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sábado, 1 de abril de 2017

Cadê o trem?



O que acontece quando o trem não chega? A mala cheia do seu lado, alguém esperando do lado de lá, compromissos por cumprir e uma sensação estranha de impotência. É assim que nos sentimos quando o trem não passa. O trem, o carro, o ônibus, o avião. 
Naquele dia eu fui dormir com algumas certezas e novas dúvidas. A certeza de que, quando alguma coisa tem que dar certo, ela vai dar certo, independente das adversidades. Existe sim uma conspiração cósmica que torna alguns dos nossos dias mais emocionantes que outros. São dias de atropelo, de adrenalina, de frio na barriga e de alegria no final. São dias para ficar na nossa história. 
E foi assim aquele meu domingo. Tudo planejado e organizado para acontecer na hora certa e do jeito certo. Mas quis o destino ou o acaso, eu não pretendo discutir qual dos dois aqui, que tudo fosse diferente. 
E para que tudo ficasse ainda mais encantador, mais emocionante, eu conheci outras pessoas que, naquele momento estavam tão impotentes quanto eu. De um lado o tempo, o ócio, o nada. Do outro, cada um de nós e a mesma condição de impotência. Cada um poderia ter se isolado no seu celular e esperado o tempo passar. Porém, sem que ninguém dissesse nada, nos propusemos a fazer daquelas horas de impotência as melhores possíveis. Vivenciamos a melhor rede social não digital, a boa e velha conversa. Olho no olho, riso com riso, pele com pele. Afinidades, opiniões e a certeza de que o mundo é pequeno. Naquele dia eu fui dormir com muitas dúvidas sobre tecnologia e evolução da espécie humana. 
Mas para o meu dia, que a esta altura já era noite, fechar com chave de ouro, faltava eu abraçar aquela pessoa querida que me esperava do lado de lá. Faltava eu matar 40 anos de saudade. Faltava eu descobrir que o mesmo tempo que leva a nossa juventude é o que preserva o frescor dos sentimentos. E ela continua linda, continua maior que eu, continua parecida com a nossa avó. O tempo foi muito curto para tantos anos de distância. Volto com a certeza de que não nos perderemos mais e que estamos preservadas no coração uma da outra. 
Naquele dia eu voltei para casa com a sensação de dever cumprido. Naquele dia eu fiz novos velhos amigos. Naquele dia eu aprendi que eu não posso fazer nada para o trem chegar, mas eu decido o que fazer com o tempo da impotência que o trem me causar. 
Naquele dia eu dormi feito criança que foi ao parque. 

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
Imagem da Internet - Estaçãoo Ferroviária de Divinópolis


Olá pessoal,

Tem dias que o trem não passa. Tem dias que o príncipe não vem.Tem dias que sobramos  com poucas ou nenhumas opções.  Naquele dia eu tinha um encontro marcado com uma prima muito querida que eu não via há muitos anos. E justo naquele dia, o meu trem não passou. Aconteceu comigo e pode acontecer com qualquer um de nós. Mas nós podemos escolher o que fazer com os momentos de impotência. Escolha o melhor, escolha ser feliz. E se quiser contar aqui nos comentários as suas escolhas em algum dia que o trem não veio, será um prazer.

Grande abraço



Leila Rodrigues

terça-feira, 26 de julho de 2016

Ressaca Moral


A cabeça doía. O estômago queimava e o fígado dava seus sinais de que não estava bem. Mas tudo isso passaria com um chá de boldo, gelatina e limonada. O pior estaria por vir. A ressaca física castiga nossos órgãos mas a ressaca moral, essa não tem remédio! 
Eu tinha que me levantar, o sol já estava alto e a vontade de tomar um bom banho me impulsionou a agir. Agradeci por ser domingo. Já imaginou ter que trabalhar neste estado? 
De todas as lições que podemos tirar deste dia provavelmente a mais importante é a de que todos nós, em algum momento, seremos frágeis, fracos, vulneráveis. Todos nós, um dia, vamos precisar de alguém que cuide de nós. Até o mais poderoso dos mortais vai precisar ser cuidado. É aquele momento em que descemos da cadeira do poder e ocupamos a última cadeira da fila, a dos necessitados. 
O que doe é saber que não conseguimos ser forte o bastante. Doe saber que não conseguimos lucidez suficiente para dizer basta. Isso prova que eu também ainda tenho muito que aprender. Isso prova que eu sou uma cidadã comum e não alguém imaculado acima do bem e do mal. Eu de certa forma estou feliz, nada mais reconfortante que aceitar e reconhecer que não somos perfeitos. O peso da perfeição impede nossos passos e caminhar sem bagagens é bem mais prazeroso. 
Além do mais, a vida é um experimentar de papéis opostos. Um dia somos mocinhos, no outro bandidos. Um dia somos fortes, no outro fracos. Um dia ensinamos uma lição, no outro somos aprendizes delas. Um dia estamos com a razão, no outro dia a encontramos do lado de lá...
Resta-me aceitar que ontem foi um dia de fraqueza da minha parte e que amanhã eu terei outras oportunidades de mostrar a minha força. Não importa a origem da sua ressaca, pode ser que você tenha exagerado no álcool, na comida da festa, na língua afiada ou na maldade camuflada contra alguém. Tudo isso são falhas que geram em nós uma ressaca moral. A famosa vergonha do dia seguinte. Aquela que temos  dificuldade de contar até para nós mesmos.  A vergonha de ter feito, de ter dito, de ter desejado, de ter trazido à tona aquele lado escuso que até então ninguém conhecia. 
Para mim, resta agora  limpar tudo que eu sujei  e começar a minha semana. Eu, eu mesma e a juíza que vive em mim! Ela sim sabe puxar a minha orelha sempre que eu preciso e me fazer voltar para a linha quando eu saio dos trilhos.


Leila Rodrigues


Publicado no Jornal Agora Divinópolis
Imagem da Internet


Olá pessoal,

independente da escolha de ingerir álcool ou não, todos nós temos nosso dias de ressaca. É aquele dia que fizemos algo  que temos certeza de que não deveríamos ter feito. Todos nós já experimentamos essa “ressaca”. Eu, você e qualquer outro mortal.
Que esses dias nos sirvam para alguma coisa!
Nem que seja para fazer uma boa desintoxicação do fígado.

Grande abraço e mais uma vez muito obrigada pela visita aqui no Palavras.

Leila Rodrigues






segunda-feira, 4 de julho de 2016

Troque o verbo


No princípio era o verbo, já dizia a Bíblia. E no meio também! No meio, no fim, antes, durante e depois. Viver é praticar verbos. Dormir, acordar, comer, trabalhar, andar, correr, cuidar, administrar, escolher, calcular, viajar, estudar.. ufa!!! Muitos verbos para um sujeito só. Daí a explicação para nossas doenças, nosso stress, nossa insanidade controlada. 
Estamos todos ocupados demais praticando nossos verbos. Será que o tempo é curto para tantos verbos? Ou quem sabe não estamos praticando o verbo errado? 
Há quem passe o tempo todo praticando o verbo curtir. Mas não tem curtido a própria vida. Há quem pratique exageradamente o verbo trabalhar e em contrapartida não pratica alguns outros verbos como divertir, passear. Geralmente a turma do verbo exercitar, pratica outros verbos congruentes como correr, nadar, pedalar, malhar e contar (neste caso calorias, kms e medidas). 
E existe a turma dos novos verbos, logar, dropar, bootar, debugar, que é quase um outro idioma. Tem nome que já virou verbo - Caetanear.
Tem gente que há anos pratica o mesmo verbo. Já virou gerúndio! Está sempre terminando, separando, esperando, confirmando, querendo, aguardando… mas fazendo mesmo que é bom, nada!
Eu pratico muito pouco o verbo esperar. Sou daquelas ansiosas que não aguentam. Então troquei os verbos esperar que sempre precede o verbo desesperar pelos verbos respirar, caminhar, tomar (um café), ocupar (me). Não é que deu certo?  Estou melhorando! 
Cada um sabe as trocas que tem de fazer para a vida fluir melhor. A receita não vem de mim, nem de um livro de auto ajuda qualquer. O importante é sair do lugar comum e se arriscar. Fazer o que nunca se fez. Se você religiosamente pratica o mesmo verbinho, experimente praticar um verbo diferente. Troque o verbo preocupar pelo verbo ocupar. Troque o verbo consumir pelo verbo usufruir. E nunca pratique o verbo arriscar sem antes praticar o verbo pensar.
Para os ciumentos, troque o verbo vigiar pelo verbo amar. É tão cansativo ter que vigiar o outro! E tão revigorante simplesmente amar.
Para os apressados, troque o verbo correr, pelo verbo espairecer. É um verbinho antigo, parece coisa de roceiro, mas que tem um significado restaurador.
Para os preguiçosos de plantão, troque o verbo assistir pelo verbo fazer. Faça alguma coisa meu filho! Sai dessa cadeira de expectador e vai viver!


Leila Rodrigues

Imagem da Internet
Publicado no Jornal Agora e no JC Arcos


Olá pessoal,


Este texto foi inspirado em um anúncio antigo de um curso de português que dizia, "Pratique um verbo melhor”. O anúncio, claro, se tratava da gramática, da concordância que até hoje ainda precisa de muito trabalho. Gostei da frase. Gosto de imaginar que podemos sim escolher verbos melhores para praticar. Nesses tempos líquidos em que tudo é tão rápido e descartável, sinto falta de verbos mais sólidos, que façam valer a pena. 
No mais, gostaria de aproveitar a oportunidade e agradecer a você pela visita, por disponibilizar o seu tempo aqui no Palavras e principalmente por divulgar. O Palavras começou devagarinho, como bom Mineiro e está crescendo a cada novo texto, a cada leitura sua, a cada vez que você comenta com alguém. Muito obrigada! Isso me anima e me dá vontade de escrever cada vez mais…
É o verbo “fazer" (o que se gosta) mais o verbo “encontrar” (as pessoas certas do lado de lá da telinha). 

Mais uma vez obrigada. Grande abraço!

Leila Rodrigues