainda consigo rir de mim. Será preciso viajar muito ainda para eu tomar jeito! Que bom! 
À bientôt!

Grande abraço

Leila Rodrigues



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Incomodada eu?





O gato da vizinha incomoda a outra vizinha. O meu cachorro incomoda a vizinha de baixo. As músicas que um gosta, o outro detesta. As festas que o vizinho dá não deixam o outro dormir. O piano que o fulano toca, agrada um e perturba o outro. É assim a lei da convivência. Um eterno agradar e desagradar. 
Já vi gente se mudando de apartamento porque não suportava mais as festas do vizinho que varavam a noite. Cansou de conversar, de explicar que acordava cedo. Não encontrou no outro nenhuma abertura para o bom-senso. Foi-se. 
Segundo o site www.quemdisse.com.br, a clássica frase “Os incomodados que se retirem” é um provérbio português. Que me desculpem os irmãos lusitanos mas acho-a um abuso. É pensando assim, que os incomodados devem se retirar, que chegamos onde chegamos. Todos nós queremos obedecer as regras, desde que elas estejam de acordo com os nossos interesses. Concordamos com tudo, ou melhor, com quase tudo; no quase reside a nossa perversão. É no quase que habitam nossos desejos que chamamos de bobos; o gato, a música, o som alto, a fila que furamos, o lixo na rua, a internet do vizinho. São tão bobos e pequenos que ninguém vai perceber. E um dia nos damos conta que esse "ninguém vai perceber” se tornou cultura popular. E consequentemente, amparados neste mesmo quase, agem os políticos, os laranjas, os funcionários “encostados" sem doença alguma, os herdeiros de benefícios eternos, os chefes de estado. 
Estamos todos incomodados e incomodando alguém. Sendo assim, fica o dito pelo não dito e está tudo bem. E assim crescem nossos filhos, assistindo a este cenário ridículo que mostramos com nossos próprios exemplos todos os dias. Incomodar o vizinho, incomodar o fluxo do trânsito, incomodar a receita do país e consequentemente seu desenvolvimento… e depois dormir tranquilo confiando no provérbio português. 
Tenho visto os incomodados reagindo. O que é muito bom. Só espero que se incomodem também com os incômodos que causam. O que precisamos mesmo é trocar o provérbio e  estampar nas redes sociais, nos outdoors e principalmente na conduta de cada um de nós é que “o certo é certo ainda que ninguém esteja fazendo e o errado é errado ainda que todos estejam praticando”. Quem sabe assim, não criamos um amanhã mais digno para os nossos filhos? 


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem da Internet


Olá pessoal,

ninguém vive sozinho. Dependemos do ecossistema e somos parte dele. Enquanto ainda estivermos agindo na defensiva dos nossos pequenos delitos, grandes delitos acontecem bem diante dos nossos olhos e não podemos fazer nada! Pensemos nisso!!!!

Na imagem, Donald, o meu incomodado favorito!

Grande abraço


Leila Rodrigues

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Entre esquinas



Um dia turbulento é como um furacão invisível. Não há fumaça, não há fogo, mas há destroços. Naquele fim de tarde eu estava destroçado pelo meu dia cruel. Eu precisava de um colo ou de qualquer coisa que pudesse aquecer a frieza da minha alma. Àquela altura, um trago ou um gole de café bem quente era o que eu tinha, embora não resolvesse o meu problema. Sentia a minha nuca pressionar o meu cérebro e sabia exatamente que era a minha pressão subindo a cada minuto. Um homem na minha idade jamais vai assumir que tem medo, mas eu sabia nitidamente o peso das decisões que me aguardavam e os riscos que eu corria.
A rua vai me fazer bem, pensei. Liguei o som bem alto para não ouvir meus pensamentos e comecei a virar esquinas desordenadamente. Eu que sempre tive um destino certo para tudo e para todos, naquele momento não tinha destino algum. Só uma vontade de continuar andando. Esquinas sempre me intrigaram. E o que há depois de cada esquina depende de cada olhar.
Alguns bares começavam seus expedientes enquanto outras tantas pessoas se aglomeravam no ponto de ônibus a espera da “condução”. Eu procurava um rosto conhecido, uma porta aberta ou qualquer coisa que pudesse parar a minha cabeça a mil.
Parei no sinal e vi a moça fazendo malabarismo com alguns tacos. Depois ela cuspiu fogo e saiu correndo entre os carros tentando arrecadar algum dinheiro. No canto da esquina estavam seus pertences. Sua vida provavelmente. Lembrei-me da minha casa de quatro quartos, do apartamento na praia, dos meus dois carros na garagem, da quantidade de ternos no meu armário... Sorri para a moça e torci para que ela me sorrisse de volta. Queria muito conhecer o sorriso de alguém que vive com tão pouco. Não foi difícil. Ela sorriu e me pediu um cigarro. Respondi que não fumo e ela disse "também não, mas levo para o meu marido".
Acelerei o carro e continuei virando esquinas. Parei no primeiro bar e pedi algo líquido. Enquanto eu engolia o líquido âmbar que me queimava a garganta, a minha cabeça disparava um filme onde o protagonista era eu. Parado, imóvel esperando chegar a coragem para prosseguir eu lembrei-me de todas as mulheres que eu tive. Uma por uma. Todas lindas, impecáveis! E acredite, eu amei cada uma delas. Lembrei-me da moça cuspindo fogo e em seguida sorrindo para mim. E eu aqui com medo de correr riscos. Desejei não ter casa, desejei não ter nada. Desejei ter apenas as esquinas e alguém me esperando com alguns cigarros amassados na mão.

Leila Rodrigues

Olá pessoal,

atendendo ao pedido de alguns amigos, estou repostando esta crônica. 
As esquinas se apresentam em nossas vidas de diversas formas, seja para simplesmente quebrá-las, seja para virarmos nossas páginas ou para descobrirmos novas janelas.
Que consigamos enxergá-las!

Grande abraço


Leila Rodrigues