O chão da casa
tinha tábuas largas, algumas soltas que balançavam ao pisar. E eu, toda vez que
atravessava do quarto para o banheiro frio, me sentia pisando em um passado que
eu jamais saberia explicar. Ainda assim eu gostava de ficar naquela casa. Só
quem viveu na casa da avó consegue entender isso.
A minha avó
usava umas palavras diferentes, que só ela sabia dizer. Locomovia-se com
dificuldade, parecia sentir dor, mas conseguia sorrir mesmo assim, sempre feliz
e agradecida por estar entre nós. A casa era grande, cheia de ecos, tinha
cheiro de jasmim e fotos na parede. A minha vó gostava de reunir todos e contar
casos. Sempre reais, por mais absurdos que fossem.
Toda vez que
alguém começa dizendo "na minha época", temos a sensação de um
passado tão distante que visualizamos uma foto em preto e branco, amarelada
pelo tempo, sem valor algum para os dias de hoje. A minha vó gostava de
fotos e achava incrível ver-se no papel. Porém naquele dia ela não começou
assim, talvez por isso tenha sido tão especial.
- Toda vez que
vejo vocês, meus netos, eu enxergo um futuro brilhante para todos. Filhos,
carreira, realização, felicidade. Um futuro que eu, com toda certeza não participarei.
Mas não participar não me entristece. Participei até aqui e de amanhã para
frente pode ser que eu vire apenas uma imagem no papel. E quando eu me
transformar em imagem no papel, ou em apenas um segundo de nostalgia no coração
de vocês, me visitem de vez em quando. Faça-me uma visita breve, alguns
segundos apenas. Visitem-me para reforçar seus valores, para fortalecerem seus
princípios ou para simplesmente enxergarem o passado com o olhar do presente.
E logo em seguida me deixem e sigam as suas vidas, porque é no presente
que construímos o nosso futuro. Corram e mudem o que ainda puder ser mudado.
Ela mal terminou
e foi se levantando da cadeira. Pediu a minha ajuda para se reerguer e trêmula
caminhou sozinha até o quarto. Olhei para o meu irmão que cochilava na cadeira
e pensei na aula que ele acabara de perder. Minha irmã chorava em silêncio na
cadeira ao lado. Só se ouvia o relógio de parede que, de tão antigo já era um
membro da família. Não sei precisar quanto tempo fiquei ali parado, vendo sumir
aquela pequenina que nunca fez curso superior. Suas palavras me acompanham
desde então.
Vovó faleceu cinco dias depois daquela noite, mas
eu a visito até hoje.
Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 09/07/2013
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