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sábado, 1 de dezembro de 2018

Os pingos da janela


A chuva deste ano me lembrou a minha infância. Chovia dias seguidos e eu gostava de ficar na janela, assistindo a chuva cair e observando as gotas grudadas no vidro, desfocando a paisagem. Felicidade simples, ingenuidade e chuva em abundância. 
Então, seguindo o exemplo da chuva que voltou a cair como antes, sai à procura da minha felicidade simples. Aquela que não se compra. E para minha grata surpresa, ela continuava ali, nos mesmos lugares que eu deixei. 
A chuva continua molhando a janela e desfocando a paisagem. Pisar na grama continua confortável para os pés. A água da enxurrada continua convidativa para um barquinho de papel. Tomar uma chuva nas costas, acompanhar os brotos que surgem e perceber a vida curta das flores silvestres. Tudo isso parece tão ridículo diante da quantidade de coisas importantes que temos a fazer. Não há tempo para a insignificância desses pequenos atos. É assim que aprendemos depois que crescemos. 
E nos tornamos pessoas insensíveis, incapazes de enxergar as nossas próprias sensibilidades. Lidamos com ela (a sensibilidade) como se esta fosse um problema, um defeito, algo que precisa ser eliminado de dentro de nós. Não se pode chorar, não se pode sofrer, não se pode emocionar. Esses são sintomas de fraqueza e no mundo dos fortes não há lugar tal.
No mundo dos fortes você tem que ler todos os livros, tomar todas as decisões, bater todas as metas, não perder o foco e seguir veementemente o trio planejar, executar, monitorar. 
No mundo dos fortes somos todos soldados de chumbo e soldados de chumbo não ouvem a chuva caindo ou sequer observam a janela.
É preciso quebrar primeiro nossos próprios paradigmas e corrermos o risco de sermos nós mesmos. É preciso vencer os padrões e criarmos nossos próprios critérios. É preciso descobrir de novo o que nos conecta com a mãe natureza, com Deus e com as boas energias do universo. É preciso, de vez em quando, trazer à tona a criança que existe em nós e nos alimentarmos dela. É preciso aceitar que dentro de cada um de nós existe ternura, carência, afeto, sentimento e a tão “defamada” sensibilidade. 
É preciso não perder a flor que colore o outro lado da paisagem. A flor, os brotos, os pingos da chuva...
O que poucos sabem, é que os fortes de verdade, só vestem suas armaduras, depois de observar os pingos grudados na janela. 

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis
Imagem acervo pessoal

Olá pessoal,
para quem vive no Sudeste do Brasil, estamos em plena temporada da chuva. E este ano ela veio com vontade. aquela chuvinha mansa que fica dias seguidos e que enche os rios, aconteceu. Que seja abençoada esta água, que encha nossos rios e lagos, que fortifique os brotos e nos prepare para as próximas temporadas. Que a chuvinha desses dias nos permita pequenos prazeres como um café quentinho com aqueles que amamos, um filme, uma pipoca…e muitos pingos na janela.

Grane abraço

Leila Rodrigues



quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Coragem


 Coragem

Lá fora a água caía como se o céu tivesse querendo lavar a terra. Pela vidraça ela via o sacudir das árvores. Seus olhos divididos vigiavam o telefone e a chuva.  Para quem tinha esperado até aqui, um pouco mais não faria diferença. Ainda assim, não conseguiu conter o ímpeto de roer as unhas. Andava de um lado para o outro a espera da hora . Toca o telefone. Embora a espera toda fosse por causa deste, se assustou do mesmo jeito. Deu um salto e agarrou o aparelho:
- Oi!
- Oi!
- E aí? Decidiu?
- Sim.
- E...?
- A minha resposta é sim.
- Jura?!  Você tem certeza?
- Sim, juro, tenho certeza!
- Mas, e os outros? E o que vão dizer?
- Não me importa mais. Já tomei a minha decisão.
- Mas...
- Não há mais nenhum  mas que me faça mudar de idéia.
- Nossa! Eu confesso que estou surpreso com a sua certeza.
- Não fique. O que você está vendo hoje, não começou hoje, mas sim no dia em que eu decidi dar um novo rumo à minha vida. Não tem nada a ver com você, tem a ver comigo.
- Entendi... E quando será?
- Agora.
- Agora? Mas tá chovendo!
- Não tem problema, nunca brinquei na chuva mesmo! 
- Então  boa sorte!
-  Estou indo. Tchau
Desligou o telefone, olhou-se no espelho, sorriu para si mesma e foi.
Naquele dia ela deixou-se molhar. Olhou para o céu  e enxergou os pingos da chuva vindo em sua direção. Abriu a boca e bebeu os pingos. Não correu, não se esquivou, apenas ficou ali, deixando a chuva enxarcar suas roupas, seus cabelos, seu corpo. Deixou-se lavar. 
A roupa colou no corpo mostrando as curvas da sua cintura. A blusa colou nos seios mostrando os bicos arrepiados. E ela, inebriada pelo balé da água e do vento, tocou o rosto molhado e provou de si mesma. 
E assim atravessou o grande jardim. Completamente molhada, caminhou para o futuro que a esperava do lado de fora daqueles portões. Olhou para traz pela última vez, virou a esquina e foi viver.
 
Leila Rodrigues