Olá pessoal,
Este texto escrevi há alguns dias para o
meu amigo Manuel Montijo do blog http://navoltadotempo.blogspot.com.br/
. Manuel é daquelas pessoas que parece que eu já conheço há anos. Um velho
amigo como dizemos por aqui.
A todos os velhos amigos que a distância
não nos permite abraçar, mas que as afinidades nos mantêm unidos, dedico este
texto, O relógio.
Abraços a todos
Boa leitura!
Leila
Rodrigues
O relógio
Até que veio me
visitar o Manuel. Sim aquele meu velho amigo de Portugal, escritor dos bons,
com quem gosto de tirar uns dedos de prosa. Contou-me o Manuel que estava
triste naquele dia, pois procurava respostas para algumas perguntas difíceis de
responder.
Então lhe
contei esta história. Fato verídico meu caro amigo. Acontecido comigo mesmo,
este seu amigo de muitos anos. Contar-lhe-ei apenas para que você não procure
mais respostas, pois que estas chegam por si.
Certa vez,
ganhei um relógio. Quando abri a caixa e vi que o presente era um relógio,
fiquei alguns minutos parado, observando, sem saber o que dizer.
- O relógio é
lindo! Uma peça de colecionador. Obrigado.
Explico a minha
reação. Eu nunca usei um relógio na vida. Ou melhor, usei sim, dois dias quando
eu estava no colégio e comecei a chegar tarde demais para o almoço. A minha mãe
me deu o relógio, aquele até então único que eu havia usado. O objetivo era que
eu não me demorasse mais para o almoço. Mal sabia a minha mãe que eu saia correndo
da escola para encontrar com a Eliza, filha da Diretora da escola que estudava
na escola particular a duas quadras da minha escola... Coisa de adolescente.
Depois teve a
fase do banco que tínhamos hora marcada para chegar, mas nunca para sair. Todo
bancário é escravo de relógio, mas eu me habituei tanto a me guiar pelo
movimento dos meus amigos dentro do banco, que nem assim eu tomei gosto pela
peça.
Depois vieram o
celular, o relógio no computador e cada dia mais o relógio de pulso foi se
tornando desnecessário. Pelo menos para mim.
Mas eu acabara
de ganhar um relógio da minha filha que chegou de Londres. Um relógio lindo,
uma peça rara. E agora?
Não usá-lo
desagradaria e muito a minha filha; usá-lo desagrada minha doce mania de não
gostar de relógio. O que fazer?
Coloquei o
relógio no meu criado mudo para incentivar uma discussão comigo sobre o uso ou
não do dito cujo. Toda noite eu olhava
para ele e pensava, amanhã eu usarei. O amanhã chegava e nada de eu criar
coragem e colocar o relógio no pulso. O problema é que eu nem sequer tentava.
Imaginava que ele seria pesado, que ia me incomodar, que eu ficaria suado
debaixo dele e isto poderia ser muito desconfortável, enfim, não me faltaram
fundamentos para o não uso da peça.
Enquanto eu não
me decidia, fui para a minha janela observar o movimento da cidade, como o faço
todas as tardes. Lá embaixo, um jovem sem os dois braços atravessa a rua. Observei em silêncio. Em silêncio entrei em
casa e ainda em silêncio coloquei o relógio. Está no meu pulso até hoje e a minha
filha ficou feliz que só.
Leila Rodrigues
Foto retirada da
internet do relógio que pertenceu ao guitarrista Eric Clapton, leiloado em
novembro de 2012


