domingo, 18 de agosto de 2013

La belle de jour




Onde está a beleza? Na perfeição das curvas? No frescor da mocidade? Ou seria na precisão de uma produção bem feita?
A beleza pode estar na perfeição, mas não sobreviverá a ela. O conceito de beleza é muito relativo, principalmente para quem já passou dos 17 anos.
Naquela tarde de inverno, eu aprendi que a maquiagem mais perfeita que uma mulher pode usar no rosto é a autoestima. Aprendi que a verdadeira beleza transcende às formas... E voltei para casa querendo ser igual a ela.
Sem pretensão nenhuma ela chegou à festa. Seu olhar alegre dizia a todos o quanto ela gostava da vida e o quanto a recíproca era verdadeira. Sem muito que explicar.
Ela não trajava o melhor vestido, não calçava o melhor sapato e nem tinha as curvas mais perfeitas da festa. E cá entre nós, isto para ela não fazia a menor diferença. Misturava-se às outras sem a menor cerimonia. Não era a mais velha, nem tampouco a mais nova.  Não queria mostrar nada e nem precisava esconder nada de ninguém. 
E ainda assim ela se destacou das demais. Marcou presença por onde passou. Deixou seu rastro em cada roda de conversa que chegou. Não foi seu perfume que ficou no ar, nem a marca da bolsa cara que ela não usou. Deixou em todos a vontade de continuar um pouco mais a seu lado, de usufruir mais da sua doce companhia. 
Comeu com gosto e bebeu com prazer. Cumprimentou com verdade e desejou com o coração a cada vez que apertava a mão de um conhecido ou que abraçava um amigo. Não seguiu nenhuma cartilha, não ateve-se aos clichês, apenas representou o seu mais genuíno papel, si mesma. 
Usou o melhor de si e obteve o melhor de todos. Seus gestos, falas e sorrisos substituíram perfeitamente quaisquer aditivos que outra mulher pudesse ter escolhido para aquela tarde. Suas atitudes ditaram suas intenções, seus anseios e percepções sobre o mundo à sua volta. Falou do que entendia, riu e aceitou o que não entendia muito bem. Não ostentou nem se intimidou. Ocupou apenas o seu espaço e por isso mesmo roubou a cena.
Não foi para ser vista, foi para viver. E viveu cada minuto. E experimentou a delicia de estar, sem se preocupar com a nota que a mulher ou o homem do lado lhe daria. Preocupou-se apenas em se divertir, em ser a pessoa que sempre foi.
... E contrariando todas as outras supostas concorrentes, aquela que nem concorria, acabou sendo eleita por todos, a mais bela da tarde!




Leila Rodrigues
Imagem da Internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 13/08/2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O dom de ser feliz






Há alguns dias comentei com um amigo que eu estava sem inspiração para escrever. Para minha surpresa, ele achou perfeitamente plausível e ainda me disse que o que move o ser humano é a dor. Se está tudo bem, não há nada a ser curado, não há inspiração. 

De fato é bem mais fácil dividir nossas tristezas. A dor dá mais ibope que a alegria. Se a escrava Isaura tivesse sido alforriada no primeiro dia da novela, ninguém teria assistido o capítulo seguinte. Mas como a coitada sofreu a novela inteira, milhares de pessoas assistiram até o fim a saga da escrava branca.

Porém, considerar o sofrimento como padrão faz com que as pessoas tenham vergonha de ser feliz, de comemorar, de dizer que venceu. O atleta ao ganhar a medalha, começa a entrevista justificando que foi com muito esforço. O empresário de sucesso começa o discurso falando de quando não tinha sapatos. Todos gostam do sucesso, mas precisam se justificar para serem merecedores desta graça. E como o céu é o lugar dos fracos e oprimidos, os felizardos que se expliquem porque senão vão todos para o inferno. E eles se explicam o tempo todo.

Então meu amigo, para você que me disse que sem dor, sem inspiração; contesto! Com dor ou sem dor, a inspiração há de chegar. O que nos inspira de verdade é a vida. O movimento da vida é campo vasto para toda e qualquer inspiração. E são artistas, são poetas, são pessoas simples e comuns, são pessoas de todos os tipos que se inspiram na felicidade para fazer suas vidas melhores. 

Amores se vão, pessoas e coisas também e essas pessoas estão lá, felizes pelo fato de estarem vivas. Não que essas pessoas não sofram, pelo contrário, elas passam por tudo que qualquer pessoa normal passa. O que as diferencia é a grandeza de saber olhar para o sofrimento e decidir não cultivá-lo. 
 
São pessoas que optam pela felicidade muito antes de saber onde ela estará. Pessoas que sofrem caladas para não fazer outros sofrerem. Pessoas que tem certeza absoluta de que a felicidade não está no fim do caminho porque a felicidade é o próprio caminho. São pessoas capazes de transformar o mundo. Seja transformando um pedaço de madeira em escultura, um monte de barro em obra de arte, uma conversa de boteco em música ou um dia comum de trabalho em uma grande aventura. Elas transformam seus dias, seus habitats, seu universo... E todo o resto se sente transformado a seu lado.


Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 30/07/2013
Imagens da Internet

domingo, 28 de julho de 2013

Palavras: E ela nem fez curso superior

Palavras: E ela nem fez curso superior: O chão da casa tinha tábuas largas, algumas soltas que balançavam ao pisar. E eu, toda vez que atravessava do quarto para o banheiro...

E ela nem fez curso superior




O chão da casa tinha tábuas largas, algumas soltas que balançavam ao pisar. E eu, toda vez que atravessava do quarto para o banheiro frio, me sentia pisando em um passado que eu jamais saberia explicar. Ainda assim eu gostava de ficar naquela casa. Só quem viveu na casa da avó consegue entender isso.

A minha avó usava umas palavras diferentes, que só ela sabia dizer. Locomovia-se com dificuldade, parecia sentir dor, mas conseguia sorrir mesmo assim, sempre feliz e agradecida por estar entre nós. A casa era grande, cheia de ecos, tinha cheiro de jasmim e fotos na parede. A minha vó gostava de reunir todos e contar casos. Sempre reais, por mais absurdos que fossem.

Toda vez que alguém começa dizendo "na minha época", temos a sensação de um passado tão distante que visualizamos uma foto em preto e branco, amarelada pelo tempo, sem valor algum para os dias de hoje. A minha vó gostava de fotos e achava incrível ver-se no papel. Porém naquele dia ela não começou assim, talvez por isso tenha sido tão especial.

- Toda vez que vejo vocês, meus netos, eu enxergo um futuro brilhante para todos. Filhos, carreira, realização, felicidade. Um futuro que eu, com toda certeza não participarei. Mas não participar não me entristece. Participei até aqui e de amanhã para frente pode ser que eu vire apenas uma imagem no papel. E quando eu me transformar em imagem no papel, ou em apenas um segundo de nostalgia no coração de vocês, me visitem de vez em quando. Faça-me uma visita breve, alguns segundos apenas. Visitem-me para reforçar seus valores, para fortalecerem seus princípios ou para simplesmente enxergarem o passado com o olhar do presente.  E logo em seguida me deixem e sigam as suas vidas, porque é no presente que construímos o nosso futuro. Corram e mudem o que ainda puder ser mudado.

Ela mal terminou e foi se levantando da cadeira. Pediu a minha ajuda para se reerguer e trêmula caminhou sozinha até o quarto. Olhei para o meu irmão que cochilava na cadeira e pensei na aula que ele acabara de perder. Minha irmã chorava em silêncio na cadeira ao lado. Só se ouvia o relógio de parede que, de tão antigo já era um membro da família. Não sei precisar quanto tempo fiquei ali parado, vendo sumir aquela pequenina que nunca fez curso superior. Suas palavras me acompanham desde então.
Vovó faleceu cinco dias depois daquela noite, mas eu a visito até hoje. 



Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 09/07/2013
Imagem da Internet
 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Porque o pulso ainda pulsa




Poderia ter sido uma quarta-feira como outra qualquer. Não fosse a euforia que pairava no ar. Da sua salinha fria de trabalho, ele conseguia levar calor às pessoas tamanho o seu sorriso. Por trás da pele morena e dos dentes alvos, poucos conheciam a sua luta e a sua dor. Mas todos conheciam o seu sorriso, a sua disposição e principalmente a sua pressa.

Da vida ela queria um pouco mais. Não muito, apenas o suficiente. Querer muito poderia significar arrogância, e este, literalmente, não era um atributo que a pertencia.

Naquela quarta-feira fria de junho, ela teve ainda mais pressa. Convidou, comentou, enviou mensagens, e-mails, torpedos, enfim, não se fez de tímida nem de rogada. Qualquer pessoa que tenha cruzado com ela naquele dia ouviu o seu convite. Até o chefe de poucas palavras. Chegou a pedir em nome de todos os outros colegas, que eles fossem dispensados um pouco mais cedo porque o compromisso exigia. Na hora do almoço, correu até a papelaria e dos seus últimos dez reais do bolso, ela gastou dois para uma cartolina. Naquele momento ela se lembrou do seu pai que ela vira tão pouco. Ele era um eterno inconformado! Esquerdista, anarquista e todos os "istas" que existiram nos anos 80 fizeram parte da vida dele. Desejou por um segundo que ele estivesse assistindo a tudo lá de cima.

Alguns a confundem com uma pessoa alienada, afinal nunca foi muito ligada à intelectualidade e por vezes mudou de canal na hora do jornal. Mas conhece de perto a dureza da vida e participa ativamente das reuniões de pais da escola do irmão mais novo, porque a mãe não tem condições de ir. 

A passos largos e rápidos ela seguia o caminho da praça. Segurando com força a cartolina enrolada como um canudo. Ela não tinha claro o motivo de tudo aquilo e nem fazia ideia de até onde o movimento poderia chegar. Mas pela primeira vez, nos seus 19 anos, se sentiu cidadã, se sentiu pessoa, se apercebeu da sua nacionalidade. O coração ainda disparado, os motivos soltos na sua cabeça em meio a um monte de informações. Medo, vontade, verdade e coragem se misturavam. Não sabia exatamente o que queria, mas sabia que queria que alguma coisa mudasse. 

À medida que as pessoas se juntavam, o medo foi cedendo seu lugar.  E foi nesse momento, que ela timidamente abriu os braços e com os olhos molhados de orgulho ergueu o seu modesto cartaz "BRASIL, EU DECLARO O MEU AMOR POR VOCÊ".

Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 23/06/2013