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terça-feira, 3 de julho de 2012

Cinderela mineira




Queridos amigos,

Gostaria de agradecer a todos pelas manifestações carinhosas no poema  “O começo do fim”, porém, não se trata da minha realidade. Fiz questão de repassar todas as mensagens para a pessoa que me inspirou o poema e ela manda agradecer a todos.
Hoje resolvi compartilhar com vocês um dos primeiros contos que eu escrevi e que já faz um bom tempo. Espero que gostem.
Abraços a todos

Leila Rodrigues


Ela tinha uma brasilidade nata. Morena, de cabelos escuros, olhos grandes e espertos, além de uma boca rasgada que ostentava um sorriso verdadeiro, nada tímido. Gostava da vida e a vida gostava dela, naturalmente.
Aquela moça nasceu e cresceu aqui, nesta cidade. Por aqui conhecia todos e todos a conheciam. Filha do Sr. Jorge do armazém, pessoa respeitadíssima na cidade, apesar da sua sisudez habitual. Sr. Jorge não era dado a sorrisos, ao contrário da filha que estampava um sorriso brejeiro e convidativo. 
Ela sempre ajudou o pai no estabelecimento, desde mocinha. Limpava, atendia o balcão e ajudava fechar o caixa. Rápida e sagaz, ela tinha sempre uma segunda opção caso faltasse a mercadoria solicitada pelo cliente. 
A melhor hora do dia era a hora da limpeza. Ela varria, jogava água, regava as plantas, mudava as coisas de lugar, enfim, passava deixando seu rastro em tudo que tocava. O trânsito nas mediações do armazém chegava a engarrafar, todos os rapazes passavam por ali para assistir àquele espetáculo. Uma função tão corriqueira e ao mesmo tempo tão sensual. A calçada sorria para as vassouradas dela. Ela era vitalidade pura. Limpava sorrindo, cantando, cumprimentando a todos que passavam. Seus brincos grandes, a cintura fina, os cabelos presos num rabo alto, lhe conferiam uma beleza singular. Sua disposição mostrava que após a faxina ela continuaria disposta a uma noite inteira de exercícios. Na mente dos rapazes, todos os exercícios possíveis e imagináveis de serem feitos a dois e na horizontal.
Filha única, de pais mais velhos, desistiu de ir para a cidade grande estudar para fazer companhia aos dois. Sentia falta de ter uma profissão interessante mas jamais lamuriava a sua escolha. Sabia que era amada por aqueles dois e que a sua paixão pela vida a recompensaria de alguma forma.
Deixava se apaixonar instantaneamente por um ou outro, mas nunca entregou seu coração completamente a nenhum deles. Apesar de entregar outras partes não menos interessantes. Ela arrancava dos rapazes um fervor inexplicável. Quando resolvida a desaguar seus desejos, ela escolhia o que mais quente lhe parecia. Tudo acontecia muito rapidamente, deixando nos pobres moços um desejo incontrolável de ser escolhido novamente.
Eram os dias mais felizes da vida simples daqueles moços. Felizes e tristes, porque nunca duravam. A cada encontro um início e um fim para que nenhum dos dois se sentisse na obrigação de continuar. Por mais que eles tentassem, ela não levava adiante. Deles, ela só queria mesmo aquele tempo de fogo queimando a pele, mais nada. O resto ela queria da vida.
Entre tantos pretendentes, um dia ela se encantou por um. Não porque era o mais bonito, o mais viril ou o mais rico. Na verdade ele não era nada demais. Era apenas um rapaz da cidade grande. E rapazes da cidade grande, significavam grandes possibilidades. Faltava um coração acelerado, fogo na pele, frio no estômago. Mas decidiu não dar ouvidos aos sussurros da alma e investir no caso.
Ele, uma pessoa que sempre viveu na cidade grande, entre milhares de outros garotos tentando encontrar o caminho de ser macho. Foi para o interior em busca de um mundo melhor. Mentira. Foi porque mandaram e nem queria ir. Fora apenas pela promoção do trabalho. Seu sonho era voltar para a cidade grande e se pudesse ser com uma mulher a tiracolo melhor ainda. Enxergou nela um verdadeiro troféu. Sabia que era vitalidade demais para ele, mas não podia perder a chance de voltar com aquele monumento, genuinamente brasileiro, como sua esposa.
Casaram-se e mudaram. Para tristeza do Sr. Jorge e da maioria dos rapazes da cidade, lá foi ela naquele carrão importado, ao lado daquele ser desbotado e sem graça, com cara de intelectual. 
 Limpou as gavetas do criado mudo e da alma, jogou tudo num saquinho de linho bordado o seu nome e foi-se. Na mala, entre camisolas de renda e forros de crochê, levava também a esperança de viver todos os sonhos guardados até então.
Para trás, Sr. Jorge e o armazém para sempre empoeirado, um sorriso desaparecido atrás do balcão e a saudade nos moços da cidade que perderam para sempre o sorriso largo, o olhar esperto e os beijos quentes da sua doce cinderela.


Leila Rodrigues
Imagens da Internet