quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Depois do fim





Ontem pensei em você. Às vezes penso. Acontece. A razão já deu ordem para meu coração não fazer isso, mas meu coração ainda não se acostumou com essa nova realidade. Me pego imaginando o que você estaria fazendo. Será que comeu direito? Que cuidou daquela sua alergia? Que tem ligado para o seu pai? Preocupação besta de quem não aprendeu ainda que tudo mudou. E ainda me pergunto se você sofre com as consequências das suas escolhas. Talvez seja apenas porque dói saber que eu não faço parte delas, ou simplesmente eu queira uma explicação para o que não tem que ser explicado. Egoísmo meu. O meu maior segredo é que aqui na solidão da minha perda, o que eu queria mesmo é que você me dissesse que se arrependeu amargamente e quer voltar atrás e começar tudo de novo. Não vou mentir mas isso acontece sim. Por mais que eu queira ser uma pessoa evoluída e determinada ainda me apego nesta esperança inútil. Eu sei que o tempo já nos modificou. Hoje não somos os mesmos de um minuto atrás.
Muito provavelmente em mim não haja quase nada da pessoa que você deixou. O tempo nos modifica, a dor nos modifica, as lições nos modificam e as novas janelas, Ah essas nos transformam por completo! A gente se transforma aos poucos. Tão sutilmente que nem conseguimos perceber. Como uma torneira pingando no balde. Uma hora ele deixe de ser um balde vazio e vira um balde d'água. Hoje eu sou um balde d'água.
Pronto para desaguar onde houver sede. A teoria diz que depois do fim cada um segue seu rumo. Na prática, quem tomou a iniciativa do fim já tem seu rumo planejado. É ele que vai "se livrar"! O outro, o que recebeu o bilhete premiado do fim, perde o rumo. Eu a princípio perdi o rumo, o prumo e quase todo resto. Mas devagar fui me recompondo. Como um quebra-cabeça desmontado, vamos juntando nossas partes até nos formar de novo. Foi um tempo doído e silenciosamente sofrido como toda dor do amor. Dor que não tem remédio. Sentimento perdido no peito sem lugar para aquietar. Esse é o maior dos desafios. Eu vou continuar aqui na árdua tarefa de acalmar meu coração. Preciso me amar neste momento.
Preciso cuidar de mim, ser gentil comigo e me perdoar a cada momento de recaída. Preciso aceitar que ainda não estou tão pronta assim. Não preciso bater de frente comigo nem me culpar. Apenas entender que ora estarei firme e forte, ora estarei me segurando para não pensar em você, para não sair correndo daqui e bater na sua porta. Porta? Que porta? Não tem porta para mim em você! Com tantas portas no mundo o que eu preciso agora é coragem para descobrir o que há por trás de cada uma. Sem mais fico por aqui.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 13/01/2015
Imagem da Internet

9 comentários:

  1. Oh Leila que bela mensagem!
    Que forma subtil de deixar escorrer tudo o que vai dentro.
    É triste a mensagem, é dolorosa mas tem um grito de esperança, uma vontade enorme de juntar o que ainda pode ser reunido.
    É mais que um desabafo é uma autentica mensagem de amor!
    Beijinho

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  2. ...um acordar doloroso, mas cheio
    de mensagem para que embora a vida
    não seja do jeitinho que desenhamos,
    e não é...o melhor então que temos a fazer, é seguir em frente com a sensação de que foi tudo um aprendizado, e assim saimos mais fortalecidos, e portanto, abertos para o novo que se seguirá! bj, alma linda!

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  3. Uma divina "catarse" em que a consciência da autoestima recebe o grau máximo de sua importância! Lição de vida, Leila!
    Abraço.

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  4. Que beleza,Leila! Escreveste com o coração... Adorei e cheio de emoção! beijos,chica

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  5. Belas palavras, amiga! Tenho que admitir qualquer palavra vinda de voce seria linda de qualquer maneira. Beijos no coracao. Liria

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  6. Leila, intenso o seu texto.
    Você sempre surpreende.
    Sem portas.
    Xeros

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  7. Ninguém é feliz junto sem ser feliz sozinho.
    Preencha-se e quem quer que seja, lhe transbordará.
    Fica a dica!
    Que assim seja!

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  8. Muito bom, Leila. " Na prática, quem tomou a iniciativa do fim já tem seu rumo ". Destaquei esse trecho por achá-lo tão verdadeiro. Cuidado com as recaídas, mas quem disse que o coração obedece a razão? parabéns. Beijos.

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