sábado, 5 de novembro de 2016

Ser em extinção



Ser em extinção

Numa sociedade em que a competição é cada dia mais acirrada, o mercado cada vez mais exigente e a concorrência cada dia mais inteligente, é preciso saber tudo de tudo. Se ontem bastava ser bom, hoje é preciso ser ótimo. É preciso se manter à frente das exigências da sua área de atuação. O básico virou banal. O complexo de ontem é o basicão de hoje e o démodé de amanhã.
Tudo isso é fato. Temos que buscar formas de sobreviver nesta selva. O lado B de tudo isso é que esta busca desenfreada pelo sucesso ultrapassa os limites da sanidade. Onde é que está escrito que precisamos ser bons em tudo? 
Tenho visto pessoas fazendo um esforço sobre-humano para serem bons pais, bons filhos, bons amantes, bons alunos, excelentes profissionais, levar uma vida saudável e… ufa! E ainda correm daqui e dali para estarem em tudo e participarem de tudo. É cansativo só de ouvir!
 A palavra networking subiu à cabeça das pessoas. O que vemos são verdadeiros show-mans e show-girls. Atitudes premeditadas e comedidas que não passam de um plano para chegar ao podium. Até os bons-dias são premeditados! Encontros e contatos são minuciosamente arquitetados. Elogios são distribuídos como fichas de entrada em um mundo melhor. Tudo faz parte da conquista do troféu de bem-sucedido! 
Onde estão as pessoas normais? Aquelas que têm a grandeza de dizerem que não sabem fazer algo, que perderam alguma coisa ou que se deram mal. Onde está você, ser em extinção?! 
Procura-se alguém que possa compartilhar verdades e não apenas vantagens. Procura-se por pessoas que saibam rir e chorar, perder e ganhar. Procura-se por gente que se machuca, que se esfola, que está na fila, que pede ajuda. Procura-se pessoas, não um case de sucesso. 
Ando correndo de quem está pronto, inteiro, formado. Tenho pena desses feras, perfeitos, acima de qualquer suspeita. Pessoas impecáveis, super-hiper-mega organizadas e produzidas me causam pânico. Tenho medo de pegar a doença da perfeição e nunca mais ser eu mesma. 
Mulheres perfeitas à base de fluoxetina. Homens bem-sucedidos escravos de um comprimido azul. E ninguém toca no assunto do que não deu certo. Fazem-se caras e bocas, sorrisos e poses. Tudo isso para disfarçar que, por trás dos holofotes, somos todos iguais! 

Imagem: Zygmund Bauman - sociólogo polonês autor de vários livros, dentre eles Amor Líquido.

Leila Rodrigues

Olá pessoal,

ser em extinção é um dos primeiros textos meus. E eu continuo com medo das pessoas perfeitas. Zygmund Bauman, filósofo polonês  que aparece na imagem acima, tem uma frase que eu gosto muito: "A preocupação com a administração da vida parece distanciar o ser humano da reflexão moral.” Pessoas excessivamente preparadas e retocadas para dar certo não me inspiram confiança. É bom se cuidar, é excelente ter foco e disciplina; mas robotizar-se para atingir seus objetivos, aí é perder o sabor de viver! Continuo preferindo aquelas pessoas que quebram o salto de vez em quando e ainda conseguem rir de si mesmas. 

Grande abraço



Leila Rodrigues

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