quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A lista



A lista

Viaje no tempo, relembre seus momentos difíceis e faça uma lista das pessoas que te ajudaram em sua vida. Provavelmente com muitas delas você não convive mais. Se proponha a procurá-las e dizer a cada uma delas o quanto elas foram importantes para você. Agradeça por terem cruzado o seu caminho e siga em frente.
Faça uma lista das pessoas difíceis que cruzaram o seu caminho. Aquelas que te fizeram gastar todo seu estoque de paciência e tolerância. Reconheça o quanto elas foram importante na sua evolução e dê a elas um bom lugar na sua história. Liberte-as e siga em frente, desta vez mais livre e mais leve.
Faça uma lista das pessoas que você ama, não deve ser tão difícil assim! O tamanho da lista não é importante. A intensidade dos sentimentos sim. Diante da lista dos seus verdadeiros amores, perceba como você vivência este amor. Como você se manifesta, como você ama realmente. E finalmente se pergunte se o seu amor faz estas pessoas melhores. De que vale amar se não for para melhorar o outro?
Faça uma lista dos seus verdadeiros amigos. Aqueles capazes de conviver com suas tristezas e com as suas vitórias. Convide-os para um café, um jantar ou minuto de boa prosa. Não há nada mais rejuvenescedor que isso. 
Faça uma lista dos brinquedos que você gostava quando criança, relembre o quanto você se divertiu com cada um deles. E conte essa história para alguma criança de sua convivência. Você estará colaborando com a história e fortalecendo as raízes culturais do seu país.
Faça uma lista das músicas que te fazem bem. Grave-as e dê um jeito de ouví-las todos os dias. Cante, assobie, relembre as letras. Dance se gostar. Crie mais e mais listas musicais para momentos diferentes da sua vida. A música é a terapia mais fácil de se fazer. Aproveite também para listar os livros que você quer ler ou os filmes que você sempre quis assistir e nunca achou tempo.
Faça uma lista dos lugares que você gostaria de conhecer e comece agora a se programar para cumprir o seu roteiro. A vida é curta demais para devolvermos nossos sonhos ao vento.
Faça uma lista das suas fraquezas, aquelas que você silenciosamente envergonha-se de possuir. Aceite-se assim! E se proponha a melhorar, a promover a sua evolução neste pequeno espaço de tempo que você tem chamado existência.
E por fim, se você não resistir à vontade de fazer uma lista com os defeitos alheios, faça-a na areia, bem perto das ondas.

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos
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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Idas e vindas



Largou. Os estudos, o namorado, o curso de inglês e o anel de formatura já comprado pelos pais na gaveta do criado.
Sonhou. Que seria fácil, que seria lindo. E que ela poderia controlar o mundo.
Mudou. Os cabelos, o jeito de andar, a cor do batom, as intenções, as pretensões e as canções do Ipod que comprou no camelô.
Aumentou. Os peitos, o salto, os cabelos, o decote, o rímel, o tamanho dos óculos escuros e o tamanho das unhas que agora eram de veludo.
Subiu. O morro da piteira, a barra da saia, a fé em si mesma, a febre dos meninos e a lista de coisas indispensáveis na sua bolsa.
Criou. Expectativa neles. Inveja nelas. Desejo em uns, desprezo em outras. Indiferença em todos e tristeza nos pais.
Comprou. O que tinha, o que não tinha, o que sempre quis ter, o nunca pensou em ter... E ainda comprou briga, comprou confusão e comprou sem pagar. 
Vendeu. O corpo, os segredos do morro, os segredos do mundo. E ainda vendeu cosmético, bolsa, chapéu, sanduíche, churro e bala de hortelã.
Cedeu: A alma para o capeta e o corpo para quem pudesse pagar. E a moeda de troca era a que melhor pudesse sustentar seus caprichos.
Provou. De tudo, de todos, do líquido, gasoso e do solidificado. Provou ainda da felicidade em tragos, tão curta quanto a fumaça do cachimbo.
Subiu mais um pouco. No palco, no ibope, no conceito deles todos, no salto fino, no pau de selfie e na produção.
Fingiu. Fingiu que gostou, fingiu que cresceu, fingiu que era sem nunca ter sido. E provou o perigo de pisar num chão sem raízes.
Ganhou. Bilhões de acessos, milhões de flashes, centenas de seguidores, dezenas de interessados, cinco minutos de fama e nenhum amigo.
Provou de novo. O gosto da ressaca, a fome do dia seguinte, o fim dos efeitos, o apagão dos holofotes e o gosto amargo da verdade.
Caiu. No conceito. Caiu do salto. Caiu na vida. Caiu do castelo. Caiu a autoestima. Caiu a ficha. Caiu do morro como se fosse um saco de lixo que precisa ser descartado.
Passou. Por todos os becos, por todas as ruas, por todas as vergonhas e pela vontade de voltar.
Reencontrou. O caminho de casa, os pais vendo TV no mesmo sofá e o pijama de bolinha guardado na gaveta.
Tomou um banho, tomou um café, tomou de volta o colo da mãe, tomou o sono de filha. Adormeceu...
Sonhou que amanhã teria aula de inglês.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

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sábado, 26 de setembro de 2015

Dias tortos



Perdi a hora. E desta vez não foi culpa do despertador, nem do el-niño, nem do governo. Assumo que a culpa foi toda minha. O problema é que perder a hora em plena segunda-feira tem um efeito dominó que, se não cuidarmos, pode derrubar até a sexta-feira. 
O jeito foi correr contra o tempo. Banho "no automático”. Enquanto a água descia eu tentava, ainda sonolenta, refazer a agenda do meu dia. Tenho que desmarcar aqui, remarcar acolá. Por um triz não escovei os dentes com o creme de cabelo. Foi salva pelo meu olfato.
Café da manhã nem pensar! E se tem uma coisa que me deixa mal-humorada é não tomar café da manhã. Mas como compromissos tem prioridade, esquece o café e vai.... Então parti para o segundo obstáculo do dia, o trânsito. Trânsito parece que tem uma conexão direta com os astros, o trânsito sempre sabe quando estamos com pressa. Somente em dia de pressa você pega um engarrafamento ou o seu trajeto é interrompido por uma obra. Comigo não foi diferente! Naquela manhã, entre a minha casa e o meu compromisso, eu cruzei com todos os obstáculos possíveis e imagináveis. 
Tentei cantar, mas a cabeça preocupada com o atraso não conseguiu lembrar as letras das músicas. Tentei pensar em brisa, natureza, cachoeira, mas como pensar nisso se o relógio corria e o meu dia escorria junto? Então pensei no Dalai Lama. Será que ele já perdeu a hora alguma vez na vida? Será que já teve de correr senão ia perder um voo, uma palestra ou um compromisso importante? E o Papa Francisco? Será que alguma vez escovou os dentes na correria? Imaginei como os dois reagiriam diante de tal cenário. E a resposta que eu tive foi os dois rindo de si mesmos e seguindo em frente na mesma toada de sempre. Nem mais rápido, nem mais lento. Do jeito que é possível ser.
Então ri de mim e relaxei no banco. Virei a esquina da rua Sete de Setembro, para variar não tinha lugar para estacionar, o que piorava a minha condição de atrasada. Dei uma volta no quarteirão, encostei rapidamente e embora eu tentasse me controlar, entrei esbaforida no consultório. Antes mesmo de eu abrir a boca para falar do meu atraso a secretaria sorri para mim e me diz "fique tranquila Dona Leila, o próximo cliente cancelou, o horário é todo seu"! Coincidência ou não, quando olhei para o lado me deparei com o Papa Francisco na capa de uma revista. Olhei para a foto e pisquei para ele. Valeu! 

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

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sábado, 19 de setembro de 2015

Pelo direito ao "off"



É domingo de manhã. Estou com meus pais, meus irmãos e sobrinhos. O cenário é a cozinha da minha mãe. O lugar mais simples e mais acolhedor que eu conheço. Ela faz o café de sempre e começamos a conversa. Sem roteiro, sem cerimônia, sem segundas ou terceiras intenções. É em um desses momento que eu decididamente exerço o meu direito de ficar off. 
Sim eu quero o direito de permanecer desligado ou de ligar-me quando eu bem entender. Quero o direito de curtir os meus amigos, meus discos e livros dentro da minha casa ou onde quer que queiramos, desde que seja apenas entre nós. Quero o direito de praticar o verbo curtir e compartilhar através de abraços e olhares. 
Quero ouvir a voz dos meus verdadeiros amigos. Quero um abraço de verdade no dia do meu aniversário. Quero olho no olho. Quero pele, calor, abraço, risada. Quero tocar, sentir, cheirar e saborear meus momentos. Quero o mais comum dos presentes, presença! Quero comer, beber, dançar, cantar e ser feliz sem necessariamente divulgar os meus momentos. Nada contra quem o faz. Cada um usa seu espaço tecnológico como lhe convém. Mas não me cobrem uma exposição que não faz parte dos meus princípios. Admiro e me divirto com quem o faz por livre e espontânea vontade e não para angariar curtidas como se fossem ações da bolsa. 
Eu já sei que a tecnologia é um caminho sem volta, também sou uma cidadã que usufruiu de todas as possibilidades tecnológicas mas daí a me tornar uma pessoa  alienada que não é capaz de  desgrudar do celular nem para ir ao banheiro já é demais! E ainda que eu use a tecnologia para tantas coisas boas e interessantes, que eu tenha o direito de não me expor, que eu respeite os limites que eu um dia coloquei para mim. E que o meu padrão de escolha seja respeitado pelos demais. 
Quero dizer eu te amo para quem eu amo ouvir. Quero o direito de passar um dia desconectado do mundo e conectado às minhas raízes, aos meus filhos, enfim, às minhas escolhas.  Que a minha falta de jeito com fotografia seja respeitada e que eu continue tendo o direito de aproveitar as minhas viagens sem narrá-las como se fossem um programa de viagens da TV. 
Então se eu tiver off e não participar da sua conversa do seu post ou do seu grupo, respeite o meu direito de conexão privada comigo. Não me cobre um filme da minha vida, porque eu estou ocupado demais vivendo! 


Leila Rodrigues

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Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Nunca me outono



Você pode achar que é arrogância. Na minha adolescência eu também achava os adultos arrogantes e prepotentes. Mas hoje, que já passei dos trinta, dos quarenta e muito provavelmente da metade da minha vida, posso te garantir que não é arrogância. É apenas um silencio estranho que passei a cultivar dentro de mim. Os questionamentos continuam, mas são muito mais meus do que de qualquer pessoa. Não se faz mais necessário gritá-los por aí. Hoje já não me importo mais com a marca do seu jeans, mas me importo sim se eu perder a minha aula de yoga. Não me interessa mais quantas curtidas eu tive, quantas festas serei convidada ou quão correto está o meu look. Chega a ser engraçado, mas algumas coisas que antes eram tão importantes se tornaram relevantes sem que eu tenha acionado nenhum botão mágico. Eu hoje espero a minha violeta florir com a mesma alegria que na minha adolescência eu esperava na janela o moço louro passar. E decididamente me proponho a guardar todo meu dinheiro para fazer uma viagem e deixar para trás todas as coleções maravilhosas de sapatos sem comprar um par sequer. Hoje me interessa  saber se aquele meu amigo está feliz morando sozinho em Floripa ou se a minha cachorra dormiu bem depois de parir. E sou capaz de passar horas procurando atentamente a palavra certa para meu novo haicai. Você pode até achar que eu não tenho mais uma opinião formada sobre política, corrupção ou o mensalão. Engano seu, eu continuo com a cabeça cheia de opiniões, ideias e projetos, apenas não tenho mais a pretensão de mudar o mundo. Se eu conseguir mudar-me, já me sentirei vencedora.
Você pode até achar que eu estou me curvando ao tempo. Eu acho mesmo que o tempo andou mexendo com a gente. Perdi a pressa de chegar. Terá sido porque já cheguei?  Ou simplesmente porque hoje espero a primavera saboreando os ipês? Passei tanto tempo correndo atras de um lugar, que perdi as estações que me conduziam. Hoje choro não tê-las contemplando um pouco mais. Mas ainda me resta a próxima estação e isto é o que importa. Nunca me outono e sempre hei de cultivar uma primavera dentro de mim. Por mais cinza que esteja o tempo aqui fora, por mais chuvoso que tenha sido viver depois que ele se foi, por mais frio que seja viver sozinho, eu insisto em fazer em mim um sol pleno e nunca há de faltar flores para a minha janela. Nunca me outono. Jamais!

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

Imagem e título da minha amiga querida Elisa Campos. 

Elisa é daquelas raras pessoas que parecem ter alma de pássaro tamanho a leveza. Não a conheço pessoalmente, mas sinto-a tão sensível quanto seus haicais, tão leve quanto o voo de um pequeno pássaro, tão meiga quanto uma flor. Elisa querida, obrigada por fazer parte da minha rede de amigos especiais (nem digitais, nem virtuais), especiais porque fazem os meus dias mais coloridos. 



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A melhor festa


O que faz uma festa ser realmente boa? Um bom bufê com comidas nobres, entradinhas leves, taças de cristal, pratos bem pensados e preparados com precisão? Ou uma mesa impecavelmente arrumada, talheres  luxuosos, garçons bem vestidos e música clássica ao fundo? Pode até ser que com tudo isso a festa seja boa, mas o impecável não garante a satisfação dos convidados. Para uma boa festa, pode ter tudo isso ou nada disso! O que faz uma festa realmente boa é a energia que se cria. Já estive em festas extremamente bem preparadas, comidas fartas e saborosas porém sem emoção. Também já estive em festas em salões luxuosos convites disputadíssimos e que na hora H deixaram a desejar.
A boa festa é aquela que te deixa tão à vontade que você nem se lembra de reparar o vestido de onça da fulana ou o paetê da ciclana. Sabe por quê? Isso deixa de ser importante. Em festa boa de verdade você se sente ocupado com a festa. Isso é muito diferente de quando você é um mero expectador.  
O cantor pode até esquecer a letra da música que os convidados cantam por ele. Pode faltar copo, faltar cadeira ou faltar celebridade, o que não pode faltar em festa boa é alegria! Essa sim, tem que existir de sobra. No ambiente, no semblante dos anfitriões, nos convidados, no ato de festejar, tudo tem que estar permeado de boas energias, de alegria e da vontade de comemorar.
Decoração, luxo e perfeição é ótimo! Todos nós gostamos! Mas amigos de verdade quando se reúnem querem mesmo é se divertir. Os anfitriões são peça-chave pois o sucesso depende mais deles do que dos detalhes.
E se você puder juntar tudo isso a uma comida feita com amor e carinho, melhor ainda! Comida feita com cuidado e amor tem sabor diferente. Agrada de verdade! Comida que não só satisfaz a fome, mas desperta o interesse de quem come.
Em festa boa de verdade tudo é perfeito do seu jeito, no seu devido lugar sem que isto esteja em algum padrão. É perfeita porque fez todos felizes, gerou alegria, contentamento e satisfação.
É simples reconhecer a melhor festa. Ninguém quer ir embora! Para a música, param de servir e você continua lá saboreando a alegria do momento, torcendo para que ele não acabe jamais.

A melhor festa dispensa lembrancinhas pois fica naturalmente em nossa lembrança por um bom tempo. Este é o verdadeiro sabor de "quero mais”.


Leila Rodrigues

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Publicado no Jornal Agora Divinópolis e no JC Arcos

Se você tem um casal de amigos que se chamam Amnys e Cleide, ou se você já visitou a casa do Sr. Marcos Antônio e D.Irene vai entender o que eu estou dizendo. Trouxe comigo a vontade de voltar.


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A escolha



Levada pelo pensamento, como o vento leva a chuva, ela caminhava de volta para casa. Sempre a pressa, sempre o tempo. Contrariando o cotidiano, desta vez não era a janta que habitava seus pensamentos, nem o dever das crianças, nem o vazamento da pia. Quem a acompanhava pelo caminho era seu devaneio mais recente, uma nova oportunidade. Sim, uma oportunidade, essa dama encantada que habita nossos horizontes, havia beijado a sua face. Àquela altura de sua vida uma oportunidade de começar de novo, de um jeito novo em um novo lugar! Só de pensar nesta possibilidade, ela já se sentia embalada por este novo mundo. Riu de si mesma, conversou sozinha, não conseguiu parar de pensar. Fez e refez mil planos na cabeça, sentiu frio na barriga, tudo isso movida por esta janela que se abrira em sua vida.
A dúvida atormentava-lhe a mente. De um lado, a velha e costumeira vidinha de sempre, família, filhos, trabalho. Tudo tão encaixado para caber na agenda e na vida que até os problemas já lhe eram previsíveis. Não fosse a mesmice dos dias, não fosse a falta de emoção, diria que estava tudo perfeito em sua vida. Para quê mexer?
Do outro lado, feito criança na roda gigante, a oportunidade lhe convidava a largar a zona de conforto e experimentar começar tudo de novo. Quantas vezes ela não desejou, desesperadamente, uma oportunidade de recomeço? Quantas vezes, no auge da dificuldade e da dor, ela não quis uma chance desta? E agora que ela menos esperava, que ela já se havia acostumado com o que tinha, surge este pacote surpresa para dividir seu coração ao meio?!
Chegara a perder a fome, tamanha a dúvida. Silenciosamente cultivava aquela dor de quem precisa decidir um caminho a seguir. A dor não era escolher o caminho e sim, deixar um caminho. O que doía não era o caminho a ser escolhido, mas o que fosse deixado para trás, seja ele qual fosse. Descobriu que estava mais presa aos seus do que imaginava.
Resolveu colocar tudo na balança. E se surpreendeu! Descobriu uma equação que não se ensina nas escolas. Pessoas pesam mais que propostas, saudades medem mais que a distância, liberdade pesa mais que comodidade e felicidade nem sempre combina com facilidade. 
Diante de tamanha dúvida, ela rezou, pediu, pensou, calculou, chorou, sorriu e finalmente experimentou o momento mais solitário da vida. A hora de decidir. 
E assim decidiu! Optou por ser feliz. Achou este o caminho mais adequado.



Leila Rodrigues

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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Quem é ela?




O mercado é mestre em criar datas comemorativas. Há poucos dias tivemos o dia do amigo. Não me lembro desta data na minha infância. E olha que as amizades eram até mais intensas! Todos os dias deveriam ser de nossos amigos, mas com a correria do mundo moderno ter um dia para os amigos não foi uma má ideia. Afinal eles merecem no mínimo um dia do ano para que possamos agradecê-los pelo bem que nos fazem simplesmente por existirem.
Se vamos falar de amigos, então falemos dela. Quem é ela? Ela é aquela amiga que se não existisse, nós a teríamos inventado. É aquela pessoa necessária, imprescindível para a nossa evolução. Ela não precisa necessariamente ser a mais bela, nem a mais fina, nem tampouco a mais graduada, ela precisa apenas de algo que a faz única, é uma pessoa verdadeira. É aquela pessoa que não veio ao mundo para fazer nossas vontades, muito pelo contrário, ela é a única que tem coragem de nos dizer que estamos péssimas, que precisamos sacudir a poeira e dar a volta por cima, ou que precisamos passar um batom e seguir em frente. Quem não tem uma amiga dessa, perdeu metade do tempo se lamentando.
É com ela que queremos chorar nossas mágoas porque sabemos que ela vai tolerar por pouco tempo e logo logo vai dar um jeito de nos tirar do sofrimento. É ela que vai dizer que aquele sujeito não presta, que não precisamos comprar 5 camisas brancas, que o casamento é de dia portanto a roupa não precisa brilhar e ainda por cima vai dividir a conta em proporções mais exatas que qualquer calculadora faria. Só ela faz isso. Só ela é confiável a ponto de pagarmos calados as dívidas dos aniversários,  sem questionarmos uma vírgula.
Há quem diga que ela é mandona, eu prefiro dizer que ela é mãezona. Preocupa-se com todos e doa mais do que deveria para ver tudo em ordem. E ai se alguém mexe com um dos seus eleitos! Ela vira uma fera!
Ela organiza as festas com prazer, tomas as frentes mesmo quando chega atrasada e se não fizer parte da comissão de frente, pode esperar que vai fazer falta! Ah minha amiga o que seria de nós sem você? Sem a sua alegria, sem os seus valores intensos, sem a sua honestidade ímpar?
Como é bom ter você no nosso convívio! Como é bom te ver chegando trazendo barulho, alegria e de quebra uma cerveja Deus para descontrair. Romilda Maria Pinto Nogueira, minha leitora querida, esta pessoa é você! Uma amiga que faz por merecer este nome. A você o nosso carinho e a nossa eterna gratidão.
Leila Rodrigues

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Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 28/08/2015

sábado, 25 de julho de 2015

Permita-se



Passei a minha vida toda detestando iogurte. E não era uma intolerância, era não gostar mesmo!  Há poucos meses abri a geladeira, escolhi um iogurte e o devorei inteiro. Adorei! E de lá para cá iogurte é parte da minha dieta.
Como explicar que algo que eu passei a vida inteira resistindo agora faz parte da minha rotina? Nem eu sei dizer! Só sei que mudei! E que bom! Mudamos quando nos permitimos mudar. E mudar é a grande graça da vida! 
O problema é que mudar não é tão simples assim! Ninguém muda porque o outro mandou, mesmo porque isso não é mudar, é obedecer. Ninguém muda porque viu na TV, ou porque alguém falou que é bom. Isso pode ser experimentar. Desconsiderando as mudanças que a vida nos impõe sem pedir permissão como perder um emprego, uma pessoa querida, um acidente, mudar é um comando que cada um aciona sozinho. No dia em que bem entende. Minha mãe passou muitos anos tentando me provar que eu estava equivocada sobre o iogurte e eu resisti. Certamente muitas sugestões que recebemos de pessoas que nos cercam estejam corretas, mas a mudança só vai acontecer no dia que cada um decidir mudar. 
Que seja mudar o trajeto, mudar o cabelo, mudar de casa, mudar de cidade, mudar de emprego, mudar os móveis de lugar ou mudar a mobília da alma. Isso só vai fazer efeito se for uma decisão espontânea. 
Fernando Pessoa sabiamente nos diz "Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio. E lembra-te: Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão". 
Mudar é um exercício solitário. Às vezes fruto de longas e silenciosas observações, outras vezes resolvidas de supetão, mas sempre acordadas entre "eu e eu mesmo". Mudamos quando deixamos nossa teimosia de lado e nos permitimos enxergar as opções como verdadeiras possibilidades. Mudamos quando deixamos o outro sugerir sem nos aprisionarmos às sugestões. 
Não adianta marcar a data, escolher o local ou preparar um bota-fora para comemorar a mudança que vamos fazer amanhã em nossas vidas, nada disso vai funcionar! Mudar só será realmente possível quando aquele famoso “der na telha” acertar em cheio a tecla <enter> de nossas cabeças teimosas. É uma simples questão de permissão! Caso contrário, vamos morrer programando mudar sem nunca sair do nosso confortável lugar. 

Leila Rodrigues

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Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 21/07/2015

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Arcos, minha história com você!





Só quem se muda de uma cidade para outra em plena infância vai entender o que se carrega na mudança. Lágrimas, alguns brinquedos, saudade da avó e curiosidade. Foi assim que eu cheguei por aqui. Uma criança curiosa disposta a crescer junto com a cidade. Tudo era novo para mim. Para mim, para a minha família e para as 80 famílias que aqui chegaram na mesma época que nós. Éramos como imigrantes. "Um povo doido que chegou por aqui e sacudiu esta cidade para sempre!" Vindos de Campo Belo como eu, ou Lafaiete, São João Del Rey, Valença, Volta Redonda, enfim... Vindos de algum lugar. Sr. Paulo Marques tinha acabado de assumir a prefeitura e o sangue de crescer corria em suas veias. Sim, eu cresci junto com esta cidade!
Como não aprender com o primeiro amigo do meu pai Sr.Tuta, alguém que sem saber direito quem éramos nos recebeu em sua casa de portas abertas? Antonio Cardoso e Iva, verdadeiros irmãos que meus meus pais têm até hoje. Isso é aprendizado para a vida toda! 
Também cresci sobre as ordens do Sr. Trajano na Escola Berenice, cresci esperando a aula debaixo do Cristo, cresci no caramanchão da praça, nos jogos do poliesportivo ou em cada disputa acirrada do Ypiranga e Associação. Meu pai me ensinou a ser honesta, mas certamente alguns comerciantes como o Zeca, Sr. Lino, Sr. Edinho, Paulo Ribeiro e Chicão, sem perceber me ensinaram como tratar um cliente. Com o Waldo e o Dimas aprendi amar Matemática, com o professor Janer aprendi o segredo do sorriso; com D.Verinha e Dona Lázara descobri o amor pelas palavras e com a meiguice da professora Leninha descobri que ciências não era tão ruim assim.
Com a minha turma do curso de magistério aprendi a minha primeira grande lição de mercado, para quem tem um sonho e disposição nada é impossível! Conseguimos formar e fazer a nossa viagem dos sonhos, a primeira vez que eu vi o mar. Dona Sônia, sou grata por todas as aulas de didática e até hoje coloco em prática muito do que aprendi com você. Minhas queridas amigas do curso de magistério, eu carrego comigo saudade e gratidão pelas lições que passamos juntas.
Se era para dançar, lá estava o Tio Patinhas! Ah como eu dancei naquele lugar! Eu e toda geração dos anos 80 que passou por Arcos. Tom Bege foi um capítulo da minha vida. Um lugar que tinha a nossa cara, o nosso jeito. Como eu ficava à vontade na janela ou na varanda do Tom Bege! Quantos amores não começaram naquela janela? Arcos tinha uma energia tão contagiante que era impossível não se apaixonar por este lugar. Tínhamos show no Poli, baile do Clube, rock na Praça e Donizete Bernardes pra deixar tudo ainda mais encantador. 
Tinha os garotos da Rua Paulo, o murinho do fórum, o cinema na segunda e o imperdível desfile do dia da cidade com a fanfarra do Estadual. Meus primeiros alunos da Escola da Vila, lições trocadas que enriqueceram a minha história. Meu primeiro emprego, Escritório Contábil Arcoense e a grande amiga que continua amiga até hoje. 
Não poderia deixar de falar do Niterói onde eu passei a maior parte da minha vida, onde o frio chega primeiro e a vizinhança era parte da família. Café da tarde no sábado na casa do Sr. Farnese. Tardes riquíssimas de grandes lições que ele nos dava com a sua simplicidade e atenção! Lições de vida, lições de viver!
Hoje quando ouço os Seresteiros de Arcos tocando me emociono. E penso que devo ao meu pai tudo isso. Foi ele que nos trouxe, foi ele quem amou esta cidade antes de nós e nos mostrou que aqui construiríamos nossas vidas. Eu era apenas a Leila do Deco ou a irmã do Dinho, a irmã do Godzilla, a irmã do Marcelo... Mas uma eterna apaixonada por este lugar!  Você pode até achar que a cidade não te influencia, mas eu posso te garantir que foi com esta cidade, que eu aprendi ser quem eu sou. E toda vez que eu cruzar o trevo de Pains e enxergar as primeiras luzes deste lugar, meu coração vai bater feliz por saber que  Arcos está logo ali!


Leila Rodrigues

Foto: Leôncio Alves - facebook.com/leoncio.junioalves
Publicado no Jornal JC - Arcos em 16/07/2015

Certamente muitos nomes importantes dessa história não foram mencionados. não por desmerecerem, mas por não caber em um espaço pequeno para tantos anos de convivência. A todos os meus amigos Arcoenses que participaram comigo desta trajetória, minha gratidão e meu carinho.

domingo, 12 de julho de 2015

Bem-aventurados




Não entenda como atrevimento de minha parte. Não tenho a pretensão de desprestigiar as intocáveis palavras da sagrada escritura. Vivemos um momento de valores distorcidos e esquecidos. O que é certo ou errado depende agora de ponto de vista. Carentes de referências, seguimos às cegas. Onde andam os mestres, os sábios, os que deveriam ser referência para todos nós? Quem são os bem-aventurados do século XXI?
Bem-aventurados os que se aventuram! Os que não suportam o miserável lugar de expectadores e correm o risco de viver. Eles herdam felizes a intensidade de viver e tornam o mundo mais saboroso. Não importa quanto tempo eles vivam, este tempo valerá por uma eternidade.
Bem-aventurados os que nada sabem, os ingênuos de verdade! Os puros e nada ignorantes. Eles são providos de asas e conseguem voar exatamente por acreditarem que voar é possível. Que ninguém lhes roube a alegria de crer no impossível. São eles, esses tolos de hoje, que herdarão todas as possibilidades. 
Bem-aventurados os dispostos. Os que levantam cedo, os disciplinados, os que fazem de verdade! Só por eles temos algum resultado. São eles que concretizam os sonhos e herdarão para sempre o direito de continuarem sonhando. 
Bem-aventurados os interessados. Aqueles que olham em nossos olhos e se dispõem a ouvir de verdade a nossa história. Ouvir e se interessar pelo próximo é hoje a maior virtude do ser humano. Eles herdarão a atenção dos deuses. 
Bem-aventurados os que deram o primeiro passo. Os que pularam no escuro, os que foram, ainda que sozinhos. Por eles nossas tímida intenções encontraram forças  para irmos também  e eles herdarão para sempre a luz que ilumina seus caminhos.
Bem-aventurados os que cantam. Os que cantam, dançam, saltam e se mexem. Por nos tirarem da irritante e confortável preguiça de viver e nos mostrarem o movimento do mundo dentro de nós. Eles herdarão os sons, o ar e as cachoeiras do universo.
Bem-aventurados os mestres. Aqueles que andam entre nós disfarçados de pessoas comuns , mas que carregam em si o grande segredo da vida, a simplicidade. Esses são os verdadeiros mestres e é com eles que aprendemos as maiores e mais importantes lições. Eles já herdaram a sabedoria e só estão entre nós para que possamos evoluir também! 
E por fim, bem-aventurados todos aqueles que sabem fazer silêncio e o fazem toda vez que o pensamento quiser ferir alguém. Esses também já herdaram a evolução humana. Quiçá um dia a gente chegue lá! 


Leila Rodrigues

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Divulgado no Jornal Agora Divinópolis em 07/07/2015


domingo, 5 de julho de 2015

Entre esquinas




Um dia turbulento é como um furacão invisível. Não há fumaça, não há fogo, mas há destroços. Naquele fim de tarde eu estava destroçado pelo meu dia cruel. Eu precisava de um colo ou de qualquer coisa que pudesse aquecer a frieza da minha alma. Àquela altura, um trago ou um gole de café bem quente era o que eu tinha, embora não resolvesse o meu problema. Sentia a minha nuca pressionar o meu cérebro e sabia exatamente que era a minha pressão subindo a cada minuto. Um homem na minha idade jamais vai assumir que tem medo, mas eu sabia nitidamente o peso das decisões que me aguardavam e os riscos que eu corria.
A rua vai me fazer bem, pensei. Liguei o som bem alto para não ouvir meus pensamentos e comecei a virar esquinas desordenadamente. Eu que sempre tive um destino certo para tudo e para todos, naquele momento não tinha destino algum. Só uma vontade de continuar andando. Esquinas sempre me intrigaram. E o que há depois de cada esquina depende de cada olhar.
Alguns bares começavam seus expedientes enquanto outras tantas pessoas se aglomeravam no ponto de ônibus a espera da “condução”. Eu procurava um rosto conhecido, uma porta aberta ou qualquer coisa que pudesse parar a minha cabeça a mil.
Parei no sinal e vi a moça fazendo malabarismo com alguns tacos. Depois ela cuspiu fogo e saiu correndo entre os carros tentando arrecadar algum dinheiro. No canto da esquina estavam seus pertences. Sua vida provavelmente. Lembrei-me da minha casa de quatro quartos, do apartamento na praia, dos meus dois carros na garagem, da quantidade de ternos no meu armário... Sorri para a moça e torci para que ela me sorrisse de volta. Queria muito conhecer o sorriso de alguém que vive com tão pouco. Não foi difícil. Ela sorriu e me pediu um cigarro. Respondi que não fumo e ela disse "também não, mas levo para o meu marido".
Acelerei o carro e continuei virando esquinas. Parei no primeiro bar e pedi algo líquido. Enquanto eu engolia o líquido âmbar que me queimava a garganta, a minha cabeça disparava um filme onde o protagonista era eu. Parado, imóvel esperando chegar a coragem para prosseguir eu lembrei-me de todas as mulheres que eu tive. Uma por uma. Todas lindas, impecáveis! E acredite, eu amei cada uma delas. Lembrei-me da moça cuspindo fogo e em seguida sorrindo para mim. E eu aqui com medo de correr riscos. Desejei não ter casa, desejei não ter nada. Desejei ter apenas as esquinas e alguém me esperando com alguns cigarros amassados na mão.

Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 30/06/2015
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