sexta-feira, 8 de abril de 2011

O terceiro elemento

Havia seis meses que eles moravam juntos. Passados os problemas de logística comuns, tudo estava entrando nos eixos.
Ela dentista, rata de cidade, mais urbana impossível, nascida, crescida e adestrada em apartamento. Adorava viver na vertical, ver a cidade de cima. Flores, só de plástico; animal, só na tela do computador, nem de bicho de pelúcia gostava. Cresceu certa de que, do mosquito ao elefante, todo bicho é um inimigo em potencial. Tinha alergia até de quem gostasse de bicho, tamanha a sua dificuldade com os serezinhos.
Ele professor, nascido, criado e crescido com boa parte da fauna brasileira, cá no interior de Minas, naquela casa onde tinha quase tudo. Porco, pato, galinha, bode, papagaio, muitos cachorros e dois gatos. Sem falar a roça do avô que tinha tudo isso mais cavalo, vaca, sapos e muitos passarinhos.
Entra na casa um terceiro elemento, uma cachorra. Não! Isso que você pensou é outro bicho, estou falando de cachorra mesmo, fêmea do cachorro, bichinho, quatro patas... Uma fêmea Golden Retriever, investimento altíssimo para os bolsos do jovem casal.
Pra ele, a rotina acabara. Bastava mexer na fechadura da porta, pra cadelinha vir correndo pular nos braços dele e lambe-lo todo. Trazia o chinelo, fazia festa e depois ainda o acompanhava tranquila e silenciosamente durante o jornal e o futebol. Sabia que ela nunca pediu o controle remoto? Ela não perguntava como foi o dia dele e jamais queria discutir a relação. Ele chegava a achar que aquela cachorra era uma quase gente!!!
Para ela, a tortura só estava começando.  A casa impregnada de um cheiro muito estranho, que lhe causava espirros contínuos. Chinelo, meia, guarda-chuva e demais itens que tocasse o chão, não saia ileso, ela comia tudo que via pela frente. Além daquele rabo imenso que indecorosamente roçava-lhe as pernas de vez em quando. O bicho é sem noção gente! Deita no sofá, sobe na cama, rola no tapete e ainda é tratada como uma rainha. Tira todas as roupas do varal, mama as caixinhas de creme de leite, come as revistas e jornais que vê pela frente. ! Sem falar das necessidades fisiológicas, que é melhor não mencionar. Aquilo era o capeta disfarçado de animal.
Foram seis meses de rusga entre as duas. Até que, uma noite, sozinhas em casa, se acomodaram no mesmo sofá. Cada uma numa ponta, que é pra não ter problema.
Uma rosnou, a outra tossiu; a uma tornou a rosnar, a outra mandou calar. A uma achou que era um convite, chegou e lambeu; a outra arrepiou de medo e gritou. A uma continuou achando que era festa e se aconchegou, a outra para evitar um infarto, se aquietou.
E assim passaram sua primeira noite, juntinhas no sofá, até o dia amanhecer.
Hoje elas são amigas; confidentes. Vão juntas pra todo lugar; unha e carne, como se diz por aqui. Compras, shopping, viagens, fazem tudo juntas... E ainda dividem o único macho da casa numa boa, sem ciúmes, sem inveja.

Leila Rodrigues

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Seu texto envolve. Acho que é porque vc escreve de forma sincera.

    Leila; contadora de histórias nas horas vagas. Já pensou nisto?

    Abraços.

    8 de abril de 2011 1

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