Quando ele desceu a serra naquele Jeep estranho que mais parecia um
carro de guerra, ninguém entendeu nada. Será mais um forasteiro que veio provar
o vento da serra? Ou quem sabe é mais um que virou à direita para ver onde é
que vai dar? Nem uma coisa nem outra, era o moço de longe que veio para ficar.
O que será que faz um executivo bem sucedido de repente deixar o
mundo corporativo e ir viver em uma cidadezinha do interior de Minas? Qualquer
um poderia imaginar que ele veio para descansar da correria desenfreada da
cidade grande! Seria o óbvio! Mas o descanso passou longe da cabeça dele. Ele
veio para ficar, para trabalhar, para acordar cedo e fazer. Fazer por ele,
fazer por aquelas pessoas, pelos vizinhos e agora amigos.
E então trocou a gravata
pelo chapéu e se tornou alguém do meio. E começou um novo legado; o de tornar
aquele pequeno lugar atrativo sem perder as raízes e a tradição do seu povo.
Quanto mais difícil cada obstáculo, mais obstinado ele ficava até vencê-lo. Mal
sabia ele que a sua decisão mudaria para sempre a vida das pessoas que ali
vivem.
Um movimento aqui, um conselho acolá e a cidade tranquila começa a
se movimentar. Recebe bem, encanta, trabalha, recebe novas pessoas, trabalha um
pouco mais e assim segue fazendo acontecer a sua transformação.
Mas heis que veio a seca e junto com ela o fogo que arde no chão. E
ele, como bom guerreiro, não hesitou em sair em defesa da serra. Afinal, desde
que chegara sempre foi assim, sempre em defesa daquele lugar. Por que seria
diferente agora? Lá foi o guerreiro e mais dois soldados aplacarem o mal.
O tempo dos anjos não é o tempo dos homens. E naquele dia de luta
cruel, dois dos três anjos encerraram sua missão nesta terra. Ele ainda
precisou ficar. Faltava algo a cumprir. Faltava juntar pessoas que há muito não
se viam. Faltava fazer abraçar filhos e mães e acreditarem no amor. Faltava
despertar a compaixão em uma cidade inteira. E só depois de tudo isso feito aí
sim, chegara a hora de o último guerreiro partir.
Era para ser só mais um, mas ele se espalhou como gotas de chuva no
coração daquela gente e se tornou um povo. Era para ser só mais um lugar no
meio do caminho, mas ele fez morada e mudou o caminho daquele lugar. Este foi o
legado de José Ronaldo Monteiro, um homem que amou Carrancas com todas suas
forças. Depois de você Ronaldo, Carrancas nunca mais será a mesma, ela hoje
está mais fortalecida e viva, certa de que seu coração pulsa entre as serras.
Leila Rodrigues
Olá pessoal,
Gostaria eu que este texto fosse apenas mais uma viagem desta
aprendiz de escritora que vive em mim. Mas não, ele é real. Ronaldo viveu entre
nós. Todos que conheceram o Ronaldo saberão que o que eu disse aqui é muito
pouco perto do que ele foi. Um misto de tristeza e alegria nos arrebata o
coração. Alegria de tê-lo conhecido e tristeza de vê-lo partir.
Sigamos pois, todos nós, com a certeza de que tudo é eterno...
Grande abraço a todos!
Leila Rodrigues



