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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Uma declaração silenciosa de amor

É mania pura, mas ela só conseguia ir para a cama, depois de se certificar de que todos os filhos estavam, pelo menos, em seus quartos e de pijama. Ainda checava o gás, as janelas, a porta da geladeira e aí sim, ia para a cama. Sim, só para a cama, porque dormir para ela era muito difícil. Significava desligar e isso ela tinha muita dificuldade. Acho que tinha medo de desligar e depois não ligar mais, igual a máquina de lavar. Deve ser isso!
Já era tarde. A cidade dormia, todos dormiam. Inclusive ele (o marido) ali bem do seu lado. Dormia sossegadamente. Ela ouve o seu ronco que a acompanha há tantos anos. São tantos anos que já virou um soneto aos seus ouvidos. Olha para ele dormindo. Observa seu perfil, seus contornos. E no silêncio absoluto daquele quarto, sem que se tenha planejado dizer, palavras lhe surgem da alma:
- Eu continuo amando você! Sim, eu o amo. Você e todo o pacote. Amo o homem que conheci um dia e tudo mais que você adquiriu ou transformou ao longo desses anos. Amo as suas conquistas, suas evoluções e melhorias em tantos aspectos. Em contrapartida continuo odiando na mesma proporção os seus defeitos. Odeio tanto que acho que já virou amor.
 - Amo a sua diferença de mim, por mais que seja difícil conviver com ela. Amo as nossas "coisinhas" comuns, aquelas que guardamos só para nós dois. São palavras, gestos, jeitos, formas, enfim, atitudes tão nossas, tão únicas de nós dois que descrevê-las não justifica, uma vez que o mundo não as compreenderia como nós. Essas são as verdadeiras alianças da nossa união.
 - Assim dormindo você está tão diferente. Tranquilo! Sabe que eu continuo te achando bonito? Mesmo com menos cabelo, com mais barriga, com menos ou com mais qualquer coisa...
 - Eu poderia  te dizer tudo isso à luz do dia, olho no olho. Eu sei. Mas desta vez eu estou falando é para mim mesma. Digamos que, desta vez, eu quis dizer primeiro para mim, para então, depois, executar para você. Executar o meu amor por você, no dia a dia de nós dois.
 - Você continua aí dormindo. Morro de inveja desse seu sono! Penso se te acordo ou não? Penso em te acordar com meus beijos. Em passear as minhas mãos por você. Imagino uma sessão avassaladora do mais puro sexo, depois umas colheradas de creme de avelã, nossas risadas de sempre e dormir.  Imagino... Imagino... Imagino... Sinto que vou te dar trabalho!
... Olha o despertador e lembra que amanhã é quarta-feira. Decide então deixá-lo dormir. Se enrosca nele e dorme também.

Leila Rodrigues