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quarta-feira, 14 de março de 2012

Do lado de cá



Bateu a porta e saiu. Deixou-a sozinha, encolhida no canto do sofá, com seu vestido de flores desbotadas pelo dia-a-dia. Fez-se um grande silêncio. Um silêncio ensurdecedor. Ela contou os ladrilhos, mediu-os sem desviar os olhos um só minuto do chão. Ficou ali parada por um tempo que nunca soube medir.
Seus olhos não choraram, sua alma estava completamente seca, árida como a terra que ela deixou um dia para viver um grande amor. Tanta dedicação, tanto cuidado não foi suficiente. Não foi o bastante. Era preciso se mover. Olhou ao seu redor. A casa fria, os móveis velhos, simples, apenas os indispensáveis, assim como tudo que foi vivido naquela casa. Apenas o indispensável, o necessário. E o amor fecunda no dispensável, na sobra, no desnecessário e desmedido.
Experimentou pisar no chão. Parecia flutuar. Era como se o chão não quisesse receber o seu corpo. Na parede, seu Santo Expedito, empoeirado, não encontrou os seus olhos.
As paredes encardidas, cálidas, pareciam dizer que não foi só ele que se foi; a vida naquela casa se fora também. Não agora, não junto com ele, mas certamente se fora. Olhou para a parede e procurou respostas para as perguntas as quais a parede remetia. Sua cabeça ainda estava no timbre da porta batendo.
A dor de quem fica do lado de cá da porta, cheira a prisão. Gaiola vazia. Libertar-se fica mais difícil porque a sensação é que a liberdade é direito de quem foi e não de quem fica. E ela havia ficado. Ficado com os restos, com as sobras, com as histórias e memórias de uma relação que chegou ao fim.
Caminhou até a varanda e olhou o tempo lá fora. Fechou vagarosamente a janela e depois a cortina. Trancou a porta. Só lhe restara os móveis e as paredes pálidas. 
No intuito de arranjar imediatamente companhia, ela olhou tudo e pensou: Vamos meus caros, ficamos apenas eu e vocês. Sofá, parede, relógio, cômoda... Por hora vamos todos dormir, que a hora agora não é de fazer. É preciso dormir. É preciso esquecer o som da porta batendo. É preciso não fazer nada por algum tempo. Amanhã começaremos alguma coisa, qualquer coisa. Algo que faça o tempo passar, algo que traga vida à minha vida e a este lugar.
Olhou novamente para a parede encardida, sorriu e pronunciou as primeiras palavras depois que a porta bateu:
- Amanhã lindinha, eu te pinto de verde! Será um bom começo!

Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora - Divinópolis MG em 06/03/2012