sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ela, por ela mesma

Folheou a revista. Saltavam-lhe peitos, bundas e sorrisos por toda parte. Odiou todas elas. Sempre perfeitas,  sorridentes, disponíveis e prontas para o abate. Se antes, era vale-quanto-pesa, hoje é vale-quanto-mostra. No meio de melancias, pêras e melões faltava-lhe frutas.
Ate que ponto as pessoas saem de si para dar vida a um fotoshop de si mesmas? Caricaturas do bem com divulgação autorizada. Diante de tudo isso ela se perguntava se ainda haveria espaço na cabeça das pessoas, mais precisamente na cabeça das próprias mulheres, para as mulheres reais. Preferia o seu presente imperfeito ao pretérito perfeito das sujeitas indeterminadas de hoje em dia.
Olhou para os lados e por um instante se sentiu fora de foco. Se olhou no espelho e riu daquilo  tudo. Gostou mais de si do que de todas aquelas. Não tinha tempo para tantos detalhes, nunca se sentiu confortável embrulhada pra presente. Estava claro que gostava de si mesma. Gostava do corpo que tinha, das suas proporções, das suas polegadas. Sabia que o corpo era apenas parte da brincadeira. O resto ela guardava consigo, esse sim era o grande segredo, o melhor da brincadeira.
 Naquela altura da sua vida não pensava em diversidade, estava feliz com aquele homem que ela tão bem conhecia o cheiro, o jeito, o gesto. Gostava de ser dele e gostava de sentir a falta dele. Gostava do tempo e do espaço dos dois juntos. Estava feliz com a sua escolha de tantos anos atrás. Lembrou das mãos quentes, do abraço grande, da intenção de menino quando quer fazer arte.
Soltou os cabelos, sorriu para o espelho. Tomou um banho de rainha; demorado, acariciado e sentido. Vestiu-se de bem pouco, era só o que precisava. Deixou pra trás as medidas, as feridas e tudo mais que a receita pedia. 
Caminhou sozinha em direção a ele. Seu olhar tinha riso, seu riso tinha desejo. 
Sabia que aquele era o seu momento e levava consigo a essência de suas vontades para usufruirem juntos.
Naquela noite ela sorveu, soltou, viveu e se deu. Deu para si o presente de se gostar, de se entregar. Não lhe interessou as notas, as faltas, as pautas. Sorriu, gritou, gargalhou, se fartou e se deixou aproveitar cada minuto, cada detalhe.
Chegou no fim do fim e se jogou por lá. Virou pro canto e dormiu. Exausta de feliz, exausta de verdades.

Existirá algo mais encantador que o desejo puro e simples de uma mulher?

Leila Rodrigues

2 comentários:

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