domingo, 23 de outubro de 2016

Entre eles


Ele quer um filho, ela quer um cachorro. Ele gosta de carne, ela acabou de se tornar vegana. Ele é piloto e ela tem medo de altura. Ela corre toda manhã, ele corre da atividade física. E ainda assim estão juntos e buscando a felicidade.
Ela quer um ouvinte, ele quer uma amante. Ele quer viajar, ela quer vigiar. Ele quer um trago, ela quer um afago. Ele quer ação, ela quer atenção. Ele é de pouca fala, ela fala, fala e fala... E nenhum dos dois consegue enxergar o que o outro quer. 
Eles. Entre eles, por eles e a partir deles. Qual é a receita certa? O que faz com que duas pessoas acertem o passo e sejam felizes juntos? Vejo tantas pessoas que vivem juntas, debaixo do mesmo teto e a milhas de distância um do outro. E também já vi pessoas que se relacionaram durante anos em países diferentes e foram muito felizes. Será o tempo, o dificultador? Ou seria a distância?  Provavelmente a distância que se criou entre os dois! Há quem diga que é preciso que se pareçam. Também já ouvi dizer que é nas diferenças que se completam. A receita é de cada um. Ou melhor, de cada dois. A receita certa é aquela que os dois constroem juntos na medida exata de suas vontades. A dose certa de ceder, de agradar e de apoiar é aquela que cada um pode dar sem cobrar em troca, portanto é única. É preciso não ter receita alguma, para que cada um possa ser livre para colocar os seus próprios temperos e assim formarem um bom sabor. 
A única premissa é que entre eles se fale a mesma língua. Entre eles e por eles. Há que se ouvirem e encurtarem o abismo que existe entre um falar e um ouvir. Há que se olharem mais. Se olharem até perceberem o que os olhos não veem. Há que se darem as mãos, ainda que caminhem por estradas distintas. 
É preciso gostar muito de si. A ponto de entender o gosto do outro. É preciso aceitar a escolha do outro, por mais amarga que esta lhe pareça. Sem preconceitos. Sem julgamentos. Afinal é isso que esperamos em relação às nossas escolhas. 
Que ele queira voar e ela queira o chão, não importa. Mas em algum lugar entre o chão e o céu, que eles encontrem um espaço só seus, para serem ali um só. A partir daí, todas as diferenças serão pequenas. 


Leila Rodrigues

Imagem da internet: https://www.tumblr.com/search/fotos%20peb
Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos

Olá pessoal,

Cada escolha que fazemos terá o seu preço. No entanto, algumas escolhas refletirão parece sempre em nossas vidas. A profissão, um filho e principalmente a escolha do parceiro ou da parceira. Ainda que não seja eterno, que tudo termine daqui um ano, dez anos ou cinquenta anos; um parceiro, por via de regra, deveria ser um grande amor e vice-versa. Quando escolhemos alguém, queira ou não escolhemos um pacote completo - uma pessoa, sua genética, sua família, seu ecosistema, suas manias, seus sonhos, seus predicados e sua história. Não dá para chegar zerado em uma relação e começar tudo de novo. Somos o resultado da nossa história até a um segundo atrás. E talvez por isso mesmo a convivência seja algo tão complexo. Complexo, vivo, dinâmico e desafiador!
“Entre eles” é fruto da minha observação e das muitas conversas que tenho com pessoas que não se cansam de tentar. De tentar, de experimentar, de acertar e errar… É a vida!

Grande abraço




Leila Rodrigues

sábado, 15 de outubro de 2016

Ao mestre




Eu tinha pressa. A ideia era assistir à apresentação do meu filho e sair. Não por não me interessar pelas outras apresentações, mas porque eu realmente tinha compromisso. E nada do evento começar. Só chegava gente! Turmas e mais turmas de alunos, vindos de várias escolas lotavam o ginásio. Lembrei de mim. Lembrei dos meus treze anos e do quanto nesta idade as "turmas" são importantes. Eles cantavam, dançavam e em uma manobra dificílima conseguiam colocar 20, 30 pessoas em uma só foto. A selfie era motivo de farra! 
Eu acompanhava quieta do meu canto. Gosto disso! Gosto de ver as pessoas vivendo os bons momentos como se tivessem saboreando uma deliciosa fruta. A Banda da Polícia Militar fez bonito. Tocou para eles, musicas deles. E a meninada foi ao delírio. Lindo de se ver! 
Meu filho era apenas um no meio de centenas de crianças que se formavam no PROERD, Programa Educacional de Resistência às Drogas. Um projeto que ensinou muito mais do que se pode imaginar. Um projeto que educa de verdade crianças e famílias. Que prepara nossos filhos para dizerem não. Que mostra como as escolhas erradas podem mudar para sempre nossos destinos.
O evento seguia bonito e cada escola se apresentava para os demais. Não dava para sair. Fui tomada pela energia dos estudantes e fiquei um pouco mais.
Quando realmente não pude mais ficar, me preparei para atravessar a multidão de gente. No meio da quadra uma professora sambava abraçada aos seus alunos. E quando um aluno pensava em ter vergonha de estar ali, ele olhava para ela que ditava os passos e ao mesmo tempo sorria para eles e seguia a dança. E diante daquela multidão de gente, aquela mulher vibrava por eles a cada passo a cada segundo de conquista. 
Lembrei da minha professora segurando a minha mão quando eu tinha vergonha de me apresentar. Lembrei de mim dando aula na escola da Vila Boa Vista e dançando junto com os meus alunos. Lembrei dos meus mestres e do quanto foram importantes para mim. Não consegui conter as lágrimas. Chorei. Ser mestre é isto! É devolver a auto-estima estraçalhada pelas circunstâncias. É estar ali do lado, presente, firme, não importa a plateia, não importa o resto. 
Essas palavras são para vocês, mestres brasileiros, que doam suas vidas na função de educar. Para vocês que muito além de ensinar, estimulam nas pessoas o gosto pela vida. Neste país que ainda não aprendeu a valorizar seus mestres, deixo aqui a minha reverência, o meu respeito, a minha eterna gratidão e todo o meu amor por vocês! 

Leila Rodrigues

Olá pessoal,

Talvez eu seja uma pessoa fora do padrão, mas sempre fui e continuo a ser uma pessoa apaixonada pela escola. Adoro estudar, adoro estar em uma sala de aula, seja como aluna, seja como professora. Magistério é a minha primeira formação e a minha base para tudo que faço. Jamais esquecerei das aulas de didática da querida Dona Sonia que me ensinou muito mais que o que a apostila propunha. 
Também não poderia deixar de falar das minhas professoras do primário do Grupo Abílio Neves em Campo Belo. O primário é tão importante em nossas vidas que essas professoras se tornam parte da nossa história. Dona Benedita e Dona Neusa, vocês são inesquecíveis para mim!
A todos vocês meus colegas de formação e profissionais do ensino, meus parabéns. Parabéns pela coragem de serem mestres! Que este país um dia aprenda a valorizá-los como merecem!
Grande abraço


Leila Rodrigues


domingo, 9 de outubro de 2016

Noves fora?



Mas afinal, quem ganhou? E quem ganhou, ganhou o quê mesmo? Se quem ganhou está perdido, quem perdeu está o quê? O que é ganhar ou perder no jogo das eleições? Em qualquer jogo, um tem que ganhar e o outro perder, mas no jogo das eleições o correto é o povo ganhar. E o povo anda perdendo! Perdendo o rumo, perdendo o ânimo, perdendo a fé. 
Desta vez, pelo menos por aqui, houve muito pouco tumulto. Não fiquei sabendo de nenhuma confusão. Quase ninguém foi preso e absolutamente ninguém tentou me assediar no caminho. Votei. Eu e os outros milhões de brasileiros. Exercemos nosso direito de cidadão? Ou terá sido o dever da opinião? Sei não! 
Em um país que tem mais de 5000 municípios e com mais de 16.000 candidatos a prefeito, acontece de tudo nas eleições municipais. De morte de candidato a candidato que sumiu. É o Brasil! 
Um ganhou de  "balaiada”, o outro por dois votos de diferença e teve ainda aqueles dois que empataram no 5811 votos. Na cidade em que dois irmãos disputavam em chapas diferentes, a mãe provavelmente não votou em nenhum dos dois. Coitada! Situação difícil! E tem ainda um senhor chamado “Nulo”, que concorreu no país inteiro. Pressinto que, se ele se candidatar à presidência, nem precisará de segundo turno. Só não sei se aparece para receber o cargo! E depois, para exercê-lo?
Com tudo isso, em muitas cidades, ainda não se sabe quem ganhou realmente. “Tamo junto irmão!”
Satisfeitos ou não, animados ou não, lá fomos nós, o povo brasileiro, às urnas novamente. O que me assustou foi exatamente o silêncio. A apatia é o primeiro sintoma de uma doença grave chamada desilusão. Deixa como é que está para ver como é que fica? Terá sido só mais um domingo? Eu espero que não. Afinal a história de nossas cidades pode ter realmente recomeçado a ser escrita neste domingo. Caso contrário, vamos ter que esperar, no mínimo, mais 4 anos.
Seja muito bem-vindo você que venceu. Se vai pegar a casa limpa ou suja, arrumada ou de pernas para o ar, isto eu não sei dizer. De qualquer forma, agora é com você! Faça valer o seu nome, faça-nos orgulhosos de você!
Independentemente de partido, de número de votos a favor ou contra, que fique claro para todos que assumirão em 01 de janeiro de 2017, nossas cidades precisam de quem as administre com seriedade e respeito. De quem coloque as necessidades acima dos interesses e sobretudo a ética e a honestidade como base das ações. Porque, caso contrário, noves fora nada!

Leila Rodrigues

Olá pessoal,

atendendo a pedidos, falei das eleições. Me reservo o direito de não fazer apologia a nenhum partido político e nem a nenhum candidato. Ouço muita gente dizer que não gosta de política e o número de votos nulos, brancos e justificados provam este fato. Você não precisa gostar de política, mas precisa gostar da sua cidade, do seu estado e do seu país o bastante para respeitar, cuidar e fiscalizar. Na minha opinião de cidadã, a eleição é apenas o primeiro passo. O nosso papel começa agora. Todos querem seus direitos de cidadãos, mas muitos poucos exercem seus deveres como tal. Cuidar, observar e acompanhar o desenvolvimento de nossos bairros, nossas cidades e consequentemente do estado e do país é trabalho de todos. Todos somos co-responsáveis. 
Se cada lugar tem o governo que merece, que façamos por merecer uma boa administração em nossas cidades.
Grande abraço


Leila Rodrigues






sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Juliana



Alguém pode achar que Montes Claros é logo ali. Provavelmente não pegou um ônibus às 23:00 numa sexta-feira e viajou a noite inteira para chegar até lá. A cada parada eu achava que tinha chegado e me preparava para descer. Engano meu, era mais uma cidadezinha para pegar algum passageiro. Algum coitado que como eu ainda não tinha um veiculo ou capital suficiente para ir de avião.
Coisas do amor! Faria tudo de novo. De ônibus, noite a dentro, no batidão só para vê-lo. O Rafa. O meu Rafa! Ele estrearia no time da cidade, o Montes Claros Futebol Clube no dia seguinte.
 A grana estava curta, na faculdade aquele aperto de sempre, no trabalho a mesma pressão pelas metas mas a minha vontade de estar lá falou mais forte. Fiz adiantamento no trabalho, perdi a aula de sexta, arrumei tudo na correria e fui. Se alguém acha que namorar jogador de futebol tem glamour, está enganado. É uma grande aventura! A aventura do encontro.
Eu corria o risco de não chegar nem perto do Rafa; iniciante no time, precisava mostrar disciplina. Se o treinador determinasse concentração total eu estaria perdida. Fiquei indecisa. Falo ou não falo da surpresa para ele? Optei por ir sem nenhum aviso prévio.
No caminho, enquanto o ônibus sacolejava pelas estradas inexplicáveis do norte da nossa querida Minas Gerais, entre um cochilo e outro, eu pensava na força que me movia até ali. Eu, essa quase mãe de família que tem um irmão para criar, essa estudante de arquitetura que ainda tem um curso inteiro para pagar, essa pessoa que acredita que no amor é preciso correr riscos. Pela primeira vez experimentava o que seria amor.
Cheguei. A cidade ainda adormecia. O meu dinheiro mal dava para um café. Da rodoviária até o estádio me perdi várias vezes. Conheci quase todas as praças, as igrejas e as lojas do caminho. No estádio simples, os torcedores esperavam o novo jogador. Eu ouvia os comentários orgulhosa! É do meu Rafa que eles estão falando. 
Começa o jogo, Rafa entra em campo. Caminhei devagar até a grade que separava o campo dos torcedores. Encostei-me e desejei-lhe boa sorte. Senti quando ele me viu lá de longe. Meu rosto queimava. Sorri e deixei meu coração bombardear à vontade. Naquele dia ganhei um gol. O primeiro de muitos. 

Leila Rodrigues

Inspirado na história de Juliana e Rafael, um casal de jovens que se amam de verdade.

Publicado na Revista Xeque Mate setembro/2016

Foto da Revista Xeque Mate e do acervo da Juliana.



Olá pessoal

Falar de amor não é fácil. Principalmente nos dias de hoje, de amores líquidos e escorregadios. Diante disso, a minha proposta na Revista Xeque Mate foi um grande desafio. Falar de amor, de amores reais. De histórias que acontecem agora, com alguém perto de nós. E para minha grande surpresa, a cada dia descubro mais e mais belíssimas histórias de amor. O antigo conto de fadas cedeu seu lugar para o amor real. O amor que enfrenta fila e  anda no asfalto lotado de carros. São os amores de hoje! Novos tempos, novos encantos. E o amor prevalece! Que bom!
Não poderia deixar de agradecer ao Giovani Lima que acreditou junto comigo neste projeto. Valeu Giovani! Tem sido maravilhoso escrever para a Revista Xeque Mate!
Sobre a Juliana, o quê dizer? É uma amiga querida, uma pessoa do bem que eu tenho a honra de ter como amiga. E o Rafa também. Um casal lindo.

Grande abraço e muito obrigada pela visita

Leila Rodrigues






domingo, 25 de setembro de 2016

Autenticidade




Autenticidade


Eu tenho amigos jovens, na flor da mocidade como dizia minha avó. São pessoas belíssimas, cheias de vigor e alegria. Alguns eu convivo todos os dias, outros nunca abracei, mas todos eles têm uma coisa em comum, são autênticos. São pessoas que lutam, que tentam, que se esfolam, que não têm fãs nem seguidores mas têm pessoas com valores comuns à sua volta.
Eu tenho amigos velhos, com anos de estrada pode se dizer. Eles são incríveis! São pessoas leves, sem muitas bagagens nos ombros, mas abarrotados de histórias e experiências que eu não me canso de ouvir. Alguns eu convivo todos os dias, outros nunca abracei, mas todos eles têm uma coisa em comum, são autênticos. Não tem medo de dizer que erraram, que se esfolaram, que amaram ou perderam seus amores. Eles também não estão interessados em fãs e muito menos em likes, mas em pessoas com valores comuns à sua volta.
Eu tenho amigos budistas, espíritas, católicos e evangélicos. E ouço com prazer quando falam de suas experiências espirituais. Alguns eu convivo todos os dias, outros nunca abracei, mas todos eles têm uma coisa em comum, são autênticos. São fiéis aos seus princípios, aos seus valores e crenças. Nunca quiseram me "arrebanhar". Respeitam a minha escolha como eu respeito as deles. E eles, ah eles não estão nem aí para o número de likes, o que eles querem mesmo é pessoas com valores comuns à sua volta.
Eu tenho amigo atleticano, cruzeirense, corintiano e flamenguista. E tenho outros que nem gostam de futebol. Alguns eu convivo todos os dias, outros nunca abracei, mas todos eles têm uma coisa em comum, são autênticos. São eles mesmos, com seus defeitos, seus jeitos e suas qualidades tão únicas. Eles não estão preocupados com o número de fãs ou adeptos. Eles só querem pessoas que os respeitem  e que tenham valores comuns.
Eu tenho amigo escritor, cantor, ceramista, poetas e poetisas de verdade. Alguns são famosos, outros nem tanto. Alguns deles tem fãs e seguidores, outros ainda estão no anonimato, mas uma coisa eles tem em comum, o talento é deles. Não roubaram de ninguém. 
Talento é propriedade privada. É bem! Não se sobe ao palco com o talento alheio. E se tem uma coisa que me faz tirar alguém desta minha lista de amigos é quando eu descubro que algum deles, qualquer um que seja, quer se dar bem usando o talento de outros. Autenticidade é tudo! Sem ela, sem lista.


Leila Rodrigues


Imagem da Internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

Olá pessoal,

As redes sociais se tornaram o novo palco do mundo. Uma forma de angariar fãs e seguidores, ou seja, de ficar famoso. E o ser humano adora a fama. A fama afaga o ego e camufla os problemas mal resolvidos dos obcecados por atenção. A sensação de superioridade é confundida com felicidade plena. E hoje, subir ao palco digital ficou muito fácil. Principalmente porque no universo digital você pode subir ao palco com o talento alheio. É fácil copiar um texto, um poema, um desenho, uma foto e até um trabalho feito por alguém e postar como se fosse seu. Quem vai questionar? Quem vai se dar ao trabalho de procurar a autenticidade disto ou daquilo? 
Até ontem falso eram apenas as propagandas para emagrecer. Que ironia. O falso está aí, bem na nossa frente. Com cara de fino e educado. Nas mais diversas propagandas. Há poucos dias acompanhei minha amiga, a poetisa portuguesa Rosa Maria, que luta veementemente contra este tipo de atitude. Assim como Rosa Maria, muitos outros profissionais passam por isso todos os dias. E a cada dia tem mais e mais pessoas tentando se dar bem com o trabalho de outros. Isto me indigna profundamente. 
Sou do tempo em que ser famoso não era tão importante assim. Ser você mesmo, sim. Será que estou fora de moda? Pode ser. Continuo acreditando que o errado é errado mesmo que todo mundo esteja fazendo e o certo é certo mesmo que ninguém esteja fazendo. E assim pretendo continuar a minha vida. 

Grande abraço

Leila Rodrigues





domingo, 11 de setembro de 2016

Para você que se foi





Então você se foi. E não deu nem tempo de fazermos juntos aquela viagem que planejamos. Nem aquela ida à fazenda do seu tio como você queria.  A sua camisa azul, aquela que você gostava tanto, lavei, ficou pendurada aqui esperando você passar para pegar. Seria aquele momento de tomarmos um café juntos e você me contar como estava a vida. E você não passou. E o café esfriou na garrafa esperando você chegar. E você não chegou.
É! Você não vai chegar. E meu coração vai continuar achando que em algum momento você vai entrar por aquela porta e sorrir para mim. O seu sorriso. Como eu vou sobreviver sem ele? A sua fala, o tom da sua voz, as suas brincadeiras tão suas e a minha felicidade tão nossa!
Você não vem para o almoço e nunca mais virá para o jantar. O quê que eu faço com o Nero que não pára de olhar para mim e perguntar com os olhos cadê você? O quê que eu faço comigo que não sei parar de pensar em você?
Aquela musica que você cantarolava perdeu o tom, o seu chinelão de couro, companheiro de andanças perdeu o caminho e todos nós nos perdemos no silêncio que ficou depois que você se foi. Amanhã talvez eu consiga descobrir novos sons mas hoje ainda estou ouvindo o eco da sua voz no quarto vazio que você deixou. Amanhã talvez eu me lembre de regar as plantas, mas hoje meu coração está árido demais para qualquer flor. 
Foi tudo tão breve. Eu poderia ter dito mais vezes o quanto amava você. Eu o fiz tão pouco. O meu amor foi muito maior que as minhas palavras. Mas certamente você sentiu  todas as vezes que meu coração pulsou de amor por você. Eu poderia ter te abraçado ainda mais, ter te dado o meu colo e tudo mais que você precisasse de mim. Quem poderia imaginar que o fim seria logo ali, naquela esquina, naquele instante entre uma calçada e outra? Eu aqui te esperando e acaba tudo assim? Eu precisava de mais. Eu precisava de mais tempo pra viver a seu lado. Eu precisava de mais tempo para aprender com você.
Meu tempo parou no instante em que você se foi e eu preciso dar a ele um novo movimento. A vida quer que eu continue, ainda que com o coração despedaçado pela falta de você. Sinto-me fraca. Não posso mais pedir a sua mão. Preciso deixá-lo ir. A partir de hoje você habita o lugar sagrado do meu coração, junto das divindades, daqueles que eu não posso tocar mas posso amar eternamente. E assim farei. Te amarei eternamente. Que seja leve e sereno a sua caminhada espiritual.


Leila Rodrigues

Imagem da Internet
Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos


Olá pessoal,

este texto foi a forma que encontrei de abraçar todas as mães que perderam seus filhos em acidentes de trânsito. Neste ano de 2016, principalmente na minha cidade (Arcos), tem morrido muitos jovens em acidentes de trânsito. Sempre penso nas mães, na dor de cada uma delas. Sinto vontade de abraça-las.  A todas mães que perderam seus filhos, seja de que forma for, o meu carinho e a minha oração. 

Grande abraço


Leila Rodrigues





quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Rio 2016 - A emoção




Ouviram do Ipiranga um grito! Não! Não era do Ipiranga, deve ter sido do Maracanã, ou de algum outro canto do Rio de Janeiro. Era a torcida brasileira! Esse povo heróico que mesmo sem dinheiro lotou os estádios com seu brado retumbante para apoiar seus atletas nas mais diversas modalidades. Com braços fortes nossos atletas remaram, chutaram, bloquearam, levantaram, lutaram, dançaram e saltaram.
Desafia o nosso peito a emoção. A emoção de ouvir e cantar o Hino Nacional Brasileiro; de ver a nossa bandeira à frente das outras. Naquele momento, Brasil, um sonho intenso de me orgulhar de ti não só no esporte. E a vontade de que um raio vívido de amor e de esperança realmente desça a esta terra e melhore o nosso país.
Ó meu gigante pela própria natureza, reconhece a tua força e o quanto és, belo e és forte. E o que o teu futuro espelhe-se nos nossos atletas que lutaram até o fim com o objetivo único de vencer em nome do Brasil.
Levanta desse berço esplêndido ó meu amado pais e vai à luta. Se nossos bosques têm mais vida, que tenham também dignidade, respeito e segurança para os que vivem nele. Só assim poderemos promover em teu seio mais amores.
Brasil de amor eterno que nossos atletas sejam símbolo para aqueles que ainda nos envergonham, seja no jeitinho brasileiro de “tirar o seu” até as grandes somas que afetam a economia de todo um país. E que diga o verde louro desta flâmula, segurança no futuro e aprendizado com o passado. 
Mas se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu levanta cedo e vai à luta. Que mesmo temendo a morte por uma bala perdida ou um assalto, terra adorada, ainda estamos aqui porque acreditamos em ti.
Entre outras mil,  talvez seja realmente mais fácil morar na Tailândia, na Flórida, ou até no Panamá. Porém és tu Brasil a minha pátria amada e como filho deste solo é por ti que eu choro meu amado e idolatrado país. 
Foi emocionante ver o meu pais inteiro torcer, chorar e cantar. Chorar um choro bom. Cantar entre lágrimas. Lágrimas de orgulho de ser brasileiro. Enquanto choro penso na luta que travaram para chegar até ali. Quantas noites sem dormir, quantos desafios! Que inspirados nos esforços dos nossos atletas, tratemos de trabalhar e levar a sério todas as questões de nossas cidades, nossos estados e nosso país. Juntos, podemos fazer o nosso gigante acordar e ocupar um lugar melhor no podium da sua história!


Leila Rodrigues


Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 23/08/2016
Imagem da Internet - Muito difícil escolher só 3 imagens!!!!




Olá pessoal,

Desta vez fiz questão de participar. Não fui ao Rio, mas assisti o que foi possível das Olimpíadas Rio 2016. Principalmente os noticiários da noite que resumiam o dia muito bem. Torci, vibrei, chorei com o Hino Nacional e com o povo brasileiro, em especial o carioca que fez bonito na medida das nossas possibilidades. Tenho um filho de 12 anos que adora esportes em geral, em especial o futebol e fui junto com ele que vivi essas emoções e todas as lições que um evento esta grandeza tem para nos ensinar. Impossível não torcer, impossível não se emocionar!!
Que venham as Paralimpíadas que eu pretendo acompanhar de novo e torcer com a mesma garra pelo meu país. Encerro os jogos com uma certeza, Brasil eu continuo amando você!

Grande abraço

Leila Rodrigues




Este momento foi o meu escolhido!! Maravilhoso!!!!



sábado, 20 de agosto de 2016

Incomum



Esperei os carros virarem a esquina, desejei de coração que fizessem uma boa viagem e entrei. Do lado de dentro, minha casa era uma bagunça só. Colchões ainda espalhados pelo chão, roupa de cama amontoada para lavar, nenhum copo limpo e a geladeira entupida de sobras.  Tropecei no skate e quase cai. Olhei para aquilo tudo e comecei a rir. Resolvi tomar mais um café. Recostei na porta e saboreie o último café que sobrara da garrafa enquanto me lembrava da casa cheia. Os sons, os risos, as crianças correndo. Eu já estava com saudade. 
À medida que eu tentava colocar a casa usável de novo, revivia as histórias do dia anterior. Tem gente que não gosta desta trabalheira e vai dizer que é por isso que não recebe visita. E eu vou continuar dizendo que é por isso mesmo que eu gosto de visitas. Gosto do movimento, da casa cheia, das conversas, do preparo das comidas, da felicidade do meu marido quando está com as pessoas que ele ama, da farra... Enfim, eu gosto disso! 
Não há como negar que com visitas saímos da rotina, o corpo fica exausto, dormimos pouco, conversamos muito e ainda temos que dar atenção para todos. E isso cansa! É preciso muito mais que disposição. É preciso querer este momento. É preciso se alegrar com a presença dos hóspedes, senão não haverá sentido em receber alguém em nossas casas. 
Para muitos a preocupação em agradar atrapalha e anfitrião tenso piora ainda mais a situação. Em contrapartida só com as visitas usamos tudo que ficou parado e adormecido à espera de alguém. As roupas de cama, os edredons, a louça do casamento, os doces que ganhamos e a dieta não permitiu comer e aquele licor de nome estranho que você só abre quando a visita chega e você descobre que é delicioso! Os cantos em desuso são todos ocupados e consequentemente a energia se renova. 
Amanhã cada um de nós vai recomeçar tudo de novo. A semana, a vida, a labuta. Não importa se o fim de semana foi de descanso ou intenso; se a sua casa continua arrumada ou meio revirada pelo tumulto. Entretanto eu, com o corpo ainda cansado, vou sorrir por dentro e agradecer pelo fim de semana incomum que atravessou o meu caminho e trocou tudo de lugar. Estou certa de que os momentos de alegria compensaram todos os esforços e faria tudo de novo para ter junto comigo as pessoas que eu amo. E sobre descansar? Ah eu terei outros finais de semana para fazê-lo. 

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora em julho/2016
Imagem da Internet


Olá pessoal,

moro em uma cidade (Divinópolis), meus pais e meus irmãos em outra cidade, os pais do meu marido e minhas cunhadas também em outra cidades. Essa distância, que nem é tão longa assim, não me permite dar aquela passadinha na casa da minha mãe para um café. - Ah como eu gostaria de poder fazer isso! - Então quando nos reunimos é sempre um motivo de festa. Talvez seja por isso eu goste tanto de receber as pessoas na minha casa. Sejam meus familiares ou amigos é sempre uma grande alegria. E é para eles, essas pessoas que enchem a minha casa de luz e movimento o meu texto de hoje. Enquanto eu tiver saúde para tal, a minha casa estará de portas abertas para os meus amigos e minha família. Aqui nunca há de faltar uma boa prosa e um café da hora.

Grande abraço


Leila Rodrigues

domingo, 14 de agosto de 2016

Palmas para você



Lembro das minhas mãos miúdas entrelaçadas às suas e o mundo ficava mais seguro. Lembro do radinho de pilha que você me deu de presente e eu me sentia quase um adulto de tão importante. Lembro das visitas surpresa que você fazia à minha sala de aula e até hoje eu nunca vi nenhum pai fazer isso. Eu podia ver nos seus olhos o orgulho de ser meu pai e estou certa de que os meus olhinhos surpresos diziam o mesmo de você. Eu era a sua menina e você o meu herói.
Pai, foi no seu colo que eu chorei a minha primeira desilusão amorosa e foi no seu colo que eu suportei todas as injeções de Benzetacil que eu tive que tomar. É que com você a dor ficava mais leve. Sem explicação. 
Pai você nunca precisou me dizer que eu tinha que pagar as minhas contas, eu vi você pagando as suas ou deixando de comprar quando não podia. Você nunca me disse que eu tinha que levantar cedo e ir para o trabalho, eu vi você fazendo isso a vida inteira. Até hoje preparo a minha roupa de trabalho no dia anterior. E foi com você que eu aprendi que comer de marmita não era tão ruim assim. Foram muitas lições repassadas com a vida. Lições que hoje carrego comigo e procuro repassar para os meus filhos. 
O som do seu violão me acompanha e ainda choro de saudade quando entro em uma igreja e tem um coral tocando. Sou capaz de perceber que ali não tem um “sete cordas”. Meu querido, meu amor, obrigada pela oportunidade de ser sua filha. Obrigada pelas lições, pelas histórias, pela alegria da sua presença na minha vida. 
Me orgulho em dizer que herdei de você o pé gordo, a mania de comer folhas e o jeitão de ser e resolver as coisas. Gosto quando dizem que pareço com você. E até hoje me pego explicando para alguém que eu sou a filha do Déco, mesmo que a pessoa nem saiba quem é você. 
Hoje você comemora mais um ano de vida. Palmas para você meu grande exemplo. Palmas por tudo que você construiu e conquistou em sua vida. Palmas pelo seu caráter, pela sua humildade e pela sua grandeza. Que benção ter você conosco! Que benção te ver assim tão lindo, com esses seus cabelos brancos que só te deixaram melhor! Para você luz, paz, saúde e muitas alegrias compartilhadas na cozinha do melhor lugar do mundo, a sua casa. Te amo infinitamente. 

Leila Rodrigues

Foto  de Vinícius Costa - quando ele (meu pai) fez 50 anos de casado e eu ainda não tinha cabelos brancos.

Olá pessoal,

este texto foi escrito para o meu Francisco Rodrigues Filho (Sr. Déco), em junho deste ano, quando ele completou 79 anos. Tudo que está no texto foi realmente vivido por nós. Por nós (eu e ele) e pelos meus irmãos queridos (Marcos, Eduardo (Dinho) e Marcelo) e claro, pela nossa mãe que viveu tudo conosco (D. Neusa). 
Hoje estive com eles e posso dizer que voltei alimentada do amor deles. Sim, deste amor que nos nutre, que nos fortalece, que nos faz grande e forte. Que venha a vida!

Para todos os papais que visitam o Palavras, o meu carinho e o meu abraço. Que vocês consigam se aperceber da grandeza e da importância de vocês na vida de seus filhos!

Grande abraço e uma ótima semana para todos!

Leila Rodrigues





quinta-feira, 4 de agosto de 2016

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Há alguns dias a escritora e amiga Ana Cecília Romeu, de Porto Alegre, escreveu uma crônica belíssima chamada Homen-selfie. A crônica falava deste ser completamente modificado pelo desejo de aparecer e de ser alguém que ele nunca foi de verdade.  Gostei tanto que resolvi continuar o assunto aqui. Vamos lá!
Vivemos a era do "que parece ser". Já não se pode confiar em quem está do outro lado, seja este lado outro país ou a casa de frente.  Não sabemos quem é a pessoa do outro lado da linha, do outro lado da tela e nem do outro lado da rua. A foto adaptada ao gosto do dono representa muito mais o que a pessoa gostaria que fosse do que o que ela é de fato.  Aceita-se tudo!
Se até as armas foram criadas para o bem, não vou agora condenar a evolução em função deste rumo destorcido. O uso equivocado e inconsequente das coisas é que faz com que tudo mude de sentido. E estamos vivendo neste momento o uso deliberado da tecnologia. Tudo se transforma com um click mágico. Cada um tem seu avatar na selva da grande nuvem. Perdido entre este ser criado para "dar certo" e o ser que veio ao mundo com todos os seus atributos ele passa um bom tempo de sua vida brigando e escolhendo a hora de um e de outro agir. Isso cansa, envelhece, adoece e enfarta. 
Será que a evolução tecnológica está realizando nossos sonhos de acabar com tudo que nos incomoda? Ainda que virtual e temporariamente, não há como negar que os poucos momentos de perfeição nos dão a ilusória sensação de sermos aquilo que sonhamos um dia. Será que o Apolo que viveu escondido em nós encontrou condições de ser? Que seja tudo uma grande ilusão, o que estamos vivenciando é uma legião de pessoas que não estão preocupadas com a hora fatal de tirar as máscaras, de mostrar a realidade. Afinal, o que está do lado de lá também deve estar mascarado, então não há do que se envergonhar e, por conseguinte, não há porque não se permitir o doce prazer da transformação. 
Só não sabemos quem está enganando quem nesta selva! Second life perdeu o lugar diante da variedade de modelos e possibilidades que cada um pode ter. São falsos poetas, falsos corpos, falsos profissionais, falsos escritores. Tudo copiado/colado para a ilusão coletiva dos adeptos. Tudo meticulosamente montado! Homen-selfie, avatar, second life são horas ou minutos de beleza, juventude, perfeição e virilidade… E muitos anos de terapia até se encontrarem outra vez.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 02/08/2016
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tenho uma preocupação grande em não sobrecarregar o leitor do Palavras. Ultimamente tenho visto uma busca desenfreada para atrair o leitor,  através de email, redes sociais, watsap… enfim, parece uma corrida maluca para chegar na frente do leitor e gritar para que ele te veja, te curta, te compartilhe. Informação demais!!!
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Leila Rodrigues