sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Ressaca do bem



Perdeu a hora, mas nem se importou. Esse é o único dia em que ela se permite acordar mais tarde. Um café forte vai ajudar. Saiu do quarto e observou à sua volta:
Destroços de papéis de presente espalhados pela casa mostravam que por ali houve algazarra. E alegria! No silêncio da casa, agora vazia, ela ainda conseguia ouvir os ecos das falas de cada um, falando tudo de uma vez. Era sempre assim! Primeiro uma oração para agradecer o ano e lembrar dos que se estão longe. Ela sempre chora, mas tem sempre um que faz uma piada e quebra o gelo daquela hora. Todos falavam ao mesmo tempo. Falam dos filhos, dos netos, dos que não vieram, das conquistas. Mães competem umas com as outras elogiando suas proles. Homens falam dos seus times e contam do carro novo, da crise e da reforma da casa. Os mais jovens fazem selfie e os mais velhos reclamam da tecnologia. Pequenos correm e gritam ao mesmo tempo. É muita fala para uma noite só! E cabe tudo na ceia.
Crianças avançam afoitas em seus presentes. A alegria está nos olhos de cada uma delas. Alguns se emocionam, choram, coraçãozinho dispara. Pena que, em 10 minutos, já abriram, já testaram, já estragaram e já desmontaram os presentes. E ainda tem aqueles que mal ganharam o presente e já começam a pedir outro.
Na mesa, comida para 8 dias e o dobro de convidados. Com medo de faltar, faz-se, além da leitoa, do peru, do arroz com castanhas, das frutas e dos panetones; um feijão tropeiro, uma tábua de frios, uma carne de boi ao molho madeira... Enfim, é comida que não acaba mais! Tudo permitido! Mesmo porquê, não comer o que uma fulana trouxe é desfeita.
As tias, que só tomam leite de soja, entram no  espumante. Docinho, refrescante e ainda na taça com aquelas bolhinhas sensuais. Ah! Vira água! Dá para imaginar o resultado! Dançam, cantam, choram, riem, gargalham, choram de rir, choram de chorar, se abraçam, se desentendem e se entendem novamente. Tudo em uma única noite! Isso é mágico!
Agora ela anda pela casa vazia. Enquanto junta os papéis, refaz o filme da noite anterior. Seus filhos lindos, quanto mais velhos mas lindos. Seus netos, seus parentes todos. Como é bom juntar a família, e poder celebrar a alegria de pertencer ao grupo. Voltar ao ninho e celebrar o nascimento do Pai.  Esta é a forma que encontramos de renovar nossos laços com aqueles que já nascemos entrelaçados.  Se é certo ou não, se o espírito natalino se perdeu, se o consumismo tomou conta, ela prefere não julgar. Para ela, fica a certeza de ter renovado seu profundo amor para com todos que estiveram ali.

Leila Rodrigues


Olá pessoal,

“Ressaca do bem” é uma das minhas crônicas favoritas. Retrata a realidade de nossas casas, de nossos Natais tão nossos e principalmente daquelas que, sem sequer saber o poder que tem, reinam absolutas em nossas casas, nossas mães. Essas guerreiras que a primeira vista parecem tão frágeis e que com estratégia e maestria nos criam e nos transformam em pessoas de bem.
Desejo um feliz Natal a todos os leitores do Palavras e que consigamos enxergar e aprender com nossas mestras o verdadeiro espírito natalino. Feliz Natal!
Grande abraço



3 comentários:

  1. Com certeza, seu texto nos leva de volta as nossas casas, nossos Natais passados com toda a família reunida...um tempo bom e que no momento real não nos damos conta...ate que aquela pessoinha que reunia a todos nos se encontre mais entre nos...ai sim, ai percebemos o quanto esse momento era bom, era gosto, era importante...mesmo com todo o consumismo, a tecnologia, as gafes em família, os pilequinhos básicos rsrs, saudades de tudo isso!

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  2. Simplesmente maravilhosa e tão real que cabe em cada Natal , em cada casa! Mesmo ausente dos blogs, como recebo por email tuas atualizações, li e me encantei! Feliz 2016! bjs, chica

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  3. Muito linda cronica neste retrato perfeito desta festa onde a dieta é liberada e os humores estão em alta.
    Espero que o Natal tenha sido ótimo e que em 2016 estejamos por aqui nesta troca de sentimentos e sonhos de um mundo melhor e mais justo.
    Que seja um ano de renovadas esperanças principalmente para o Brasil e meio a esta cosia fora de ordem como uma casa pós festa de Natal.
    Meu abraço Leila.
    Feliz 2016.

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