quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Correndo o risco





Foi um ano intenso. Alguns diriam que ruim, mas eu prefiro dizer que não foi fácil. Um ano de escolhas, de decepções e constatações. Um ano de perdas. Um ano que tivemos que suar um pouco mais que o normal. E por isso mesmo, por todos os sacrifícios que decididamente fiz durante o ano, eu  declaro, para os devidos fins, que a partir desta data até o dia 04 de janeiro do próximo ano, eu vou correr o risco.
Vou correr o risco de chegar atrasado ao trabalho ou a algum compromisso de manhã porque não pretendo perder nenhuma comemoração, nenhuma confraternização e principalmente nenhum abraço aos meus fiéis amigos que junto comigo sobreviveram a este ano.
Vou correr o risco de engordar alguns quilos. Que me perdoem o meu cardiologista, o endocrinologista e o Personal juntos, mas eu não vou abrir mão de brindar com todos aqueles que "sobreviveram" às intempéries desse ano. Preciso me presentear com presenças, me permitir sair do quartel e "baixar a guarda" por esses dias.
Meu lado criança anseia por um brigadeiro, uma torta de nozes e todo e qualquer pedaço de panetone que me for oferecido. Não posso me privar desta alegria! Não agora! Principalmente quando se trata de saborear com amigos, com irmãos e parentes, com pessoas que nos querem bem! Não vou decepcionar a leitoa, o peru e muito menos a farofa, minha predileta! O prazer de beliscar o pernil sem que ninguém veja só acontece nesta época do ano e eu não quero perder.
Vou correr o risco de contrair algumas dívidas, mas não posso deixar de comprar uma lembrança para os meus pais, para os meus sobrinhos e meus filhos. Não tem preço vê-los sorrindo. Não tem preço o quanto eles me fazem feliz.
Vou correr o risco de ter taquicardia ou da minha pressão subir, mas não vou me privar de nenhum abraço de nenhuma emoção, de nenhuma lágrima. Quero todos os abraços, todos os beijos doces, todos os sorrisos e emoções que um fim de ano proporciona. Até o choro por aquelas pessoas queridas que nos deixaram neste ano. Tio Roberto, Solange, Rubem Alves, Ronaldo e tantos outros. Impossível não lembrar de vocês e não chorar de novo.
Já sei que a minha agenda vai ficar uma loucura, que eu vou ficar cansada, muito cansada de tudo isso, que as minhas pernas vão doer de procurar o CD que a minha tia tanto quer, que vou ter que dar uma pausa nos estudos... Enfim, vai bagunçar tudo! Mas eu quero correr o risco de viver! E que a intensidade desses últimos dias do ano renove as minhas forças e me permita começar 2015 de copo vazio.
 


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 16/12/2014
Imagem da Internet

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O Adeus do guerreiro





Quando ele desceu a serra naquele Jeep estranho que mais parecia um carro de guerra, ninguém entendeu nada. Será mais um forasteiro que veio provar o vento da serra? Ou quem sabe é mais um que virou à direita para ver onde é que vai dar? Nem uma coisa nem outra, era o moço de longe que veio para ficar.
O que será que faz um executivo bem sucedido de repente deixar o mundo corporativo e ir viver em uma cidadezinha do interior de Minas? Qualquer um poderia imaginar que ele veio para descansar da correria desenfreada da cidade grande! Seria o óbvio! Mas o descanso passou longe da cabeça dele. Ele veio para ficar, para trabalhar, para acordar cedo e fazer. Fazer por ele, fazer por aquelas pessoas, pelos vizinhos e agora amigos.
E então  trocou a gravata pelo chapéu e se tornou alguém do meio. E começou um novo legado; o de tornar aquele pequeno lugar atrativo sem perder as raízes e a tradição do seu povo. Quanto mais difícil cada obstáculo, mais obstinado ele ficava até vencê-lo. Mal sabia ele que a sua decisão mudaria para sempre a vida das pessoas que ali vivem.
Um movimento aqui, um conselho acolá e a cidade tranquila começa a se movimentar. Recebe bem, encanta, trabalha, recebe novas pessoas, trabalha um pouco mais e assim segue fazendo acontecer a sua transformação.
Mas heis que veio a seca e junto com ela o fogo que arde no chão. E ele, como bom guerreiro, não hesitou em sair em defesa da serra. Afinal, desde que chegara sempre foi assim, sempre em defesa daquele lugar. Por que seria diferente agora? Lá foi o guerreiro e mais dois soldados aplacarem o mal.
O tempo dos anjos não é o tempo dos homens. E naquele dia de luta cruel, dois dos três anjos encerraram sua missão nesta terra. Ele ainda precisou ficar. Faltava algo a cumprir. Faltava juntar pessoas que há muito não se viam. Faltava fazer abraçar filhos e mães e acreditarem no amor. Faltava despertar a compaixão em uma cidade inteira. E só depois de tudo isso feito aí sim, chegara a hora de o último guerreiro partir.
Era para ser só mais um, mas ele se espalhou como gotas de chuva no coração daquela gente e se tornou um povo. Era para ser só mais um lugar no meio do caminho, mas ele fez morada e mudou o caminho daquele lugar. Este foi o legado de José Ronaldo Monteiro, um homem que amou Carrancas com todas suas forças. Depois de você Ronaldo, Carrancas nunca mais será a mesma, ela hoje está mais fortalecida e viva, certa de que seu coração pulsa entre as serras.


Leila Rodrigues

Olá pessoal,

Gostaria eu que este texto fosse apenas mais uma viagem desta aprendiz de escritora que vive em mim. Mas não, ele é real. Ronaldo viveu entre nós. Todos que conheceram o Ronaldo saberão que o que eu disse aqui é muito pouco perto do que ele foi. Um misto de tristeza e alegria nos arrebata o coração. Alegria de tê-lo conhecido e tristeza de vê-lo partir.
Sigamos pois, todos nós, com a certeza de que tudo é eterno...

Grande abraço a todos!

Leila Rodrigues

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Tempos áridos




Quem mora por essas bandas já sabe que o outono e o inverno são cruéis com a plantação. Este ano, porém, foi devastador. E quem pode tirar alguns minutos do dia para prestar atenção na natureza, percebe o desgaste acontecer dia após dia. A água vai baixando, diminuindo, as plantas murcham, depois secam e algumas se fingem de mortas. Lições da natureza. O gado cada vez mais cansado não sai de perto do pouco barro que resta. As árvores despendem-se de suas folhas e sustentam caladas o sol a pino.
Eu caminhava toda manhã pela trilha do Belardo. É uma trilha que nós moradores fizemos, que nos leva até a nascente do rio. O nome Belardo é em homenagem ao vizinho Belardo que ajudou fazer a trilha, mas não a viu pronta, foi prestar outros serviços no céu.
A minha rotina todas as manhãs é caminhar até a nascente, beber um gole de água pura e depois sim, começar o meu dia. O fim do inverno é marcado pelo céu sem nuvem e pela tonalidade amarela diferente do sol. Antes de me mudar para cá, eu jamais imaginei que o sol pudesse ter tons diferentes. Provavelmente era a minha pressa de viver que nunca me permitiu olhar para o sol. Hoje eu sei que a cada estação do ano ele tem suas nuances diferentes de amarelo.  Aprendi a respeitá-lo, como fazem todos que vivem da plantação.
A televisão anuncia que a situação é crítica, os políticos usam a falta d'água para conseguir votos, os ensandecidos continuam lavando carros, calçadas e afins e os peixes se desesperam pelas ultimas gotas que lhes restam.  Impotentes é como ficamos todos diante deste fenômeno. Tão inteligente o bicho homem, capaz de inventar a cura para tantos males e um completo impotente diante da falta d’água. Anos e anos usufruindo da natureza sem nenhum respeito e agora impotente diante das consequências.
Eu, que vivo aqui na beira deste rio, que um dia deixei a cidade grande e escolhi este canto para viver, observo em silêncio o meu rio morrer. Naquela manhã voltei sem meu gole de água fresca. Voltei cabisbaixa, pensativa. Pensei nos peixes, pensei nas plantas, pensei no gado, nos sapos, nos pássaros e em todos que dependiam daquela água. Rezei. Rezei pelo rio, pelos bichos e principalmente pelos homens, para que a necessidade nos provoque um despertar. E que o despertar nos tire dessa condição bestial de usufruir sem medidas de tudo que recebemos da mãe terra. E quando a chuva caiu, ainda que tímida, debrucei na janela e deixei que as minhas lágrimas caíssem junto.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em  07/10/2014
Imagem da internet