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domingo, 13 de setembro de 2020

A arte de não saber


Nesta manhã eu acordei diferente. Não senti vontade de ouvir o rádio, nem de tocar no meu celular ou ligar a TV. Nesta manhã eu não quis saber como anda a briga do Donald Thrump  com a China e muito menos a guerra entre esquerda e direita no Brasil. 


Pela primeira vez em 180 dias eu não quis ver as estatísticas. 

O café, aquele mesmo café que eu tomo todos os dias, me pareceu diferente. Desceu devagar, não me queimou a garganta, apenas me aqueceu.

 

O dia prosseguiu e eu prossegui junto com ele. Trabalhei o que precisava ser trabalhado, comi o que tinha pra ser comido e para minha surpresa, não procurei saber como estava o mundo lá fora. Alienado? Eu? 


Eu posso explicar. Há exatamente 6 meses eu assisto todos os noticiários, ouço rádio, lives, palestras e qualquer pessoa que queira me dar uma explicação, uma resposta ou uma previsão sobre o nosso momento chamado pandemia. Eu estava exausto e deixando exaustos todos ao meu redor. Eu pude ver nos olhos da minha mulher que ela não me suportava mais. Eu estava bem perto de enlouquecer. 


Então eu decidi ter uma conversa comigo, coisa que sempre faço quando sinto que não estou bem, mas que, desta vez, de tão envolvido com os temas da atualidade, não me lembrei de fazer. A minha conversa comigo não foi muito longa. Eu perguntei para mim mesmo por que eu carregava tamanha ansiedade? Por que esse desespero para saber tudo, todas as notícias, todas as informações? O quê eu pretendo fazer com estudo isso? 


Esperei respostas que não chegaram. Esperei a cura, esperei a vacina, esperei que as pessoas tivessem consciência, esperei que tudo fosse um sonho coletivo, mas não foi nada disso. 


Cansado de esperar me dei conta de que a vida continua, eu e meu cachorro estamos engordando a cada dia, as plantas continuam crescendo e o meu cabelo precisa ser cortado.  O tempo não parou. A vida não parou. 


Então optei por não saber. Por não ser mais o dono da notícia. Por não brigar para ter razão.  Por não conhecer mais quantos mortos, quantos infectados... Neste momento o que eu sei mesmo é que preciso viver. Viver, trabalhar, me cuidar, colaborar de alguma forma e me encantar com alguma coisa do caminho. Se tudo isso foi “preparado” para nos fazer parar. Que esta parada me permita fazer melhor, fazer direito e fazer bem feito. 


A arte de não saber é estar aberto para aprender. Aqui estou eu, sem saber nada, aprendendo com tudo isso!


Leila Rodrigues


Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

Imagem: https://imagens-de-fundo.blogspot.com/2012/04/desenho-de-homem-solitario.html


Olá pessoal,


eu espero que estejam bem e se cuidando. Não acabou. Estamos em processo, estamos em um aprendizado coletivo de dimensões inimagináveis. Sigamos pois que não é o mais forte nem o mais inteligente que sobrevive, mas o que melhor se adapta.


Grande abraço


Leila Rodrigues

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Queridos lobos


Aqui de fora, do lado que se pode ver, tem uma pessoa lutando como louca para dar conta de todos os seus papéis. Não podemos reclamar de nenhum deles. Todos são  papéis que escolhemos, que assumimos e que não abrimos mão.  O papel de pais, de esposa ou de marido, o papel de filhos, de empresários, de profissionais, sejam estes bem sucedidos ou não, o papel de defender alguma causa social, de participar de uma instituição e ainda o papel de cidadão em um país com as deficiências do nosso. Enfim, ser a pessoa que somos dá um trabalho danado. Mas é um trabalho bom! Trabalho escolhido por livre e espontânea vontade, ainda que seja tão difícil equilibrar tudo. Todos conhecem a pessoa madura e forte na qual nos tornamos.
Mas dentro de cada um de nós,  aqui deste lado que só eu e você conhecemos, ainda falta muito!
Dentro de cada um de nós, escondido e encolhido moram nossos medos, nossas pequenices, nossas falhas. Aquelas que ainda não conseguimos vencer. Nossos desejos proibidos, nossas intenções negras, aqueles pensamentos sórdidos trancados a sete chaves. É lá dentro, lá onde ninguém chega, que residem nossas verdadeiras máculas. E torcemos para que Deus seja tão ocupado que não tenha tempo de conhecê-las. 
A maldade, a vaidade, o ciúme e a inveja. Este lobo mal que alimentamos silenciosamente. Ah como é difícil conviver com essa verdade! Como é difícil aceitar que somos tão frágeis e que o caminho da verdadeira evolução é longo! 
É certo que não somos só isso!  O que nos salva é que, na outra jaula de nossos corações, reside um lobo bom. Capaz de amar e de se compadecer. É ele que não nos deixa por em prática tudo que pensamos. É ele que, entre um dia e outro, acorda nossos sentidos e não nos deixa cometer um desatino. É ele que nos dá prudência, sabedoria, discernimento, razão e afeto na proporção certa. É ele que nos permite viver nossos papéis. É ele que nos silencia na hora da briga e nos dá voz na hora da defesa. É ele que nos mostra o caminho e nos traz de volta à nós mesmos.  Aqui reside a nossa lucidez, a centelha de luz que carregamos. A verdadeira e silenciosa bondade. A que luta contra nossas vaidades e pequenices. E é ele, este pobre lobo bom que carregamos, quem devemos alimentar todos os dias. 
Difícil mesmo é saber qual dos dois tem sido nosso guia. 

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos

Olá pessoal,

o ser humano tem brigado mais que o normal, tem se ofendido mais e tem ferido o outro com mais facilidade. Nesses últimos dias, aqui no nosso amado e idolatrado país, temos assistido brigas homéricas em função da política. Temos visto lobos ferozes, esbravejando, rosnando e mordendo, na tentativa louca de provar que o outro está errado em suas escolhas. Vindos de todos os lados eles atacam e pervertem. Alimentados pelo ódio, pela descrença ou pelo cansaço, eles brigam como se estivessem num ringue, onde o vencedor tem que comer o outro vivo até que não lhe sobre absolutamente nada, tampouco dignidade. 
Existe um lobo bom morrendo e sede e fome, alimente-o!

Grande abraço


Leila Rodrigues

Das dificuldades da vida


Não é difícil para mim, acordar cedo e ir  trabalhar. Não é difícil para mim, resolver conflitos, orientar pessoas, receber clientes e ajudá-los a resolver seus problemas. Também não é difícil para mim, chegar cansada em casa e ainda arrumar o jantar. O prazer de ver a família reunida, jantando, supera qualquer cansaço. E assim, movidos pelo amor às pessoas e às nossas causas, não é difícil viver. 
Não é difícil viver sozinho e não é difícil criar uma família. São propósitos de vida, portanto imagino que não sejam difíceis para  quem se propõe vivê-los. 
Não é difícil ser um cidadão comum. Pegar fila, esperar a minha vez ou falar a mesma coisa muitas vezes nas repartições públicas. Enquanto cidadão, valho tanto como qualquer outro e isto é bom. Me põe no meu verdadeiro lugar.
Não é difícil cuidar dos nossos pais, tampouco dos nossos filhos. Por mais que haja dificuldades, é tanto amor envolvido que tudo se ajeita. 
Difícil é suportar os entraves, disfarçados de pessoas, que surgem. Isso é difícil! Gente mal educada, que atravanca os processos, que nasceu para complicar o que já estava resolvido, isso é difícil! Difícil é ter que dar satisfação da sua vida para quem não foi convidado para fazer parte dela. Difícil é ter que conviver com pessoas que “não suportam” a nossa felicidade. Difícil é ter que “pisar em ovos” com pessoas dispostas a explodir a qualquer momento.  Ah como é difícil! 
Difícil é suportar pessoas que só tem olhos para seu próprio umbigo. Só enxergam a si mesmas. Seus problemas, suas causas, seus atributos, suas escolhas. Essas são insuportáveis. Difícil é ter que conviver com quem não sabe ganhar, nem tampouco perder. Quando ganham são sarcásticas, quando perdem são céticos. 
Difícil mesmo é conviver com essas pessoas e enxergar o lado bom delas. Isto é o mais difícil de tudo! É transcender as fraquezas do indivíduo e chegar a um lugar que ninguém conhece (ainda). Como assim, se eu ainda não transcendi nem as minhas próprias fraquezas? 
Difícil é amanhecer disposto a fazer a sua parte e esbarrar nestas pessoas. Difícil é saber conduzir nossas vidas e não permitir que essas pessoas nos roubem nossa energia, nem nossa alegria de viver. Isso é evolução da espécie humana. E talvez explique a existência de todas essas pessoas em nossas vidas. Só se evolui com provações! Aí estão elas! 


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos
Imagem: http://ambientes.ambientebrasil.com.br/ecoturismo/eco-esportes/eco-esportes.html Rapel, um esporte belíssimo  e muito difícil (para mim)

Olá pessoal,

O meu sonho de escalar uma montanha por enquanto é só um sonho. Sou apaixonada por altura e o meu próximo passo será pular de para-quedas. Um dia chego à montanha!
Quanto à crônica de hoje, cada um no seu canto, sofre seu tanto! Vocês aí, com suas dificuldades e eu aqui com as minhas. Talvez o que seja difícil para mim, não seja tão difícil assim para você e vice-versa. 
O importante é compreendermos nossas “dificuldades" para criarmos mecanismos de combate a estes vilões silenciosos. 
E tudo há de ficar bem. Para mim, para você, para todos nós!


Grande abraço



Leila Rodrigues

sábado, 18 de agosto de 2018

Tenho, não nego



Tenho dúvidas. Muitas! Eu que um dia me senti cheia de certezas, deixei-as no caminho e hoje coleciono dúvidas diversas. Elas são fruto da minha curiosidade, da minha inquietude, do meu inconformismo com as circunstâncias e os fatos. 
Tenho medo. Muito! É ele que não me deixa atirar de cabeça no escuro. Aprendi a levá-lo comigo e posso dizer que hoje somos parceiros. 
Tenho sonhos! Muitos! Tenho sonhos, planos, projetos e propósitos! Combinados que faço com a vida e que dão sentido à minha existência. Não importa quanto tempo eu tenho pela frente, pretendo morrer sonhando. E em plena construção de alguma coisa! 
Tenho saudades! Muitas! Saudade de pessoas e de suas presenças, de momentos intensos vividos com pessoas especiais. Mas não confundo a minha saudade com vontade de voltar. Estou bem aqui. E a minha nostalgia é um livro de querer bem, onde guardo o que me foi precioso um dia. 
Tenho fé! Muita! Fé em Deus, fé na vida, fé nas pessoas. E até que me provem o contrário, todo mundo é bom. Embora muitos já tenham sim, me provado o contrário, ainda existem outros tantos que não me provaram nada. É nesses que eu deposito a minha fé. E por isso mesmo a minha fé é gigantesca. 
Tenho esperança. Muita! Tenho esperança de que o homem ainda volte a ser humano. Humano na mais pura expressão da palavra. E que, sendo humano, reconheça no outro um humano também. 
Tenho sentimentos. Muitos! E não há estatística que explique o que é isso que eu trago no peito. Porque a lógica do coração é outra! Tenho uma infinidade de sentimentos que se misturam dentro de mim. Ora tenho sentimentos nobres, ora tenho sentimentos confusos, difíceis de administrar. Tenho tristeza, raiva, ciúme, carência e, de vez em quando, desânimo de continuar. Gostaria de não tê-los, confesso. Mas eles existem e não justifica negligenciá-los a esta altura da minha vida. 
Tenho alegria. Muita! Alegria de viver. Alegria sem motivo. Alegria de estar aqui, vivendo esta experiência incrível de ser quem eu sou, no lugar que eu estou com as pessoas que cruzam o meu caminho. Nada poderia ser melhor que isto. 
E tenho amor! Muito! Ah é claro que eu tenho! Amor pelas pessoas, amor pelo meu amor, amor à minha profissão, amor ao universo que me comporta, amor à vida, amor àquela mulher que vejo no espelho depois do banho, amor! Não sei viver sem amar. 
Isso é tudo que eu tenho. O resto? O resto são artefatos; nada mais! 

Leila Rodrigues

Imagem: Acervo pessoal, eu e meu filho Gustavo, o que eu já fiz de melhor nesta vida. O que eu tenho de mais puro e verdadeiro amor.
Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos


Olá pessoal,

Hoje gostaria de agradecer publicamente a um amigo muito querido. O Sr. Wellington, um leitor que me acompanha desde que comecei a escrever. Ele sempre aparece na hora certa e do jeito certo. Sr. Wellington é daquelas pessoas que mais parecem frestas de luz na vida da gente. Esta semana ele me ligou e com seu único de falar comigo, me cobrou o livro. Meu querido amigo, atendendo ao seu pedido, decidi dar continuidade ao projeto do livro que já estava em andamento e foi paralisado por questões pessoais.
Então, para você que me acompanha aqui no blog, em primeira mão eu anuncio: O livro vem aí!!! Vou contando por aqui as novidades. Obrigada por todo incentivo que sempre me deram!

Grande abraço



Leila Rodrigues

domingo, 30 de outubro de 2016

Quando estamos juntos



Eles vieram. E meu coração bateu feliz como batia nas manhãs de domingo da minha infância. Eles vieram. E juntos fomos de novo os meninos de antes, a família de sempre. Minha mãe na cozinha, com seus temperos, seus cheiros e seu jeito doce de nos unir. Meu pai com suas memórias, suas histórias e seu frango caipira que desafia qualquer paladar. Éramos nós de novo. Os quatro em volta daqueles dois agora pequenos, mas tão grandes para nós. Eu e meus três irmãos. Aqueles que até hoje ainda chamo de “meninos”. Será por que? 
Talvez seja porque o nosso tempo de “meninos" tenha sido tão intenso e verdadeiro que ficou para sempre. Ou talvez porque no fundo sejamos mesmo aqueles meninos da Rua Antônio Eliazar. O fato é que, quando estamos juntos, somos de novo aqueles mesmos meninos. Os filhos do Déco e da Neusa. Depois de tudo que conquistamos na vida, a grande satisfação é saber que o que somos mesmo é filhos deles! 
Quando estamos juntos ainda fazemos arte, nos chamamos de apelido, quebramos por completo  as regras e nos deixamos ser meninos de novo. Juntos rimos das mesmas antigas piadas e contamos de novo os mesmos casos da nossa própria história. Cantamos e dançamos as nossas músicas, aquelas que ouvimos desde criança, aquelas que sabemos as letras de cor. Aquelas da radiola que tínhamos em casa. Não são simples musicas, são fragmentos de uma história. Da nossa história.
A esta altura já não dá mais para dançar tanto como antes, a coluna reclama, o joelho talvez. Mas é possível sentir a mesma alegria simplesmente porque estamos juntos. Não há tesouro maior que o amor deles! Não há nada que nos revigore e nos fortaleça mais que matar a sede neste pote chamado família. É assim quando estamos juntos. É assim que renovamos nossos laços.
Amanhã cada um vai continuar a sua vida. Eu com os meus problemas, com as minhas aflições e cada um deles com os seus desafios também. A luta é individual! Cada um vai tentar a seu modo matar o leão e alimentar o mamute. Cada um vai tentar como pode construir as suas pontes e derrubar os muros que tiverem pela frente. Cada um vai educar os seus filhos, exercer suas funções, amar os seus parceiros e sobreviver nesta selva. Porém, com alguma coisa em comum, nutridos pelo amor de quando estamos juntos, aquele momento que passa tão rápido, mas que segue nos saciando pelos dias afora…


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos
Imagem: acervo da família Rodrigues (que nunca ligou para foto)

Olá pessoal,

semana passada  mais um ciclo de vida. E desta vez eu quis a companhia deles. Deles, meus pais, meus irmãos, minhas cunhadas, meus sobrinhos, meu marido e meus filhos. 
Tudo que eu descrevi acima foi realmente vivido. Eu sinto falta de ser menina de vez em quando e ao lado deles é quando eu posso fazer isso. 
Cada família uma história. Uma história, muitos desafios e muitas alegrias. Essa foi a minha. Que a sua família e a sua história te fortaleça e te mantenha nutrido de amor.

Grande abraço




Leila Rodrigues




quarta-feira, 22 de junho de 2016

Tudo junto e misturado



Dizem que é rodeio, que é festa do peão, do agricultor e do produtor rural. Mas de rural mesmo tem pouco. Senti falta do gado, dos cavalos bem cuidados e dos concursos de animais. Soube que aconteceu porém eu não acompanhei. Vi lindos e variados chapéus que ornavam os rapazes de jeans super-justos e fivelas grandes. E também vi belas montarias. Um espetáculo à parte.
As mulheres esqueceram a roça e usaram de tudo. Plumas, peles e paetês; tudo no mesmo lugar. Justos, curtos, decotados e bordados que nada deixavam a desejar. Look verão, alto-verão, outono e inverno na mesma noite e no mesmo lugar. Tudo junto e misturado. O importante era festejar. 
Alguns foram para ver. Muitos foram para ser vistos e todos foram para se divertir. 
E como os gostos hoje são bem ecléticos era preciso agradar a todos. E agradaram! O trio-elétrico entreteve quem não gostasse do sertanejo. A boite tinha funk, pop e aquelas músicas de poucas palavras que a moçada gosta de dançar. Então, gregos e troianos acharam seu lugar e se divertiram. 
E se o assunto é música podemos dizer que tivemos grandes  produções. Para tristeza das mais velhas, as novinhas são sensacionais. Aquele 1%  é vagabundo e  os outros 99% estão loucos para chegarem lá. A vaca foi para o brejo mesmo! E para deixar todo mundo feliz "ainda ontem choramos de saudade" das antigas e boas canções sertanejas. 
O fato é que o tempo passa e um dia percebemos que "os donos do pedaço" já não somos nós. São eles, nossos filhos, sobrinhos e demais colegas  da mesma idade. As meninas de cabelos longos e os rapazes de barba cerrada. Não importa se nós achamos a música sem conteúdo ou a mania de selfie um disparate. Agora o tempo é deles e são eles que ditam as tendências e as verdades breves. Eles elegem o que é bom ou ruim  e os padrões que regem as escolhas de hoje muito provavelmente não tem nada dos padrões que escolhemos lá atrás. Para nós país, sempre fica a pergunta: “Será que já ensinamos tudo que precisava  ser ensinado?”  Provavelmente não. Mas chega um momento em que  a vida se encarrega de ensinar tudo aquilo que precisamos aprender. Foi assim conosco e será assim com eles. É preciso aceitar que, daqui para frente eles seguirão com suas próprias asas. Resta-nos assistir com a sabedoria de quem já passou por isso e sabe que logo ali na frente, os desafios serão bem maiores que o tamanho da fivela. 

Leila Rodrigues

Imagem da Internet: http://www.divinaexpo.com.br/#!fotos

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 21/07/2016








Olá pessoal,

Tem 20 anos que eu moro em Divinópolis e é a primeira vez que fui à Divina Expô. Obrigada aos amigos que me incentivaram a ir. Foi uma grande festa e eu me diverti de verdade. 
Ficam as lições… como em cada canto desta vida.

Grande abraço e que venha 2017

Leila Rodrigues


domingo, 12 de junho de 2016

Sinopse



Se eu te contar que moro em Bangladesch talvez tudo acabe por aqui mesmo. Não é verdade, mas seria bem mais fácil. Pagaríamos a conta, ainda sorridentes e ao cruzar a esquina deixaríamos este momento para trás. Eu não teria que pensar se amanhã você iria me ligar ou não. Eu não teria que me preocupar em comprar um vestido preto para te impressionar, porque os homens adoram vestidos pretos e eu não tenho nenhum. Simplesmente ficaríamos aqui por mais algum tempo e sem a pretensão de te agradar, eu te contaria como foi a minha viagem a Cuba, mesmo sem saber se você tem algum interesse em Cuba.
Mas e se eu te contar que aliso os meus cabelos, que tenho mania de dormir com o dedo no ouvido e que gosto de acordar de madrugada para escrever, você vai sorrir e achar tudo isso uma graça, porque tudo no começo tem graça, até a coisa mais sem graça do mundo. 
Embora o seu sorriso me seja tão convidativo a continuar a conversa, ainda não decidi se te conto ou não. Não sei se mudo o rumo dessa história a partir da página um, ou se permito que ela se escreva do jeito que tem que ser. Talvez seja melhor contar de uma vez e assim não precisarei parar o meu tratamento noturno com creme de abacate no rosto. E nas férias, não vou precisar procurar lugares românticos com chalés e lareira. Menos trabalho.
Só vou te ouvir mais um pouco, por que gostei quando você falou que tem o CD novo do Caetano. Você nunca foi a Cuba, mas conhece a história melhor que eu que fiquei dois anos lá! Ai meu Deus! Por favor, pare logo de me dar atenção, senão eu não vou conseguir te contar os meus defeitos e amanhã toda vez que o telefone tocar eu vou querer que seja você! 
Aqui estou eu fazendo a sinopse de um livro antes mesmo dele ser escrito. Repara não, são os tombos da vida que fizeram isso comigo.
Será que vou ter que começar a chorar aqui agora no meio do bar e dizer que sou depressiva, desde os meus 13 anos, porque aí você para de ser lindo, para de ser educado e vai embora de uma vez?  
Pior de tudo é que mesmo que eu pense isso a minha boca está me traindo! Ela não consegue dizer quase nada a não ser sorrir. 
Você nem imagina, mas o meu cartão de crédito está estourado, preciso urgentemente trocar os dois pneus do meu carro e amanhã eu pego o plantão às 07:00 da manhã. Mas não sei por que fiquei feliz em saber que estivemos no mesmo show do Roger Waters, embora um nem soubesse da existência do outro. 
Que coisa mais louca isso! Se eu deveria sair correndo a vontade passou e o tempo também. Olha só, tem mais de três horas que estamos aqui conversando e eu nem vi o tempo passar. Nossa, o bar já está fechando! E eu estou indo embora com a sensação de que eu me esqueci de te contar alguma coisa! 

Leila Rodrigues


 Olá pessoal


Começar de novo não é tarefa fácil. Acompanho alguns amigos e sei o quanto isso exige coragem e um desprendimento gigantesco. É preciso colocar o passado em seu devido lugar e deixar o coração aberto para que o novo aconteça. Para voces, meus amigos guerreiros que eu tanto admiro, o meu carinho e o meu abraço. Vocês são a prova viva de que a felicidade é possível.

E que o amor “acometa" a cada um de vocês.

Grande abraço

Leila Rodrigues



domingo, 5 de junho de 2016

Culpa da modernidade




_ Morreu! 
_ Não. Mas ouvi dizer que está muito mal. Coitada! 
_ Será que é alguma doença grave ou velhice mesmo?
_ Como assim velhice? Se a mãe dela ainda é viva?
_ É mesmo! Não tinha me atentado para este detalhe. Certamente deve ter adoecido.
_ Pouco provável! Cheia de doutores na família. Se bem que a doença é inerente…
_ Dizem que é depressão.
_ Eu acredito.
_ Não suportou a evolução. 
_ Foi demais para seu coração enfraquecido.
_Tudo começou com o orkut. Depois vieram o facebook e por último o watsap. Ela não tinha como aguentar isso.
_ É muito vc, tb, tbm, cm, pq, s, n.
_ Sem contar os kkkkkkkk. Esse ai acabou com ela.
_ Eu soube mesmo que a pressão subiu e ela foi parar no hpt. Desculpe, no hospital.
_ Estes foram apenas alguns dos agravantes. Ela não se conformou mesmo foi com o estrangeirismo. Este sim lhe custou um câncer.
_ Me lembro. Mouse, sandwich, deletar, software, design, chech-in
_ E “for sale” em tudo que é loja. Coitada!
_ As vezes ela se queixava comigo que estava morrendo aos poucos.
_ Foram muitas teses e doutorados tentando recuperá-la, mas o movimento inverso foi mais forte.
_Todos nós sabíamos o quanto tudo isso a abalava mas ninguém interviu a seu favor.
_ Não é interviu sua imbecil! É interveio.
_ Lá vem você me corrigir! Está parecendo com ela!
_ Mas o verbo intervir deriva do verbo vir e não do verbo ver. E a conjugação de verbos compostos deve seguir a conjugação do verbo simples.
_ Agora você comeu a coitada!
_ Escuta aqui sua idiota, eu não precisei comer a Gramática para conhecer a língua portuguesa! _ _ Eu apenas não parei de aplicar o que eu aprendi.
_ Então vamos mudar de assunto senão vai virar briga. Vai visitar a pobrezinha?
_ Só se você for comigo.
_ E se eu falar errado? E se ela me corrigir?
_ Fica caladinho…
_ Mas Dona Gramática adora conversar.
_ Eu digo que você está com dor de dente. Tudo culpa da modernidade.



Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos
Imagem da Internet



Olá pessoal,

Tive alguns problemas com o blog, por isso não tivemos postagens nas três ultimas semanas. Agora já está tudo bem. Peço desculpas aos que já estão acostumados a visitar o palavras. Infelizmente ainda sofremos com invasão de nossos sites. 
Sobre o texto de hoje, imaginei nossos heróis batendo um papo. Cora Coralina, Cecilia Meireles, Drummond, Veríssimo e tantos outros defensores da nossa gramática. 
Obrigada pelo carinho de sempre.
Grande abraço

Leila Rodrigues




domingo, 10 de abril de 2016

Por Luiza


Era para ser um domingo como outro qualquer, mas um convite inusitado me fez mudar a minha rotina e atravessar o centro da cidade às 06:30 da manhã daquele domingo. Luiza nasceria bem cedinho e eu fui convidada a assistir o parto. Eu já havia assistido outros partos, mas este é um convite que nunca recuso. É um privilégio participar desse momento mágico que é a chegada de um novo ser neste nosso mundo.
Família reunida, mamãe e papai aflitos e ao mesmo tempo felizes, despedidas  e selfies antes dos pais atravessarem para o lado proibido, a sala de cirurgia. Era o quarto bebê da família. Um ato de coragem e amor dos pais para os padrões do nosso país que não quer saber de família "grande". E pensar que antes as famílias tinham oito, dez filhos!
Ela chegou como chegam os bebês, chorando. E nós que disputávamos o espaço da minúscula salinha de "assistir parto" choramos de emoção com sua chegada. Mas eu, surpreendendo a mim mesma, chorei mais que o costumado choro de emoção.
Chorei de alegria por ter participado de um momento mágico como esse. Chorei quando vi naquele pequenino ser um livro em branco que começava a ser escrito. Enquanto eu observava Luiza ter seus primeiros contatos com este nosso mundo, recostei no sofá e deixei as minhas lágrimas rolarem soltas pelo meu rosto. Todos estavam ocupados demais com a pequena Luiza e eu podia curtir todos os sentimentos daquele momento do meu jeito. Era um choro bom! Um choro pela vida.
Chorei os filhos que não tive coragem de ter porque o trabalho e o resultado foram mais importantes naquele determinado momento da minha história. Chorei a saudade dos meus filhos pequenos necessitando dos meus cuidados. Chorei a fragilidade e a grandeza daquele bebê ainda tão recente e capaz de despertar em mim sentimentos guardados por tantos anos.
O pai de Luiza a trouxe para bem perto de nós e pude observar seu rostinho delicado pronto para viver mais uma história de amor.
Voltei para casa pensando e desejando as melhores e mais puras energias para aquela pequena. Inspirada em Luiza cheguei à conclusão de que eu não posso começar um livro novo, mas posso virar a página e escrever um novo capítulo. Sempre haverá algo a renascer dentro de nós!

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem gentilmente cedida pela mãe de Luiza - Rita Viana

Olá pessoal,

essa doçura de bebê da foto é Luiza. A razão desta crônica. Não há nada mais apaziguador para os nossos corações apressados que ver um bebê dormir. É tão profundo e ao mesmo tempo tão leve que nos remete automaticamente à paz.   Que possamos sempre enxergar nos bebês a esperança de uma geração melhor que consequentemente construirá um mundo melhor.

Grande abraço, obrigada pela visita


Leila Rodrigues

sábado, 2 de abril de 2016

Lá vem ela


Lá vem ela descendo o morro, em cima do salto, começar tudo de novo. Lá vem ela causando discussões e interrogações por onde passa. Ela já chorou, já se descabelou e já armou o maior barraco. Depois dormiu e acordou pronta para começar tudo de novo. É! Ela vai começar do zero novamente. E ai de quem atravessar o seu caminho! Sim ela vai amar de novo, vai querer jogar tudo para o alto e vai chorar depois. Ninguém muda a natureza dos felinos, e ela é um deles. 
Lá vem ela com seus cabelos um dia curtos, no outro louros e no dia seguinte lisos como uma índia Guarani. É assim que ela aguenta as lutas. Ela se desfaz, se refaz e se satisfaz. As vezes acho que medo não existe no seu dicionário, depois descubro que ela vai com medo mesmo. Apenas enrola o medo no lenço colorido que envolve o seu pescoço e segue em frente.  Lá vem ela toda estilizada, com a bolsa que pegou da tia e transformou em nova. Ela tem esse poder. Transforma qualquer sapato em um numero que lhe sirva, transforma qualquer roupa em look e qualquer acessório em atração fatal. Ela é assim! Imprevisível. Única. 
Um dia um novo amor, no outro um novo emprego, uma nova casa, um novo amigo e o velho olhar esperto para tudo que a rodeia. Não pense que você a tem! Ela não é de ninguém! Ela não segue regras, nem as que ela mesma tenta impor. Ela não tem paradeiro nem destino certo. Ela é do mundo e eu sou alguém que vai passar a vida vendo-a perambular por aí.
Atrás da louca existe uma mulher séria e meiga. Alguém que a vida não poupou e que pagou caro pelas escolhas que fez. Alguém que escolheu viver sozinha, que escolheu seguir a sua própria cartilha com as referências que melhor lhe convieram.Se toda história tem o enredo certo, a dela certamente seria uma grande novela. Tudo seu é mais intenso, é mais bravo, mais forte, capaz de superar toda e qualquer expectativa. 
Ela tem pressa de ser feliz e escolheu tentar. Aquele coração cigano não vai se conformar tão cedo com uma vida comum. Ela vai sair por aí procurando a felicidade em algum canto de uma “have" lotada de gente. Um dia ela vai enxergar que a felicidade, esta que ela tanto bate a cabeça procurando, mora bem dentro do seu coração rebelde.
E eu continuarei aqui, na expectativa dos acontecimentos, amando-a e aprendendo com ela alguma coisa que nem ela sabe que me ensina. A vida é assim, um grande aprendizado!


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos.
Imagem da internet - Juliette Binoche vive Rebecca no filme Mil vezes boa noite (2013)

Olá pessoal,

depois de alguns dias fora aqui estou de volta com meus textos. Temos tido dias tensos e intensos ultimamente. E nesses dias tensos e intensos tenho visto muitas pessoas começando de novo. Muitos deles não por opção, mas porque a situação lhes impõe que recomecem. É preciso ir, ainda que nem se saiba para onde! E foi pensando nisso que escrevi o texto acima. A todos os que estão recomeçando alguma coisa que consigam renovar suas energias e descobrir em cada canto um novo encanto.

Grande abraço


Leila Rodrigues