domingo, 17 de abril de 2011

Continuidade

Parou na janela e olhou lá fora. Em segundos, um filme passou-lhe na cabeça. Lembrou-se dos dois escolhendo a casa, da mudança, das eternas reformas que fizeram. Sempre rodeadas de sorriso e amparadas em muito esforço. Pegou seus discos de vinil já separados na estante e saiu.
Buscou uma resposta para a sua mais recente dúvida, por que será que todo fim é ruim? Constatou que fim bonito só em filme.
Chegou na casa da mãe, naquele mesmo quarto onde cresceu, onde viu escondidas as primeiras fotos de mulher nua, onde levou a Sueli para o primeiro "amasso". A mesma mesinha, o mesmo Santo desbotado na parede. O tempo passa, tudo passa; menos casa de mãe. Parecem prontas para o retorno de quem não deu certo. Plano B de todos nós? Ou seria prevenção maternal pra qualquer anormalidade? Bom, fosse o que fosse o quarto estava ali, a sua espera e ele teria que passar uns dias nele até decidir pra onde iria.
Abriu seus e-mails e tinha um monte de mensagens. Todos dando uma força para o recomeço, a nova jornada. Isso mais incomodou do que confortou. Não gostava dessa fragilidade que a separação impunha. Começar de novo, começar o quê? Para quê? Na cabeça dele não havia nada a ser começado, muito pelo contrário, havia muito ainda a ser terminado, encerrado de vez.
Hora de terminar com aquela briga inútil que todos os separados travam consigo mesmo, tentando achar o culpado pelo fim de uma coisa que nem devia ter começado.
Hora de parar de achar que o separado é um doente, um fracassado ou um incompetente que precisa desesperadamente da ajuda de todos.
Hora de parar de querer substituir uma pessoa por outra pra ver se fica tudo resolvido, como se pessoas fossem panelas de pressão, trocáveis, substituíveis.
Hora de viver com as sobras e fazer delas um bom jantar. A sobra dos discos, dos livros, dos móveis, das taças, dos amigos, do ativo imobilizado pelo fim.
Hora de usufruir o tempo que sobrou daquilo que se faziam juntos e que agora sozinho, ficou tempo demais.
Hora de ser mais filho, mais pai, mais irmão, mais amigo. Hora de ser mais de mim do que de quem eu tentei ser e nunca consegui.
Cada um vai seguir seu rumo. E esses rumos por si, vão cuidar pra não se cruzarem mais. Naturalmente buscarão direções opostas que os permitam sobreviver, provar pra si mesmos que existe vida após um relacionamento. E na paralela disso tudo, simplesmente dar continuidade em suas vidas.

Leila Rodrigues

2 comentários:

  1. Resumiu bem os primeiros momentos da separação.
    É um novo começo e um bom motivo para uma faxina, por dentro e por fora.
    Reavaliar as ações e decisões tomadas, bem como atitudes diante de determinadas situações, e marcar quais valem a pena manter e quais deveremos mudar.
    Afinal, se é prá começar de novo, o risco de errar existe, mas que cometamos erros novos!
    []s

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  2. Gostei!
    Expos de forma clara o medo, a angustia de sair daquilo que conhece para encarar o novo...
    Separaçoes, terminos, cortes m nossa vida sempre trazem um pouco de dor e medo, mas como diz Helio Leites "Tristeza, dor ate que é bom, faz você ver coisas que a alegria não deixa."
    Eu acredito que estamos por aqui para aprender, para crescer...entao tudo é valido, tudo é aprendizado e crescimento.

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