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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Porque o pulso ainda pulsa




Poderia ter sido uma quarta-feira como outra qualquer. Não fosse a euforia que pairava no ar. Da sua salinha fria de trabalho, ele conseguia levar calor às pessoas tamanho o seu sorriso. Por trás da pele morena e dos dentes alvos, poucos conheciam a sua luta e a sua dor. Mas todos conheciam o seu sorriso, a sua disposição e principalmente a sua pressa.

Da vida ela queria um pouco mais. Não muito, apenas o suficiente. Querer muito poderia significar arrogância, e este, literalmente, não era um atributo que a pertencia.

Naquela quarta-feira fria de junho, ela teve ainda mais pressa. Convidou, comentou, enviou mensagens, e-mails, torpedos, enfim, não se fez de tímida nem de rogada. Qualquer pessoa que tenha cruzado com ela naquele dia ouviu o seu convite. Até o chefe de poucas palavras. Chegou a pedir em nome de todos os outros colegas, que eles fossem dispensados um pouco mais cedo porque o compromisso exigia. Na hora do almoço, correu até a papelaria e dos seus últimos dez reais do bolso, ela gastou dois para uma cartolina. Naquele momento ela se lembrou do seu pai que ela vira tão pouco. Ele era um eterno inconformado! Esquerdista, anarquista e todos os "istas" que existiram nos anos 80 fizeram parte da vida dele. Desejou por um segundo que ele estivesse assistindo a tudo lá de cima.

Alguns a confundem com uma pessoa alienada, afinal nunca foi muito ligada à intelectualidade e por vezes mudou de canal na hora do jornal. Mas conhece de perto a dureza da vida e participa ativamente das reuniões de pais da escola do irmão mais novo, porque a mãe não tem condições de ir. 

A passos largos e rápidos ela seguia o caminho da praça. Segurando com força a cartolina enrolada como um canudo. Ela não tinha claro o motivo de tudo aquilo e nem fazia ideia de até onde o movimento poderia chegar. Mas pela primeira vez, nos seus 19 anos, se sentiu cidadã, se sentiu pessoa, se apercebeu da sua nacionalidade. O coração ainda disparado, os motivos soltos na sua cabeça em meio a um monte de informações. Medo, vontade, verdade e coragem se misturavam. Não sabia exatamente o que queria, mas sabia que queria que alguma coisa mudasse. 

À medida que as pessoas se juntavam, o medo foi cedendo seu lugar.  E foi nesse momento, que ela timidamente abriu os braços e com os olhos molhados de orgulho ergueu o seu modesto cartaz "BRASIL, EU DECLARO O MEU AMOR POR VOCÊ".

Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 23/06/2013