Há alguns dias
comentei com um amigo que eu estava sem inspiração para escrever. Para minha
surpresa, ele achou perfeitamente plausível e ainda me disse que o que move o
ser humano é a dor. Se está tudo bem, não há nada a ser curado, não há
inspiração.
De fato é bem
mais fácil dividir nossas tristezas. A dor dá mais ibope que a alegria. Se a
escrava Isaura tivesse sido alforriada no primeiro dia da novela, ninguém teria
assistido o capítulo seguinte. Mas como a coitada sofreu a novela inteira,
milhares de pessoas assistiram até o fim a saga da escrava branca.
Porém,
considerar o sofrimento como padrão faz com que as pessoas tenham vergonha de
ser feliz, de comemorar, de dizer que venceu. O atleta ao ganhar a medalha,
começa a entrevista justificando que foi com muito esforço. O empresário de
sucesso começa o discurso falando de quando não tinha sapatos. Todos gostam do
sucesso, mas precisam se justificar para serem merecedores desta graça. E como
o céu é o lugar dos fracos e oprimidos, os felizardos que se expliquem porque
senão vão todos para o inferno. E eles se explicam o tempo todo.
Então meu amigo,
para você que me disse que sem dor, sem inspiração; contesto! Com dor ou
sem dor, a inspiração há de chegar. O que nos inspira de verdade é a vida. O
movimento da vida é campo vasto para toda e qualquer inspiração. E são artistas,
são poetas, são pessoas simples e comuns, são pessoas de todos os tipos que se
inspiram na felicidade para fazer suas vidas melhores.
Amores se vão, pessoas e
coisas também e essas pessoas estão lá, felizes pelo fato de estarem vivas. Não
que essas pessoas não sofram, pelo contrário, elas passam por tudo que qualquer
pessoa normal passa. O que as diferencia é a grandeza de saber olhar para
o sofrimento e decidir não cultivá-lo.
São pessoas que
optam pela felicidade muito antes de saber onde ela estará. Pessoas que sofrem
caladas para não fazer outros sofrerem. Pessoas que tem certeza absoluta de que
a felicidade não está no fim do caminho porque a felicidade é o próprio
caminho. São pessoas
capazes de transformar o mundo. Seja transformando um pedaço de madeira em
escultura, um monte de barro em obra de arte, uma conversa de boteco em música
ou um dia comum de trabalho em uma grande aventura. Elas transformam seus dias,
seus habitats, seu universo... E todo o resto se sente transformado a seu lado.
Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 30/07/2013
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