Quando
chega o outono, sinto que São Paulo encontra o seu verdadeiro tempo. São Paulo, no fundo, insiste em ter um outono
o ano inteiro. O ar fica fresco, convidativo ao aconchego. As manhãs têm jeito
de Europa e a confusão das pessoas indo e vindo, me faz lembrar que tudo vai
passar.
Ninguém
ali está preocupado com o meu cabelo roxo, se sou homem ou mulher, ou os dois
ou nenhum dos dois. Ninguém quer saber se eu dormi esta noite nem em qual voo
vou embarcar. Todos ali só querem viver. Viver as suas vidas, amar os seus
amores, criar os seus filhos, os seus cachorros, chegar em casa. É cada um por
si literalmente! Até o rio Tietê é por si. Fica ali, quase parado, recebendo
silenciosamente nossos restos.
Alguns
dizem que isto é egoísmo, que ninguém se preocupa com ninguém. Não. Isso é
adequação. Ou eu me preocupo comigo, com os meus; ou absolutamente ninguém se
preocupará depois de mim. Depois de me preocupar e de me ocupar comigo e com os
meus, se sobrar tempo, prometo me ocupar com o mundo à minha volta. Prometo
conhecer um pouco mais esta cidade, prometo cumprimentar o meu vizinho, prometo
ir à pelada no sábado. Prometo...
Mas
antes, me deixe aqui. Deixe-me ser eu mesmo. Deixe-me viver as minhas escolhas,
me deixe ocupar as minhas horas com o que fizer parte do meu universo. Deixe-me
ter a minha crença ou nenhuma crença se eu assim preferir. Deixe-me cantar a música que eu escolhi.
Deixe-me abrir a janela de madrugada para ver a cidade que não sabe dormir.
E
eu te deixarei viver comigo, sem sequer cruzarmos a mesma esquina, sem sequer
pisarmos o mesmo chão. Você aí e eu aqui, juntos sem nunca nos vermos. Presos
na mesma geografia, porém libertos para sermos quem quisermos ser.
Amanhã
é domingo, eu escolhi dormir. Ele escolheu orar, ela escolheu divertir, aquele
outro foi viajar. Ninguém prestou contas para ninguém, ninguém pagou a conta de
ninguém. Tudo que esta cidade ou qualquer outra precisa é que cada um respeite a escolha do outro
e que todos se lembrem de que a nossa liberdade termina onde começa a do
próximo.
O
respeito hoje é tão importante quanto o amor. Quiçá conseguimos amar a nós
mesmos, quem dirá amar ao próximo como a nós mesmos? É pedir demais para pobres
mortais que somos. Que tal começarmos respeitando o próximo? Não será um bom
começo? Basta que, o que existe de bom e humano em mim, silenciosamente respeite
o que existe de bom e humano em você. E estaremos assim fazendo renascer o
respeito mútuo.
E
quem sabe então, podemos fazer uma Páscoa, na cidade de todas as religiões, de
todas as crenças, de todas as tribos, de todas as escolhas.
Imagem:www.mundodastribos.com.br
Querido leitor,
Para renascer qualquer coisa, é preciso, primeiramente, aceitar a perda ou a mudança a que se propõe. Independente da sua crença, desejo a você, força e coragem, para renaser naquilo que te for necessário. E que assim, consigamos todos, fazer uma páscoa dentro de nós!
Um grande abraço a todos e boa páscoa!
Leila





















