domingo, 20 de janeiro de 2013

O relógio




Olá pessoal,

Este texto escrevi há alguns dias para o meu amigo Manuel Montijo do blog http://navoltadotempo.blogspot.com.br/ . Manuel é daquelas pessoas que parece que eu já conheço há anos. Um velho amigo como dizemos por aqui.
A todos os velhos amigos que a distância não nos permite abraçar, mas que as afinidades nos mantêm unidos, dedico este texto, O relógio.
Abraços a todos
Boa leitura!

Leila Rodrigues


 O relógio


Até que veio me visitar o Manuel. Sim aquele meu velho amigo de Portugal, escritor dos bons, com quem gosto de tirar uns dedos de prosa. Contou-me o Manuel que estava triste naquele dia, pois procurava respostas para algumas perguntas difíceis de responder.

Então lhe contei esta história. Fato verídico meu caro amigo. Acontecido comigo mesmo, este seu amigo de muitos anos. Contar-lhe-ei apenas para que você não procure mais respostas, pois que estas chegam por si.

Certa vez, ganhei um relógio. Quando abri a caixa e vi que o presente era um relógio, fiquei alguns minutos parado, observando, sem saber o que dizer.
- O relógio é lindo! Uma peça de colecionador. Obrigado.

Explico a minha reação. Eu nunca usei um relógio na vida. Ou melhor, usei sim, dois dias quando eu estava no colégio e comecei a chegar tarde demais para o almoço. A minha mãe me deu o relógio, aquele até então único que eu havia usado. O objetivo era que eu não me demorasse mais para o almoço. Mal sabia a minha mãe que eu saia correndo da escola para encontrar com a Eliza, filha da Diretora da escola que estudava na escola particular a duas quadras da minha escola... Coisa de adolescente.

Depois teve a fase do banco que tínhamos hora marcada para chegar, mas nunca para sair. Todo bancário é escravo de relógio, mas eu me habituei tanto a me guiar pelo movimento dos meus amigos dentro do banco, que nem assim eu tomei gosto pela peça.

Depois vieram o celular, o relógio no computador e cada dia mais o relógio de pulso foi se tornando desnecessário. Pelo menos para mim.
Mas eu acabara de ganhar um relógio da minha filha que chegou de Londres. Um relógio lindo, uma peça rara. E agora?
Não usá-lo desagradaria e muito a minha filha; usá-lo desagrada minha doce mania de não gostar de relógio. O que fazer?

Coloquei o relógio no meu criado mudo para incentivar uma discussão comigo sobre o uso ou não do dito cujo.  Toda noite eu olhava para ele e pensava, amanhã eu usarei. O amanhã chegava e nada de eu criar coragem e colocar o relógio no pulso. O problema é que eu nem sequer tentava. Imaginava que ele seria pesado, que ia me incomodar, que eu ficaria suado debaixo dele e isto poderia ser muito desconfortável, enfim, não me faltaram fundamentos para o não uso da peça.

Enquanto eu não me decidia, fui para a minha janela observar o movimento da cidade, como o faço todas as tardes. Lá embaixo, um jovem sem os dois braços atravessa a rua.  Observei em silêncio. Em silêncio entrei em casa e ainda em silêncio coloquei o relógio. Está no meu pulso até hoje e a minha filha ficou feliz que só.

Leila Rodrigues
Foto retirada da internet do relógio que pertenceu ao guitarrista Eric Clapton, leiloado em novembro de 2012

8 comentários:

  1. eu também não sou de relógio. e por isso mesmo, já ganhei vários. as pessoas acham que eu não uso relógio pq não tenho...kkkk

    ResponderExcluir
  2. Olá Leila.

    Usar ou não usar o relógio. Um dilema? Há tanto mais a se atentar, a se aprender... "...algumas perguntas difíceis de responder". Particularmente, adoro relógios. Me sinto estranho sem um no pulso. O meu, de hora em hora, fala o horário.

    Um abração e uma boa semana.

    ResponderExcluir
  3. A diversidade humana é magnífica quando sabemos olhar e avaliar com sentimento! O que para nós é supérfluo, para muitos é o essencial que falta!
    Bjs. Célia.

    ResponderExcluir
  4. Oi Leila,

    Interessante como criamos barreiras desnecessárias nesta vida, nos apegamos a dilemas vãos... O drama de usar ou não um relógio incômodo é tão positivo quando analisamos a situação de quem não tem essa opção, não é mesmo? O objeto da questão não foi um relógio, mas vivi ontem situação muito semelhante enquanto visitava uma jovem senhora que há 2 anos enfrentou um AVC. Por um milagre, ainda está viva, totalmente limitada fisicamente. Mas serviu para nós, as visitas, um pudim feito por suas próprias mãos, após muito esforço e muita fisioterapia! E eu reclamando, achando chato ter que cozinhar nos finais de semana... Se formos um pouco mais gratos pelo que temos, evitaremos conflitos tolos na vida.

    Lindo texto, sábias palavras! Beijos.

    ResponderExcluir
  5. Estou aqui hoje por um motivo mais que especial.
    Tenho que dizer que não foi fácil conseguir você para ser meu seguidor,
    foi muita motivação impulsionando com postagens e visitas...que atingi 300 seguidores
    Agradeço te convidando a visitar a florada do IPÊ junto comigo no FOLHAS DE OUTONO !
    Deixo o meu abraço recheado de carinho !!!!!

    ResponderExcluir
  6. Oi lindinha,

    Tudo bem? Você escreve tão bem conto como crõnica. Sabe outro dia fiquei pensando porque nunca utlizei relógio, mesmo antes da chegada do celular. Acho que sempre fui muito precisa com a divisão das atividades no dia e aí nunca senti-me com pressa ou atrasada com as tarefas. Hoje mais do que nunca entendo que não devo focar a minha atenção para o que não agrega no dia.

    Beijos.

    ResponderExcluir
  7. Sabe cara amiga? Penso que muitos não perceberam, bem, a mensagem que está subjacente a este relógio.
    Aqui o relógio é apenas o símbolo de algo que vai muito mais longe!
    Adorei e compreendi.

    ResponderExcluir
  8. Leila!
    Muito interessante teus escritos e fiquei pensando que sou apaixonada por relógios e sempre usei um desde pequenina, mas não gosto de ver o tempo passar!
    Coisas de ser humano, bendita dualidade.

    Beijos!

    ResponderExcluir

Obridada pela visita. É muito bom ter você por aqui!
Fique à vontade para deixar o seu recado.
Volte sempre que quizer.
Grande abraço