terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Contrato de compromisso






Olá! Muito prazer! Meu nome é 2015 e vamos passar 365 dias juntos. E como 365 dias não são poucos, resolvi criar um contrato para a nossa boa convivência. Você pode acrescentar outras cláusulas no final e eu prometo cumprir o que for de minha parte. O importante aqui é cuidarmos para que a nossa temporada juntos seja a melhor possível.
1 - Por gentileza, pare de colocar a culpa no meu amigo 2014! O coitado já está mais para lá do que para cá e você continua culpando-o por todas as suas insatisfações. Respeite pelo menos os momentos finais do meu amigo.
2 - Para de fazer as mesmas promessas que você faz todo ano e nunca cumpriu. Eu não preciso que você me prometa nada. Todo ano é a mesma coisa! Você promete que vai largar o cigarro, que vai fazer atividade física, que vai parar de bisbilhotar o celular do seu marido e... Nada! Troque o "prometo" pelo "comprometo" e vá fazê-lo. Convença-se a si mesmo que o resto fica resolvido.
3 - Eu sozinho não faço história alguma. Você e toda sua raça é que escrevem o ano. Eu não sou político, não sou médico e não sou milagreiro. Sou apenas mais um ano em sua existência.
Viver é saborear as consequências das suas escolhas. Eu, o ano, não tenho nada a ver com as escolhas que você fez.
4 - Eu vou acontecer no mesmo tempo de sempre, ou seja, em 365 dias. Teremos quatro estações no ano e os dias continuarão com 24:00 horas. Não adianta querer me apressar ou me frear. Respeite os meus limites e pare com essa mania imbecil de querer viver quatro anos em um! Não se esqueça de que quando você faz isso, envelhece na mesma proporção.
5 - Eu tenho certeza de uma coisa, este ano que teremos não acontecerá de novo. Portanto a minha proposta para você é bem simples, vamos vivê-lo como o único de nossas vidas? Eu me comprometo a passar os dias, as semanas e os meses com o mesmo tempo de sempre. Se for para recomeçar conte comigo e use o contador zerado para te ajudar a esvaziar-se do que for necessário. Se for para continuar eu me comprometo em não interferir no que você começou. Os dias continuam os mesmos e eu sei que sou apenas um número a mais no calendário. Contudo irei embora mais feliz se souber que você teve um ano melhor. Sem promessas nem ilusões, mas autêntico e verdadeiro. Infelizmente eu não posso te prometer se serei bom ou ruim para você, mas desejo que juntos possamos fazer desta temporada única, a melhor de sua vida.
Agora assine esse contrato que eu te espero às 24:00 horas do dia 31!


Leila Rodrigues

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Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 30/12/2014

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Correndo o risco





Foi um ano intenso. Alguns diriam que ruim, mas eu prefiro dizer que não foi fácil. Um ano de escolhas, de decepções e constatações. Um ano de perdas. Um ano que tivemos que suar um pouco mais que o normal. E por isso mesmo, por todos os sacrifícios que decididamente fiz durante o ano, eu  declaro, para os devidos fins, que a partir desta data até o dia 04 de janeiro do próximo ano, eu vou correr o risco.
Vou correr o risco de chegar atrasado ao trabalho ou a algum compromisso de manhã porque não pretendo perder nenhuma comemoração, nenhuma confraternização e principalmente nenhum abraço aos meus fiéis amigos que junto comigo sobreviveram a este ano.
Vou correr o risco de engordar alguns quilos. Que me perdoem o meu cardiologista, o endocrinologista e o Personal juntos, mas eu não vou abrir mão de brindar com todos aqueles que "sobreviveram" às intempéries desse ano. Preciso me presentear com presenças, me permitir sair do quartel e "baixar a guarda" por esses dias.
Meu lado criança anseia por um brigadeiro, uma torta de nozes e todo e qualquer pedaço de panetone que me for oferecido. Não posso me privar desta alegria! Não agora! Principalmente quando se trata de saborear com amigos, com irmãos e parentes, com pessoas que nos querem bem! Não vou decepcionar a leitoa, o peru e muito menos a farofa, minha predileta! O prazer de beliscar o pernil sem que ninguém veja só acontece nesta época do ano e eu não quero perder.
Vou correr o risco de contrair algumas dívidas, mas não posso deixar de comprar uma lembrança para os meus pais, para os meus sobrinhos e meus filhos. Não tem preço vê-los sorrindo. Não tem preço o quanto eles me fazem feliz.
Vou correr o risco de ter taquicardia ou da minha pressão subir, mas não vou me privar de nenhum abraço de nenhuma emoção, de nenhuma lágrima. Quero todos os abraços, todos os beijos doces, todos os sorrisos e emoções que um fim de ano proporciona. Até o choro por aquelas pessoas queridas que nos deixaram neste ano. Tio Roberto, Solange, Rubem Alves, Ronaldo e tantos outros. Impossível não lembrar de vocês e não chorar de novo.
Já sei que a minha agenda vai ficar uma loucura, que eu vou ficar cansada, muito cansada de tudo isso, que as minhas pernas vão doer de procurar o CD que a minha tia tanto quer, que vou ter que dar uma pausa nos estudos... Enfim, vai bagunçar tudo! Mas eu quero correr o risco de viver! E que a intensidade desses últimos dias do ano renove as minhas forças e me permita começar 2015 de copo vazio.
 


Leila Rodrigues

Publicado no Jornal Agora Divinópolis em 16/12/2014
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O Adeus do guerreiro





Quando ele desceu a serra naquele Jeep estranho que mais parecia um carro de guerra, ninguém entendeu nada. Será mais um forasteiro que veio provar o vento da serra? Ou quem sabe é mais um que virou à direita para ver onde é que vai dar? Nem uma coisa nem outra, era o moço de longe que veio para ficar.
O que será que faz um executivo bem sucedido de repente deixar o mundo corporativo e ir viver em uma cidadezinha do interior de Minas? Qualquer um poderia imaginar que ele veio para descansar da correria desenfreada da cidade grande! Seria o óbvio! Mas o descanso passou longe da cabeça dele. Ele veio para ficar, para trabalhar, para acordar cedo e fazer. Fazer por ele, fazer por aquelas pessoas, pelos vizinhos e agora amigos.
E então  trocou a gravata pelo chapéu e se tornou alguém do meio. E começou um novo legado; o de tornar aquele pequeno lugar atrativo sem perder as raízes e a tradição do seu povo. Quanto mais difícil cada obstáculo, mais obstinado ele ficava até vencê-lo. Mal sabia ele que a sua decisão mudaria para sempre a vida das pessoas que ali vivem.
Um movimento aqui, um conselho acolá e a cidade tranquila começa a se movimentar. Recebe bem, encanta, trabalha, recebe novas pessoas, trabalha um pouco mais e assim segue fazendo acontecer a sua transformação.
Mas heis que veio a seca e junto com ela o fogo que arde no chão. E ele, como bom guerreiro, não hesitou em sair em defesa da serra. Afinal, desde que chegara sempre foi assim, sempre em defesa daquele lugar. Por que seria diferente agora? Lá foi o guerreiro e mais dois soldados aplacarem o mal.
O tempo dos anjos não é o tempo dos homens. E naquele dia de luta cruel, dois dos três anjos encerraram sua missão nesta terra. Ele ainda precisou ficar. Faltava algo a cumprir. Faltava juntar pessoas que há muito não se viam. Faltava fazer abraçar filhos e mães e acreditarem no amor. Faltava despertar a compaixão em uma cidade inteira. E só depois de tudo isso feito aí sim, chegara a hora de o último guerreiro partir.
Era para ser só mais um, mas ele se espalhou como gotas de chuva no coração daquela gente e se tornou um povo. Era para ser só mais um lugar no meio do caminho, mas ele fez morada e mudou o caminho daquele lugar. Este foi o legado de José Ronaldo Monteiro, um homem que amou Carrancas com todas suas forças. Depois de você Ronaldo, Carrancas nunca mais será a mesma, ela hoje está mais fortalecida e viva, certa de que seu coração pulsa entre as serras.


Leila Rodrigues

Olá pessoal,

Gostaria eu que este texto fosse apenas mais uma viagem desta aprendiz de escritora que vive em mim. Mas não, ele é real. Ronaldo viveu entre nós. Todos que conheceram o Ronaldo saberão que o que eu disse aqui é muito pouco perto do que ele foi. Um misto de tristeza e alegria nos arrebata o coração. Alegria de tê-lo conhecido e tristeza de vê-lo partir.
Sigamos pois, todos nós, com a certeza de que tudo é eterno...

Grande abraço a todos!

Leila Rodrigues