Queridos amigos,
Gostaria de agradecer a todos
pelas manifestações carinhosas no poema “O
começo do fim”, porém, não se trata da minha realidade. Fiz questão de repassar
todas as mensagens para a pessoa que me inspirou o poema e ela manda agradecer
a todos.
Hoje resolvi compartilhar com
vocês um dos primeiros contos que eu escrevi e que já faz um bom tempo. Espero que gostem.
Abraços a todos
Leila Rodrigues
Ela tinha uma brasilidade nata. Morena, de cabelos escuros, olhos
grandes e espertos, além de uma boca rasgada que ostentava um sorriso
verdadeiro, nada tímido. Gostava da vida e a vida gostava dela, naturalmente.
Aquela moça nasceu e cresceu aqui, nesta cidade. Por aqui conhecia todos
e todos a conheciam. Filha do Sr. Jorge do armazém, pessoa respeitadíssima na
cidade, apesar da sua sisudez habitual. Sr. Jorge não era dado a sorrisos, ao
contrário da filha que estampava um sorriso brejeiro e convidativo.
Ela sempre ajudou o pai no estabelecimento, desde mocinha. Limpava, atendia
o balcão e ajudava fechar o caixa. Rápida e sagaz, ela tinha sempre uma segunda
opção caso faltasse a mercadoria solicitada pelo cliente.
A melhor hora do dia era a hora da limpeza. Ela varria, jogava água,
regava as plantas, mudava as coisas de lugar, enfim, passava deixando seu
rastro em tudo que tocava. O trânsito nas mediações do armazém chegava a
engarrafar, todos os rapazes passavam por ali para assistir àquele espetáculo. Uma
função tão corriqueira e ao mesmo tempo tão sensual. A calçada sorria para as
vassouradas dela. Ela era vitalidade pura. Limpava sorrindo, cantando,
cumprimentando a todos que passavam. Seus brincos grandes, a cintura fina, os
cabelos presos num rabo alto, lhe conferiam uma beleza singular. Sua disposição
mostrava que após a faxina ela continuaria disposta a uma noite inteira de
exercícios. Na mente dos rapazes, todos os exercícios possíveis e imagináveis
de serem feitos a dois e na horizontal.
Filha única, de pais mais velhos, desistiu de ir para a cidade grande
estudar para fazer companhia aos dois. Sentia falta de ter uma profissão
interessante mas jamais lamuriava a sua escolha. Sabia que era amada por
aqueles dois e que a sua paixão pela vida a recompensaria de alguma forma.
Deixava se apaixonar instantaneamente por um ou outro, mas nunca
entregou seu coração completamente a nenhum deles. Apesar de entregar outras partes
não menos interessantes. Ela arrancava dos rapazes um fervor
inexplicável. Quando resolvida a desaguar seus desejos, ela escolhia o que
mais quente lhe parecia. Tudo acontecia muito rapidamente, deixando nos pobres
moços um desejo incontrolável de ser escolhido novamente.
Eram os dias mais felizes da vida simples daqueles moços. Felizes e
tristes, porque nunca duravam. A cada encontro um início e um fim para que
nenhum dos dois se sentisse na obrigação de continuar. Por mais que eles
tentassem, ela não levava adiante. Deles, ela só queria mesmo aquele tempo de
fogo queimando a pele, mais nada. O resto ela queria da vida.
Entre tantos pretendentes, um dia ela se encantou por um. Não porque era
o mais bonito, o mais viril ou o mais rico. Na verdade ele não era nada demais.
Era apenas um rapaz da cidade grande. E rapazes da cidade grande, significavam
grandes possibilidades. Faltava um coração acelerado, fogo na pele, frio no
estômago. Mas decidiu não dar ouvidos aos sussurros da alma e investir no caso.
Ele, uma pessoa que sempre viveu na cidade grande, entre milhares de
outros garotos tentando encontrar o caminho de ser macho. Foi para o interior
em busca de um mundo melhor. Mentira. Foi porque mandaram e nem queria ir. Fora
apenas pela promoção do trabalho. Seu sonho era voltar para a cidade grande e
se pudesse ser com uma mulher a tiracolo melhor ainda. Enxergou nela um
verdadeiro troféu. Sabia que era vitalidade demais para ele, mas não podia
perder a chance de voltar com aquele monumento, genuinamente brasileiro, como
sua esposa.
Casaram-se e mudaram. Para tristeza do Sr. Jorge e da maioria dos
rapazes da cidade, lá foi ela naquele carrão importado, ao lado daquele ser
desbotado e sem graça, com cara de intelectual.
Limpou as gavetas do criado mudo e da alma, jogou tudo num
saquinho de linho bordado o seu nome e foi-se. Na mala, entre camisolas de
renda e forros de crochê, levava também a esperança de viver todos os sonhos
guardados até então.
Para trás, Sr. Jorge e o armazém para sempre empoeirado, um sorriso
desaparecido atrás do balcão e a saudade nos moços da cidade que perderam para
sempre o sorriso largo, o olhar esperto e os beijos quentes da sua doce cinderela.
Leila Rodrigues
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