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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O dom de ser feliz






Há alguns dias comentei com um amigo que eu estava sem inspiração para escrever. Para minha surpresa, ele achou perfeitamente plausível e ainda me disse que o que move o ser humano é a dor. Se está tudo bem, não há nada a ser curado, não há inspiração. 

De fato é bem mais fácil dividir nossas tristezas. A dor dá mais ibope que a alegria. Se a escrava Isaura tivesse sido alforriada no primeiro dia da novela, ninguém teria assistido o capítulo seguinte. Mas como a coitada sofreu a novela inteira, milhares de pessoas assistiram até o fim a saga da escrava branca.

Porém, considerar o sofrimento como padrão faz com que as pessoas tenham vergonha de ser feliz, de comemorar, de dizer que venceu. O atleta ao ganhar a medalha, começa a entrevista justificando que foi com muito esforço. O empresário de sucesso começa o discurso falando de quando não tinha sapatos. Todos gostam do sucesso, mas precisam se justificar para serem merecedores desta graça. E como o céu é o lugar dos fracos e oprimidos, os felizardos que se expliquem porque senão vão todos para o inferno. E eles se explicam o tempo todo.

Então meu amigo, para você que me disse que sem dor, sem inspiração; contesto! Com dor ou sem dor, a inspiração há de chegar. O que nos inspira de verdade é a vida. O movimento da vida é campo vasto para toda e qualquer inspiração. E são artistas, são poetas, são pessoas simples e comuns, são pessoas de todos os tipos que se inspiram na felicidade para fazer suas vidas melhores. 

Amores se vão, pessoas e coisas também e essas pessoas estão lá, felizes pelo fato de estarem vivas. Não que essas pessoas não sofram, pelo contrário, elas passam por tudo que qualquer pessoa normal passa. O que as diferencia é a grandeza de saber olhar para o sofrimento e decidir não cultivá-lo. 
 
São pessoas que optam pela felicidade muito antes de saber onde ela estará. Pessoas que sofrem caladas para não fazer outros sofrerem. Pessoas que tem certeza absoluta de que a felicidade não está no fim do caminho porque a felicidade é o próprio caminho. São pessoas capazes de transformar o mundo. Seja transformando um pedaço de madeira em escultura, um monte de barro em obra de arte, uma conversa de boteco em música ou um dia comum de trabalho em uma grande aventura. Elas transformam seus dias, seus habitats, seu universo... E todo o resto se sente transformado a seu lado.


Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 30/07/2013
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