segunda-feira, 25 de maio de 2015

Vida Digital





Cheiro de terra molhada, cheiro de café coado, cheiro da pessoa amada. Sentir é melhor que visualizar. Escrever um livro, pintar um quadro, bordar um tecido, desenhar um vestido. Criar é melhor  que copiar colar. Andar pelas ruas de Tiradentes, conhecer as Ilhas Gregas ou quem sabe uma tarde no Quadrado de Trancoso. Viajar é melhor que navegar. Abraço apertado, bochecha de bebê, chamego de cão e dono. Tocar é infinitamente melhor que digitar. Aniversário de mãe, apresentação do filho, medalha de amigo. Estar é bem melhor que conectar. Roda de amigos, conversa fiada, conhecer pessoas, rir até chorar. Conviver é melhor que compartilhar.
Contudo, visualizar, navegar, digitar, conectar, compartilhar, baixar, são verbos que hoje fazem parte de nossas vidas. Com eles você pode encurtar as distâncias, matar a saudade, aproximar quem está longe e resolver as coisas com muito mais praticidade. Isso é inegável!
São esses novos verbos que ditam os novos comportamentos. Quem tem menos de 20 anos já nasceu com eles na prática. Quem já passou como eu, teve que aprendê-los de qualquer jeito. Suas traduções e consequências... Ainda somos todos aprendizes.
Até as armas foram criadas com um bom propósito. Mas heis que as intenções modificaram os objetivos. Com a tecnologia pode acontecer o mesmo.
Se antes sofríamos com a falta de informação, hoje o problema é outro. Existe informação demais e não se sabe mais em quê ou em quem confiar!!!
De tanto "fotoshop" o rosto se perdeu. De tanto copiar-colar a criatividade atrofiou. De tanto conectar com o mundo lá fora, desconectou-se por completo de quem estava a seu lado. De tanto navegar o barco afundou. Afundou sem ver a vida que acontecia debaixo dos seus próprios olhos.
O número de seguidores não é proporcional ao número de pessoas com quem se possa confiar. O número de curtidas não significa que estas pessoas te apoiam de verdade. Na selva digital tudo é tão passageiro quanto um click. E a distância entre o que se vê e o que realmente se é ultrapassa os limites da imaginação humana.
É muito bom curtir, compartilhar, visualizar e conectar, desde que possamos manter íntegros nossos valores e princípios. Porque por mais prazeroso que seja estar no topo desta lista, viver é melhor que postar!

Leila Rodrigues

Imagem da Internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 19/05/2015

domingo, 3 de maio de 2015

Meninas de ontem





Você tinha os cabelos encaracolados e a minha mãe sempre dizia que isso não era um bom sinal. Eu tinha um cabelo de franja e gostava de cantar. Foi um tempo de sonhos simples e puros. Quando tudo que eu queria era dançar no grupo Corpo enquanto você sonhava em ter todos os discos do Pink Floid. Ainda podíamos fazer poesia e deixar dentro do caderno para que o outro lesse na manhã seguinte. E quantas vezes eu fiquei agarrada a você ouvindo Save a Prayer e mirando seus olhos verdes. Talvez querendo que o mundo acabasse ali mesmo para que eu continuasse eternamente sua e você eternamente meu.
Durou pouco! Durou pouco a música. Durou pouco a febre que movia nossos braços rápidos de desejo. Durou pouco o tempo de nossa juventude. Tão pouco que eu não consigo me lembrar das tantas noites lindas que tivemos. Só me lembro do seu violão parado em um canto enquanto você dançava comigo no meio da sala sem móveis, da república onde você morava. Era Duran Duran. Era Save a Prayer. E eu era apenas uma menina apaixonada pelo moço de olhos verdes.
O tempo levou nossas folhas e nos outonos que se seguiram não houve mais tempo para a paixão. O ônibus lotado não comportava corações transbordantes. Era preciso deixar o coração em casa e sair apenas com a razão. A vontade de chegar a algum lugar era bem maior que a sede dos meus hormônios tímidos. Entre soluços e provas de português logo aprendi que os príncipes não viriam me buscar para o baile. Nem para o baile nem para lugar nenhum. E que, se eu quisesse mesmo chegar a algum lugar, eu que tratasse de dar meu jeito e chegar lá.
E assim como muitas meninas de ontem que queriam algo mais além de um sobrenome novo, eu fui. E cheguei lá e depois acolá. Até não enxergar mais o caminho de volta. E você enxergou novos encantos em velhas amigas. E construiu seu mundo sem lembrar-se do nosso sonho de morar em Itaparica e ter três filhos. Eu me apaixonei outras vezes e numa dessas decidi criar meu ninho e dar sentido à minha existência.
Hoje vi você passando com a família. Não era você. Não aquele que eu conheci. Mas quem te viu também não era eu e sim aquela menina de tempos atrás. Um minuto de lembrança, eu confesso. Já passou! Dizer que dentro de mim não há exatamente nada daquela menina talvez seja mesmo verdade. O que não muda morre. E nós optamos por mudar. Mas para não dizer que o tempo leva tudo, sempre que ouço Save a Prayer, imagino que estou dançando em alguma casa antiga da Rua Luis Delfino, 931.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 07/04/2015
Imagem: Lídia Brondi ( a musa de tantos jovens dos anos 80)

Deixo aqui um clipe da Música Save a Prayer – Duran Duran que sugiro ouvirem enquanto lêem esta crônica.


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Maçã com canela




Tudo começou com uma pneumonia que ele teve ainda jovem. Eles mal tinham acabado de se casar. Ela assustada quis cuidar dele. Era a primeira vez que cuidava de alguém. Não poupou esforços. Por recomendação médica ela cozinhou as maçãs até ficarem bem macias e perfumou-as com uma generosa pitada de canela. Ele, acamado e sem fome se recusava a comer. E ela então se ofereceu para comerem a dois. Comeram vagarosamente enquanto conversavam. Conversavam, comiam e faziam os planos. Os filhos, uma casa, um emprego melhor. Sem se dar conta ele comeu a maçã prescrita pelo médico.
No dia seguinte ela veio de novo com a maçã, e no outro e no outro também. Até ele se curar por completo. A doença se foi e o ritual da maçã ficou. Toda noite ela servia duas porções de maçã com canela e eles comiam juntos. Enquanto comiam falavam do dia, falavam dos filhos, falavam de si. E dormiam como o cotidiano permitia. Houve tempos em que a maçã foi comida com um dos filhos no colo, ou senão com dois. Houve noites em que a maçã foi comida em absoluto silêncio e ainda houve outras noites em que cada mordida carregava um olhar e um sorriso perverso de quem queria mais que a maçã. Doces e quentes noites!
No inverno a maçã era comida quentinha. A fumaça perfumada recendia pela casa e esquentava o ambiente. No verão, a maçã era servida bem gelada,  na varanda para aproveitar a fresca da noite.
Os anos se passaram. Quando ele viajou para Recife a trabalho, ela sentava sozinha, na mesma hora de sempre e saboreava a maçã dos dois. Quando ela operou, ele preparava a maçã e a servia toda noite. Quando o dinheiro ficou pouco, ele descobriu no sacolão as sobras de maçãs mais baratas. Quando ele subiu de posto, encomendou maçãs argentinas. E quando ela resolveu estudar mais um pouco, ele a esperava com as maçãs antes de dormir.
Os filhos cresceram. Ele perdeu os cabelos, ela ganhou alguns quilos. Eles mudaram de casa, de carro, de cidade, de trabalho e de vasilhas de servir maçãs. Veio o microondas, facilitou o preparo. Vieram as doenças, dificultaram os momentos. Ela se foi. E ele foi morar com o filho mais velho. A memória pouco funciona. Ele toda noite descasca vagarosamente uma maçã, salpica canela, aperta aquela tecla do micro-ondas que ele mal enxerga, aguarda o apito, retira do forno e se senta em frente à janela para saborear sua maçã. Certo de que em algum lugar, sua amada está fazendo o mesmo.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 31/03/2015
Imagem do blog Panelinha (uma delícia de blog)

domingo, 29 de março de 2015

Para você




Da janela eu a vi sair do estacionamento apertado e pegar a avenida principal. Linda! Radiante! Resolvida na medida certa para fazer acontecer e sensível o bastante para não perder a meiguice. No seu coração, em doses proporcionais confiança e medo se equilibram. E eu engulo o choro e a saudade em uma dose única e volto ao trabalho.
O que te dizer no momento da despedida? Sempre soube que este dia chegaria, mas ainda assim, vê-la partir foi uma prova de fogo. Mas a vida não é assim? Os filhos são do mundo. Um dia crescem, no outro descobrem as asas e no outro percebem que o céu não tem fronteiras. Com você não poderia ser diferente. E eu bem sei que chegara seu tempo de voar com as próprias asas.
O que dizer de você minha doce menina? Era para sermos apenas colegas, mas esse seu coração de portas escancaradas nos fez amigas. Era para fazermos algumas coisas interessantes, mas nós fizemos todas as coisas interessantes que víamos pela frente. Era para termos medo, mas a nossa ingenuidade nos deu uma coragem tão grande que juntas enfrentamos mamutes, tigres e leões. Era para eu te ensinar, mas quem aprendeu fui eu. Com você aprendi abrir portas com um sorriso, aprendi não ter medo de cara feia e principalmente aprendi que podemos sair de qualquer lugar pela porta da frente.
O que te desejar neste momento? Eu desejo minha menina que virou mulher, que você alce seus voos sempre em direção à sua felicidade. E que a cada obstáculo que surgir, você se lembre de todas as vezes que o seu sorriso acalmou os leões e faça uso dele. Que você se recorde sempre que a sua competência é bem maior do que a sua modéstia te diz. E que você pode ir muito além do que acredita. Tome posse de suas competências e siga em frente. O mundo é carente de mulheres como você.
Daqui para frente você ocupará o lugar sagrado do meu coração onde ficam as poucas e verdadeiras amizades. Sigamos pois cada uma seu rumo, com a certeza de podermos tomar nosso café com queijo fresco toda vez que a saudade apertar.
Você ficará para sempre no DNA deste lugar. Nas meninas que querem ser como você, nas entrelinhas de tudo que você escreveu. Afinal, de tudo que vivemos o que fica mesmo é a história. Esse traço que marcamos no tempo com as nossas atitudes. Bordado por falas, gestos, lágrimas, sorrisos e olhares. Esse sim é capaz de atravessar até os corações mais duros e frios e lá permanecer para sempre!



Leila Rodrigues

Imagem da internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 24/03/2015