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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Carta para um amigo


Amigo,  me perdoe o gerúndio, mas estou precisando de você. Se estou com algum problema? Ah caro amigo, se formos falar de problemas, este texto não vai caber. Não, dessa vez eu não quero falar de problemas. Então seria para falarmos de solução? Sim e não. Considerando que não vamos falar de problemas, pela lógica não poderemos chegar na solução. Mas se observarmos que muitas vezes a solução está no caminho oposto do problema, aí sim, entre uma conversa e outra, pode ser que encontremos, sem procurar, alguma solução.
Mas não se preocupe com isso. Estou precisando de você pela sua presença mesmo. Só serve você. Por quê? É que você não é fornecedor, não é cliente, não é chefe, não é funcionário, não é patrão, não é mercado. Quando estou com você, meu sobrenome, meu CPF não interessam. Por isso só serve você.   
Estou precisando de você para jogarmos conversa fora. Para falarmos do tempo, para falarmos daquele filme que ficamos de assistir juntos, para falarmos daquele livro que você me emprestou e eu nem li e também nem devolvi. Para contarmos de novo aquelas mesmas piadas e rirmos tudo outra vez até chorar. Para lembrarmos todas as manotas que cometemos juntos e aí sim, chorar de rir de verdade. 
Preciso de você para fazermos uma caminhada e vermos o quanto a cidade cresceu, para tomar um café lá em casa e devorarmos meio queijo. Preciso de você para te contar dos meus filhos, que o mais velho já está namorando, que vai fazer vestibular. Preciso de você para me contar do seu jardim, do seu cachorro que morreu e da sua viagem à Europa que eu não pude ir junto. E essa sua namorada nova que eu nem conheço direito? Nós não vamos falar dela? Só nós dois! Aposto que você tem muito para me contar! 
Preciso de você para pedir açúcar emprestado. Hoje, se faltar açúcar em casa, eu não tenho liberdade de pedir a ninguém, parece que pedir algum favor virou vergonha nacional. Lembra quando morávamos na república? Até as meias dividíamos. 
Não eu não pretendo ficar remoendo o passado, fique tranquilo. O que eu quero mesmo é dividir o presente com você. Sem pressa, sem compromisso, sem nenhum objetivo. 
Estou com saudade da sua voz, do som único da sua risada, do toque da sua mão na minha e dos seus olhos sorrindo para mim. Estou com saudade de nós dois juntos e o tempo a nosso inteiro dispor. 
Amigo, preciso de você para me ajudar a lembrar que a vida é boa. Para eu acreditar de novo que a vida não é só trabalho, correria, pressão, problema. Preciso de você para viver a simplicidade de ser feliz. Para colorir a minha alma cinza. E então eu voltarei à vida, bem mais preparado para enfrentar os meus problemas. 
Leila Rodrigues - Publicado no Jornal Agora Divinópolis MG em 09/01/2012