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terça-feira, 22 de maio de 2012

Manhã de domingo




O sol mais que aceso me tira da cama cedo. Não brigo. Aceito e desperto obedientemente. Pelo menos hoje eu não preciso correr. Não estou atrasada, ninguém está à minha espera. Mas então eu poderia ter dormido um pouco mais? Certamente sim, mas a luz do sol foi tão convidativa que dormir seria um desperdício.
Meu cachorro, ávido por companhia, me recebeu com festa. O cheiro do café fresquinho me lembrou da casa de minha avó. A cidade ainda dorme. E eu aproveito esse silêncio para ouvir o encantamento da vida. Hoje me pergunto como eu consegui demorar tanto para descobrir isso? Como eu consegui viver sem perceber as manhãs de domingo? Elas (as manhãs de domingo) sempre estiveram ali, ao meu inteiro dispor. E eu passei batido sem percebê-las, sem usufruir desse frescor.
Como um capeta no ouvido esquerdo, escuto lá dentro de mim: E o PIB do país que está baixando? A gasolina em falta, você não viu? A quantidade de assaltos no centro da cidade em um dia! Isso é um absurdo! Estamos sem segurança! 
Decido continuar a conversa com este visitante do meu lado esquerdo e solto uma risada. Você não deixa de ter razão, garoto do garfo! Para quê escrever sobre felicidade, se o que dá ibope é o problema? Onde já se viu falar de manhãs de domingo em um país que ainda tem tanto a ser resolvido, melhorado, solucionado? Utópico da minha parte? Desumano talvez? Estaria eu com a cabeça em outro planeta? 
Não, menino vermelho, eu estou bem aqui, no olho do furacão como qualquer outro cidadão e vivendo os mesmos problemas que qualquer um. Aliás, não há nada que me encante mais do que saber que eu sou uma cidadã comum. Que eu sou um grão de farinha no meio dessa massa efervescente. 
O que eu hoje percebo, nitidamente, é que a felicidade não é algo que se compartilhe facilmente. Nem todos são evoluídos o suficiente para aceitarem a felicidade alheia. Talvez por isso assuntos como doença, queda, falência, separação, traição sejam mesmos mais interessantes. A felicidade é tão única que querer anunciá-la parece clichê! Só se divide com pai e mãe! Esses são os únicos que ficam, verdadeiramente, felizes com a nossa felicidade. Fora isso, cuidado! Você pode ser considerado um lunático ao dizer que o mundo é belo e que as manhãs de domingo são encantadas. 
Enquanto isso, meu lado direito observa tudo com a tranquilidade de um anjo. Essa tranquilidade incomoda tanto meu visitante vermelho que este desaparece no ar. 
Depois que eu descobri que as manhãs de domingo podiam ser só minhas, ninguém tira isso de mim. Esse momento é meu e ninguém tasca! Se isso é utópico ou não? Hoje não faz a menor diferença. A felicidade é isso, o coração liberto de todo o resto.
Não se preocupem amigos, daqui a pouco eu pego o primeiro trem de volta. Sempre almoço no planeta terra! 

Leila Rodrigues

Foto: Juliano Costa


Meus amigos queridos,

Muito obrigada a todos que passaram por aqui na minha ausência. Eu estou bem e a minha mão está cada dia melhor. Agora é muita fisioterapia para tudo voltar ao normal. Obrigada pela torcida. Senti saudades de todos e prometo retomar as visitas a todos vocês à medida das minhas possibilidades.
Grande abraço a todos!
Leila

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Domingo

Quando criança, domingo era dia de missa. E de picolé depois da missa. Domingo era dia de frango, de macarronada, de casa de vó. Domingo tinha um cheiro diferente, cheiro de alegria.

Cresci e o domingo virou um tédio. Talvez pela sua localização estratégica entre o sábado e a segunda, o domingo servia para acumular duas coisas: a ressaca do sábado (bebido ou não) e a revolta pela segunda. O infeliz não passava; eu arrastava um chinelo pela casa, embrulhada naquele roupão encardido de sempre, amargando a espera dele passar. Isso quando eu não chorava ao entardecer. Sem nenhum motivo aparente eu derramava um pranto sem sujeito quando chegava aquela hora fatídica.

Incomodada com aquele dia cruel bem no início da minha semana, comecei a me encher de compromissos. Precisava dar um jeito de reverter aquela situação! Feiras, almoços, parques, shoppings, enfim, compromisso era meu sobrenome. Passava o domino (domingo) na rua. Programa não faltou. O que faltou foi disposição mesmo! Chegava na segunda eu estava um caco, um trapo de gente arrastando o peso do meu cansaço. Percebi que havia escolhido a estratégia errada.

Continuei minha saga em busca do domingo perfeito. Comecei a juntar dinheiro para comprar um sítio, minha casa de campo. Isso sim vai ser felicidade! Natureza, sossego, silêncio... Até esqueci o trabalho que dá, o trânsito para ir e vir, a manutenção do meu sonho, enfim.  Quando vi que isso poderia demorar alguns anos, fiquei à deriva novamente. Não que eu tenha desistido do sonho, mas eu queria resolver isso agora. Não tenho um dia da semana para dar de presente ao nada. É perder muito da vida.

De volta ao meu apartamento, resolvi dedicar o meu domingo a alguém muito especial: A mim mesma!

Hoje ele (o domingo) passa tão rápido que mal dá tempo de fazer tudo que eu quero. Tomo meu café da manhã de rainha, ouvindo as minhas músicas, sem pressa.  Leio meus livros, mato a saudade dos meus amigos. Caminho, cozinho, ou invento uma comida única, temperada com um pouco de mim. Assisto meus filmes, meus programas prediletos. Escrevo, leio, escrevo de novo, leio mais um pouco. Aprecio com mais tempo os meus filhos, o meu marido, as flores do meu jardim, a paisagem da minha janela. Falo com meus amigos distantes. Coloco ou tiro compromissos no domingo conforme a minha vontade, meu estado de espírito.

Converso comigo e com Deus. Ouço um pouco de silêncio e também um pouco de mim. Dou a mim mesma, um pouco mais do que meus cinco minutos sonhados. Dou-me um começo melhor, uma semana começando por mim.

Leila Rodrigues