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quinta-feira, 4 de junho de 2020

Efeitos colaterais



Tenho andado diferente. Diferente dos outros? Não. Diferente de mim mesma. Diferente da pessoa que eu era ontem, que eu era ano passado. 
Tenho segredos. Eu agora tenho segredos guardados comigo. Não são de ninguém, senão meus. Eu os criei, eu os plantei aqui na minha cabeça. E todos os  dias os cultivo com meus sentimentos.
As vezes são segredos bons, sonhados ao longo do dia, a céu aberto, enquanto  caminho pela rua e aproveito que ninguém pode ouvir meus pensamentos. 
Às vezes são segredos ruins, verdades difíceis de digerir. Verdades que precisam de um ombro a mais para serem suportadas.
No fundo são só segredos, só meus. E eu os revelo apenas se o meu coração quiser. 
Não, eu não sou um poço de virtudes, eu não acordo todos os dias achando a vida linda. Dentro de mim tem luz e sombra. Disposição e cansaço. Coragem e medo. Vontade de ir e vontade de ficar. 
Eu adoraria acordar todas as manhãs com o coração transbordando alegria e compaixão. Talvez essa seja a minha meta pessoal. Mas ainda tenho minhas manhãs de desânimo de vez em quando. Não é sempre, mas tenho.
Em tempos de pandemia, em tempos de incertezas, tenho lutado comigo mesma para ser mais forte que o contexto. Nunca precisei tanto das minhas forças mentais como agora. Na contrapartida da nossa inércia física, é preciso trabalhar a mente. Temos ouvido de tudo, de tudo mesmo. Muita gente falando ao mesmo tempo. Falando sem conhecimento de causa, falando sem saber o que fala. Falando o que lhe convém. A pandemia tem missões nobres para cada um de nós. Porém, definitivamente, em toda a minha vida, nunca precisei ser tão forte quanto agora. É preciso nos ancorarmos na fé e nos nossos valores para vencermos as agruras do momento. É preciso termos altas e boas conversas com nossos próprios valores para não nos deixarmos levar pela correnteza política que se apropria do contexto para conseguir adeptos. É preciso sermos maduros de fato, conscientes de que nada será como antes, mas que tudo pode ser reconstruído de um jeito melhor. 
Estamos todos experimentando o efeito colateral da incerteza. Alguns vão perder os cabelos, outros vão perder o sono, muitos vão perder o emprego, a vida e a Só espero que experimentemos também, as grandes e ricas lições que este momento tem, para cada um de nós!

Leila Rodrigues

Publicado no JC Arcos
Imagem: https://www.abrale.org.br/revista-online/efeito-colateral-quem-sofre-avisa/


Olá pessoal,

Não há como não estar tocado pelo contexto atual. Todos nós, independente da idade, da condição física ou onde vive, estamos, de alguma forma, tocados pela pandemia. 
E por mais que estejamos exaustos de notícias e de informações, é preciso refletir sobre a forma como estamos recebendo esta mudança, que vai muito além de ficarmos em casa. Estamos diante e grandes mudanças. Nada será como antes. Na verdade, nunca foi. O que muda é que, desta vez, as mudanças serão relevantes, surpreendentes e com certeza, afetarão a todos nós. 
Fiquemos bem, de coração abertos e flexíveis para receber o novo que vem por aí.

Grande abraço



Leila Rodrigues

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Queridos lobos


Aqui de fora, do lado que se pode ver, tem uma pessoa lutando como louca para dar conta de todos os seus papéis. Não podemos reclamar de nenhum deles. Todos são  papéis que escolhemos, que assumimos e que não abrimos mão.  O papel de pais, de esposa ou de marido, o papel de filhos, de empresários, de profissionais, sejam estes bem sucedidos ou não, o papel de defender alguma causa social, de participar de uma instituição e ainda o papel de cidadão em um país com as deficiências do nosso. Enfim, ser a pessoa que somos dá um trabalho danado. Mas é um trabalho bom! Trabalho escolhido por livre e espontânea vontade, ainda que seja tão difícil equilibrar tudo. Todos conhecem a pessoa madura e forte na qual nos tornamos.
Mas dentro de cada um de nós,  aqui deste lado que só eu e você conhecemos, ainda falta muito!
Dentro de cada um de nós, escondido e encolhido moram nossos medos, nossas pequenices, nossas falhas. Aquelas que ainda não conseguimos vencer. Nossos desejos proibidos, nossas intenções negras, aqueles pensamentos sórdidos trancados a sete chaves. É lá dentro, lá onde ninguém chega, que residem nossas verdadeiras máculas. E torcemos para que Deus seja tão ocupado que não tenha tempo de conhecê-las. 
A maldade, a vaidade, o ciúme e a inveja. Este lobo mal que alimentamos silenciosamente. Ah como é difícil conviver com essa verdade! Como é difícil aceitar que somos tão frágeis e que o caminho da verdadeira evolução é longo! 
É certo que não somos só isso!  O que nos salva é que, na outra jaula de nossos corações, reside um lobo bom. Capaz de amar e de se compadecer. É ele que não nos deixa por em prática tudo que pensamos. É ele que, entre um dia e outro, acorda nossos sentidos e não nos deixa cometer um desatino. É ele que nos dá prudência, sabedoria, discernimento, razão e afeto na proporção certa. É ele que nos permite viver nossos papéis. É ele que nos silencia na hora da briga e nos dá voz na hora da defesa. É ele que nos mostra o caminho e nos traz de volta à nós mesmos.  Aqui reside a nossa lucidez, a centelha de luz que carregamos. A verdadeira e silenciosa bondade. A que luta contra nossas vaidades e pequenices. E é ele, este pobre lobo bom que carregamos, quem devemos alimentar todos os dias. 
Difícil mesmo é saber qual dos dois tem sido nosso guia. 

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos

Olá pessoal,

o ser humano tem brigado mais que o normal, tem se ofendido mais e tem ferido o outro com mais facilidade. Nesses últimos dias, aqui no nosso amado e idolatrado país, temos assistido brigas homéricas em função da política. Temos visto lobos ferozes, esbravejando, rosnando e mordendo, na tentativa louca de provar que o outro está errado em suas escolhas. Vindos de todos os lados eles atacam e pervertem. Alimentados pelo ódio, pela descrença ou pelo cansaço, eles brigam como se estivessem num ringue, onde o vencedor tem que comer o outro vivo até que não lhe sobre absolutamente nada, tampouco dignidade. 
Existe um lobo bom morrendo e sede e fome, alimente-o!

Grande abraço


Leila Rodrigues

sábado, 27 de janeiro de 2018

Mãe nota 7



Mãe nota 7

Não sou de ter inveja de ninguém. Mas confesso que já tive inveja das mães nota 10. Hoje, depois de muita terapia, aceito em paz a minha nota 7 como mãe e reconheço que a maternidade é um exercício diário, o qual vamos lapidando a cada dia. 
Eu não deixei de trabalhar para cuidar dos meus filhos. Admiro quem o fez mas essa não foi a minha escolha. Divido com eles o tempo entre o trabalho, as viagens a trabalho, meus estudos e os cuidados de qualquer mãe.
Muitas vezes viajei em prantos porque um deles tinha febre. Faltei de algumas reuniões de pais na escola e não estava presente quando meu pequenino, naquela ocasião com 2 aninhos, quebrou o braço. 
Por mais que eu tenha ensinado, meus filhos não gostam muito de legumes, eles também tomam refrigerante e não dispensam uma batata frita por nada nesse mundo.
É, eu não sou uma mãe nota 10! Não consegui convencê-los a gostar das mesmas coisas que eu. Um não gosta de estudar, eu até hoje amo estudar. O gosto musical deles é muito diferente do meu e o lado atleta deles definitivamente não veio de mim. Por um lado me entristeço. Às vezes parece que eu só servi de frete para trazer uma criança ao mundo. Por outro lado me conforta saber que meus filhos têm opinião própria e defendem suas escolhas. 
Confesso que muito raramente vejo as gavetas dos meus filhos e que também não faço aquela comidinha preferida deles todo dia, como a minha mãe fazia para mim. Cozinho para eles com prazer sempre que posso, mas esse “sempre” depende de outros fatores que não cabe mencionar aqui. 
Divido conscientemente a maternidade com o pai deles e isso não me faz uma mãe pior. Às vezes o pai leva ao médico, o pai faz a matrícula e eles (os três) preparam o jantar. É assim a vida de uma família que decidiu viver do jeito que dá para viver. 
Eu os carrego comigo onde quer que eu vá; nas minhas orações, no meu coração e em cada coisa que eu vejo que me remete a um deles quando estou longe de casa. Esse é o meu jeito de viver e sentir o meu amor por eles. 
Eu os criei com a realidade da minha vida. E procuro passar para eles os valores que eu carrego comigo como a grande herança dos meus pais, honestidade, ética e respeito. Nunca cobrei deles uma nota 10 e partindo deste princípio, eu compreendi a minha nota 7, certa de que, a nota 10 é uma construção; um aprendizado do qual nunca estaremos perfeitos de fato.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos
Imagem da internet

Olá pessoal,

Sempre me cobrei muito em tudo que faço. E esta nota 7, a qual me referi no artigo de hoje, realmente foi algo muito difícil para mim. Até poder falar neste assunto com tranquilidade eu me sofri muito e me senti culpada muitas vezes. Tenho certeza de que toda mãe sabe do que eu estou falando. 
Nunca seremos mães perfeitas! Que ótimo! Nossos filhos também não serão filhos perfeitos.
Sigamos pois, do nosso jeito. E certamente encontraremos uma forma de sermos felizes em meio às nossas imperfeições.

Deixo aqui um abraço para todas as mães que, como eu, lutam para ter uma boa nota, mesmo sabendo que a nota não é o mais importante nisso tudo!

Grande abraço

Leila Rodrigues

sábado, 1 de abril de 2017

Cadê o trem?



O que acontece quando o trem não chega? A mala cheia do seu lado, alguém esperando do lado de lá, compromissos por cumprir e uma sensação estranha de impotência. É assim que nos sentimos quando o trem não passa. O trem, o carro, o ônibus, o avião. 
Naquele dia eu fui dormir com algumas certezas e novas dúvidas. A certeza de que, quando alguma coisa tem que dar certo, ela vai dar certo, independente das adversidades. Existe sim uma conspiração cósmica que torna alguns dos nossos dias mais emocionantes que outros. São dias de atropelo, de adrenalina, de frio na barriga e de alegria no final. São dias para ficar na nossa história. 
E foi assim aquele meu domingo. Tudo planejado e organizado para acontecer na hora certa e do jeito certo. Mas quis o destino ou o acaso, eu não pretendo discutir qual dos dois aqui, que tudo fosse diferente. 
E para que tudo ficasse ainda mais encantador, mais emocionante, eu conheci outras pessoas que, naquele momento estavam tão impotentes quanto eu. De um lado o tempo, o ócio, o nada. Do outro, cada um de nós e a mesma condição de impotência. Cada um poderia ter se isolado no seu celular e esperado o tempo passar. Porém, sem que ninguém dissesse nada, nos propusemos a fazer daquelas horas de impotência as melhores possíveis. Vivenciamos a melhor rede social não digital, a boa e velha conversa. Olho no olho, riso com riso, pele com pele. Afinidades, opiniões e a certeza de que o mundo é pequeno. Naquele dia eu fui dormir com muitas dúvidas sobre tecnologia e evolução da espécie humana. 
Mas para o meu dia, que a esta altura já era noite, fechar com chave de ouro, faltava eu abraçar aquela pessoa querida que me esperava do lado de lá. Faltava eu matar 40 anos de saudade. Faltava eu descobrir que o mesmo tempo que leva a nossa juventude é o que preserva o frescor dos sentimentos. E ela continua linda, continua maior que eu, continua parecida com a nossa avó. O tempo foi muito curto para tantos anos de distância. Volto com a certeza de que não nos perderemos mais e que estamos preservadas no coração uma da outra. 
Naquele dia eu voltei para casa com a sensação de dever cumprido. Naquele dia eu fiz novos velhos amigos. Naquele dia eu aprendi que eu não posso fazer nada para o trem chegar, mas eu decido o que fazer com o tempo da impotência que o trem me causar. 
Naquele dia eu dormi feito criança que foi ao parque. 

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem da Internet - Estaçãoo Ferroviária de Divinópolis


Olá pessoal,

Tem dias que o trem não passa. Tem dias que o príncipe não vem.Tem dias que sobramos  com poucas ou nenhumas opções.  Naquele dia eu tinha um encontro marcado com uma prima muito querida que eu não via há muitos anos. E justo naquele dia, o meu trem não passou. Aconteceu comigo e pode acontecer com qualquer um de nós. Mas nós podemos escolher o que fazer com os momentos de impotência. Escolha o melhor, escolha ser feliz. E se quiser contar aqui nos comentários as suas escolhas em algum dia que o trem não veio, será um prazer.

Grande abraço



Leila Rodrigues

domingo, 28 de julho de 2013

E ela nem fez curso superior




O chão da casa tinha tábuas largas, algumas soltas que balançavam ao pisar. E eu, toda vez que atravessava do quarto para o banheiro frio, me sentia pisando em um passado que eu jamais saberia explicar. Ainda assim eu gostava de ficar naquela casa. Só quem viveu na casa da avó consegue entender isso.

A minha avó usava umas palavras diferentes, que só ela sabia dizer. Locomovia-se com dificuldade, parecia sentir dor, mas conseguia sorrir mesmo assim, sempre feliz e agradecida por estar entre nós. A casa era grande, cheia de ecos, tinha cheiro de jasmim e fotos na parede. A minha vó gostava de reunir todos e contar casos. Sempre reais, por mais absurdos que fossem.

Toda vez que alguém começa dizendo "na minha época", temos a sensação de um passado tão distante que visualizamos uma foto em preto e branco, amarelada pelo tempo, sem valor algum para os dias de hoje. A minha vó gostava de fotos e achava incrível ver-se no papel. Porém naquele dia ela não começou assim, talvez por isso tenha sido tão especial.

- Toda vez que vejo vocês, meus netos, eu enxergo um futuro brilhante para todos. Filhos, carreira, realização, felicidade. Um futuro que eu, com toda certeza não participarei. Mas não participar não me entristece. Participei até aqui e de amanhã para frente pode ser que eu vire apenas uma imagem no papel. E quando eu me transformar em imagem no papel, ou em apenas um segundo de nostalgia no coração de vocês, me visitem de vez em quando. Faça-me uma visita breve, alguns segundos apenas. Visitem-me para reforçar seus valores, para fortalecerem seus princípios ou para simplesmente enxergarem o passado com o olhar do presente.  E logo em seguida me deixem e sigam as suas vidas, porque é no presente que construímos o nosso futuro. Corram e mudem o que ainda puder ser mudado.

Ela mal terminou e foi se levantando da cadeira. Pediu a minha ajuda para se reerguer e trêmula caminhou sozinha até o quarto. Olhei para o meu irmão que cochilava na cadeira e pensei na aula que ele acabara de perder. Minha irmã chorava em silêncio na cadeira ao lado. Só se ouvia o relógio de parede que, de tão antigo já era um membro da família. Não sei precisar quanto tempo fiquei ali parado, vendo sumir aquela pequenina que nunca fez curso superior. Suas palavras me acompanham desde então.
Vovó faleceu cinco dias depois daquela noite, mas eu a visito até hoje. 



Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 09/07/2013
Imagem da Internet