O sol mais que aceso me tira da cama cedo. Não brigo. Aceito e desperto
obedientemente. Pelo menos hoje eu não preciso correr. Não estou atrasada,
ninguém está à minha espera. Mas então eu poderia ter dormido um pouco mais?
Certamente sim, mas a luz do sol foi tão convidativa que dormir seria um
desperdício.
Meu cachorro, ávido por companhia, me recebeu com festa. O cheiro do
café fresquinho me lembrou da casa de minha avó. A cidade ainda dorme. E eu
aproveito esse silêncio para ouvir o encantamento da vida. Hoje me
pergunto como eu consegui demorar tanto para descobrir isso? Como eu consegui
viver sem perceber as manhãs de domingo? Elas (as manhãs de domingo) sempre
estiveram ali, ao meu inteiro dispor. E eu passei batido sem percebê-las, sem
usufruir desse frescor.
Como um capeta no ouvido esquerdo, escuto lá dentro de mim: E o PIB do
país que está baixando? A gasolina em falta, você não viu? A quantidade de assaltos no
centro da cidade em um dia! Isso é um absurdo! Estamos sem segurança!
Decido continuar a conversa com este visitante do meu lado esquerdo e
solto uma risada. Você não deixa de ter razão, garoto do garfo! Para quê
escrever sobre felicidade, se o que dá ibope é o problema? Onde já se viu falar
de manhãs de domingo em um país que ainda tem tanto a ser resolvido, melhorado,
solucionado? Utópico da minha parte? Desumano talvez? Estaria eu com a cabeça
em outro planeta?
Não, menino vermelho, eu estou bem aqui, no olho do furacão como
qualquer outro cidadão e vivendo os mesmos problemas que qualquer um. Aliás,
não há nada que me encante mais do que saber que eu sou uma cidadã comum. Que
eu sou um grão de farinha no meio dessa massa efervescente.
O que eu hoje percebo, nitidamente, é que a felicidade não é algo que se
compartilhe facilmente. Nem todos são evoluídos o suficiente para aceitarem a
felicidade alheia. Talvez por isso assuntos como doença, queda, falência,
separação, traição sejam mesmos mais interessantes. A felicidade é tão única
que querer anunciá-la parece clichê! Só se divide com pai e mãe! Esses são os
únicos que ficam, verdadeiramente, felizes com a nossa felicidade. Fora isso,
cuidado! Você pode ser considerado um lunático ao dizer que o mundo é belo e
que as manhãs de domingo são encantadas.
Enquanto isso, meu lado direito observa tudo com a tranquilidade de um
anjo. Essa tranquilidade incomoda tanto meu visitante vermelho que este
desaparece no ar.
Depois que eu descobri que as manhãs de domingo podiam ser só minhas,
ninguém tira isso de mim. Esse momento é meu e ninguém tasca! Se isso é utópico
ou não? Hoje não faz a menor diferença. A felicidade é isso, o coração
liberto de todo o resto.
Não se preocupem amigos, daqui a pouco eu pego o primeiro trem de volta.
Sempre almoço no planeta terra!
Leila Rodrigues
Foto: Juliano Costa
Meus amigos queridos,
Muito obrigada a todos que passaram por aqui na minha ausência. Eu
estou bem e a minha mão está cada dia melhor. Agora é muita fisioterapia para
tudo voltar ao normal. Obrigada pela torcida. Senti saudades de todos e prometo
retomar as visitas a todos vocês à medida das minhas possibilidades.
Grande abraço a todos!
Leila