quinta-feira, 12 de abril de 2012

Onde está o ninho?



Cheguei a minha casa mais tarde que o normal. Preocupada, corro para a cozinha, eles devem estar famintos. Assim que entrei na cozinha, pelo tamanho da bagunça percebi que o problema da fome já havia sido resolvido. Que ótimo!
Silêncio total na casa! Um assistindo TV, o outro no computador e o outro no videogame, que já virou Wii e depois virou Xbox e que, para mim, continua sendo videogame. Incomodada com a caverna de cada um, começo a desfiar meu terço de implicância:
- Mas assim não tem condições, essa casa parece uma casa fantasma! Ninguém conversa com ninguém, as luzes apagadas, nem velório é tão sombrio como isso aqui! Isso não está certo! Esses meninos não vão saber se socializar com ninguém! Vão virar uns alienados! Isso é que dá tanta tecnologia! O tempo todo conectados com alguém que está do lado de fora desta casa e nenhuma conexão com quem está aqui dentro!
 Inconformada, ligo para a minha mãe que atende ao telefone direto do quarto dela:
- Oi filha! Deus te abençoe! Tá vendo a novela? Eu sabia! Viu que blusa linda que a Carol está usando? Vai ficar ótima em você!
Conto até dez para não enfartar e pergunto pelo meu pai.
- Seu pai? Ah ele está no quarto dele assistindo jornal. Ele segue todos os jornais de todos os canais possíveis. E o volume? Ninguém suporta! Minha filha, seu pai está cada vez mais surdo. Você quer que eu o chame?
Desliguei o telefone. Não suportei esta traição dos meus próprios pais! Eles que sempre me ensinaram a importância do diálogo, da família unida e da convivência também se corromperam.
A esta altura eu já estava exaltada! Se não tinha TPM, eu acabei de inventar uma, pois dei inicio ao xingatório. Falei, falei e falei até cansar. Depois que eu falei tudo foi como se eu tivesse me esvaziado de uma grande indigestão. Voltei às minhas palavras e senti uma tranquilidade incrível. Consegui ouvir um silencio que já estava ali e só eu não tinha percebido. Fiquei por alguns minutos ouvindo e observando aquele silêncio todo.
Coloquei minha seleção de músicas preferidas e quando dei por mim, todos estavam cantarolando em seus cantos. Meu filho mais velho trouxe as fotos que ele editou. Ficaram lindas! Para comemorar, o mais novo trouxe balas para todos.  Ficamos ali um bom tempo falando de fotos, de filmes e de possibilidades. Até o casamento da vovó entrou na conversa.
Envergonhada de mim, constato que, na era da tecnologia, até o ninho mudou. Ele continua aqui e meus filhos continuam nele. Mudamos o jeito de transmitir e eles mudaram o jeito de aprender, mas ainda existe aprendizado.
Os valores continuam presentes quando eles veem o pai pagando uma conta tarde da noite pela internet porque é o dia do vencimento. O limite continua existindo, quando o computador só é liberado depois da lição de casa e bloqueado para certos sites. Os valores se apresentam quando o reality, o cigarro e música ruim, naturalmente não faz parte da escolha deles.
Constato que nem tudo está perdido, o ninho não mudou de lugar, apenas passou a ser de fibra ótica!


Leila Rodrigues – Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 03/04/2012

domingo, 8 de abril de 2012

Páscoa na cidade grande



Quando chega o outono, sinto que São Paulo encontra o seu verdadeiro tempo.  São Paulo, no fundo, insiste em ter um outono o ano inteiro. O ar fica fresco, convidativo ao aconchego. As manhãs têm jeito de Europa e a confusão das pessoas indo e vindo, me faz lembrar que tudo vai passar.
Ninguém ali está preocupado com o meu cabelo roxo, se sou homem ou mulher, ou os dois ou nenhum dos dois. Ninguém quer saber se eu dormi esta noite nem em qual voo vou embarcar. Todos ali só querem viver. Viver as suas vidas, amar os seus amores, criar os seus filhos, os seus cachorros, chegar em casa. É cada um por si literalmente! Até o rio Tietê é por si. Fica ali, quase parado, recebendo silenciosamente nossos restos.
Alguns dizem que isto é egoísmo, que ninguém se preocupa com ninguém. Não. Isso é adequação. Ou eu me preocupo comigo, com os meus; ou absolutamente ninguém se preocupará depois de mim. Depois de me preocupar e de me ocupar comigo e com os meus, se sobrar tempo, prometo me ocupar com o mundo à minha volta. Prometo conhecer um pouco mais esta cidade, prometo cumprimentar o meu vizinho, prometo ir à pelada no sábado. Prometo...
Mas antes, me deixe aqui. Deixe-me ser eu mesmo. Deixe-me viver as minhas escolhas, me deixe ocupar as minhas horas com o que fizer parte do meu universo. Deixe-me ter a minha crença ou nenhuma crença se eu assim preferir.  Deixe-me cantar a música que eu escolhi. Deixe-me abrir a janela de madrugada para ver a cidade que não sabe dormir.
E eu te deixarei viver comigo, sem sequer cruzarmos a mesma esquina, sem sequer pisarmos o mesmo chão. Você aí e eu aqui, juntos sem nunca nos vermos. Presos na mesma geografia, porém libertos para sermos quem quisermos ser.
Amanhã é domingo, eu escolhi dormir. Ele escolheu orar, ela escolheu divertir, aquele outro foi viajar. Ninguém prestou contas para ninguém, ninguém pagou a conta de ninguém. Tudo que esta cidade ou qualquer outra precisa é que cada um respeite a escolha do outro e que todos se lembrem de que a nossa liberdade termina onde começa a do próximo.
O respeito hoje é tão importante quanto o amor. Quiçá conseguimos amar a nós mesmos, quem dirá amar ao próximo como a nós mesmos? É pedir demais para pobres mortais que somos. Que tal começarmos respeitando o próximo? Não será um bom começo? Basta que, o que existe de bom e humano em mim, silenciosamente respeite o que existe de bom e humano em você. E estaremos assim fazendo renascer o respeito mútuo.
E quem sabe então, podemos fazer uma Páscoa, na cidade de todas as religiões, de todas as crenças, de todas as tribos, de todas as escolhas.

Leila Rodrigues
Imagem:www.mundodastribos.com.br

Querido leitor,

Para renascer qualquer coisa, é preciso, primeiramente,  aceitar a perda ou a mudança a que se propõe. Independente da sua crença, desejo a você, força e coragem, para renaser naquilo que te for necessário. E que assim, consigamos todos, fazer uma páscoa dentro de nós!

Um grande abraço a todos e boa páscoa!

Leila

terça-feira, 3 de abril de 2012

Não sei




Sabe
Eu já quis saber tudo
Mas tudo era tão pouco
Que ninguém soube ensinar

Sabe
Eu vivo querendo saber
Se o que eu sei foi sabido
Ou apenas engolido

Sabe
Eu nunca sei de nada
Porque nada é muita coisa
E isto já é o bastante

Não sei
Se o saber ainda me cabe
Porque até hoje ninguém soube
Se há saber que um dia acabe

Sabe
Eu gosto mesmo é de aprender!



Leila Rodrigues

sábado, 31 de março de 2012

O Elixir da vida



Há alguns dias fui a uma festa de aniversário. Era o aniversário de uma pessoa querida que fez questão de reunir a família e os amigos para comemorarem junto com ele. O aniversariante, um jovem de 50 anos. Sim! É isto mesmo que você leu! O aniversariante é um jovem de 50 anos. 
Um jovem na sua disponibilidade e amor pela vida. Um jovem cheio de projetos, de sonhos e de algo a conquistar.  Uma pessoa que, tranquilamente, olha para a sua história com a certeza de que sempre amou cada segundo vivido. 
Pergunto a você, há algo mais rejuvenescedor do que isso? Onde está a velhice senão no corpo que não conseguiu resistir à devassidão do tempo? Onde está a juventude senão na disposição de viver? 
Neste tempo em que a ditadura da beleza impera em que a medicina e a tecnologia se juntam para tentar reverter, ou, no mínimo, retardar o envelhecimento humano formando um mercado gigantesco da autoestima ainda vejo pessoas caminhando na direção oposta. Bravo! 
Neste tempo em que tantos investem todos seus esforços para não deixar que o corpo anuncie o que o tempo já devastou, vejo outros tão ocupados com suas vidas, seus projetos e perspectivas que parecem que chegaram agora, tamanha a disposição e o frescor que se percebe.
São pessoas comuns como eu e você, mas que conseguiram amar a vida de tal forma que a vida se apaixonou por eles também. É visível este caso de amor entre os dois! E acredito que seja isso que os torna tão diferentes dos demais. Tão mais viçosos e confiantes. 
São pessoas que também controlam a pressão, a triglicérides e o colesterol. Pagam contas, vão à praia e torcem, veementemente, pelos seus times e pelos seus filhos. Pessoas que não têm preguiça nem vergonha de encarar o inglês, o computador, o dever do filho, a doença dos pais, o colo da esposa e até a terapia se for preciso. Pessoas que têm a coragem de rir de si mesmos, de contar suas perdas, de dizer que amam ou que odeiam. Pessoas que, como qualquer outro mortal, passaram por todas as etapas da vida, com a diferença que ainda carregam em si a infância, a juventude e a maturidade. E sabem a hora certa de ser cada uma delas. 
 Eles ainda fazem música, cerâmica, soltam papagaios, escrevem poesias e mergulham. Cumprimentam e conversam com a moça da padaria, com o médico que cuidou do pai ou com  o porteiro do prédio com a mesma cara boa que conversam com o presidente de uma multinacional. 
São pessoas assim que conquistam, criam adeptos, lideram, executam, usufruem e ganham a admiração e o respeito dos demais. Pessoas capazes de transformar a realidade da idade na realidade de viver.
É gratificante ter a honra e o prazer de ter pessoas assim à nossa volta, pois estes são alguns exemplos vivos, pelos quais podemos concluir que viver é rejuvenescedor! 

Leila Rodrigues

Meus caros,

 este texto é uma homenagem ao meu irmão Marcos Rodrigues que completou 50 anos. Uma pessoa que é tudo isso que eu tentei decifrar e muito mais. Uma pessoa, na qual eu sempre me inspirei!

Foto da obra Pescador de Ilusões da minha amiga, a ceramista Ma Ferreira, também uma pessoa que representa mito em minha vida! http://mdfbf.blogspot.com.br/

 


A vocês, Má Ferreira e Marcos, o meu amor e a minha admiração!

Abraços a todos

Leila

terça-feira, 27 de março de 2012

Cada cabeça uma sentença

Ela
A minha vontade era de esganar aquele homem ali mesmo, naquele momento! Pegar o pescoço dele com as minhas duas mãos e apertar como quem aperta um saco de leite tipo C que não serve para nada mesmo, até jorrar sangue por todos os buracos.  Mas me contive! Passei a língua nos lábios, lembrei que eu estava de batom vermelho. Sorri cinicamente para ele, olhei tão profundamente nos olhos dele que deu pra ver parte daquele cérebro inútil. Passei a mão nos meus cabelos, tirando-os da minha testa, dei dois passos para trás, dei meia volta e sai. Deixei aquele imbecil ali, sem fala, sem gesto, sem chão. À espera de uma resposta que nunca mais chegou. 
O ditado estava certo, o silêncio, às vezes, não é somente a melhor  resposta; o silêncio pode ser matador.


Ele
Pelos olhos dela eu percebi que ela queria me fuzilar. A raiva é um amor contido. Naquele instante tive a certeza de que ela ainda me amava. Seria questão de segundos para ela dizer que me amava. E então pularia no meu pescoço como uma leoa no cio. Os próximos segundos duraram uma eternidade. Quanto mais ela me olhava, mais confuso eu ficava. Nunca gostei dela me olhando daquele jeito. Parecia que estava decifrando um código morse. Um código que eu não escrevi, mas que ela leu. De repente ela passou a língua nos lábios e sorriu para mim. Quase enlouqueci tamanha a sensualidade! Ela passou a mão nos cabelos e deu dois passos para trás. Pensei  é agora! É uma leoa de verdade! Está se afastando para tomar impulso. Fechei os olhos para esperar o seu abraço. Ela nunca que chegava. Imaginei que ela estivesse tirando a roupa. Tremi de felicidade! Fez-se um silêncio profundo! Comecei a ficar preocupado. Será que ela se enrolou com o vestido? Resolvi abrir um olho só para ver o que estava acontecendo. Levei um susto daqueles! Ela havia sumido! Sumido, evaporado, desaparecido! Nunca mais a vi! 
Freud estava coberto de razão, vamos morrer sem entendê- las!

Leila Rodrigues

terça-feira, 20 de março de 2012

Herói do meu silêncio




Meus amigos queridos,


Em homenagem ao dia do blogueiro, meu primeiro texto aqui na blogsfera. Um texto que tem tudo a ver com a nossa realidade, com a blogsfera nossa de cada dia:

Gosto de São Paulo. Gosto de andar pelas ruas de São Paulo. Me sinto a pessoa mais comum do mundo, mas também me sinto parte dele, ainda que ínfima e isso é tudo de bom!
Ali, naquele diversidade louca, onde se tem pessoas de todos os tipos, de todos os jeitos, de todos os gostos, de todas as tribos, de todos os lugares; eu me perco e me encontro.
Me perco no meio de tanta gente, de tantas opções e me acho nas minhas escolhas, nas minhas atitudes e decisões.
Como seria um mundo sem diversidade? Já pensou, uma cidade só de adolescentes, outra só da terceira idade, um estado só de balzáquias, outro só de gays, que horror!
Cada um na sua, no seu... no seu telefone, no seu carro, nas suas máscaras, nos seus clubes, nas suas redes, nos seus grupos. Sim, nos seus grupos, nas suas comunidades.
Hoje existe comunidade para tudo, até para os sem interesse em se comunicar, pode? É comunidade das bordadeiras, dos abstênios, dos anônimos (de qualquer coisa), das mães das crianças portadoras de pancreatite, dos mecânicos, dos opaleiros... e por aí vai, sem falar nos tradicionais e conhecidíssimos grupos que já tomaram fama mundial.
Incrível como as pessoas vão se encontrando, vão se juntando, vão se formando. É como se buscassem os seus pares, os seus irmãos espalhados pelo mundo, qualquer um que tenha as mesmas opiniões, os mesmos interesses, para então curtirem juntos suas opções comuns.
Eles se acham, se entendem, se defendem, se formam. E uma vez formados eles nunca mais são um só. É como se juntos eles criassem uma força avassaladora, um poder que não se explica numa conta matemática onde um mais um são dois, porque um mais um, neste caso, são vinte e cinco.
Quantos pecados mortais antes guardados a sete chaves, hoje são discutidos, impressos, legalizados, defendidos! Quantas idéias e opiniões ocultas isoladas durante anos, hoje viraram leis, livros, cotidianos.
Herói do meu silêncio é você que puxou este cordão, que foi o primeiro da fila, que pagou o preço alto desta coragem. Você que mostrou sua cara, que escancarou seus valores, ou que, discretamente abriu sua boca e começou tudo.
Você é um herói. O herói do meu silêncio.

Leila Rodrigues

Herói do meu silêncio são todos vocês meus amigos da blogsfera que me mostraram que eu não estava só, que escrever não é coisa de louco, e se for, somos muitos loucos juntos e somos felizes com as nossas palavras. Vocês são todos especiais para mim!

Abraços a todos!

Leila

quarta-feira, 14 de março de 2012

Do lado de cá



Bateu a porta e saiu. Deixou-a sozinha, encolhida no canto do sofá, com seu vestido de flores desbotadas pelo dia-a-dia. Fez-se um grande silêncio. Um silêncio ensurdecedor. Ela contou os ladrilhos, mediu-os sem desviar os olhos um só minuto do chão. Ficou ali parada por um tempo que nunca soube medir.
Seus olhos não choraram, sua alma estava completamente seca, árida como a terra que ela deixou um dia para viver um grande amor. Tanta dedicação, tanto cuidado não foi suficiente. Não foi o bastante. Era preciso se mover. Olhou ao seu redor. A casa fria, os móveis velhos, simples, apenas os indispensáveis, assim como tudo que foi vivido naquela casa. Apenas o indispensável, o necessário. E o amor fecunda no dispensável, na sobra, no desnecessário e desmedido.
Experimentou pisar no chão. Parecia flutuar. Era como se o chão não quisesse receber o seu corpo. Na parede, seu Santo Expedito, empoeirado, não encontrou os seus olhos.
As paredes encardidas, cálidas, pareciam dizer que não foi só ele que se foi; a vida naquela casa se fora também. Não agora, não junto com ele, mas certamente se fora. Olhou para a parede e procurou respostas para as perguntas as quais a parede remetia. Sua cabeça ainda estava no timbre da porta batendo.
A dor de quem fica do lado de cá da porta, cheira a prisão. Gaiola vazia. Libertar-se fica mais difícil porque a sensação é que a liberdade é direito de quem foi e não de quem fica. E ela havia ficado. Ficado com os restos, com as sobras, com as histórias e memórias de uma relação que chegou ao fim.
Caminhou até a varanda e olhou o tempo lá fora. Fechou vagarosamente a janela e depois a cortina. Trancou a porta. Só lhe restara os móveis e as paredes pálidas. 
No intuito de arranjar imediatamente companhia, ela olhou tudo e pensou: Vamos meus caros, ficamos apenas eu e vocês. Sofá, parede, relógio, cômoda... Por hora vamos todos dormir, que a hora agora não é de fazer. É preciso dormir. É preciso esquecer o som da porta batendo. É preciso não fazer nada por algum tempo. Amanhã começaremos alguma coisa, qualquer coisa. Algo que faça o tempo passar, algo que traga vida à minha vida e a este lugar.
Olhou novamente para a parede encardida, sorriu e pronunciou as primeiras palavras depois que a porta bateu:
- Amanhã lindinha, eu te pinto de verde! Será um bom começo!

Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora - Divinópolis MG em 06/03/2012

domingo, 4 de março de 2012

A volta









A placa indica o nome da minha cidade. 
Reconheço cada curva da estrada daqui pra frente. 
Meu coração entende e já muda o ritmo. 
Logo adiante a minha felicidade me alcança!
Vou chegar novamente
Um copo d’água fresquinha. Minha velha poltrona.
Um pedaço de melão bem doce e gelado. 
E um sorriso de satisfação se estampa no meu rosto!
Uma janela com vista para o horizonte.   
Uma árvore no meio da praça, uma grama verdinha. Uma nuvem que esconda o sol. 
E eu serei feliz por alguns bons minutos. Minutos suficientes para eu lavar a minha alma de uma semana inteira de sirenes, de horários, de viagens,  de faróis, de sinais...
Um olhar que sorri para mim. 
A mão no meu ombro. Um gesto de carinho. 
Um recado de saudade. Um abraço. 
E voltar para casa terá valido a pena! A minha escolha inteira terá valido a pena!
A música favorita. Uma pausa para o jornal. 
Um cochilo na sombra.  A violeta que floriu.
O bom dia do vizinho. 
E a vida que não é tão amarga assim!
Um banho  gostoso. A peça essencial.   
Os cabelos soltos. Os filhos no cinema. 
E o meu desejo adolescente renasce com a fúria de um vulcão!
A sua companhia. 
Um pão italiano, um azeite. 
Um queijo grana e um bom vinho.
E a minha mesa tem o melhor jantar do mundo! 
Nenhum prato poderá ter sabor melhor que este!

O prazer de voltar, só experimenta quem tem coragem de ir!

Leila Rodrigues


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Para vocês que se foram







Prezados,

Tive problemas com cópia dos meus textos, por isso dei uma parada para resolver o problema. Agradeço a todos que passaram por aqui e me mandaram emails. Prometo visitar a todos à medida da minha disponibilidade.
Abraços

Leila Rodrigues

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Coragem


 Coragem

Lá fora a água caía como se o céu tivesse querendo lavar a terra. Pela vidraça ela via o sacudir das árvores. Seus olhos divididos vigiavam o telefone e a chuva.  Para quem tinha esperado até aqui, um pouco mais não faria diferença. Ainda assim, não conseguiu conter o ímpeto de roer as unhas. Andava de um lado para o outro a espera da hora . Toca o telefone. Embora a espera toda fosse por causa deste, se assustou do mesmo jeito. Deu um salto e agarrou o aparelho:
- Oi!
- Oi!
- E aí? Decidiu?
- Sim.
- E...?
- A minha resposta é sim.
- Jura?!  Você tem certeza?
- Sim, juro, tenho certeza!
- Mas, e os outros? E o que vão dizer?
- Não me importa mais. Já tomei a minha decisão.
- Mas...
- Não há mais nenhum  mas que me faça mudar de idéia.
- Nossa! Eu confesso que estou surpreso com a sua certeza.
- Não fique. O que você está vendo hoje, não começou hoje, mas sim no dia em que eu decidi dar um novo rumo à minha vida. Não tem nada a ver com você, tem a ver comigo.
- Entendi... E quando será?
- Agora.
- Agora? Mas tá chovendo!
- Não tem problema, nunca brinquei na chuva mesmo! 
- Então  boa sorte!
-  Estou indo. Tchau
Desligou o telefone, olhou-se no espelho, sorriu para si mesma e foi.
Naquele dia ela deixou-se molhar. Olhou para o céu  e enxergou os pingos da chuva vindo em sua direção. Abriu a boca e bebeu os pingos. Não correu, não se esquivou, apenas ficou ali, deixando a chuva enxarcar suas roupas, seus cabelos, seu corpo. Deixou-se lavar. 
A roupa colou no corpo mostrando as curvas da sua cintura. A blusa colou nos seios mostrando os bicos arrepiados. E ela, inebriada pelo balé da água e do vento, tocou o rosto molhado e provou de si mesma. 
E assim atravessou o grande jardim. Completamente molhada, caminhou para o futuro que a esperava do lado de fora daqueles portões. Olhou para traz pela última vez, virou a esquina e foi viver.
 
Leila Rodrigues

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Carta para um amigo


Amigo,  me perdoe o gerúndio, mas estou precisando de você. Se estou com algum problema? Ah caro amigo, se formos falar de problemas, este texto não vai caber. Não, dessa vez eu não quero falar de problemas. Então seria para falarmos de solução? Sim e não. Considerando que não vamos falar de problemas, pela lógica não poderemos chegar na solução. Mas se observarmos que muitas vezes a solução está no caminho oposto do problema, aí sim, entre uma conversa e outra, pode ser que encontremos, sem procurar, alguma solução.
Mas não se preocupe com isso. Estou precisando de você pela sua presença mesmo. Só serve você. Por quê? É que você não é fornecedor, não é cliente, não é chefe, não é funcionário, não é patrão, não é mercado. Quando estou com você, meu sobrenome, meu CPF não interessam. Por isso só serve você.   
Estou precisando de você para jogarmos conversa fora. Para falarmos do tempo, para falarmos daquele filme que ficamos de assistir juntos, para falarmos daquele livro que você me emprestou e eu nem li e também nem devolvi. Para contarmos de novo aquelas mesmas piadas e rirmos tudo outra vez até chorar. Para lembrarmos todas as manotas que cometemos juntos e aí sim, chorar de rir de verdade. 
Preciso de você para fazermos uma caminhada e vermos o quanto a cidade cresceu, para tomar um café lá em casa e devorarmos meio queijo. Preciso de você para te contar dos meus filhos, que o mais velho já está namorando, que vai fazer vestibular. Preciso de você para me contar do seu jardim, do seu cachorro que morreu e da sua viagem à Europa que eu não pude ir junto. E essa sua namorada nova que eu nem conheço direito? Nós não vamos falar dela? Só nós dois! Aposto que você tem muito para me contar! 
Preciso de você para pedir açúcar emprestado. Hoje, se faltar açúcar em casa, eu não tenho liberdade de pedir a ninguém, parece que pedir algum favor virou vergonha nacional. Lembra quando morávamos na república? Até as meias dividíamos. 
Não eu não pretendo ficar remoendo o passado, fique tranquilo. O que eu quero mesmo é dividir o presente com você. Sem pressa, sem compromisso, sem nenhum objetivo. 
Estou com saudade da sua voz, do som único da sua risada, do toque da sua mão na minha e dos seus olhos sorrindo para mim. Estou com saudade de nós dois juntos e o tempo a nosso inteiro dispor. 
Amigo, preciso de você para me ajudar a lembrar que a vida é boa. Para eu acreditar de novo que a vida não é só trabalho, correria, pressão, problema. Preciso de você para viver a simplicidade de ser feliz. Para colorir a minha alma cinza. E então eu voltarei à vida, bem mais preparado para enfrentar os meus problemas. 
Leila Rodrigues - Publicado no Jornal Agora Divinópolis MG em 09/01/2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Uma voltinha no céu



E eu estava lá, naquele lugar tão sonhado por todos, o céu! Sim, eu estava no céu! Um azul que não se comparava, uma imensidão, outra dimensão! Que vontade de voltar correndo só para contar para todos como é que era aquilo ali!! Eu estava lá, em carne e osso. Bom, na verdade, nem em carne, nem em osso, eu estava lá e nem sequer sabia como! Nem por quê?!
Ouvia pássaros, músicas. O céu me pareceu ser cheio de instrumentos! Eu não cheguei a ver ninguém tocando, mas ouvi as músicas. Só música boa! Aquelas do nosso tempo!  O DJ deve ter nascido em Campinas, em meados de 72. Não deu tempo de conhecê-lo, mas, pelas músicas, pude imaginar!
Os barulhos não se misturam. Uma coisa de cada vez! Lá ninguém tem pressa para falar. Nem as mulheres! O tempo é sempre ensolarado, mas não faz o calorzão daqui. Estranho, não é? Um sol que não queima? Achei meio esquisito, mas permaneci calado, afinal, quem sou eu para questionar o céu! O céu, meu sonho de consumo durante toda a minha vida! Eu iria questionar o quê? E questionar com quem? Lá não tem patrão!
Aliás, lá falta muita coisa gente! Questão de escolha, penso eu! Mas não encontrei nem um botequim! Tudo bem que eu nem senti sede, mas nem unzinho? Tá bom, desculpe! Isso não é coisa de se procurar no céu. Era só para matar a saudade...
Bill Gates certamente iria querer essas cores para colocar na nova janela do Windows. As cores lá são ... Diferentes. Intensas seria a palavra certa. Ou seriam meus olhos? Não sei, também não vi ninguém de óculos!
Eu andei pouco, mas foi o suficiente para voltar cheio de novidades. Ninguém no céu anda de camisolão, como eu imaginava. A turma também não fica tocando harpa e comendo frutinha deitado na rede. Nada disso! Tudo intriga da oposição! Lá você fica do jeito que quiser. E todos tem o que fazer! A diferença é que, estando lá, você só quer fazer o que é bom e certo. Naturalmente. Sem ninguém pedir.
Tem mulher, tem homem, tem bicho, tem flor. Só não tem celular, fila de espera, trânsito e poluição. Confesso que a falta do celular me deixou meio atordoado. Força do hábito!
No mais, o céu não é muito diferente daquele dia que você acorda de bem com a vida e sai enxergando o mundo diferente e muito melhor.  E eu só voltei porque queria contar para você que eu fui até lá de trem. É! Um trem doido que eu tomei antes de pegar o ônibus para Brasília.


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis MG, em 23/11/2011