quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Acróstico - Ganhei de presente da amiga Regilene


L endo você fui
E nvolvendo-me na gostosa brincadeira
I nspirada na criança da sua alma cheia de alegria.
L i sobre a Leila escritora
A felicidade de cada um e li a sua felicidade...

R aízes narrando sua rica infância
O nde a felicidade era feita de simplicidade...
D entro de cinco minutos
R epassa a rotina e o tempo de se encontrar
I nformações de todo um cotidiano...
G ritando na alma
U m aprendiz querendo seguir como
E terna criança aprendendo por aí...
S egui lendo e PALAVRAS transbordaram dentro de mim



Homenagens não precisam, necessariamente de platéia, necessariamente de troféus, necessariamente de aplausos.
Homenagens  precisam apenas ser sinceras, vindas do fundo do coração!
E será o bastante para fazer um coração feliz!

Obrigada Regilene, pelo carinho, pela amizade, pelas belíssimas palavras!

Leila Rodrigues

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Efeito cascata

Chegou do trabalho. Entrou no banheiro. Ligou o chuveiro. Deixou-se limpar. Cantou Bob Marley. Lavou os cabelos. Dançou pelo quarto. Vestiu-se de preto.  Passou seu batom. Olhou-se no espelho. Se achou toda linda. Sorriu com malícia. Vestiu seu perfume. Jogou a toalha. Saiu pra dançar. 
Chegou decidida. Sentou no sofá. Pediu uma dose. Bebeu mais que três. Achou tudo lindo. Gostou de si mesma. Gostou dos demais. Expôs seu decote. Expôs seu sorriso. Calculou  olhares. Decidiu dançar.
Mexeu os quadris. Ergueu os seus braços. Girou sua cintura. Chamou com olhar. Sorriu novamente. Mordeu os lábios. Mexeu nos cabelos. Tornou a sentar.
Sentiu-se olhada. Senti-se querida. Sentiu-se molhada. Bebeu mais um gole. Olhou novamente. Se fez presente. Mostrou-se quente. Lembrou das horas. Esqueceu o dia. Aceitou o convite. Voltou a dançar.
Tocou sutilmente. Sorriu displicente. Dançou no compasso. Aceitou o abraço. Olhou sem temer. Provou sem beber. Beijou lentamente. Deixou se beijar.
Falou de si mesma. Ouviu outras falas. Riu de vergonha. Riu de verdade. Dançou de cansar. Cansou de falar. Ficou em silêncio. Respirou junto. Aceitou o compasso. Contou do cansaço. Deixou se levar.
Andou de mãos dadas. Tirou o sapato. Sorriu de vergonha. Parou na pracinha. Comeu um sanduba. Bebeu um refri. Sentiu frio. Pediu abraço. Dividiu o chiclete.
Parou no portão. Brincou de sussurro. Beijou-lhe na boca. Aceitou suas mãos. Perdeu-se no abraço. Criou um laço. 
Despediu-se ali. Preferiu assim. Deixou telefone. Pediu pra ligar. Sentiu-se antiquada. Resolveu enfrentar. Subiu as escadas. Entrou em casa. Sorriu no espelho. Lembrou-se de tudo. Quis continuar. 
Acordou cedo. Teve saudade. Aprontou rapidinho. Foi trabalhar. Leu seus emails. Sorriu para um deles. Gostou do que leu: Quero continuar!

Leila Rodrigues

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Brincadeira


_        Vamos brincar de alguma coisa?
_        Como assim? Brincar? Brincar de quê?
_        Ah! De qualquer coisa. Eu quero brincar!
_        Mas nós somos adultos!
_        E daí? Existe alguma lei que proíba o adulto de brincar?
_        Não. Lei não existe, mas é esquisito!
_        Esquisito pode ser, mas não é proibido.
_        Mas, por quê brincar?
_        Porque preciso.
_        Precisa brincar? Ora, você precisa mesmo é trabalhar. São 07:15 da manhã e você já está atrasado.
_        Dane-se, hoje eu só saio desta cama depois que você brincar comigo.
_        Tá bom eu brinco. Eu sou Rapunzel!
_        E eu Peter Pan!
_        Mas eles nem se conheceram??!!
_        Problema não, essa história é nova mesmo.
_        Mas meu cabelo é curto?
_        Hoje existe aplique é para isso.
_        Mudei de idéia, eu serei a Sininho.
_        E eu continuo sendo o Peter Pan.
_        Eu quero voar com você pelo céu estrelado, num cavalo alado.
_        Então bate suas asas, esqueceu que a Sininho voa?
_        Ô falta de romance, nem sabe brincar!
_        Tá bom, te levo comigo.
_        Ah e eu também quero dar uma passadinha em Marte, de bicicleta e encostar meu dedo num ET. Fazer contato.
_        Assistiu filme demais!
_        Você é velho mesmo, chamou pra brincar, agora taí, me podando! Mudei de idéia, eu serei a “noiva do cowboy”  que sempre sonhei.
_        E eu prometo não sumir no mundo sem te avisar.
_        Se você fizer isso eu viro a Maga Patalógica e te transformo num sapo
_        E eu serei beijado pela princesa!
_        Coitada! Vai se decepcionar de cara!
_        Ciumenta!
_        Sai da brincadeira.
_        E eu estou atrasado ...


Leila Rodrigues, para todas as crianças grandes que eu convivo e que fazem o meu mundo mais divertido.

domingo, 28 de agosto de 2011

Sobre mim


Na minha infância eu já inventava histórias. Tinha muitos amigos imaginários e com eles eu criava uma história nova a cada dia. A Leila escritora sempre existiu, desde os tempos de estudante, porém, muito timidamente. Como escrever não se explica, tentarei, pelo menos, dizer como acontece comigo. Raramente penso um assunto antes de escrever, a não ser quando me pedem. As idéias chegam quando começo escrever. Escrever me descansa, me conforta, me liberta. Como observadora atenta à tudo a minha volta e como participante ativa de todos os meus papéis, mãe, esposa, filha, amiga e profissional, coloco nos meus textos o cotidiano de uma mulher da minha idade, que possa ser lido por todos.
 Acredito sinceramente, no valor do bom humor e por isso, naturalmente, o humor está sempre presente nos meus textos. Quem me conhece, sabe que eu sou assim mesmo, portanto, meus textos não poderiam ser diferentes. Porém, existem temas mais complexos e mais pesados em que a força da expressão tem outra vertente.
Quero falar sobre o dia-dia, sobre mim, sobre você e sobre todos nós. Como boa mineira que sou, espero que as minhas palavras cheguem até as pessoas com a frescura e a simplicidade de uma boa conversa.

Agradeço imensamente ao carinho de todos que tem dedicado um pouco do seu tempo a ler as minhas palavras. De coração, muito obrigada. É por vocês que eu escrevo. É por vocês que eu busco a cada dia, aprender e  melhorar um pouco mais.

Um grande abraço


Leila Rodrigues

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A felicidade de cada um

Encontrar um parceiro ou parceira é, para muitos, um pré-requisito obrigatório para a felicidade. Faz parte do "pacote de realização" encontrar o seu par. Me pergunto se o que as pessoas realmente procuram é um parceiro ou o lacre que faltava neste tal pacote?  
Independente do propósito é nítido como o ser humano naturalmente procura seu par. Alguns facilmente encontram e outros passam a vida à procura.  São turmas distintas. A turma dos "unidos" onde estão os casados, namorados, namoridos, amantes e adjacências. A turma dos solteiros, onde também se juntam os viúvos, separados, deixados, abandonados, perdidos e a decidir. E tem ainda a turma do "nem". Nem casado, nem solteiro; onde se enquadram os ficantes, os casos, os rolos, os indecisos, os que tem mais de um (e não tem nenhum), os que estão, mas nunca estiveram; os que estiveram e ainda não entenderam que não estão mais... e por aí vai...
Não importa onde voce se enquadra, se vamos falar de felicidade, o que eu vou dizer aqui cabe para qualquer um. Velhos, novos, homens, mulheres, enfim, cabe para mim e cabe para você. A felicidade é responsabilidade de cada um de nós. Sozinho. Isoladamente. A felicidade é solitária! Sim, é verdade, a felicidade é solitária. 
As pessoas realmente felizes não são, necessariamente, as que têm alguém, as que têm dinheiro, as que tem poder nem as que tem mais ou menos sofrimento. Porque a felicidade  independe do "ter"; ela esta relacionada com "ser". E "ser" é único, singular.   
A pessoa verdadeiramente feliz tem a felicidade como premissa e não como fim. Ela começa feliz. Ao contrário de outros que  vivem enxergando a felicidade como uma luz no fim do túnel que um dia vai chegar e este dia nunca chega.
A pessoa feliz é feliz com ela mesma e por ela mesma e isso não é egoísmo, isso é propósito de vida. A pessoa feliz sabe que o amor é solitário e  que nossas escolhas, assim como as consequências, são solitárias. 
A pessoa feliz de verdade é feliz enquanto constroe, ao contrário de outros que vivem à espera da "casa pronta" que vai trazer felicidade. Felicidade também é construção, é caminho, é trilha.
A pessoa feliz sabe que precisa dos outros e faz questão de também colaborar com os outros e jamais confunde essa ajuda mútua com transferência de responsabilidade. A pessoa feliz sabe amar, sabe se doar e sabe dividir; mas sabe também que isso não significa possuir ou ser propriedade de alguém. A pessoa feliz também sofre, sente dor e tristeza. Mas sentir não significa ser. Sentir pode depender da circunstância, de fatos. E ser, depende de querer adotar para si.
Podemos caminhar juntos, de mãos dadas, pela mesma trilha. Mas não posso me responsabilizar pelo seu sucesso ou fracasso, porque não vivo as suas dores, não amo os seus amores.  Me limito a este espaço que fica do lado de fora de você. E aí dentro de você, tem um infinito que é só seu. Assim como em mim, um universo particular. 

Leila Rodrigues

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Minha felicidade

Minha felicidade
Cabe na palma da sua mão, enquanto me acaricia
Cabe no copo de água fresca que me sacia
Cabe nas panelas de comida que faço
Cabe na barriga que vai parir, no regaço
Cabe na minha rede, de papo pro ar
Cabe na minha mesa de jantar
Outrora, a minha felicidade não cabe em lugar nenhum, 
Tão grande fica, ebule e se dissipa no ar.

A minha felicidade, às vezes, é pedra preciosa,
Verdinha, verdinha, disfarçada nos olhos do amado meu
A minha felicidade é dança
Minha felicidade ainda é criança

Minha felicidade é tão simplesinha...


Leila Rodrigues

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

No caminho

A passos largos e precisos ele seguia. Jamais olhava para o chão, poderia evidenciar a sua fraqueza. Olhava em frente, via o horizonte. Na verdade, nada via. Enquanto fazia aquele percurso de sempre, ele nunca enxergava nada. Aquele caminho era sempre o mesmo. A mesma hora, as mesmas pessoas, as mesmas lojas, as mesmas velhas casas e aquele mesmo velho corpo caminhava de volta para casa.
Achou tudo velho. Se achou completamente velho e pesado ao fazer aquele velho percurso. Teve ódio de si mesmo pela sua mesmice. Teve ódio da permissão que ele dava a cada dia para que a mesmice acontecesse.
De súbito, transgredindo a velha regra do caminho, virou a esquina seguinte. Olhou para cima e para os lados, mudou o compasso dos seus próprios passos. Respirou fundo como se quisesse, não só engolir, mas saborear aquele novo ar. Afrouxou a gravata e sorriu. Finalmente sorriu.
Daquela rua nova resolveu entrar em outra e depois em outra e outra. Andava, desesperadamente, a procura de nada. Virava aqui e ali procurando se perder. E quando se deu conta estava mesmo em um lugar completamente novo. Entrou no primeiro bar. Olhou o relógio, anoitecia. Dali a alguns minutos alguém começaria a ligar. Achou uma mesa no canto, desligou o celular e sentou-se. Sorriu de novo. Sorriu criança naquele momento.
Pediu uma cerveja e bebeu vagarosamente o primeiro gole. Sozinho naquela mesa ele observava à sua volta. Pessoas chegando, pessoas passando, casais se beijando e ele ali como um deus despercebido a observar tudo e todos. Um total e completo estranho naquele novo lugar.
Instantaneamente desejou cada mulher que cruzou aquela porta, despia todas nos seus pensamentos e ria sozinho no seu harém platônico. Analisou, filosoficamente, todos os bebuns transeuntes daquele reduto. Invejou a liberdade de alguns que chegavam serenos, tranquilos, sem medo de estarem ali. Concluiu que estes não tinham ninguém à sua espera. Andava cansado dessa espera. Cansado de ser precisamente esperado. Aquela precisão matemática havia extrapolado as portas da confiança.
Decidiu que acabaria com isso tão logo retornasse ao seu velho mundo. Porém agora não. Precisava usufruir cada segundo deste novo tempo, antes que este se tornasse velho também. Naquele novo lugar ele bebeu. Bebeu, comeu e filosofou. Bebeu, recitou e cantou. Bebeu, sorriu, riu, gargalhou, chorou, pagou e cambaleou até reencontrar o velho caminho.
Ajeitou a gravata, alinhou o passo e pegou de volta a velha estrada.


Leila Rodrigues

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Domingo

Quando criança, domingo era dia de missa. E de picolé depois da missa. Domingo era dia de frango, de macarronada, de casa de vó. Domingo tinha um cheiro diferente, cheiro de alegria.

Cresci e o domingo virou um tédio. Talvez pela sua localização estratégica entre o sábado e a segunda, o domingo servia para acumular duas coisas: a ressaca do sábado (bebido ou não) e a revolta pela segunda. O infeliz não passava; eu arrastava um chinelo pela casa, embrulhada naquele roupão encardido de sempre, amargando a espera dele passar. Isso quando eu não chorava ao entardecer. Sem nenhum motivo aparente eu derramava um pranto sem sujeito quando chegava aquela hora fatídica.

Incomodada com aquele dia cruel bem no início da minha semana, comecei a me encher de compromissos. Precisava dar um jeito de reverter aquela situação! Feiras, almoços, parques, shoppings, enfim, compromisso era meu sobrenome. Passava o domino (domingo) na rua. Programa não faltou. O que faltou foi disposição mesmo! Chegava na segunda eu estava um caco, um trapo de gente arrastando o peso do meu cansaço. Percebi que havia escolhido a estratégia errada.

Continuei minha saga em busca do domingo perfeito. Comecei a juntar dinheiro para comprar um sítio, minha casa de campo. Isso sim vai ser felicidade! Natureza, sossego, silêncio... Até esqueci o trabalho que dá, o trânsito para ir e vir, a manutenção do meu sonho, enfim.  Quando vi que isso poderia demorar alguns anos, fiquei à deriva novamente. Não que eu tenha desistido do sonho, mas eu queria resolver isso agora. Não tenho um dia da semana para dar de presente ao nada. É perder muito da vida.

De volta ao meu apartamento, resolvi dedicar o meu domingo a alguém muito especial: A mim mesma!

Hoje ele (o domingo) passa tão rápido que mal dá tempo de fazer tudo que eu quero. Tomo meu café da manhã de rainha, ouvindo as minhas músicas, sem pressa.  Leio meus livros, mato a saudade dos meus amigos. Caminho, cozinho, ou invento uma comida única, temperada com um pouco de mim. Assisto meus filmes, meus programas prediletos. Escrevo, leio, escrevo de novo, leio mais um pouco. Aprecio com mais tempo os meus filhos, o meu marido, as flores do meu jardim, a paisagem da minha janela. Falo com meus amigos distantes. Coloco ou tiro compromissos no domingo conforme a minha vontade, meu estado de espírito.

Converso comigo e com Deus. Ouço um pouco de silêncio e também um pouco de mim. Dou a mim mesma, um pouco mais do que meus cinco minutos sonhados. Dou-me um começo melhor, uma semana começando por mim.

Leila Rodrigues 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Pura magia

Demorei tanto para chegar e agora, que aqui estou, a impressão que tenho, é que sempre estive aqui. Você me é tão familiar que fica difícil explicar. Parece que eu já ouvi seus hiatos, já sei o tempo das suas falas, o tom da sua voz.
Fiquei à vontade antes mesmo de você puxar a cadeira.
E olha que eu ainda não sei quase nada de você e nem você de mim. Mal sei seu sobrenome e você nem sabe onde eu nasci. Ainda nem te contei como foi o parto do meu filho, nem você me disse onde passou suas últimas férias. Mas você sabe me fazer sorrir só de me olhar e eu sei te contar casos que nem para mim mesma eu contei um dia.
Talvez nem sobre tempo para falar de mim, mas isso pouco importa. Aquela pressa de se mostrar, aquela aflição de dizer quem sou, sumiu. Deu lugar para uma tranqüilidade incrível, uma leveza que dispensa explicações. Olhos falam, sorrisos explicam, afinidades se misturam. Que coisa é essa? Pura magia, eu diria.
Não precisa me levar a lugar nenhum, meu caro. Eu já me sinto, aqui, no melhor lugar. Não se apresse em misturar nossos mundos porque eles já são próximos por natureza. Gostamos das mesmas cores, respiramos os mesmos ares ainda que estejamos a milhares de distância. A força infinita da natureza nos aproximou e ela mesma vai tratar de entrelaçar nossas mãos.
Em meio a milhões de cliques, num deles estava você. Nesse mundo novo, onde tudo é tão instantâneo, tão efêmero, tão moderno, não se esperava que o sentimento, esse velho avassalador, vencesse. Mas ele venceu. Venceu as barreiras do teclado, venceu as fronteiras do monitor. Venceu o frio da distância e juntou pessoas, uniu casais, formou famílias...
Sim o amor é mesmo inexplicável! Pode surgir de onde menos se espera, de onde nada se espera. De onde não se procura, em momentos que nem sequer imaginamos, lá vem ele tomando conta de nossos espaços. Fazendo amigos, formando parceiros, tribos, grupos, casais... amores.
Ombros que eu nunca vi, colos que eu jamais dormi, choram comigo minhas dores e vibram comigo as minhas alegrias, a milhas de distância. Alguém poderá dizer que este sentimento é menos nobre que qualquer outro ?
Vindos de todos os lugares, de todas as tribos, as pessoas se descobrem próximas, parecidas, unidas, pares. E como um toque de magia, uma cumplicidade imediatamente inexplicável toma conta de nós.
Neste campo imenso de girassol, vivemos a mais pura magia do encontro. Naturalmente simples. Como um clique.

Leila Rodrigues, especialmente para os meus amigos Ricardo Calmon e sua doce Regina, pessoas que eu conheci com um clique.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O aprendiz

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo, jamais perder o olhar curioso, a criação ingênua e o encanto das descobertas.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo, jamais adquirir a arrogância da certeza, a frieza dos troféus e a solidão dos deuses.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo,  jamais deixar a incerteza do sucesso, o arritmia da dúvida e a lágrima das conquistas.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo, jamais contrair o vírus da fama, a doença do sucesso e a ilusão do estrelato.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo,  jamais sucumbir aos efeitos do aplauso, ao brilho dos palcos e ao poder do meu ego.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo,  jamais querer saber quem chegou primeiro, quem chegou por último ou a que lugar cheguei.

Quero ser um aprendiz. 
Sim, um eterno aprendiz. 
E assim sendo,  jamais ser pronto, completo, finito.

Quero ser um aprendiz e seguir como criança, aprendendo por aí...

Leila Rodrigues

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Cinco minutos

Seis e meia da manhã. Abro os olhos. Meu corpo condicionado aguarda o despertador, como que querendo competir com ele. " Eu sou mais preciso que você. Acordei primeiro!"
Ouço os barulhos lá fora. Alguém começou antes de mim. Carros passam apressados, sirenes anunciam a hora de começar.
Onde foram parar os pássaros? Os galos, os bem-te-vis e pardais, onde estão? O cheiro de café coado? Biscoito frito recendendo pela casa? Plantas molhadas de orvalho, friozinho da manhã? Cadê tudo isso?
O sol continua demorando o mesmo tempo para surgir todas as manhãs; mas eu não consegui dar à minha manhã o seu devido tempo. Passo batom no elevador, vejo as notícias no iPad, listo e repasso as tarefas do dia enquanto caminho na esteira.
Orgulhosamente chamei tudo isso de otimização do tempo. Será mesmo? Fazer duas, três ou mais coisas ao mesmo tempo. Até que ponto isto é otimizar o tempo? Otimiza-se o tempo e "pessimisa-se" a mente. Será vantagem, otimizar o tempo hoje para gastar amanhã na cama de um hospital?
Como um buraco sem fundo vamos nos enchendo sem limites. De informação, de comida, de compromissos, de responsabilidade. E consequentemente de medo, de angústia, de dores, de stress, de remédios.
Como a mente não ocupa espaço, perdemos a noção de ocupação desse pseudo-local. Quando percebemos, esvaziar-nos vira uma tarefa dificílima e dolorida. Nos acostumamos de tal forma a mantermos a mente ocupada com alguma coisa que não suportamos o vazio. E assim, fujo do encontro comigo mesma como o diabo foge da cruz!
Pode alguém não suportar a sua própria companhia? Assim estamos nós, sempre acrescentando um afazer na lista, porque parar virou vergonha nacional. Quando acaba tudo, fácil, fácil coloca-se na fila um filme, a internet, o jogo, que é pra não dar chance para encontrar consigo mesmo. Como é que eu posso ser companhia de alguém se eu ainda não suporto a minha companhia?
Será que o vácuo de nós mesmos é tão insuportável assim? Há quanto tempo não falo comigo mesmo? Sou capaz de perguntar para todo mundo, "como vai? Tudo bem com você?" E para mim mesma nem um oi ando dizendo.
Falta-me cinco minutos. Cinco minutos para mim. Cinco minutos para eu encontrar comigo e me dizer bom dia. Cinco minutos para eu ouvir de mim como eu estou realmente. Cinco minutos para eu chorar ou sorrir. Cinco minutos para eu abrir a janela, respirar fundo, ver o dia amanhecer. Cinco minutos de mim para mim... E o resto do meu dia ficará muito maior e melhor.

Leila Rodrigues

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Raízes

Entre uma serra e outra, um amontoado de casas. Certamente uma igrejinha, construída bem no alto. Uma ilha de casas, cercada de verde por todos os lados. Um lugar bucólico, um lugar tranquilo onde parece que ninguém tem pressa. Um lugar onde pouca gente chega e muitos de lá se vão.
A rodovia passa no trevo e ninguém tem coragem de entrar a não ser quando tem festa dos santos. Não importa o nome do santo, quem foi ele, nem qual protetor ele seja. Neste dia todos vêm, de algum lugar vêm.
É aqui, em uma dessas cidades que eu nasci, que eu cresci; que eu tive a mais rica infância que alguém pôde ter. Pelos quintais da vizinhança, conheci e comi as mais diversas frutas que uma criança pôde experimentar. Voei com as pipas coloridas dos meus irmãos, feitas de papel e sonhos. Experimentei a mais intensa felicidade que uma criança pôde viver. E assim como eu, todos nós que aqui nascemos, que por aqui crescemos, certamente todos, tiveram uma infância parecida com a minha.
Dali, quase todos nós saímos um dia. Quem tem asas não se prende atrás da serra. Na mala, a colcha que a mãe fez, a rapadura para adoçar a vida, um queijo para os primeiros dias. Um frio gigantesco na barriga e os olhos arregalados de medo. Medo do novo, medo daquele povo diferente, apressado. Medo da velocidade do tempo, dos carros e das pessoas. Medo do despreparo. Pena não saber, naquele momento, o quanto aquela infância havia nos preparado para a vida.
Numa dessas cidades, pequena como a minha, nasceram Juscelino's, Adélia's, Drumond's e tantos outros que se espalharam por aí. Criados com queijo e sabedoria, tias e ave-marias, se tornaram grandes homens, grandes mulheres. Tão simples e ao mesmo tempo tão ricos de sabedoria, como o lugar que cresceram.
Hoje tudo tão mudado, asfalto para todo lado, empresas chegando, pessoas também. Até poluição já chegou por lá. Dizem que isso se chama progresso, faz parte do pacote “evolução”. Eu daqui, fico orgulhosa de ver que hoje, muitos já não precisam fazer como eu fiz. Por lá mesmo foram reconhecidos e encontraram seu lugar.
Torço para que aquelas casas nunca desapareçam de lá e que as minhas asas nunca esqueçam o caminho do ninho.

Leila Rodrigues

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Amor na versão 4

Para começar nossa conversa, venha disposto a conversar. Aceite meu sorriso tímido, de quem não fez um check list antes de sair, de quem não está 100% à vontade, mas está 200% com vontade.
Perdoe-me se o frescor da juventude não estampa mais a minha pele. Aceite o calor que ainda me queima por dentro, hoje muito mais quente do que quando existia frescor.
Eu não terei tempo de reparar seu relógio, nem seu carro, nem o couro da sua carteira. Não é isto que me encanta em você. Mas ouvirei atentamente cada palavra dita, cada sorriso, cada gesto.
Você não precisa pagar a minha parte da conta; a esta altura, contas já não contam tanto assim.
Fique a vontade! Aqui não é mico gostar de Bob Dilan, usar mocassim, jaqueta de couro. Eu também ainda insisto no blazer vermelho. E vez por outra vou cantarolar um Belchior.
Me ofereça algo mais do que frases prontas, copiadas-coladas de um email qualquer. Me ofereça o que for seu de verdade, eu aceitarei de bom grado e farei disso o meu melhor jantar.
Traga somente você no nosso encontro. Deixe lá fora seus méritos, suas medalhas, seus títulos, sua beca. Venha sem armas, sem truques, sem compromisso. Traga apenas a sua história,  sua trajetória. E isso será o bastante para nos darmos muito bem. Venha você, porque quem te espera aqui sou só eu.
Eu prometo não comparar você comigo, nem com mais ninguém. Prometo ser eu mesma durante todo o tempo em que estivermos juntos.
Sinais do tempo estampam nosso rosto e revelam nossas lutas, mas nossos olhos, turvos pelo tempo e brilhantes de esperança, redescobrem a disponibilidade de começar tudo outra vez. Uma página em branco de um caderno usado, capaz de receber uma nova história. E nela escreveremos nossos feitos, nossos jeitos e conceitos sem nenhum preconceito. Sorrisos que revelarão nossos mais íntimos segredos e a cumplicidade que será a chave única de nós dois.
Não foi voce nem eu que chegou tarde, foi a vida que tardou para nos unir, porque esse era o tempo certo dessa história. O amor não é propriedade exclusiva dos jovens, é propriedade de quem o vive, enquanto o vive.


Leila Rodrigues

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A Jade

Desesperada com o excesso de mulheres que invadiam a vida do casal, através de revistas, internet, tv e demais meios que a mulherada arruma para ter cinco minutos da atenção masculina, ela resolveu dar um "up" na relação.
Primeiro procurou uma sex shop, queria uma roupa bem extravagante, coisa moderna mesmo, já que o objetivo era impressionar. Ela, que sempre vestiu manequim quarenta e dois, saiu da loja com um minúsculo conjunto que não chegava nem perto do trinta e seis e ainda com sete véus coloridos. Olha a intenção!!!
Mas antes precisava se preparar, baixou uma trilha sonora de dança do ventre na internet, se fechou no quarto e foi ensaiar. Ninguém da casa entendeu nada, ela trancada no quarto por mais de uma hora, mas tudo bem, ela estava andando meio estranha mesmo.
Foi ao salão e pediu uma reforma geral, queria sair de lá uma outra mulher. Sabe aqueles programas de tv de transformação? Pois bem, era aquilo mesmo que ela pretendia. Pintou, cortou e chapou o cabelo. Pintou as unhas de rosa chiclete. A manicure avisara que era a cor do momento. Retirou todos os pelos indesejados e ainda mais alguns que nem imaginava, tudo em nome da modernidade.
Comprou sais de banho, óleo de massagem, velas, champagne, morangos, bombons e uma lasanha de caixinha que seria o mais rápido e garantido para ser servido no jantar. Caprichou na maquiagem, muito lápis preto nos olhos, dentro, fora, em volta. Precisava parecer uma Jade.
Mandou as crianças para a casa da mãe, encheu a sala de pétalas de rosas e velas, desligou o celular e ficou a espera do marido. Assim que ele abrisse a porta, a surpresa começaria. O objetivo era nem chegar no quarto, a sala já estava devidamente equipada para que tudo acontecesse por alí mesmo.
Chega o bonitão. No primeiro rodopio que ela deu, o véu se enroscou na vela. Sintético puro, o fogo se alastrou. Desesperada ela saiu pulando feito uma cabrita tirando os outros seis véus em dois segundos. O marido, para ajudar, jogou o champagne no fogo que alastrou ainda mais. Com medo do marido se queimar, ela joga um balde d'água naquilo tudo...
Para quem queria uma noite diferente, pode-se dizer que conseguiu.
Muitas gargalhadas depois, os dois de pijama, comem os bombons e chegam juntos a uma mesma conclusão: Quem não nasceu para Jade, melhor manter o lenço quieto no pescoço!

Leila Rodrigues

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Enquanto todos dormem

Madrugada, terreno fértil dos pretendentes poetas. Destino certo dos transeuntes solitários. É aqui que os desejos afloram, deliberadamente! Na calada da noite, no escuro, na solidão dos acordados, desejos escusos se tornam realidade.
Ladrões invadem casas, enquanto cidadãos comuns e politicamente corretos invadem páginas. Todos à procura de algo que lhes falta: Sexo, eletrodomésticos ou companhia.
Poetas se fazem na madrugada, amores explodem em profusão. Vidas se refazem, listas infindas são feitas, refeitas ou desfeitas na madrugada. Aquela música que ninguém mais gosta, ouve-se solitariamente na madrugada. O programa medíocre da TV, aquele filme que ninguém viu, viram gratos companheiros nesta hora escura. Livros viram parte do corpo, um álibi perfeito para os que matam seu próprio sono.
Enquanto todos dormem e o silencio se faz, eu posso ser tudo aquilo que não suportei ser no clarão do dia. Há quem ataque geladeiras, quem ataque o próximo, quem ataque as letras. Artistas criam, idéias surgem, amores silenciosos se beijam no teclado. Roubam-se jóias, obras de arte, pessoas e idéias num simples copiar colar. Casais clandestinos lêem seus recados. Pesquisas secretas engarrafam o trânsito da rede. Doenças, viagens, hotéis, pessoas, histórias e companhias para as mais diversas aflições são pesquisadas na noite. Saudades são remoídas, perdas são choradas no silêncio.
Acordados por algo que não conseguimos identificar ou que, muitas vezes não queremos identificar, os "dessonados" procuram, desesperadamente, um sol na noite que justifique seus olhos abertos e sua mente em produção. Só quem vive este descompasso sabe mensurar sua dimensão.
Enquanto todos dormem, eu penso em todos, em tudo. Planejo, faço conta, remanejo e decido. Como que, desesperadamente,  necessitasse ocupar cada milésimo desse tempo.
E quando a noite acaba,  junto com ela acabam as minhas forças, as minhas tormentas, os meus devaneios. Sobramos eu e aquele cansaço enorme de quem acabou de viver intensamente algumas horas e precisa de um merecido descanso. Tarde demais! Alguém acendeu a grande luz do dia e isto significa que é hora de viver... Que pena! Justo agora que bateu um sono....

Leila Rodrigues

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Eu não sei deixar de ser assim

Nunca tinha imaginado a dificuldade de se deixar um vício. Até o dia em que eu precisei fazer isso. E olha que eu não sou um recuperando de drogas, eu não fumo, nem jogo, que são considerados o vícios mais difíceis de se  libertar. Eu sou um cidadão comum, como você e como qualquer outro. Eu trabalho, eu pago minhas contas, eu sou pai de família, tenho mulher e filhos, alguns amigos e no mais, tudo muito normal. Não estou me referindo àquelas vergonhas escancaradas que muitos têm de suportar em função de suas escolhas. Não, eu estou falando das nossas pequenas mediocridades, dos nossos atos escusos, aqueles que ninguém sabe e que o sujeito tem vergonha de contar até para si mesmo.

Escolhemos ser  e agir da maneira que queremos. Esta escolha pode ser por puro gosto, por conveniência ou por teimosia mesmo. Muito comum.  Até aí tudo bem, todo mundo, no fundo, faz o que quer. E eu não sou diferente.

Pois é, foi um ato desses que eu me dei conta que estava me fazendo muito mal; diminuto. E o pior, já fazia parte da minha rotina.  Simplesmente precisei tirá-lo da minha vida, para meu desencargo de consciência e porque “ele” me deixava envergonhado de mim. Então precisei parar e rever meus conceitos.

Foi aí que a coisa piorou. Como é difícil mudar! Descobri que eu não sabia fazer diferente. Descobri que mudar, (aquilo que falamos para o outro fazer com a maior facilidade), é dificílimo. Estou falando mudar de verdade! Não tirar férias! É porque a maioria tira umas feriazinhas de um mês e acha que mudou. De repente, quase sem perceber, você está lá de novo, no mesmo buraco. Falando as mesmas mentiras, comendo as mesmas porcarias, comprando mais do que pode, bebendo, jogando, dormindo, traindo, enfim, seja qual for o seu vício, o seu segredo, sei que você me entende. Como é difícil abandoná-los!

Somos cúmplices e amantes das nossas manias e comportamentos. Principalmente das manias erradas, incorretas. Odiamos e somos completamente dependentes delas. E isso só é percebido quando precisamos deixá-las por algum motivo. Não me interessa o seu vício ou o seu erro, como queira chamar e muito menos o motivo que esteja te levando a querer sair dele. O que eu quero te dizer, é que compartilho com você desta dificuldade.

Pensei em procurar uma psicóloga, mas o meu desconforto não me permitiu; então  me armei de coragem e me propus a não praticar mais o meu “ato”. Na primeira semana, tudo tranquilo, me parabenizei. Na segunda semana, me segurei para não recair. Na terceira me odiei e o mal humor tomou conta de mim. Na quarta semana, a um fio de recair,  me perguntei  se valeria a pena voltar atrás. E foi assim, entre idas e vindas, recaídas e levantadas que  resolvi continuar. Procurei me ocupar com coisas mais nobres e mais importantes toda vez que a vontade me assombrava. E assim os dias se passaram e hoje estou aqui, comemorando com você uma coisa tão simples para a humanidade e tão difícil para mim.

Ainda não posso dizer que estou curado. Pode ser que amanhã ou depois eu faça tudo de novo. Mas posso dizer que estou bastante satisfeito de ter conseguido. Acho que estou retomando as rédeas de mim mesmo. Me sinto bem  melhor... silenciosamente melhor.

Sou capaz de apostar que você ficou curioso! Um dia eu te conto.


Leila Rodrigues

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A soma do tempo

E eis que eles decidiram ficar juntos. E assim estavam até então. Quanto tempo se passou? Não importa. Quanto tempo se passou entre duas pessoas?  Quanto tempo os uniu e quanto os distanciou? 
Não se conta em dias o tempo de uma união. Conta-se o quanto cada um usufruiu do outro para ser feliz; o quanto, juntos, fizeram, viveram e cresceram. O número de filhos, as noites de paixão, os colos divididos, os choros de emoção. Soma-se o tempo em que as alegrias e tristezas foram partilhadas, sentidas, conquistadas. Soma-se o tempo em que os olhares falavam mais que as palavras e o riso explicava os sentidos.
Diminui-se o tempo que cada um caminhou em direção oposta. O tempo que usufruíram sozinhos suas vidas. Lutando para manterem suas identidades, acabaram se identificando de novo, com outras pessoas, outras paisagens, outros encantos. 
No medo da entrega se entregaram ao mundo e perderam o caminho de volta.
Contas que não se somam mais, listas separadas de interesses e sonhos isolados vão criando forças opostas. O ninho deixa de existir.
A casa ficou pequena. O espaço de um começou invadir o espaço do outro apenas por existir. O caminho mais curto é o  silêncio. O mais prático é a distância. E todo esse tempo entra na conta diminuindo. O que se sobra desse saldo? Um resto de amizade, um fundo de respeito, algum carinho talvez, quase fraternal. Um abismo de distância, olhares que não se cruzam, falas que não se encaixam num diálogo. 
Por que ficar se já não estão? Já estão "idos"  há tanto tempo que levar a mala será apenas protocolo. Um até logo e tudo bem. Sem brigas, sem cenário, sem clichês.
Um fim ético, silencioso e contido. Não menos doloroso que qualquer outro. O fim de duas pessoas que caminhavam juntas mas que, em algum momento de suas vidas descobriram caminhos diferentes... E a velha estrada se tornou impossível! Não ficou tempo nenhum pra sobreviverem. O saldo deu negativo. O estoque da paixão acabou. A adrenalina do desejo deu lugar  a letargia da comodidade. A soma do junto perdeu para o sozinho.
 O pacto acaba aqui? Depende. Nem sempre há forças para retomar o fio dessa meada...
Histórias assim nos pegam completamente de surpresa e nos fazem refletir. Assustam-nos pelo inesperado, pelo sofrimento que não conseguimos perceber com a convivência e que agora se fez atitude. No rosto de quem decidiu pelo fim, um misto de cansaço e alívio. Um sorriso que se traduz em liberdade. Cansadas, por enquanto, essas pessoas não querem nada além de um bom pijama, uma boa noite de sono e seus dias normais. É preciso reaprender o caminho de casa, o lugar sozinho na cama, o espaço novo para as coisas no armário e no coração...
Volto para mim e me pergunto quanto tempo tem que estamos juntos? Tenho vontade de correr até você. Neste momento a quantidade de tempo ficou irrelevante. Nos resta alguma coisa? Voce ainda está aí? Eu continuo aqui. Ainda há algo que possamos querer juntos? Posso esquentar as suas mãos... Vamos tomar um café?... Põe aquela música que era a nossa, lembra?... Se veste de nada, minha roupa favorita!... Olha que eu ainda posso ser difícil! ... O vizinho de baixo vai ouvir!... Nós ainda podemos...

Leila Rodrigues

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Giliard

Todos os dias ele escova seu maravilhoso cabelo comprido, fio reto, quase nos ombros. Escolhe,  entre todas as camisetas pretas do gaveta, a preta do dia; calça aquele bat-but comprado clandestinamente do rapaz da PM e vai para o trabalho.
Graças ao seu Deus Ozzy Osbourne, ele tinha conseguido o emprego na loja de discos. Sim, na galeria do Ouvidor, aquela última loja de discos de vinil.
Ele tem certeza absoluta que só conseguiu o emprego lá, devido ao seu biotipo, recém saído de uma revista de rock dos anos oitenta e ao seu apuradíssimo conhecimento do assunto Rock'n roll. Aliás, ele e o Erasmo (um ídolo), são as únicas pessoas que ainda falam rock'n roll até hoje.
Conheci Gil quando perambulava atras de um vinil do Rod Stuart para o meu irmão. Gil, prontamente me mostrou tudo que tinha, falou da trajetória do Rod, dos momentos memoráveis da carreira do cantor, enfim, me deu uma aula.
Saí da loja saciada. Certamente eu nunca mais voltaria alí, porque procurar vinil não era uma atividade corriqueira para mim. Mas Gil, que até então eu só conhecia o codinome, me inspirou a voltar.
Voltei, e quando estava na loja, ouço alguém chamá-lo de Giliard. Nao consegui conter e dei uma gargalhada. Você consegue imaginar alguém que é fã do AC/DC, com o nome de Giliard? Nem eu. Mas ele estava ali, na minha frente e eu tinha acabado de cometer essa gafe enorme ao rir do nome do rapaz. Me desculpei de imediato. E ganhei de presente o trocadilho bem humorado do Gil:
 - Minha mãe me deu este nome por amor a um ídolo dela, que não necessariamente tinha que ser o meu. Durante muitos anos carreguei-o comigo como se fosse um peso. Mas nome não faz destino. Nem toda Rosicleide é doméstica, nem todo Roberto é cantor, nem todo Sílvio é Santos. João pode ser  deputado, pagodeiro ou João ninguém. Eu sou Giliard de certidão, Gil pra evitar discussão e roqueiro de coração. Sacô?!

Leila Rodrigues