segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Idas e vindas



Largou. Os estudos, o namorado, o curso de inglês e o anel de formatura já comprado pelos pais na gaveta do criado.
Sonhou. Que seria fácil, que seria lindo. E que ela poderia controlar o mundo.
Mudou. Os cabelos, o jeito de andar, a cor do batom, as intenções, as pretensões e as canções do Ipod que comprou no camelô.
Aumentou. Os peitos, o salto, os cabelos, o decote, o rímel, o tamanho dos óculos escuros e o tamanho das unhas que agora eram de veludo.
Subiu. O morro da piteira, a barra da saia, a fé em si mesma, a febre dos meninos e a lista de coisas indispensáveis na sua bolsa.
Criou. Expectativa neles. Inveja nelas. Desejo em uns, desprezo em outras. Indiferença em todos e tristeza nos pais.
Comprou. O que tinha, o que não tinha, o que sempre quis ter, o nunca pensou em ter... E ainda comprou briga, comprou confusão e comprou sem pagar. 
Vendeu. O corpo, os segredos do morro, os segredos do mundo. E ainda vendeu cosmético, bolsa, chapéu, sanduíche, churro e bala de hortelã.
Cedeu: A alma para o capeta e o corpo para quem pudesse pagar. E a moeda de troca era a que melhor pudesse sustentar seus caprichos.
Provou. De tudo, de todos, do líquido, gasoso e do solidificado. Provou ainda da felicidade em tragos, tão curta quanto a fumaça do cachimbo.
Subiu mais um pouco. No palco, no ibope, no conceito deles todos, no salto fino, no pau de selfie e na produção.
Fingiu. Fingiu que gostou, fingiu que cresceu, fingiu que era sem nunca ter sido. E provou o perigo de pisar num chão sem raízes.
Ganhou. Bilhões de acessos, milhões de flashes, centenas de seguidores, dezenas de interessados, cinco minutos de fama e nenhum amigo.
Provou de novo. O gosto da ressaca, a fome do dia seguinte, o fim dos efeitos, o apagão dos holofotes e o gosto amargo da verdade.
Caiu. No conceito. Caiu do salto. Caiu na vida. Caiu do castelo. Caiu a autoestima. Caiu a ficha. Caiu do morro como se fosse um saco de lixo que precisa ser descartado.
Passou. Por todos os becos, por todas as ruas, por todas as vergonhas e pela vontade de voltar.
Reencontrou. O caminho de casa, os pais vendo TV no mesmo sofá e o pijama de bolinha guardado na gaveta.
Tomou um banho, tomou um café, tomou de volta o colo da mãe, tomou o sono de filha. Adormeceu...
Sonhou que amanhã teria aula de inglês.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

Imagem da Internet

2 comentários:

  1. Colo de mãe é tudo nessa hora.
    beijogrande

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  2. Pois é. Bela criação desta personagem que desatinou.
    E são tantas, que vivem deste ouro de tolo minha amiga e nem sempre tem um colo de mãe para recostar.
    Um olhar para a vizinhança linda construção do sensível.
    Abraços e bju paz amiga.

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