sábado, 25 de maio de 2019

Sem Resposta




Eu procurava respostas para as minhas tantas perguntas. Procurei nos livros, devorei cada um deles como se eles fossem um prato suculento de aprendizado. E ainda que eles (os livros) fossem realmente esse prato de conhecimento, minhas perguntas continuavam sem respostas.

Viajei, atravessei os portões do meu país e conheci outras culturas. Povos sábios, povos ricos, educados e civilizados, bem mais que eu. Eles me pareciam felizes, mas ainda assim aquela felicidade não respondia às minhas perguntas.

E então recorri à tecnologia, à psicologia, à terapia e todas as “ias” que surgiram ao meu redor. Confesso que respondi muitas das minhas perguntas, mas para meu desespero, outras tantas surgiram. E quanto mais eu procurava respostas, mais encontrava novas perguntas.

Perguntei aos astros, perguntei ao céu. Perguntei a Deus, aos anjos e a diversos Santos que eu sequer sabia quem foram. Debulhei meu terço e aguardei na janela as respostas que nunca chegaram.

Foi aí que eu percebi que quem me moveu até aqui, sempre foram minhas perguntas. As respostas estão no caminho e, mais cedo ou mais tarde, se apresentarão para cada um de nós. Todas as minhas perguntas haviam sido respondidas no dia certo e do jeito certo. Eu é que tive dificuldade de aceitar e compreender as respostas que não correspondiam às minhas expectativas.

Hoje coleciono dúvidas, digo que “não sei”, acredito que ainda posso aprender e sigo na certeza de que tudo será respondido a seu modo. Simples assim!

Leila Rodrigues
Fonte imagem: www.intelijur.com.br


Quanto maior a “sede” na procura de respostas, menos conseguimos enxerga-las. As respostas estão pelo caminho.
Grande Abraço

Leila Rodrigues 

sábado, 18 de maio de 2019

Medrosa



Tenho medo de ratos. Nem sei se a palavra certa é medo. Acredito que seja uma repulsa, me recuso a conviver no mesmo ambiente que um rato, ainda que por alguns instantes e ainda que ele (o rato) não esteja "nem aí” para mim. Contudo ainda me considero uma pessoa destemida. Não tenho medo da morte, não medo dos desafios, não tenho medo de altura, pelo contrário, adoro. Não tenho medo de crescer, tampouco das surpresas da vida. E quando tenho medo, vou com ele mesmo e nos viramos bem juntos.
O medo faz com que sejamos prudentes e isso é bom. Ruim é quando o medo nos bloqueia e nos impede de agir. Aí é pavor.
Mas devo confessar que eu tenho medo de gente. Tenho medo de gente falsa, aquelas que se parecem boazinhas, educadas e preocupadas conosco, enquanto na verdade, tramam, inventam, levam e trazem informações com o único objetivo de atrapalhar, estragar ou, como dizia a minha avó, “fazer o circo pegar fogo”. Para mim esse é o estágio mais mesquinho que o ser humano pode chegar. Este vale menos que os ratos e, por isso mesmo, tenho medo deles.
Também tenho medo dos invejosos. Daqueles que não sabem suportar a felicidade alheia. Daqueles que não conseguem se regozijar com nossas conquistas. Eles são muito bons quando precisamos deles, quando estamos por baixo, na pior ou em estado crítico. Geralmente são prestativos até o dia que não precisamos mais deles e aí, toda presteza vira ira, intensão reversa. Estes são monstros sorridentes no meio de nós. E deles precisamos nos afastar cada dia mais, até os perdermos de vista. As poucas vezes que precisei fitar uma pessoa para espantar o meu medo, elas se foram. Não suportaram um olhar que enxergasse atrás dos olhos.
Fora esses dois tipos estranhos, eu adoro gente, adoro pessoas, adoro conversar. É com as pessoas que eu aprendo, é com as pessoas que eu cresço, é com a diversidade de opiniões e pensamentos que eu fortaleço os meus princípios.
E assim eu sigo, com medo dos ratos e medo de gente. Mas sigo rodeada de gente que me querem bem de verdade  e me impulsionam a crescer cada vez mais. Dessas eu não tenho medo, posso garantir.  Nunca imaginei que medo e coragem caberiam no mesmo espaço, contudo depois de enfrentar pessoas e ratos, concluí que, esta medrosa aqui, tem mais coragem que muitos que declaram suas coragens em plena praça. Medrosa, eu? Não. Apenas atenta aos ratos.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis


Olá pessoal,

Pessoas vêm e pessoas vão. 
Algumas nos causam medo, outras temos vontade de abraçar. 
É assim a vida! 
Os ratos as baratas e as pessoas estão aí e vão continuar. O que nos fortalece é sabe que também tem outros bichos e outras pessoas incríveis para equilibrar. 
Sigamos com nossos medos. 
Grande abraço

Leila Rodrigues


domingo, 5 de maio de 2019

Tempo doce



Eu pensava em árvores; em bichos, estrelas e afins. Não vou esconder, eu tinha vontade de ser um bicho e dormir nos galhos das árvores observando as estrelas. Aquele sim era o meu lugar. Você vai achar que eu era louco e eu serei obrigado a concordar com você. Esse era meu mundo,  no inverno de 1988. Eu tinha apenas 16 anos e tudo que eu queria era fazer dezoito anos para tirar a minha carteira de motorista e cair no mundo na Rural Willis 75 do meu avô.  Ah, eu também queria prestar vestibular para veterinária. 
E ela já falava inglês, francês e português muito bem. Ela tinha os cabelos pintados de uma cor esquisita que anos depois eu descobri que se chamava acaju. Ela queria ir morar em Chicago e eu nem sabia para que lado ficava Chicago, só sabia que era nos USA.
Ela tinha encantos e eu tinha um jeito tímido de me encantar com tudo que viesse dela. Ela tinha os cabelos longos e eu tinha espinhas no rosto. Ela tinha uma cintura que prendia por completo minha atenção e eu tinha a mania de perder a fala toda vez que ela me fazia uma pergunta. Ela sempre falava sério e eu nunca falava nada. Ela era a mulher dos meus sonhos e eu, apenas mais um dos seus 240 alunos do colégio Santo Agostinho. 
Eu poderia colocá-la num altar, só para apreciar sua inteligência, sua beleza, sua facilidade para falar de física quântica enquanto eu ainda não tinha conseguido compreender que toda força tem uma reação contrária na mesma intensidade. 
Eu ensaiava conversas que nunca aconteceram, carrega seus livros, perguntava alguma coisa inútil, mas nunca consegui dizer o quanto a achava linda, inteligente, maravilhosa e perfeita para ocupar o lugar dos meus sonhos. Ela me respondia tudo tão rapidamente que me travava ainda mais, ela sorria para mim de um jeito que eu me sentia o perfeito idiota. 
Um dia eu presenciei uma discussão dela com outro professor. Ela falava da nova Constituição com a mesma propriedade que eu falava da minha bicicleta. Foi neste dia que entendi a nossa distância e tudo se desfez. Tomei o meu primeiro porre, pus pra fora toda a bile que eu tinha no organismo  e só voltei ao colégio 3 dias depois. 
Ainda tenho vontade de saber se ela conheceu Chicago e quando vou à Belo Horizonte e sempre faço questão de passar na porta do velho e bom Colégio Santo Agostinho. 
Quem sabe ela não está por ali?

Leila Rodrigues

Imagem: https://www.e-konomista.pt/artigo/melhores-cidades-andar-bicicleta-portugal/
Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos


Olá pessoal,

criada no meio de 3 irmãos e convivendo com 3 homens em casa, é uma diversão me passar por um “menino” de vez em quando. Juntando tudo que aprendi e aprendo com eles, surge esta crônica que é uma volta à adolescência dos anos 80. 
Um tempo doce e ingênuo que só podemos recordar.
Bom domingo! Grande abraço

Leila Rodrigues


domingo, 28 de abril de 2019

O holofote e a sorte



O holofote e a sorte

A rede é palco. Com a internet, todos têm a oportunidade de colocar seus avatares neste palco. E o fazem muito bem! 
Não vamos discutir os motivos pelos quais cada um tem o seu avatar; geralmente, são personagens perfeitos, irretocáveis, que estão sempre sorrindo e gozando da mais plena felicidade. Na rede, todos são corretos, éticos, ecologicamente preocupados com o planeta e engajados em alguma causa. Na foto muito bem preparada para “o post”, todos se vestem bem, comem bem, se exercitam, se cuidam e principalmente usam e abusam da palavra gratidão. São todos bem sucedidos, se dizem bem resolvidos e parecem viver um extraordinário caso de amor consigo mesmos. Narciso é tímido perto do que temos visto. A grande maioria não se cansa de falar dos seus diplomas e do quanto tiveram que lutar para chegar onde chegaram. Um pseudo-lugar habitado pelos deuses da competência. Como se o resto do mundo fosse incompetente  e vivesse no andar de baixo dos seus pés dourados. 
Cá para nós, isso existe? Isso é real?  Pessoas que precisam provar o tempo todo que são "fodas" precisam urgentemente de um psiquiatra. Pessoas irretocáveis são insuportáveis! 
Na prática, nós gostamos mesmo é de gente normal. Pessoas que acordam de mal humor de vez em quando, que escolhem o cardápio sem saber o que é, que sentem dor de barriga, dor de dente, dor de cabeça, insônia e por que não, desânimo de vez em quando. Afinal quem nunca? 
É com essas pessoas que não carregam tantas certezas que queremos passar os bons momentos de nossas vidas! Pessoas despreocupadas de provar qualquer coisa ao outro. Porque pessoas verdadeiramente  bem-sucedidas nem tocam neste assunto com ninguém. Pessoas que realmente atingiram a alta performance não estão preocupadas em comparar o resto da humanidade consigo. Elas estão ocupadas demais vivendo, dando e recebendo atenção dos momentos presentes. Pessoas realmente evoluídas não se tornaram um cartão postal de si mesmas. Elas gostam do que fazem, fazem com prazer mas não são escravas do aplauso alheio. Elas geralmente acordam cedo, trabalham duro, choram de vez em quando, sentem medo e tem um extraordinário respeito pelo próximo. Estes sim, são os nossos verdadeiros ícones e eles dispensam holofotes. Eles são ocupados demais para isso. Há quem diga que eles tiveram muita sorte. Eu digo que a sorte adora gente que acorda cedo. 

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem:  https://pt.wahooart.com/A55A04/w.nsf/O/BRUE-8BWTH7/$File/JOHN-WILLIAM-WATERHOUSE-NARCISSUS.JPG

Olá pessoal,

vamos falar a verdade. Ninguém aguenta mais esta turma de narcisos, perfeitamente chata, que circula entre nós. Eles são insuportavelmente perfeitos e na mesma proporção, insuportavelmente chatos. 
Eu gosto mesmo é de gente! De gente que segue em frente, de gente que ri, de gente normal que me permita exercer a minha normalidade junto com eles!

Grande abraço

Leila Rodrigues


sexta-feira, 19 de abril de 2019

Idas e vindas



Idas e Vindas

Eu tinha 13 anos quando me apaixonei pela primeira vez. E foi quando eu entendi que precisava dormir, acordar, estudar, tomar banho enfim, fazer tudo com o coração completamente inundado de alguém. Foi muito difícil! Difícil organizar as ideias, difícil concentrar, difícil não pensar, difícil me desvencilhar daquele ser que tomava conta de mim. Tomava conta de mim, do meu pensamento, do ar que eu respirava. Quase desisti de amar, mas não foi desta vez.

Eu tinha 21 anos quando fui pela primeira vez deixada por alguém. Eu estava em pleno sonho, em pleno encantamento quando tudo acabou. Foi um susto. Um baque! É como um pique de energia no meio de uma festa e quando a luz volta não tem mais ninguém. Faltou chão, faltou ar e novamente o meu coração ficou inundado da falta de alguém. E foi pesado carregá-lo assim tão cheio de mágoas. E mais uma vez, durante um bom tempo realizei todas aquelas tarefas que a vida nos impõe com o coração carregado de dor.

Eu tinha 28 anos quando perdi a minha avó que era uma pessoa muito importante para mim. E eu tive de novo de fazer tudo com o coração inundado da falta de alguém. Os dias eram intermináveis, a saudade parecia um furacão a me corroer por dentro. E viver foi, novamente, muito complicado.

E assim, durante muitos anos eu andei carregando um peso maior que o meu; o do meu coração. Hora cheio de alguém, hora cheio da falta de alguém. Muitos anos se passaram, muitas pessoas entraram no meu coração. Algumas estão até hoje, outros se foram sem deixar nenhum sinal. E ainda tem aquelas pessoas que foram breves mas deixaram rastros eternos. Idas e vindas de minha vida. Coração movimentado esse meu! 

Mas ainda que o preço de amar seja esse, eu prefiro assim. Talvez eu tenha, em algum momento, carregado peso demais. Talvez eu tenha carregado pessoas que já se haviam ido. E muito provavelmente, em algum momento eu carreguei mais do que eu poderia suportar. Mas vivi a alegria de ter um coração ativo. E sei que valeu a pena!

Hoje não conto mais quem entra ou quem sai. Isso deixou de ser importante. Muito menos quanto tempo ficou ou vai ficar. Abri as minhas portas e joguei as chaves fora. Afinal, se são pássaros aqueles que, às vezes, dentro de nós se aportam, que seja pelas suas asas a decisão de ir ou ficar. Se ficarem, que eu não os feche em minha gaiola. E quando se forem, que eu não alimente as suas sombras.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

Olá pessoal,

Pessoas vêm, pessoas vão… É parte do processo. 
O mais importante nisso tudo é compreender que ninguém pertence, de fato, a ninguém. Somos todos de nós mesmos. 
Amar não nos torna proprietários do outro e ser amado não nos torna propriedade de ninguém.
Grande abraço, boa páscoa para quem for de páscoa e muito amor!


Leila Rodrigues

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Sem privilégios



Um dia nos damos conta de que ainda falta muito. O status de aprendiz dura o tempo de nossas existências. Embora tenhamos amadurecido, embora tenhamos vivência, experiência, cabelos brancos, anos assentados nos bancos das escolas, grandes livros na cachola e muitas horas de palestras, ainda somos alunos.  Ainda somos assolados pelo medo, pela insegurança e pela vontade imatura de não estar em alguma situação.

A vida nos prepara para viver, mas isso não nos isenta do susto, nem tampouco do sofrimento. Na verdade, nenhum aprendizado nos isenta de nada. Nossos anos de história não significam nenhuma garantia e maturidade, não nos privilegia de passarmos pelas provas da vida. Elas vão acontecer quer queiramos ou não. Elas vão nos surpreender, vão nos assustar e vão nos transformar de alguma forma. A dor nos transforma a ponto de nos sentirmos privilegiados pela oportunidade de evoluir.
Passado o susto, descobrimos nossas forças, nossas potencialidades até então guardadas para a hora certa. Tudo tem a hora certa, até mesmo nossas reações. Só precisamos compreendê-las.
Se tens medo, vai com medo mesmo. Abraça-o e o chame de seu companheiro, mostre a ele que você é a coragem. E caminhem juntos até o final.
Se tens desânimo, estenda a sua mão para o seu próprio desânimo e levante-se! Conduza-o como se conduz uma criança que não sabe onde ir.
Se estás inseguro, segura-te em cada dia, fragmenta seu sofrimento e viva um dia de cada vez. Aceite a batalha diária e considere-se vencedor ao final de cada dia. Pequenas vitórias são pílulas para as grandes batalhas.
Se tens mágoas, atire-as no rio. Ou então escreva-as na areia, bem perto das ondas. Mágoas pesam, mágoas impedem nossa caminhada evolutiva.
Mas se nada disso funcionar, se todas as receitas que a vida te apresentar forem inúteis, não se assuste. O fato é que as saídas sempre estiveram dentro de cada um de nós. E você vai encontrar a sua. Porque a saída é uma porta estreita e singular. É o jeito que cada um de nós encontra para vencer.
Um vai chorar, o outro vai reclamar, o outro vai fazer piada com a própria vida e o outro vai silenciar. No fundo, todos estão usando as suas próprias saídas. É só isso! E está tudo certo.
Em cada um de nós uma história, em cada história um desafio. Para cada desafio uma saída e em cada saída, um jeito especial e particular de vencer.



Leila Rodrigues


Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem: https://www.portaldoholanda.com.br

Afinal, será que ainda falta muito? Será que estamos sendo únicos em nossas histórias? Esse é meu convite à reflexão dessa semana.

Leila Rodrigues

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Acaso ou Destino?



Ele não chegou de trem, muito menos de avião. Simplesmente chegou. Apareceu por essas bandas. Ela não chegou de lugar nenhum. Nasceu e cresceu por aqui. Seu sonho era um dia chegar de algum lugar. Ele sempre sonhou que um dia encontraria o seu lugar. Ele veio para trabalhar, subir na vida.  Ela colecionava perfumes, fazia yoga, terapia, academia e gostava de fotos.  Ele planejava ter um cachorro. Ela planejava ter filhos. Ele já não tinha mais os pais. Ela tinha cinco sobrinhos e quatro melhores amigas.  Ela procurava alguém que procurasse alguém também. Ele não procurava nada, tinha acabado de encontrar o emprego dos seus sonhos. Um dia se cruzaram na rua. Nem se viram. No outro se cruzaram de novo, no mesmo lugar. No terceiro dia perceberam a coincidência e se olharam. Ela reparou que ele estava mal vestido. Ele imaginou como seriam seus peitos. No quarto dia se cumprimentaram. Ela sorriu. Ele a fitou. Ela se envergonhou. Ele desvergonhou. No quinto dia foi feriado, não se viram. Ela ficou a pensar onde ele estaria. Ele ficou a pensar como ela estaria. Ela imaginou que estivesse com alguém. Ele imaginou que ela estivesse pelada. A segunda-feira custou a chegar.  Ela aumentou o decote. Ele aumentou os olhos. Ela o achou mais baixinho. Ele achou um jeito de chegar. Falaram por cinco minutos. Dados básicos. Nome, onde trabalham, coincidências do horário, profissão... Justificaram que estavam atrasados e foram cada um para o seu lado. Ela detestou o tênis dele. Ele adorou a pinta no rosto dela. Ela imaginou quantos anos ele teria. Ele imaginou quantas noites eles teriam.  Chegou o dia seguinte, a mesma hora e o mesmo local. Ele não apareceu. Ela ficou sem graça. Ele jogava xadrez com um amigo. Ela jogava fora a esperança. Ela ligou para as amigas. Ele ficou na esquina jogando conversa fora. Passou a hora, passou o local e quase passou mesmo a esperança dela. Encontraram-se no fim da rua. Ela o achou mais bonito desta vez. Ele a achou mais interessante ainda. Combinaram de encontrar no dia seguinte.  Ela sonhou com o encontro. Ele encontrou os amigos. Ele pediu um chope. Ela pediu licença para ir ao banheiro. Ela falava de si. Ele falava dela. Ele gostava quando ela sorria. Ela sorria quando ele gostava. Ele a achou meiga. Ela o achou forte. Ele quis ficar a sós. Ela quis ficar a dois. Ela sentiu frio, de nervoso. Ele sentiu calor, de nervoso. Ela sentiu que era a hora. Ele sentiu que passava da hora. Abraçaram-se como dois amantes, se beijaram como dois adolescentes, se despediram como duas crianças.
Hoje eles têm dois filhos, um cachorro, uma calopsita, um aquário, um rancho e muitos amigos.
...E vivem como um casal que se ama.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem: https:// www.novohomem.com

Tem tantas histórias bacanas sobre início de relação. Umas ao acaso, outras encarregadas pelo destino. E a sua como foi?


Grande abraço

Leila Rodrigues

domingo, 31 de março de 2019

Trilogia






Aos 15 anos ela queria ser uma mulher famosa. Dessas que atuam na TV ou cinema. Quem sabe uma blogueira com milhares de fãs? Fama, sucesso, holofote e  atenção da mídia era tudo que ela considerava importante para ser feliz. Tentou. Tentou, se esforçou, gastou, investiu, insistiu, pelejou o quanto teve forças. E descobriu a felicidade sendo uma pessoa comum.
Aos 25 anos ela queria ser uma mulher perfeita. Perfeita daquelas de parar o trânsito. Corpão, cabelão, peitão, pernão e todos os superlativos que se pode atribuir à mulher brasileira juntos. Ser amada, desejada e idolatrada por muitos. Tentou. Tentou, se esforçou, investiu, insistiu, pelejou o quanto teve forças. E descobriu a felicidade sendo uma pessoa comum.
Aos 35 anos ela queria ser uma mulher rica. Rica daquelas que tem mansões e fazendas. Rica daquelas que investem na bolsa e compram uma bolsa Prada quando têm vontade. Rica daquelas que conhecem o mundo inteiro. Tentou. Tentou, trabalhou, esforçou, investiu, comprou, vendeu, insistiu, pelejou o quanto teve forças. E descobriu a felicidade sendo uma pessoa comum.
No fundo ela quis com todas as suas forças ser uma mulher bem-sucedida em alguma coisa. Em alguma coisa diferente da sua mãe, da sua vó ou das suas tias. Ela queria fazer a diferença na vida dos outros. Ela só não queria repetir o mesmo caminho comum daquelas mulheres.
Na contramão dos seus sonhos, entre tentativas e derrapadas, ela amou muitas vezes, desistiu e recomeçou outras tantas  vezes também. Se apaixonou, se casou, teve filhos, se separou, sobreviveu, estudou, amou de novo, venceu e se percebeu feliz vivendo casa fase que se apresentou em sua vida. Já não pensava mais na fama, no dinheiro ou na perfeição. Aprendera a ser feliz independente deles.
Nada contra quem é perfeita, quem fica rica ou quem é famosa; o importante nesta vida é não ter que tomar Rivotril pra ser feliz. É encontrar o seu momento de ser apenas uma pessoa, uma mulher como todas as outras.
Afinal, é a única coisa que realmente somos, mulheres. O resto apenas estamos.

Leila Rodrigues

Publicada Revista Xeque Mate
Imagem: https://www.consueloblog.com/video-das-3-geracoes-em-londres-costanza-allegra-e-consuelo/

Escolhi esta imagem porque sou uma admiradora da Constanza e agora também da Consuelo, sua filha. 

Olá pessoal,

Em assim, no ultimo fim de semana de Março, ofereço esse texto em homenagem às mulheres! A todas vocês, a minha admiração e o meu respeito. Eu sei, que em cada uma de vocês, existe uma linda história para contar.
Todos os dias, todos os meses são nossos! 
Grande abraço

Leila Rodrigues


sábado, 23 de março de 2019

Sobre o tempo que flui




Lá vem ela, a semana. Não importa se o seu fim de semana foi de agito, de descanso ou de faxina; ela vai chegar de qualquer jeito. Não importa se você está entusiasmadíssimo com a sua vida ou sem disposição nenhuma para fazer acontecer. Quer queiramos ou não, ela vai acontecer.
Para quem está à espera, cada dia será uma eternidade. Para quem tem uma entrega a fazer, os dias passarão “voando”. Apressados e impacientes que somos, sequer percebemos que o tempo é o mesmo. Os dias não atrasam nem voam, simplesmente acontecem como tem que acontecer.
E assim continuamos com nossas mazelas, nossas manias e nossas esquisitices tão normais. É tudo tão automático, tão corrido que não nos damos conta de que acordamos sempre apressados e tomamos o mesmo café rápido de todos os dias. Cumprimos nossos compromissos, seguimos a cartilha e damos conta do recado. Às vezes com o coração abarrotado de alegria, noutras, com o mesmo coração abarrotado de dor. Mas sempre em frente.
Quem nos vê não sabe nada de nós. Não sabe o que carregamos, quem carregamos, nossas angústias ou aflições. Quem nos vê conhece apenas a foto retocada para a rede social, que mascaradamente, anuncia que está tudo bem. E assim todo mundo acredita, até nós mesmos.
No quebra-cabeças da vida, estamos todos juntos.  Nossas atitudes se encaixam nos dias, que se encaixam na semana, que se encaixam nas vidas uns dos outros. Estamos todos interligados, muito além da tecnologia. Nossas intenções e atitudes caminham como um rio que encontra os rios e caminham juntos até o mar. Quem ainda pensa que caminha sozinho é porque não entendeu a força das relações. Estamos todos juntos e, estando juntos, carregamos sem perceber uns aos outros. Seja no colo ou no coração, ora carregamos alguém, ora somos carregados. A grande lição é entender de que lado estamos e que tudo pode mudar. Não existe lugar marcado, não existe posição fixa para nenhum de nós.
Sigamos pois. Sigamos na certeza de que, em alguém momento, tudo fique realmente bem. Se não for hoje, será amanhã; se não for agora, será daqui a pouco. Uma hora somos agraciados com a fluidez dos fatos e tudo chega no seu devido lugar.
Ocupemos pois nossos lugares e vivamos nossos dias, semanas e  meses. Não existe nada melhor que o tempo para responder nossas perguntas e acalentar nossas expectativas.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem: http://wpos.com.br




Olá pessoal,

Seja no colo ou no coração, ora carregamos alguém, ora somos carregados. Te convido à entender de que lado você está. Afinal, não existe lugar marcado, tudo pode mudar!


Leila Rodrigues

sábado, 16 de março de 2019

De mudança


Antes de trancar a porta olhei  para trás e vi a casa vazia. Assim parecia bem maior. No lugar da mobília apenas o sinal dos móveis na parede. No lugar do barulho, apenas o eco assustador. Dei a volta e fui me despedir do pé de limão. De tudo, ele é o que vai me deixar mais saudade. Foi plantado por mim. Desejei que ele continuasse dando muitos frutos e que o próximo morador gostasse tanto de limão quanto eu. Bati o portão e fui.

O processo de mudança estava só começando e eu já estava exausta. Exausta de ter que juntar os meus cacos, exausta de ter que abrir gavetas que eu achei que não abriria nunca mais, exausta por ter que enfrentar a poeira de tudo que ficou muitos anos guardado. Inclusive a minha. Enquanto o caminhão seguia eu olhava no retrovisor a rua em silêncio. Ela parecia se despedir de mim. De cansada, cochilei em pleno caminhão de mudança. 

E desce coisa, sobe coisa, desmonta daqui, monta dali, descarta aqui, aproveita de lá... É muita transformação para um momento só. O que antes cabia em 3 gavetas agora vai ter que caber em 1. Aquela velha cômoda que ficava escondida no fundo do quarto de bagunça agora encontrou seu canto na sala de estar e sorriu.  E assim as adaptações vão acontecendo e o novo espaço se forma. 

Mais cansada ainda cheguei na janela e pela primeira vez, observei melhor a nova paisagem.  Daqui de cima dava para ver a copa de um flamboyant no jardim da escola. Crianças brincando. Um vizinho de baixo tocando violão e uma manada de cachorros (Maltezes brancos como a neve) na vizinha do primeiro andar. Dei as boas vindas a todos eles, me apresentei à mãe natureza daquele novo lugar, respirei fundo e fui viver.

Lá fora o novo me aguardava radiante de felicidade! Hora de começar de novo, de conhecer o novo, de fazer novas amizades e montar de novo um habitat todo meu. Eu me sentia completamente agradecida pela minha história até aqui e inteiramente vazia para que o novo me preenchesse. 

Hora de arrumar a casa e esperar os novos vizinhos e  os velhos amigos. Os novos e os velhos que se misturarão para formar um novo grupo, de novo! Afinal, é preciso oxigenar! 
É preciso desapegar para se ter onde apegar novamente. 
É preciso aproveitar a mudança para mudarmos também! 

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Div e no JC Arcos

Olá pessoal

Quando não mudamos, vem a vida e nos muda de alguma forma. Então, mudemos com as mudanças!
Grande abraço



Leila Rodrigues

sexta-feira, 1 de março de 2019

Trocadilho



Eduquei meus filhos com a brincadeira da troca. Quando entrávamos em qualquer estabelecimento comercial, eles me perguntavam se podiam comprar uma “coisinha”. Quando podia, era sempre uma coisa só. E assim, enquanto eu fazia minhas compras eles iam trocando as “coisinhas” até chegar a um denominador comum entre o desejo deles e o valor que eu estipulava. Se foi certo ou errado, eu não sei, mas funcionou.
O tempo passou, eles cresceram e eu segui em frente com as trocas da vida. Não sou de trocar meus pertences, mas a vida me ensinou que trocas são necessárias.
Hoje  troco com facilidade algumas coisas.
Troco uma resposta que estava na ponta da língua, por um um minuto do meu silêncio. Troco uma discussão acalorada sobre política, pelo meu direito de não entrar na discussão. Troco uma festa chique, cheia de gente desconhecida, por uma mesa com amigos. Troco o barulho da casa noturna mais badalada da cidade, pelas manhãs de domingo ao som dos passarinhos que visitam a minha parreira. Troco o salto fino de grife da loja mais chique da zona sul, por um tênis confortável que me leva onde eu quero e troco a esteira mais moderna da academia por uma caminhada ao ar livre. Troco a carne pela salada. Troco a TV pelos livros e troco a rede social pela presença de um amigo.
Ao longo da vida troquei muitas vezes. Troquei de partido, troquei de emprego, troquei de casa, troquei de carro e troquei seus por meus dúzia. Troquei a cor dos cabelos, troquei a chave do portão, troquei a foto na parede e troquei dinheiro por atenção. Troquei o campo pela cidade, o certo pelo duvidoso, troquei desaforos, troquei farpas e, de vez em quando, troquei as bolas.
Vi  gente trocar de sexo, vi outros trocarem de lugar. Vi gente ficando com o troco e outros sem ter o que trocar.
Fui trocada por alguns, dei o troco em outros, troquei a noite pelo dia e, por alguns trocados, troquei sossego por confusão.
Troquei meu estilo de vida, troquei minha forma de ver, troquei gato por lebre e troquei de lugar sem querer.
Apesar de tudo, nunca troquei de time, nunca  troquei meu fardo e nem a minha religião.
E como não podia deixar de fora, além das pessoas que amo, tem aquelas coisas que eu não troco por nada desse mundo, minha cachorra, meu travesseiro e meu café coado na hora. Cada um tem seu preço e cada preço o seu valor. Quer trocar?

Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem: http://tautonomia.blogspot.com


E trocando, nós vamos nos transformando!

Boa leitura a todos!

Leila Rodrigues

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

O Ponto Equidistante



Um acorda cedo, o outro dorme tarde. Um virou vegano, o outro aprendeu pilotar. Um conseguiu aposentadoria e o outro acabou de passar no vestibular...
É assim. Por mais que andemos juntos, de mãos dadas muitas vezes com quem amamos, a vida apresenta caminhos opostos para cada um de nós.
Cada um vai conduzir a sua vida conforme suas próprias expectativas. Cada um vai querer realizar seu sonho e por mais que o outro esteja presente, sonho é singular, sonho é de cada um.
E assim, quando nos damos conta, cada um caminha em direção diferente. Muitas vezes até oposta. Sobram as poucas horas exaustas depois do jantar, sobram os espaços ínfimos entre uma obrigação e outra, sobra um olhar apressado pedindo um pouco mais.
Tudo vai contribuir para que a distância aumente. O cansaço, os compromissos diferentes ou as propostas irresistíveis do mundo. É preciso resistir. É preciso resistir ao tempo, aos compromissos e às intempéries da vida. É preciso  que haja entre os dois um ponto equidistante, um lugar no tempo e no espaço que seja só dos dois. Um lugar onde eles possam se encontrar e ali, naquele momento não exista diferença alguma. Um lugar só deles. Um lugar ou um momento para chamarem de seus.  Um lugar onde a linguagem seja a mesma, os interesses sejam os mesmos e o amor possa fluir tranquilo. É preciso ter um tempo para praticar o exercício do amor.
Uma vez encontrado este ponto equidistante, vence quem faz bom uso dele. É preciso,  sempre que possível, que se escondam neste lugarzinho sagrado. É preciso deixar que o resto do mundo espere lá fora.
É no ponto equidistante que os dois se divertem, que eles riem um do outro, que eles contam as novidades, as conquistas e os sonhos. É ali, no ponto equidistante de cada casal, onde a mágica acontece. Onde a palavra intimidade tem realmente sentido.
É no ponto equidistante que os casais se fortalecem. E voltam revigorados para seguirem seus caminhos, seja junto ou separado.
O ponto equidistante não exige pompa nem circunstância, não exige dinheiro, nem tampouco lugar marcado ou hora para acontecer. Ele simplesmente acontece. E valida em nós o mais nobre dos sentimentos, o amor. É ele que explica porque pessoas tão diferentes podem se dar tão bem, é ele que explica o que ninguém consegue entender.
Quem ainda não descobriu este lugar, ainda não sabe o que é amar. Caminhos que distanciam, distâncias que unem.

Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem: http://parissodeida.com.br


E você? Já descobriu qual é seu ponto equidistante? E lá que os casais se fortalecem e voltam revigorados para seguirem seus caminhos, juntos ou separados.


Grande Abraço

Leila Rodrigues

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Para Lilian



Fico imaginando como seria a nossa festa de aniversário juntas. Quem seriam nossos amigos em comum? Será que você ia gostar de altura como eu? Ainda espero o dia de te abraçar.
Sinto sua falta. Queria poder te ligar e contar um monte de coisas comuns. Ou então chorar no seu colo e te contar o que faz doer meu coração.
Penso que meus vestidos ficariam muito bem em você. E que você ia conseguir dar um jeito nesse meu cabelo rebelde. Com certeza meu filho seria seu afilhado. E aquelas besteiras que eu não conto para ninguém, eu dividiria com você quando você estivesse triste.
Eu imagino que você tem cabelos lisos. E que me espera em algum lugar para continuarmos a caminhada. Quando a luz apaga e todos vão dormir, eu sempre imagino que você mora nas estrelas. E que um dia a nossa história há de continuar.
Te esperei em outras pessoas, tentei te achar em algum rosto que passou por mim. Mas não era você. Era só a minha vontade de ter você aqui.
Li, é assim que eu ia te chamar. É assim que eu te chamo sempre que penso em você. Ainda não te contei que finalmente estou conseguindo emagrecer, nem que a sua sobrinha passou no vestibular. Ah tem tanta coisa que eu queria dizer!
Desde que eu comecei a escrever, eu sempre acho que você está lendo. E que sopra no meu ouvido alguma ideia interessante.
Nunca deixei ninguém me ver chorando de saudade. Até aqui o nosso segredo estava intacto. Mas hoje algo diferente tocou meu coração. A saudade doeu. E a única forma que eu achei de amenizá-la foi escrevendo para você.
Lilian, minha Li. Minha pequena, minha irmã. Como dói não ter você aqui. Pra segurar a minha mão quando eu tenho medo. Pra cuidar dos nossos pais quando eu estou longe. Para me dar um abraço na hora da solidão.
Nossos três irmãos são pessoas maravilhosas. E cumprem muito bem seus papéis de filhos, irmãos e pais. Eu, no meio deles me sinto acolhida e amada. E com eles tive a melhor infância que uma criança pode ter.
Mãe também não se esquece de você. Não pode ver uma dupla de gêmeos que se emociona. E fala de você com os olhos molhados de amor.
Eu só queria ter crescido junto com você. Eu só queria que você estivesse em algum lugar que eu pudesse ir. Mas você não está aqui. Você não está em nenhum lugar a não ser dentro de mim.
Eu te espero todos os dias até o fim. Porque o fim é o começo. É você perto de mim de novo. Como aqueles poucos dias que tivemos.

Leila Rodrigues
Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
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Olá pessoal,

Às vezes a saudade aperta. Nessas horas é bom escrever e amenizar a dor da distância. Fico à espera de encontra-la novamente.

Grande abraço

Leila Rodrigues