quinta-feira, 1 de maio de 2014

Entre leões e mamutes





Com a comunicação digital parabenizar alguém ficou banal. A rede social te lembra de quem são os aniversariantes e com um clique você fica em dia com as obrigações sociais. Mas quando queremos parabenizar de verdade, procuramos outras formas que traduzam nossas intenções.
 
Vem aí o dia do trabalhador e considero a palavra parabéns pequena demais para as minhas intenções. Pequena para a imensidão de pessoas que acordam todas as manhãs e se propõem a oferecer o seu tempo, o seu esforço e a sua competência a serviço de algo ou alguém. Pequena diante de todos os esforços que são necessários para manter uma empresa "viva" no país dos impostos. Pequena diante dos 30 anos de trabalho que são exigidos para obter uma aposentadoria medíocre.
 
O que dizer a esta população que passa maior parte do tempo no trabalho do que em suas próprias casas? O que dizer para esta multidão de pessoas que deixa o filho com estranho, que pega quatro conduções por dia, que trabalha noite adentro, que pega estrada, que entra em mina, que corre perigo, que passa dias em alto mar e que tem que bater metas surreais?  Parabéns meu amigo! Você é um trabalhador!

Desculpe-me, mas isso é muito pouco!

Somos um bando de necessitados que se resolvem com as necessidades alheias. Eu preciso do seu trabalho, você precisa do meu. E juntos matamos leões e alimentamos mamutes famintos a cada dia.

Não importa qual o motivo que te faz acordar cedo e ir, eu tenho o meu e você, certamente tem o seu. O que eu desejo é que este motivo seja forte o bastante para não te deixar desanimar. Eu desejo que o seu trabalho te realize e te faça feliz. Que você se sinta parte importante do processo. Que você saiba sorrir a cada pequena conquista e explodir de alegria quando atingir as suas metas.

Dignidade é quem presta seu trabalho com seriedade e respeito. Independente se você o faz por amor ou por pura necessidade. Sem utopia desejo que o seu trabalho te faça feliz e se não fizer, que você encontre outras portas que te realizem. Que você descubra a atitude certa para te levar onde seus sonhos querem ir. Que no dia do trabalhador você consiga se orgulhar do que faz e enxergue o verdadeiro sentido do seu trabalho.
Afinal, como bem disse Confúcio, “escolha um trabalho de que gostes, e não terás de trabalhar nem um dia de sua vida".


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 29/04/2014
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sábado, 12 de abril de 2014

Climatério




Meus caros,

Não resisti à vontade de falar com vocês. Primeiramente para agradecer a todos pelas visitas e pelos comentários, sempre carinhosos. 
Muito obrigada! É para vocês que escrevo.
O post de hoje é uma façanha! Verdade! Eu raramente escrevo poemas. Não só pela minha dificuldade de rimar, mas também pela dificuldade de, com tão poucas palavras, descrever um pensamento. Sou muito apegada aos artigos, aos pontos e vírgulas e talvez por isso não tenha tanta intimidade com a poesia. Embora me encante tanto quanto a crônica, a prosa ou um parágrafo recheado de verdades.
Mas fui desafiada por um amigo e resolvi aceitar. Então compartilho com vocês meu poema, inspirado neste momento enlouquecedor que é o climatério. Dedicado a todos as minhas amigas que juram de pé junto que este dia ainda não chegou e silenciosamente tentam acalmar o fogo que surge inesperadamente sem qualquer explicação.
Existe sobrevida após esta tempestade! Eu não vejo a hora de chegar do lado de lá!

Grande abraço a todos

Leila Rodrigues


Climatério

Desconfio de mim
Da autoridade que revelo e não possuo
Da criança que alimento e não faço ver
Qual de mim será aquela que valha a pena ser?

Desconfio dela
Dessa identidade desbotada que carrego
Carimbada em cima de muitos anos atrás
Como se o tempo não soubesse desbotar as almas

Não me reconheço ali
Nem tampouco espero me reconhecer acolá

Desconfio dele
Desconfio que meu coração me engana
Ele já não se encanta tanto pelos homens
Como se encanta com os pardais na cerca pela manhã

Mas ainda resta um pouco de lucidez
Aquela que não me deixa sair por aí
A girar de alegria quando meu manacá floresce


Leila Rodrigues


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sábado, 5 de abril de 2014

Idas e vindas





Eu tinha 13 anos quando me apaixonei pela primeira vez. E foi quando eu entendi que precisava dormir, acordar, estudar, tomar banho enfim, fazer tudo com o coração completamente inundado de alguém. Foi muito difícil! Difícil organizar as ideias, difícil concentrar, difícil não pensar, difícil me desvencilhar daquele ser que tomava conta de mim. Tomava conta de mim, do meu pensamento, do ar que eu respirava. Quase desisti de amar, mas não foi desta vez.

Eu tinha 16 anos quando perdi a minha avó que era uma pessoa muito importante para mim. E eu tive de novo de fazer tudo com o coração inundado da falta de alguém. Os dias eram intermináveis, a saudade parecia um furacão a me corroer por dentro. E viver foi novamente muito complicado. 

Eu tinha 21 anos quando fui pela primeira vez deixada por alguém. Eu estava em pleno sonho, em pleno encantamento quando tudo acabou. Foi um susto. Um baque! É como um pique de energia no meio de uma festa e quando a luz volta não tem mais ninguém. Faltou chão, faltou ar e novamente o meu coração ficou inundado da falta de alguém. E foi pesado carregá-lo assim tão cheio de mágoas. E mais uma vez, durante um bom tempo realizei todas aquelas tarefas que a vida nos impõe com o coração carregado de dor.

E assim, durante muitos anos eu andei carregando um peso maior que o meu. O do meu coração. Hora cheio de alguém, hora cheio da falta de alguém.
Muitos anos se passaram, muitas pessoas entraram no meu coração. Algumas estão até hoje, outros se foram sem deixar nenhum sinal. E ainda tem aquelas pessoas que foram breves mas deixaram rastros eternos. Idas e vindas de minha vida. Coração movimentado esse meu! 

Mas ainda que o preço de amar seja esse, eu prefiro assim. Talvez eu tenha, em algum momento, carregado peso demais. Talvez eu tenha carregado pessoas que já se haviam ido. E muito provavelmente, em algum momento eu carreguei mais do que eu poderia suportar. Mas vivi a alegria de ter um coração ativo. E sei que valeu a pena!

Hoje não conto mais quem entra ou quem sai. Isso deixou de ser importante. Muito menos quanto tempo ficou ou vai ficar. Abri as minhas portas e joguei as chaves fora. Afinal, se são pássaros aqueles que às vezes dentro de nós se aportam que seja pelas suas asas a decisão de ir ou ficar. Se ficarem, que eu não os feche em minha gaiola. E quando se forem que eu não alimente as suas sombras.

Leila Rodrigues
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Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 25/03/2014

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

De volta para o passado





A vida seguia normalmente. Trabalho, casa, filhos, marido... Pais com a saúde debilitada precisando de cuidado e atenção, filhos alçando voos, marido caminhando para a aposentadoria. Tudo muito comum para quem faz parte do pacote “aproximadamente 20 anos de casado”. Mas eis que o inusitado começou a bater devagarinho em sua porta, ou melhor, em sua cabeça. Ela se viu com vontade de fazer tatuagem, de cortar o cabelo bem curto, de comprar um jipe, de escalar montanhas, de voar de asa delta e de conhecer Machu Picchu. 

Confusa com tudo isso, pensou que estava enlouquecendo. Depois questionou se isso só acontecia com ela. E ainda se perguntou se não seria a sua adolescência que, depois de anos adormecida, resolvera voltar. 

E eu, como uma das seis melhores amigas que ela tem, resolvi colaborar. 

Quando somos adolescentes, todos os sonhos são poucos para nossas mentes fervilhantes. Experimentamos querer ser tudo e nada ao mesmo tempo. Qual menina nunca sonhou ser aeromoça, bailarina e professora? Praticamente todas nós sonhamos. Os meninos, a maioria deles, em algum momento de suas vidas sonham ser engenheiros, pilotos ou ter uma banda. Faz parte do fervilhar de ideias. 

Só que aí vem a realidade como um furacão e arremessa todos os nossos sonhos ao chão cruel e duro de nossas estradas. Realidade, necessidade e contingências passam por nós como um rolo compressor. É preciso trabalhar, é preciso crescer, é preciso criar os filhos e é preciso nos recriar a cada tombo. De sustentados nos tornamos sustento. E para que esse sustento sobreviva melhor engavetar os sonhos. 

E assim passamos boa parte de nossas vidas ocupados com essa “pseudo-evolução” enquanto a gaveta dos sonhos descansa em paz como um criado mudo, que de tão mudo, ninguém percebe mais.  

Ate que chega o dia em que percebemos que tudo que tão solidamente construímos não consegue nos trazer felicidade. É quando sentimos saudade de nós mesmos. Saudade do tempo em que a felicidade era mais simples e infinitamente mais intensa. Hora de abrir a gaveta dos sonhos. Eles estão todos lá, inertes à nossa espera. Sorrindo como uma criança e prontos para nos fazer felizes de novo.

Não amiga, não é a sua adolescência que voltou é você que quer de volta a felicidade que é só sua e que só você pode se dar. Permita-se ser e viver tudo isso, afinal, daqui só se leva a alma, E deve ser bem melhor que ela vá feliz!


Leila Rodrigues


Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 11/02/2014.
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