segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Escolha Singular





Mesmo que não saísse nada, todo dia ela ia para a escrivaninha com o propósito de fazer algo útil. Papéis, livros, fotos e seu computador surrado conviviam bem com aquilo que ela chamava de "desordem natural". E ela parecia se encaixar perfeitamente naquela bagunça sem ter que desviar um lápis qualquer do lugar, ou melhor, fora do lugar.
Que nada! Era apenas a sua aptidão normal pela bagunça. Não sabia explicar porque, mas se sentia plenamente confortável no seu quarto em desalinho. Na sua cabeça esse desleixo era um convite "fique à vontade aqui"! Fora do quarto, o mundo era um quartel-geral. Tudo com hora marcada, lugares marcados, uniformes bem passados, cabelos chapados, maquiagem impecável, que chato!
Para contracenar com a ordem de tudo, usava a desordem do quarto. Eis o equilíbrio! E era neste quarto tão peculiar que ela procurava "organizar" a sua cabeça.  
Naquela madrugada de outubro, ela ouvia os barulhos da cidade. Idas e vindas de uma gente ligada, buscas e encontros. Não teve vontade de sair, não quis se juntar aos demais. Seu quarto era pequeno, mas grande o bastante para caber-se nele. Questão de identidade.
Jogou paciência no computador até perder a paciência. Trafegou sem rumo na rede social até perceber que de social ali não tinha nada. Um monte de pessoas lavando suas roupas indiretamente em público. Recados torcidos que não lhe faziam sentido algum. Uma guerra de opiniões sem propósito dividia as pessoas em grupos e esses grupos em inimigos. Pessoas procuravam desesperadamente um par que resolvessem seus problemas. Afetivos e definitivos. Definitivamente não conseguia se encaixar em nenhum desses perfis.
Ela procurava entender onde estava seu problema, afinal, aquela telinha era o destino de 99% dos solitários de sábado à noite! Mas, fazer o quê se não lhe cabia?
Abraços virtuais não matariam a sua sede. Ela queria mais para si do que 20 minutos de falsos elogios. Na rede todos são perfeitos  e ideais. E ela gostava demais da sua imperfeição para permitir-se a isso. Amar um avatar não resolveria seus problemas.
Restava mesmo seu quarto. Seu quarto, seus pertences, seus segredos. Dentre todas as escolhas, optou por si. Pelo que tinha de mais concreto e verdadeiro à sua volta. Uma escolha singular e consciente. Abraçada à sua cadela Nina ela se atirou no chão e foi  brincar. Aquela noite as duas passaram ali mesmo.


Leila Rodrigues
Imagem da Internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 04/11/2014




Caro leitor,

Por força das circunstâncias fiquei impossibilitada de postar.  Mas os textos já estão de volta e continuam semanalmente no Jornal Agora Divinópolis, toda terça-feira e agora também no Jornal da Cidade – Arcos MG aos sábados. Pelo mesmo motivo não tenho visitado os blogs dos amigos e confesso que sinto muita falta, afinal, quem escreve se alimenta da leitura. Mas já já tudo volta ao normal.
Agradeço de coração àqueles que continuaram visitando o “Palavras” mesmo sem novos posts. Muito obrigada! Vocês mantiveram o blog com o mesmo número de visitantes!
Que a leitura nos melhore, nos contribua e nos represente!!!
Abraços em todos!

Leila Rodrigues


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Vento de outono



Madalena, minha irmã mais velha, me disse que isso é princípio de toc. Antônio de Castro, aquele senhor que mora no apartamento de cima, me viu fechando as janelas e disse que isso é idade. Nem sei por que ele disse isso, ele nem sabe a minha idade. Mas tudo bem, ouvi calada e respondi fechando a janela. E Pedro, meu sobrinho de nove anos,  deu-me um xeque mate:  “Tia, por que o vento te incomoda tanto?” Eu fingi que não ouvi , mas a verdade  é que eu não soube responder.
Com o tempo a gente acumula incômodos, a verdade é bem essa!  Eu já tive uma moto. Era vermelha, DT180. E gostava de sair engolindo o vento pela estrada. De Arcos a Pains pela estrada de chão, tinha um cenário de pedras maravilhoso. E todo sábado eu fazia aquele percurso de moto. Comia o vento feliz! E agora fiquei assim, ranzinza com o vento. Coitado! Tem culpa de nada não! Eu é que criei este ranço. Não uso mais decote, nunca mais subi em moto e culpo o vento pela minha dureza. Dou a desculpa que decote esfria as costas e faz gripar. E que moto mata. Mas eu nem morri!
Em que curva do tempo eu mudei tanto assim? Será que foi quando eu perdi Francisco. Ventava muito naquele dia, mas não foi o vento que o levou. Ou quem sabe tenha sido quando eu me mudei para Viçosa? Quando eu aprendi que a minha mãe não seria eterna. Talvez não tenha um dia certo, mas as doses diárias de labuta, essas sim, me endureceram aos poucos.
Então nesta manhã eu vi as árvores ofegantes, se contorcendo com o vento e amarelando o chão de flores. Fiquei com inveja e abri a janela. Abri aos pouquinhos, com medo de gripar. Que ninguém tenha me visto naquela hora. Mas o fato é que abri e deixei o vento entrar.  O vento trouxe o som da rua e encheu meu silencio de ar. Sai de casa mais cedo, deixei o vento me tocar. Vento bagunça cabelo. Deixei o meu bagunçar. Vento esfria o café. Deixei o meu esfriar. Hoje eu vou deixar o vento fazer anarquia, vou pisar nas folhas caídas, vou sentir minha saia voar. Quem sabe amanhã eu volto para arrumar?

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 23/09/2014
Imagem da Internet

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Amarelado




Eu sempre deixava o meu carro no estacionamento da Av. Brasil e caminhava a pé duas ou três quadras até chegar ao meu trabalho. As árvores davam um aconchego, uma sombra gostosa e uma ilusão de que eu estava rodeado de bons ares. E quando chegava o outono eu tinha pena de pisar nas folhas secas. Eu achava injusto pisar naquelas mesmas folhas que me agraciaram quando jovens. Nunca contei isso para ninguém, mas muito provavelmente alguém deve ter visto um maluco se desviando das folhas em plena Rua Coronel Bartolomeu. De todas as loucuras que eu cometi na vida, e olha que eu cometi muitas, esta era a mais consciente e que me dava mais prazer. E quando vinha o lixeiro e levava todas as folhas eu me despedia delas e agradecia pelos dias de frescor.
Naquele outono a minha tristeza era tamanha que eu sequei junto com as folhas. Não me sobrara quase nada a não ser o Juvêncio meu vira-lata muito amado e minha casa. Francesca se fora e Cazuza também. Francesca foi viver outros amores, Cazuza foi cantar no céu. E eu andava cabisbaixo pelas ruas secas da cidade. Faltava-me um rumo, mais que isso, uma razão. O ser humano precisa de razões, nem que seja para perdê-las e eu não tinha nenhuma.
Ainda sem razão eu peguei a estrada. Era sábado, ventava um pouco e não foi difícil reconhecer que tudo ao meu redor era seco. Cheguei a pensar que o mundo estava compadecido das minhas tristezas. Imaginei a chuva, a primavera e as folhas de volta. Assim que eu fiz a curva da baixada, aquela onde eu e o Beto sempre parávamos para um cigarro e uma prosa, ele apareceu na minha frente. Gigante, resplandecente como o sol do Egito! Era o primeiro ipê da temporada. Levei um susto e freei na hora. Encostei o carro e fiz questão de sentar bem debaixo daquela copa dourada. Não sei precisar quanto tempo fiquei ali parado, contemplando o colorido do momento. O ipê parecia afrontar a minha alma cinza com tanta cor. Em volta tudo estava seco, eu inclusive. E ele insistia em resplandecer sereno. Tive vontade de engolir suas flores, uma por uma. Quem sabe eu devolveria um pouco de cor à minha alma? Quem sabe assim "colorido", Francesca me amaria de novo? Que nada! A esta altura, Francesca e Cazuza eram folhas secas que seguiam novas missões. 
Tem gente que diz que amarelo é cor de desespero. Eu não penso assim. Desde aquele ano, todo mês de agosto eu me renovo com o colorido dos ipês. E toda vez que eu fico "seco" eu ouço Cazuza e visto a minha camisa amarela.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 16/09/2014
Imagem cedida pela amiga Sandra Soraggi (uma querida que assim como eu, adora ipês)

domingo, 14 de setembro de 2014

Para a posteridade





Lençóis que esperam 30 anos na gaveta para serem usados! Uma caixa de charutos de quando o filho nasceu e esse filho já passou dos 30. Um canivete alemão que só saiu da caixa para ser mostrado aos amigos. Qual o nome disso? Qual o propósito de se guardar alguma coisa por 30 anos sem uso? Deve haver algum, mas geralmente quem guarda diz que é para a posteridade.
Mas afinal, quando é a posteridade? Amanhã? Daqui a 20 anos? Cinco anos talvez? Não tenho a menor ideia e por isso mesmo tenho dificuldade com o tema. Não tenho nada, absolutamente nada aguardando a hora de ser usado. Minto, tenho sim. Tenho um casaco de frio que comprei em Buenos Aires aguardando outro inverno bravo ou uma viagem para ser usado novamente. Só! Mais nada! E não consigo compreender pessoas que guardam roupas, sapatos, joias e demais objetos para um dia que nem elas sabem qual será!
Mulheres que guardam lingeries durante anos para serem usadas quando o príncipe chegar, ou quando o marido sapo virar príncipe! Minha filha tome tento, os príncipes não existem mais! Nestes anos de espera, quantas farras boas você perdeu com o sapo que também poderia ter sido um excelente companheiro! E se não tiver companheiro, use a lingerie para você. Ou será que você não merece?
Na outra ponta dessa mania estão os compradores e acumuladores compulsivos. Um vício que cresce silencioso a cada dia. E já ganharam até programa na TV! Quanto desperdício! Quanto prejuízo! Segundo os terapeutas é a compra desmedida para suprir alguma coisa que não tem preço, que não se vende em loja alguma. Por que comprou se não tem serventia? Apenas para acumular? Para falar que tem?
Se não gostou, devolva. Se não serviu, troque. Se não tem troca, doe, venda, distribua. Enfim, faça alguma coisa! Use, ponha em prática! Objetos parados à espera de vida têm uma energia péssima!
Tenho uma amiga que encontrou um jeito ótimo de resolver o acúmulo. A cada peça de roupa ou sapato que compra, um sapato ou uma peça usada é doada. Pronto! Não precisa aumentar o closet nem usar o armário do marido. Achei a ideia ótima e estou em fase de implantação.
Deixo para a posteridade minhas histórias, minhas memórias e alguns discos de vinil que ainda não encontrei quem queira. Se a prosperidade é amanhã ou depois eu continuo sem saber. Mas sabemos que desta vida não vamos levar nada, então, melhor diminuir as bagagens desde já, que quanto mais leve a mala, mais longe conseguimos chegar!

Leila Rodrigues

Imagem: Leila Rodrigues e Juliano Costa à moda antiga em viagem à Serra Gaucha (Rio Grande do Sul).

Olá pessoal,

hoje resolvi repostar este texto. Outono está aí e sempre me remete à alguma coisa muito boa. Não sei explicar. Que o outono nos renove!

Grande abraço



Leila Rodrigues

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O Primeiro de todos






 


 "Que o livro nos provoque o silêncio, a reflexão, o pensamento. Atitudes raras nestes tempos de pressa." Foi esse o recado que Adélia Prado nos deu na abertura da FLID - Festa Literária de Divinópolis nesta sexta-feira. Um recado tão simples e tão igualmente rico, como tudo que vem da autora. É tão natural e espontâneo o que ela fala que é impossível não se contagiar com a sua verdade.
E verdade é o único requisito que se exige do autor. Que seja louco, que seja filosófico, que seja poético, lírico ou esquerdista, mas que sobretudo seja verdadeiro. Essa foi a premissa que Adélia Prado deixou para os novos autores que atentamente ouviram suas palavras. Precisa mais? Talvez precise sim, mais coragem para escolhermos nossas verdades em detrimento do sucesso. Mas essa é uma reflexão que cada um vai fazer por si.
Voltamos para as nossas vidas, nossas casas, nosso mundinho comum, carregados dessa verdade de Adélia. Carregados dos nossos autores, todos tão abertos, tão dispostos a nos mostrar que eles são exatamente eles e que seus livros são como filhos queridos doados ao mundo. Foi assim que aconteceu a nossa primeira FLID. E teve Oswaldo André, Juvenal Bernardes e Vânia Ordones, Fábio Sombra e João Marcos, Denise Coimbra e Junia Paixão, Marlene Gandra, Celly Borges dentre outros. Como foi bom conhecê-los e descobrir que nossos "heróis" são pessoas comuns que trabalham, que tem filhos, que acordam cedo como todos nós.
Teve também “Meninas de Sinhá”, lindas, maravilhosas, mulheres de verdade, mulheres de dias comuns que resolveram trocar a sacolinha de remédios por um grito de vida. E decidiram cantar! E esse ecoou longe e levou as meninas para a rua. E hoje elas cantam, dançam e encantam por onde passam. Exalam frescor. Não o frescor dos dezessete anos que ficaram para traz, mas o frescor de quem não se acovarda da vida e vai até onde a vida existir. Com elas eu cantei, dancei e rejuvenesci. Rejuvenesci em mim a minha vontade de continuar.
Foi com esse jeito mineirinho de ser que começamos um legado. Autores, histórias, cantações e contações. A cultura de nossa cidade viva e latente. Ainda temos mais, mais autores, mais histórias, mais apresentações. Que certamente virão por aí no tempo certo. Muito mais importante que o que aconteceu neste fim de semana deve ser a continuidade deste trabalho nas escolas com nossas crianças, em casa, a cada iniciativa nossa de incentivar uma pessoa a ler.


Leila Rodrigues

Não foi possível mencionar no texto todos os autores que passaram pela FLID porque foram muitos. A todos vocês, autores, renomados e iniciantes o meu respeito e a minha admiração.


Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 02/09/2014
Imagem do grupo Meninas de Sinhá retirada da internet