quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Coragem


 Coragem

Lá fora a água caía como se o céu tivesse querendo lavar a terra. Pela vidraça ela via o sacudir das árvores. Seus olhos divididos vigiavam o telefone e a chuva.  Para quem tinha esperado até aqui, um pouco mais não faria diferença. Ainda assim, não conseguiu conter o ímpeto de roer as unhas. Andava de um lado para o outro a espera da hora . Toca o telefone. Embora a espera toda fosse por causa deste, se assustou do mesmo jeito. Deu um salto e agarrou o aparelho:
- Oi!
- Oi!
- E aí? Decidiu?
- Sim.
- E...?
- A minha resposta é sim.
- Jura?!  Você tem certeza?
- Sim, juro, tenho certeza!
- Mas, e os outros? E o que vão dizer?
- Não me importa mais. Já tomei a minha decisão.
- Mas...
- Não há mais nenhum  mas que me faça mudar de idéia.
- Nossa! Eu confesso que estou surpreso com a sua certeza.
- Não fique. O que você está vendo hoje, não começou hoje, mas sim no dia em que eu decidi dar um novo rumo à minha vida. Não tem nada a ver com você, tem a ver comigo.
- Entendi... E quando será?
- Agora.
- Agora? Mas tá chovendo!
- Não tem problema, nunca brinquei na chuva mesmo! 
- Então  boa sorte!
-  Estou indo. Tchau
Desligou o telefone, olhou-se no espelho, sorriu para si mesma e foi.
Naquele dia ela deixou-se molhar. Olhou para o céu  e enxergou os pingos da chuva vindo em sua direção. Abriu a boca e bebeu os pingos. Não correu, não se esquivou, apenas ficou ali, deixando a chuva enxarcar suas roupas, seus cabelos, seu corpo. Deixou-se lavar. 
A roupa colou no corpo mostrando as curvas da sua cintura. A blusa colou nos seios mostrando os bicos arrepiados. E ela, inebriada pelo balé da água e do vento, tocou o rosto molhado e provou de si mesma. 
E assim atravessou o grande jardim. Completamente molhada, caminhou para o futuro que a esperava do lado de fora daqueles portões. Olhou para traz pela última vez, virou a esquina e foi viver.
 
Leila Rodrigues

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Carta para um amigo


Amigo,  me perdoe o gerúndio, mas estou precisando de você. Se estou com algum problema? Ah caro amigo, se formos falar de problemas, este texto não vai caber. Não, dessa vez eu não quero falar de problemas. Então seria para falarmos de solução? Sim e não. Considerando que não vamos falar de problemas, pela lógica não poderemos chegar na solução. Mas se observarmos que muitas vezes a solução está no caminho oposto do problema, aí sim, entre uma conversa e outra, pode ser que encontremos, sem procurar, alguma solução.
Mas não se preocupe com isso. Estou precisando de você pela sua presença mesmo. Só serve você. Por quê? É que você não é fornecedor, não é cliente, não é chefe, não é funcionário, não é patrão, não é mercado. Quando estou com você, meu sobrenome, meu CPF não interessam. Por isso só serve você.   
Estou precisando de você para jogarmos conversa fora. Para falarmos do tempo, para falarmos daquele filme que ficamos de assistir juntos, para falarmos daquele livro que você me emprestou e eu nem li e também nem devolvi. Para contarmos de novo aquelas mesmas piadas e rirmos tudo outra vez até chorar. Para lembrarmos todas as manotas que cometemos juntos e aí sim, chorar de rir de verdade. 
Preciso de você para fazermos uma caminhada e vermos o quanto a cidade cresceu, para tomar um café lá em casa e devorarmos meio queijo. Preciso de você para te contar dos meus filhos, que o mais velho já está namorando, que vai fazer vestibular. Preciso de você para me contar do seu jardim, do seu cachorro que morreu e da sua viagem à Europa que eu não pude ir junto. E essa sua namorada nova que eu nem conheço direito? Nós não vamos falar dela? Só nós dois! Aposto que você tem muito para me contar! 
Preciso de você para pedir açúcar emprestado. Hoje, se faltar açúcar em casa, eu não tenho liberdade de pedir a ninguém, parece que pedir algum favor virou vergonha nacional. Lembra quando morávamos na república? Até as meias dividíamos. 
Não eu não pretendo ficar remoendo o passado, fique tranquilo. O que eu quero mesmo é dividir o presente com você. Sem pressa, sem compromisso, sem nenhum objetivo. 
Estou com saudade da sua voz, do som único da sua risada, do toque da sua mão na minha e dos seus olhos sorrindo para mim. Estou com saudade de nós dois juntos e o tempo a nosso inteiro dispor. 
Amigo, preciso de você para me ajudar a lembrar que a vida é boa. Para eu acreditar de novo que a vida não é só trabalho, correria, pressão, problema. Preciso de você para viver a simplicidade de ser feliz. Para colorir a minha alma cinza. E então eu voltarei à vida, bem mais preparado para enfrentar os meus problemas. 
Leila Rodrigues - Publicado no Jornal Agora Divinópolis MG em 09/01/2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Uma voltinha no céu



E eu estava lá, naquele lugar tão sonhado por todos, o céu! Sim, eu estava no céu! Um azul que não se comparava, uma imensidão, outra dimensão! Que vontade de voltar correndo só para contar para todos como é que era aquilo ali!! Eu estava lá, em carne e osso. Bom, na verdade, nem em carne, nem em osso, eu estava lá e nem sequer sabia como! Nem por quê?!
Ouvia pássaros, músicas. O céu me pareceu ser cheio de instrumentos! Eu não cheguei a ver ninguém tocando, mas ouvi as músicas. Só música boa! Aquelas do nosso tempo!  O DJ deve ter nascido em Campinas, em meados de 72. Não deu tempo de conhecê-lo, mas, pelas músicas, pude imaginar!
Os barulhos não se misturam. Uma coisa de cada vez! Lá ninguém tem pressa para falar. Nem as mulheres! O tempo é sempre ensolarado, mas não faz o calorzão daqui. Estranho, não é? Um sol que não queima? Achei meio esquisito, mas permaneci calado, afinal, quem sou eu para questionar o céu! O céu, meu sonho de consumo durante toda a minha vida! Eu iria questionar o quê? E questionar com quem? Lá não tem patrão!
Aliás, lá falta muita coisa gente! Questão de escolha, penso eu! Mas não encontrei nem um botequim! Tudo bem que eu nem senti sede, mas nem unzinho? Tá bom, desculpe! Isso não é coisa de se procurar no céu. Era só para matar a saudade...
Bill Gates certamente iria querer essas cores para colocar na nova janela do Windows. As cores lá são ... Diferentes. Intensas seria a palavra certa. Ou seriam meus olhos? Não sei, também não vi ninguém de óculos!
Eu andei pouco, mas foi o suficiente para voltar cheio de novidades. Ninguém no céu anda de camisolão, como eu imaginava. A turma também não fica tocando harpa e comendo frutinha deitado na rede. Nada disso! Tudo intriga da oposição! Lá você fica do jeito que quiser. E todos tem o que fazer! A diferença é que, estando lá, você só quer fazer o que é bom e certo. Naturalmente. Sem ninguém pedir.
Tem mulher, tem homem, tem bicho, tem flor. Só não tem celular, fila de espera, trânsito e poluição. Confesso que a falta do celular me deixou meio atordoado. Força do hábito!
No mais, o céu não é muito diferente daquele dia que você acorda de bem com a vida e sai enxergando o mundo diferente e muito melhor.  E eu só voltei porque queria contar para você que eu fui até lá de trem. É! Um trem doido que eu tomei antes de pegar o ônibus para Brasília.


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis MG, em 23/11/2011

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Ressaca do bem



Olá meus caros,

estive fora para um breve descanso e hoje estou de volta. Espero que todos tenham tido ótimas comemorações de Natal e Fim de ano e que estejam renovados para 2012, com muita saúde e paz no coração.
Neste meu período de reclusão, eu pude ler um pouco mais e também escrevi bastante. O Palavras continua aí, a seu inteiro dispor, animado para levar até você um pouco das minhas palavras. Prometo visitar a todos os meus queridos amigos blogueiros o mais breve possível. Um ano iluminado a todos vocês e que consigamos nos mover rumo a nossa evolução pessoal. 

Grande abraço

Leila Rodrigues


O texto abaixo, foi publicado no Jornal Agora - Divinópolis MG em 27/12/2011. Espero que gostem.

Ressaca do bem

Perdeu a hora, mas nem se importou. Esse é o único dia em que ela se permite acordar mais tarde. Um café forte vai ajudar. Saiu do quarto e observou à sua volta:
Destroços de papéis de presente espalhados pela casa mostravam que por ali houve algazarra. E alegria! No silêncio da casa, agora vazia, ela ainda conseguia ouvir os ecos das falas de cada um, falando tudo de uma vez. Era sempre assim! Todos falavam ao mesmo tempo. Dos filhos, dos netos, dos que não vieram, das conquistas. Mães competem umas com as outras elogiando suas proles. Homens falam dos seus times, viram técnicos inflamados e competentes. Contam do carro novo, do investimento, da reforma da casa. Pequenos correm e gritam ao mesmo tempo. É muita fala para uma noite só! E cabe tudo na ceia.
Crianças avançam afoitas em seus presentes. A alegria está nos olhos de cada uma delas. Alguns se emocionam, choram, coraçãozinho dispara. Pena que, em 10 minutos, já abriram, já testaram, já estragaram e já desmontaram os presentes. E ainda tem aqueles que mal ganharam o presente e já começam a pedir outro.
Na mesa, comida para 8 dias e o dobro de convidados. Com medo de faltar, faz-se, além da leitoa, do peru, do arroz com castanhas, das frutas e dos panetones; um feijão tropeiro, uma tábua de frios, uma carne de boi ao molho madeira... Enfim, é comida que não acaba mais! Tudo permitido! Mesmo porquê, não comer o que uma fulana trouxe é desfeita.
As tias, que só tomam leite de soja, entram no  espumante. Docinho, refrescante e ainda na taça com aquelas bolhinhas sensuais. Ah! Vira água! Os homens, que já bebem o ano inteiro, têm alvará para beber a noite inteira. Dá para imaginar o resultado! Dançam, cantam, choram, riem, gargalham, choram de rir, choram de chorar, se abraçam, se desentendem e se entendem novamente. Tudo em uma única noite! Isso é mágico!
Ela anda pela casa vazia. Enquanto junta os papéis, refaz o filme da noite anterior. Seus filhos lindos, quanto mais velhos mas lindos. Seus netos, seus parentes todos. Como é bom juntar a família, e poder celebrar a alegria de pertencer ao grupo. Voltar ao ninho e celebrar o nascimento do Pai.  Esta é a forma que encontramos de renovar nossos laços com aqueles que já nascemos entrelaçados.  Se é certo ou não, se o espírito natalino se perdeu, se o consumismo tomou conta, ela prefere não julgar. Para ela, fica a certeza de ter renovado seu profundo amor para com todos que estiveram alí.
Leila Rodrigues

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A foto



A fila era gigantesca. O shopping lotado, o ar condicionado não dava conta do recado e aquela barba que causava uma coceira dos infernos. Não via a hora de encerrar o expediente e voltar para casa.
Pensava no quanto aquele dinheiro extra iria ajudar, no terceiro filho que estava para nascer e no rosto daquelas crianças emocionadas e assustadas ao mesmo tempo. Calçou novamente as botas e tomou o seu lugar. Esse era o seu trabalho extra há 11 anos, desde que engordara pela primeira vez. Dali para frente, seu emprego de Papai Noel foi garantido.
Uns vinham com o pai, sempre apressado. A maioria com a mãe, sempre preocupada com a foto e muito poucos vinham como aquele menino de uns 14 anos, sozinho.
- Oi,vou sentar no seu colo não tá! Tô grande e sei que você não existe.
- Tudo bem, mas então por quê veio? Por quê enfrentou essa fila imensa?
- É que eu queria te falar uma coisa. Uma parada aí que tá rolando comigo.
- Pois então diga.
- Cara, sonhei com você! Pronto falei! Eu sonhei com o Papai Noel e agora tô aqui te contando esse mico, veio! Pode isso?
- Claro que pode? Tanto pode que aconteceu. Mas me conte, o que foi que você sonhou?
- Brow, eu sonhei que você era meu pai.
- Mas isso é comum, muitas crianças sonham que eu sou o papai ou que o papai sou eu. É porque os pais compram os presentes e eu entrego.
- Veio, cê num tá entendendo, eu num tenho pai não! De onde foi que eu tirei essa doideira de sonhar com você? Já imaginou se a minha turma descobre que eu tô aqui, eu tô ruim na fita pra sempre! To fora do bando, entendeu agora? Só vim aqui te contar porque achei sinistro demais. Mas já tô vazando...
- Não, relaxa, já que você chegou aqui, vamos, pelo menos, tirar uma foto.
 Nervoso, com as mãos trêmulas, aquele menino sentou no colo do pseudo-velhinho e  o abraçou com toda sua vontade. Tão emocionado quanto o menino, o homem correspondeu de imediato. Ficaram assim abraçados por algum tempo até que finalmente alguém chamou para a foto.
Na foto, dois pares de olhos inundados de emoção eternizavam um momento único na vida daquelas duas pessoas. Nunca mais se cruzaram e nem sequer perguntaram o nome um do outro. Mas levaram para sempre a imagem de alguém que fez um dia especial em suas histórias. 
Leila Rodrigues

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Pena




Pena não ter tido tempo de dizer adeus
Pena ter feito você chorar
Pena ter perdido aquele trem e junto com ele o que teríamos de história

Pena não ter tido coragem
Pena não ter dito a verdade
Pena ter buscado em outros cantos o seu verdadeiro encanto

Pena ter ficado tão quieto
Pena não seguir meu coração
Pena nunca ter voltado pra te pedir perdão

Pena não ter feito das minhas penas, um bom motivo para mudar
Pena não ter tido coragem de voar
Que pena!


Leila Rodrigues

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Entre frutas e algo mais






Em cada banca uma cor diferente, um sabor diferente! Era assim que ela enxergava aquele mercado de hortifrúti. Para ela, a hora de escolher, cuidadosamente, o alimento da semana é um momento único! Um ritual que ela cumpre, religiosamente, toda sexta-feira bem cedinho.
Gosta de tocar as frutas, de sentir a textura, de observar o brilho e cor de cada uma. E também gosta de cheirá-las.  Ah! O cheiro! Cada fruta, cada folha, cada legume, um deleite. Ela para e vagarosamente sente o cheiro de todas que agrada. A maçã, o abacaxi, a manga, o caju, como cheiram maravilhosamente bem! As folhas, manjericão, couve, hortelã, em cada uma, um perfume à parte.
Ela sempre soube fazer daquela obrigação ingênua um momento especial. O faz com prazer! Cheirar, sentir, tocar e escolher.  Pensa na semana, nos pratos, na preparação, na boca das pessoas ao comer, no olhar, depois de saborear, que dá a nota final e verdadeira ao prato. Todos esses fatores devem ser lembrados e considerados na hora de escolher os alimentos. Ela, carinhosamente chama esse ritual de colheita seca, uma vez que não pode apanhar suas frutas, folhas e legumes diretamente da terra úmida de uma horta fresca.
No auge da sua maturidade, ela desfila entre uma banca e outra de frutas e leguminosas, como uma Noniforte, uma verdadeira deusa. Simpática, radiante de vida, ela cumprimenta a todos enquanto faz as suas escolhas. Questiona, pergunta o preço, negocia, conversa, conta um caso. Enfim, faz questão de tomar parte daquele ambiente tão simples e tão especial. São pessoas que hoje já conhece, já sabe a história, já divide muito mais que um sorriso de bom dia. 
Do lado de lá do balcão, os vendedores apreciam aquela mulher tão cheia de vigor. Tão cheia de energia, de vitalidade!  Não é difícil para quem a observa, imaginar que sua alma tem o mesmo colorido das frutas e o seu cheiro, a mesma intensidade de um manjericão fresco. Já não é jovem, mas mantém uma beleza de quem não tem medo do tempo.
Ela, ocupada com o momento, nem percebe o quanto a sua presença é capaz de modificar todo o ambiente. Tem muitas outras coisas mais importantes na cabeça do que a preocupação de agradar ou não. Simplesmente vai. Deixando pelo caminho, um rastro de encantamento muito diferente de todas as outras mulheres daquele lugar.

Leila Rodrigues

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ser em extinção




Numa sociedade em que a competição é cada dia mais acirrada, o mercado cada vez mais exigente e a concorrência cada dia mais inteligente, é preciso saber tudo de tudo. Se ontem bastava ser bom, hoje é preciso ser ótimo. É preciso se manter à frente das exigências da sua área de atuação. O básico virou banal. O complexo de ontem é o basicão de hoje e démodé de amanhã.
Tudo isso é fato. Temos que buscar formas de sobreviver nesta selva. O lado B de tudo isso é que esta busca desenfreada pelo sucesso ultrapassa os limites da sanidade. Onde é que está escrito que precisamos ser bons em tudo? 
Tenho visto pessoas fazendo um esforço sobre-humano para serem bons pais, bons filhos, bons amantes, excelentes profissionais e ainda levar uma vida saudável. E ainda correm daqui e dali para estarem em tudo e participarem de tudo.
 A palavra networking subiu à cabeça das pessoas. O que vemos são verdadeiros show-mans e show- girls. Atitudes premeditadas e comedidas, que não passam de um plano para chegar ao podium. Até os bons-dias são premeditados! Encontros e contatos são minuciosamente arquitetados. Elogios são distribuídos como fichas de entrada em um mundo melhor. Tudo faz parte da conquista do troféu de bem-sucedido! 
Onde estão as pessoas normais? Aquelas que têm a grandeza de dizerem que não sabem fazer algo, que perderam alguma coisa ou que se deram mal. Onde está você, ser em extinção?! 
Procura-se alguém que possa compartilhar verdades e não apenas vantagens. Procura-se por pessoas que saibam rir e chorar, perder e ganhar. Procura-se por gente que se machuca, que se esfola, que está na fila, que pede ajuda. Procura-se pessoas, não um case de sucesso. 
Ando correndo de quem tá pronto, inteiro, formado. Tenho pena dessas feras, perfeitos, acima de qualquer suspeita. Pessoas impecáveis, super-hiper-mega organizadas e extremamente bem sucedidas me causam pânico. Tenho medo de pegar a doença da perfeição e nunca mais ser eu mesma. 
Mulheres perfeitas à base de fluoxetina. Homens bem-sucedidos escravos de um comprimido azul. E ninguém toca no assunto do que não deu certo. Fazem-se caras e bocas, sorrisos e poses. Tudo isso para disfarçar que, por trás dos holofotes, somos todos iguais! 

Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora - Divinópolis MG em 15/11/2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Alígero




Chegaste
E por um instante achei que seria para sempre
Quis prender-te ali,
não em mim, mas àquele momento
E imaginei que assim,
o momento pudesse se perpetuar

Entreguei-me
E entreguei tudo que em mim havia
para que você quisesse ficar
E na entrega interrompi a sua busca
Podei-te do meu mistério
E provei do seu refluxo

Fechei os meus olhos
Para não ver a saída
E assim permanecer na sua vida
Amando as suas migalhas deixadas no chão
E ainda assim fostes
Fostes, para nunca mais voltar!


Leila Rodrigues

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Outono




Que as folhas caem, eu sempre soube
Que elas seguem o vento, eu também sabia
Igual meus pensamentos
Talvez o que eu não soubesse ainda
Era que elas se permitiam secar
Perder a seiva, a cor, o viço, a maciez
Até se tornarem áridas, pálidas, completamente secas.
E vejo meu viço se indo
Sinto-me secando aos poucos
A pele, as lágrimas, o corpo, o desejo
Me tornei deserto
Sem seiva, sem viço, sem broto, sem flor
Difícil permitir
Mais difícil ainda lutar contra o curso dessa natureza
No jardim da minha existência, insisto em florescer
Busco água
Água viva, água de reviver
Mergulho na terra da minha história, minha trajetória
Abraço minhas raízes
Fecundo-me de esperanças
E me permito de novo
Florescer

Leila Rodrigues

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A culpa é da serpente


Desde criança aprendemos a colocar nome e sobrenome na culpa. Meu filho, com um ano e meio, quebrou o berço e foi capaz de dizer que a culpa foi do vento que "sofou" com muita força. Nem sabia falar, mas já sabia terceirizar a culpa. Temos, por convicção, as culpas prontas de mercado. A lista de culpados nem precisa ser divulgada, todos nós sabemos. O pior é que usamos e permitimos que a usem conosco.
No topo da lista, recebendo aplausos de todos, está o trânsito. Caótico, infernal, terrível... É assim que este herói nos salva de todos os atrasos da história. Dos simples aos mais complicados. Seguindo a lista vem o sistema. Ah! O sistema! Esse salva pessoas de demissão, esclarece atrasos e filas quilométricas e ainda camufla o péssimo atendimento. E ainda temos a operadora do celular! Essa nunca funciona quando não nos convém!
Observando o pacote culpa que o mercado oferece, percebo que nenhum dos itens da lista sabe falar. O fato é que a culpa não tem CPF. Já imaginou um dia, o Sr. Trânsito Cristóvão, solicitando um horário em rede nacional, para exercer seu direito de resposta? E o seu celular te dando uma bronca porque foi você que não quis atender a sua mulher? Seria hilário!
Vivemos a era da terceirização e a culpa não poderia ficar de fora. No trabalho, dispendem de longas e longas discussões para encontrar os culpados, enquanto o problema cresce como fermento à espera de um ser mais evoluído que o resolva. Nas salas de aula, a culpa ficou cíclica, pais, educadores, governo, merenda, dinheiro, pais, educadores, governo, merenda, dinheiro... E os filhos reinando absolutos sem limites e completamente sem noção. A culpa é da globalização, é da internet, é da igreja, é do horário de verão, é da queda do dólar, é da alta do dólar. Temos à disposição um cardápio completo de bons e consistentes culpados.
Mas, seguindo os fatos e o que a história me relata, volto nos primórdios da nossa civilização para entender onde tudo começou e chego à conclusão que a rainha mãe do reino dos culpados é mesmo a serpente. Se não fosse a serpente, que seduziu a Eva, que seduziu o Adão, nada disso aqui teria acontecido. Então, a culpa é da serpente!.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora -Divinópolis-MG em 01/11/2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Para Drummond



No meio do caminho tinha uma pedra
Aproveitei pra descansar
Sentei-me
Olhei para trás
Revi o caminho percorrido
Refiz a rota
Calculei os riscos
Respirei fundo
Continue a caminhar

E sigo a encontrar  outras pedras
Que me fazem parar
Que me fazem seguir
Ah se não fossem essas pedras!

Leila Rodrigues - com toda admiração e respeito a este grande Mestre.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A escolha




Levada pelo pensamento, como o vento leva a chuva, ela caminhava de volta para casa. Sempre à pressa, sempre o tempo. Contrariando o cotidiano, desta vez não era a janta que habitava seus pensamentos, nem o dever das crianças, nem o vazamento da pia. Quem a acompanhava pelo caminho era seu devaneio mais recente, uma nova oportunidade. Sim, uma oportunidade, essa dama encantada que habita nossos horizontes, havia beijado a sua face. Àquela altura de sua vida, uma oportunidade de começar de novo, de um jeito novo, em um novo lugar! Só de pensar nesta possibilidade, ela já se sentia embalada por este novo mundo. Ria sozinha, não conseguia parar de pensar, fazia mil planos na cabeça, sentia frio na barriga, tudo isso movida por esta janela que se abrira em sua vida.
A dúvida assolava-lhe a mente, de um lado a velha e costumeira vidinha de sempre, família, filhos, trabalho. Tudo tão encaixado para caber na agenda e na vida que até os problemas já lhe eram previsíveis. Não fosse a mesmice dos dias, não fosse a falta de emoção, diria que estava tudo tão perfeito em sua vida, tão arranjado, para quê mexer?
Do outro lado, feito criança na roda gigante, a oportunidade lhe convidava a largar tudo isso e experimentar começar tudo de novo. Quantas vezes ela não desejou, desesperadamente, uma oportunidade de recomeço? Quantas vezes, no auge da dificuldade e da dor, ela não quis uma chance dessa? E agora, que ela menos esperava, que ela já se havia acostumado com o que tinha, surge este pacote surpresa para dividir seu coração ao meio?!
Chegara a perder a fome, tamanha a dúvida. Silenciosamente, cultivava aquela dor de quem precisa decidir um caminho a seguir. A dor não era escolher o caminho e sim, deixar um caminho. O que doía não era o caminho a ser escolhido, mas o que fosse deixado para trás, seja ele qual fosse. Descobriu que estava mais presa aos seus do que imaginava.
Resolveu colocar tudo na balança. E se surpreendeu!  Pessoas pesam mais que propostas, saudades medem mais que a distância, liberdade pesa mais que comodidade e felicidade nem sempre combina com facilidade.
Rezou, pediu, pensou, calculou, chorou, sorriu e finalmente decidiu. Optou por ser feliz, achou este, o caminho mais adequado!


Leila Rodrigues 
publicado no Jornal Agora - Divinópolis MG em 25/10/2011

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Filhos do mesmo pai




Dois homens caminham
Um cheio de si
O outro cheio de outros
Um bem sucedido
O outro bem vivido
Um dono da verdade
O outro sempre em busca...

Dois homens seguem seus caminhos
Um todo precavido
O outro todo ouvido
Um vai se dar bem
O outro vai apenas se dar

Talvez eles se cruzem por aí
Filhos de um mesmo pai
Amamentados por  tantas mães
Um volta cheio de nada
E o outro cheio de vida
Um chega envolto  de brilho
O outro envolto de luz

Leila Rodrigues

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Quietude





Não há nada a fazer
A não ser esperar
Não há nada a executar
Entre tanto a se fazer
Pois é hora de se aquietar

O momento da tormenta
Não é de execução
É apenas de cautela
Aquietar mente, corpo e  coração

Como dói essa espera!
Como dói essa aflição!

Hora de entrega
À minha condição pequenina
Hora de colo
Hora de lucidez
Hora de não falar
Hora de ouvir o barulho do vento
Deixar que o tempo faça a tormenta passar

domingo, 9 de outubro de 2011

Intenso





Quero estar na sua história, como o sal está no mar.
Eu não quero ser presente, nem passado, nem futuro.
Quero ser atemporal
Quero ser conteúdo, matéria, movimento
Eu não quero ser o vento
Por mais frescor que lhe traga
Pois que quero impregnar-te
Do meu gosto e do meu toque
E fazer seu pensamento
Me querer a cada instante
Até me tornar constante!



Leila Rodrigues

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A busca

Encosto meus sonhos no canto da sala, guardo na gaveta os meus poemas e saio por a procura de mim. A procura de outro de mim. Talvez a procura de outra pessoa que possa habitar em mim e me fazer melhor.
Perder alguém não é simplesmente perder alguém e ponto final. Porque se perde o ponto. E ao perdemos o ponto, nos perdemos de nós mesmos. Muitas vezes nos perdemos muito mais de nós mesmos do que do outro que se foi.
Perdi você. E junto com você perdi a hora, perdi o sorriso, perdi o jeito... Perdi o caminho de volta para mim.
Andei, andei muito, perambulei por aí. Parei em esquinas tão longínquas, cruzei com pessoas tão diversas. Experimentei tudo que me prometia algum minuto de alívio para a minha dor. Tudo tudo. E nada! Toquei pessoas, beijei suas bocas, abracei seus corpos na ilusão de que fosse você. Bebi todas as fórmulas que prometiam me tirar a lucidez ainda que por alguns segundos, mas nada adiantou, quando eu acordava a dor acordava junto comigo novamente. E enquanto eu dormia, sabia que ela me vigiava incessantemente.
Vencido, prometi a mim mesmo que dali para frente você, dor interminável, seria a minha companheira. Passei a dialogar com você o tempo todo. Como um louco eu andava pela rua ao lado do meu inimigo invisível, visivelmente louco. Comecei a te mostrar o mundo, a te fazer perguntas e a esperar respostas. E as respostas eram sempre as mesmas. Um silêncio absoluto de quem já se havia ido há muito tempo. Nenhum eco, nenhum sinal, apenas aquele buraco imenso de silêncio me mostrando que a sua ida era real. E era para sempre.
Volto para casa. Aquela mesma casa empoeirada que eu deixei para ir em busca de nós dois. De mim ou de você. Àquela altura, qualquer um de nós dois que eu achasse estava bom para mim. Eu já havia perdido tudo mesmo. Voltei sem você e quase completamente sem mim. Sobrara-me tão pouco! Talvez apenas forças para voltar. Nada mais!
Ao entrar em casa, percebo meus sonhos no mesmo lugar. Meus pertences inertes à espera de mim para voltarem à vida. Minha velha xícara, meus chinelos gastos. Meu vaso de flor à beira da morte me pedindo um copo d'água, meu último brioche endurecido que eu não consegui comer. Meu cachorro cabisbaixo, magricelo e faminto ainda veio me cheirar. Olhei para aquilo tudo e comecei a chorar. Perdi você e eles me perderam.
Corri no meu quarto e abri a gaveta. Lá estavam eles, meus poemas empoeirados. Parados no tempo à espera de mim. Inertes, calados. Talvez tão doloridos quanto eu. Chorei molhando os papéis, deformando as palavras fui relendo cada um. Com as mãos trêmulas, pego de novo a caneta. Não sei por onde começar. Faltam-me palavras. Começo com uma qualquer...
Andei tão longe para me encontrar tão perto.

Leila Rodrigues